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Conceitos básicos de história alternativa

As histórias alternativas constituem uma das temáticas mais caras ao aficionado de ficção científica e fantasia.  Além disso, é um dos subgêneros da FC&F mais em voga nas últimas décadas.  As histórias alternativas também atraem um segmento dos amantes de romances históricos, que eventualmente se tornam novos apreciadores de FC em geral.  Apreciadores de literatura fantástica apaixonados por História são os mais propensos a se interessar pelos enredos de H.A.

Ponto de Divergência, Linha Histórica Alternativa

Cumpre, então, definir o que é uma história alternativa.

O termo “história alternativa” é comumente empregado para se referir a enredos que se passam em um planeta em que as histórias geológica, biológica e humana ocorreram exatamente como em nosso mundo, até determinado instante.  Nesse ponto nevrálgico a história do mundo “saiu dos trilhos”, por assim dizer; ou seja, houve um evento que aconteceu de um modo na nossa história e de um modo diverso nessa outra história, a partir desse ponto dita “alternativa”.  Esta posição específica do espaçotempo é designada “ponto de divergência”.  Este instante do passado onde o curso da história diverge, desviando-se dos caminhos registrados em nos livros de história, para trilhar por um novo leito, que desbrava terrenos virgens de possibilidades não exploradas pela humanidade existente em nosso continuum, é considerado por cultores e estudiosos do subgênero como o elemento fundamental do argumento de história alternativa.

A partir do ponto de divergência, a sequência dos eventos históricos diverge cada vez mais daquela que define nossa própria linha histórica, estabelecendo, portanto, uma “linha histórica alternativa”.

Normalmente, o ponto de divergência se situa num determinado ponto da história humana, embora existam trabalhos em que o autor preferiu colocar o seu ponto de divergência em épocas remotas da história geológica ou biológica terrestre.  De qualquer modo, as diferenças advindas desse “descarrilamento” constituem na maioria das vezes boa parte do atrativo e do charme de uma peça ficcional de história alternativa.

Ao contrário do efeito de estabilização a longo prazo, advogado por Isaac Asimov em seu romance de viagens temporais O Fim da Eternidade (1955), a grande maioria dos autores de história alternativa parece admitir uma espécie de “efeito bola-de-neve”, ou seja, a diferença entre as histórias real e alternativa é tanto maior, quanto mais distante do ponto de divergência em direção ao futuro se situar a narrativa, exatamente como uma bola de neve que cresce à medida que rola ribanceira abaixo.  Uma vez aceita a hipótese de que é mais fácil extrapolar uma história alternativa distante um ou dois séculos do ponto de divergência do que uma outra, onde o curso da história foi alterado há milênios, é fácil compreender porque a maioria esmagadora dos autores de história alternativa prefere situar os pontos de divergência dos seus trabalhos em períodos relativamente próximos da época em que a ação se desenrola e também mais próximos da época em que a narrativa foi escrita.[1]  Desta forma, existem muito mais enredos sobre Guerras de Secessão Alternativas ou vitórias nazistas na Segunda Guerra Mundial, do que sobre Estados Romanos Mundiais ou culturas pré-colombianas sobrevivendo à chegada dos europeus à América.

Em muitos trabalhos de ficção científica, cursos históricos alternativos são gerados comumente por travessuras indevidas, propositais ou não, de viajantes temporais.  Uma vez no passado, esses viajantes desencadeariam autênticos festivais de paradoxos positivo-negativos, produzindo pontos de divergência, ora para criar uma linha histórica alternativa em detrimento da nossa; ora para destruí-la, dando origem ao mundo tal como conhecemos.  Um exemplo clássico é o conto “Reboar do Trovão” (“A Sound of Thunder”, 1953) de Ray Bradbury, onde o participante de um safári mesozoico, ao invés de disparar contra um tiranossauro, esmaga uma borboleta sob a sola de sua bota.  Como resultado, ao regressar ao presente, depara-se com os EUA sob um governo totalitário.  Um trabalho interessante, conquanto histórica e cientificamente implausível.

Mundos Paralelos vs. Histórias Alternativas

Um tópico que causa certa confusão é a diferença entre duas temáticas correlatas da literatura fantástica, os enredos que abordam os mundos paralelos e aqueles que se baseiam em histórias alternativas.  As fronteiras entre esses dois tópicos, embora vastas, são algo nebulosas e, se até os autores, editores e tradutores por vezes metem os pés pelas mãos,[2] cumpre fazer uma pequena digressão física para tentar dirimir as dúvidas.

Admitindo-se que duas regiões distintas possam estar vinculadas entre si através de uma distorção qualquer do continuum espaçotemporal, como algumas teorias de dobras espaçotemporais advogam, costuma-se dizer que essas regiões se localizam em dois “universos paralelos” quando elas estão separadas por um intervalo de tempo e/ou espaço considerável, em comparação com as distâncias astronômicas cotidianas, de uns poucos bilhões de quilômetros.  Assim, para a tecnologia humana atual, uma dobra espaçotemporal que nos transportasse instantaneamente da Terra para um planeta orbitante em torno de uma estrela do lado oposto da Via Láctea poderia ser encarado, lato sensu, como um portal para um universo paralelo.

Na ficção científica clássica, os universos paralelos foram usados como um recurso dramático para facilitar o contato da humanidade com inteligências alienígenas.  Na primeira metade do século XX, alguns autores pareciam julgar o conceito de universo paralelo menos implausível do que o das viagens interestelares.

Nos enredos desse tipo, as duas regiões distintas costumavam se localizar em universos diferentes mesmo ou, mais prosaicamente, em planos dimensionais distintos.  Esses dois pontos, separados muitas vezes por milhões de anos-luz, estariam conectados por meio de portais naturais ou artificiais, fabricados, neste último caso, com o emprego de supertecnologia humana ou alienígena.  As “explicações físicas” e a natureza hipotética desses portais são as mais diversas possíveis, indo das singularidades ou dobras na estrutura do continuum, até os talentos de indivíduos paranormais, ou os passes de mágica mais estapafúrdios.

No romance de fantasia científica Glory Road (1963), Heinlein advoga a existência de uma série de mundos terrestroides paralelos, existentes em vários sistemas estelares, galáxias, planos de realidade e universos distintos, conectados entre si por meio de portais naturais, permanentes ou temporários, ou ainda através da aplicação de tecnologia específica.  Alguns desses mundos possuiriam espécimes animais e vegetais semelhantes aos seus congêneres terrestres, que teriam migrado de lá para cá, ou vice-versa, utilizando involuntariamente os portais.  Essa migração teria sido realizada também pela espécie humana, comum a vários desses mundos.  Lógico que o argumento não resistiria a uma análise do DNA das várias espécies dos diversos mundos paralelos, mas o autor não cogitou o assunto à época em que o romance foi escrito.

Já Simak, nos romances Ring Around the Sun (1953) e All Flesh is Grass (1965) propõe a existência de planetas terrestroides em dimensões paralelas à nossa.  No primeiro trabalho, existe uma cadeia de mundos não habitados, prestes a ser explorados e colonizados pela humanidade, sob os auspícios de uma organização de mutantes.  Já no segundo, descobre-se um portal ligando uma cidadezinha norte-americana a um mundo bastante semelhante à Terra, cuja forma de vida dominante seria uma espécie racional de vegetais dotados de poderes telepáticos.

Um exemplo mais recente que os citados acima é o de O Despertar dos Deuses (The Gods Themselves, 1972), de Isaac Asimov, um romance de trama original e instigante, onde alienígenas trissexuados, cujos ciclos de vida se dividem em duas fases distintas, abrem uma passagem entre o universo deles e o nosso.  De um modo bastante plausível, o autor argumenta que apenas matéria bruta, composta por elementos simples, poderia cruzar a passagem incólume.  O portal não poderia ser usado por criaturas tão complexas quanto um ser vivo.  Os alienígenas iniciam um intercâmbio de matérias-primas com a humanidade.  A transação decorre às mil maravilhas, até que se descobre que a permuta de elementos implicaria em sérios riscos de destruição para uma das civilizações.

Como já mencionado, em contrapartida aos universos paralelos, as histórias alternativas teriam por cenário mundos praticamente idênticos ao nosso; daí essa classe de enredos também ser chamada “Terras Alternativas”.  Planetas muitíssimo semelhantes ao que habitamos, mas só até um certo ponto.  Idênticos, ma non troppo.

Muitos autores, contudo, situam seus trabalhos de H.A. em universos paralelos ao nosso.  É o que se vê, por exemplo, no romance Fenda no Espaço (1966), de Philip K. Dick, que propõe uma Terra Alternativa/Paralela onde o Homo sapiens não se desenvolveu.  A cultura tecnológica dessa outra Terra foi erigida por uma espécie de pitecantropos com cérebros mais desenvolvidos do que os de seus congêneres da nossa linha histórica, embora menores que os nossos.  Essa civilização pitecantrópica possuía caráter planetário.  Seu nível tecnológico era, grosso modo, equivalente ao da humanidade do século XVII.  Porém, em compensação, seus cidadãos possuíam capacidades paranormais, não igualadas por seus primos, sapiens, em tese mais evoluídos.

O que talvez não esteja claro a princípio é a impossibilidade da existência de uma Terra Alternativa que não esteja inserida num universo alternativo.  Afinal, as alterações na história da vida humana na Terra implicariam, cedo ou tarde, em alterações em nível de Sistema Solar, dos sistemas estelares mais próximos, e assim por diante.  Neste sentido, o universo alternativo seria uma consequência inescapável do efeito bola-de-neve ad infinitum.

Taxonomia das Histórias Alternativas

Os cenários de história alternativa podem ser classificadas em três categorias distintas, de acordo com a distância entre o ponto de divergência e a época em que a narrativa se passa: enredos de presente alternativo, enredos de passado alternativo e enredos de evento alternativo.  Em geral, quando mais remota distar a narrativa alternativa de seu ponto de divergência, menos factual e mais ficcional ela será.

Nos presentes alternativos, o passado histórico é modificado num ponto de divergência muitas vezes pouco significativo em si.  Esse ponto de divergência é referenciado apenas en passant ou, até deixado implícito, num nível meramente subliminar para a vasta maioria dos leitores.  Porém, essa referência não importa.  Porque, devido ao efeito bola-de-neve, as consequências da alteração se propagam através das décadas e dos séculos, culminando na construção de um background histórico inteiramente diverso daquele que se aprendeu na escola.  A trama se desenrola num presente alternativo.  O tour-de-force deste tipo de enredo reside quase invariavelmente nas diferenças entre esse cenário histórico alternativo e o nosso próprio mundo.  Muitas vezes a ação deixa algo a desejar, sobretudo quando se trata de ficção curta, porém, ainda assim, devido à riqueza desse background, o resultado final agrada ao leitor.

Muitos dos trabalhos clássicos de história alternativa, como O Homem do Castelo Alto (1962), de Philip K. Dick, ou Pavane[3] (1968) de Keith Roberts, pertencem a essa estirpe, não se preocupando muito com o ponto de divergência em si e tratando quase que exclusivamente das consequências do mesmo.

Os enredos de passado alternativo são o caso intermediário entre as duas outras subvertentes.  Embora as tramas decorram num passado longínquo, estão bastante distanciadas da época em que a divergência ocorreu.  Um exemplo bem conhecido dessa variante é o fix-up (coletânea de histórias interligadas para constituir um romance) Agent of Byzantium (1987) de Harry Turtledove, onde o protagonista é um agente secreto que atua num século XIII alternativo, no qual o islamismo jamais existiu e o Império Romano Oriental se manteve como a maior potência militar do continente afro-eurasiano.  Outro caso, menos incensado, é o belo romance O Império do Medo (1988), de Brian Stableford, no qual a Europa no século XVII é governada por uma casta de vampiros imortais.

As propostas dos enredos de evento alternativo são em geral mais modestas.  Não se preocupam com o presente alternativo hipotético, atendo-se antes ao ponto de divergência em si e ao que acontece num passado alternativo imediatamente subsequente, em geral distante uns poucos anos da divergência.  Embora nos enredos de evento alternativo o escopo seja menos abrangente, o trabalho de reconstituição histórica deve ser mais detalhado.  Um esforço tanto factual quanto ficcional.  Um dos grandes cultores dessa subvertente é o historiador norte-americano Harry Turtledove.  No romance The Guns of the South (1992), por exemplo, ele descreve uma narrativa extremamente original de uma vitória confederada na Guerra Civil Americana, mostrando a seguir todo o trabalho de (re)-construção dos Estados Confederados da América.  A ação começa em janeiro de 1864 e termina menos de quatro anos mais tarde.

Análise Histórica do Subgênero

Edgar L. Chapman divide a história do subgênero em três fases ou eras: inicial (1926-1945); era do pós-guerra (1946-1968); e era pós-moderna (1969 até o presente).

Na era inicial, precursores como Murray Leinster e L. Sprague de Camp ainda tateavam na criação de cenários alternativos e propunham narrativas de entretenimento divertidas e algo descompromissadas com a plausibilidade histórica, não se eximindo, no entanto, de comentários críticos e, por vezes, satíricos em relação à cultura norte-americana e ocidental da década de 1930.

A era do pós-guerra foi marcada, em primeiro lugar, pelo advento de narrativas de história alternativa mais maduras, que funcionavam como contraponto ao clima de otimismo generalizado reinante então nos EUA e na Grã-Bretanha, e em segundo lugar, pelo estabelecimento dos cânones temáticos do subgênero, como os romances Bring the Jubilee de Ward Moore (Vitória Confederada); O Homem do Castelo Alto de Philip K. Dick (Segunda Guerra Mundial Alternativa); e Pavane de Keith Roberts (Inglaterra Católica).

Estendendo-se até o presente, a era pós-moderna se caracteriza pela multiplicação exponencial das temáticas abordadas e pela exploração de uma grande variedade de questões culturais e morais.

Questões de Plausibilidade em História Alternativa

Há coisa de vinte anos, um frequentador do fórum de discussão mantido na internet pelo Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC) opinou que não considerava plausível o cenário histórico alternativo de um Brasil Holandês Superpotência.  Como geralmente ocorre nesse tipo de discussão virtual, duas ou três mensagens mais tarde o debate já se havia generalizado para a questão da plausibilidade em si, com direito ao questionamento da plausibilidade do universo ficcional de Duna do Frank Herbert e de outros clássicos venerandos da literatura fantástica, para gáudio dos iconoclastas de plantão.

A questão crucial, no entanto, é que não existe apenas um, mas vários tipos de plausibilidade.

Em primeiro lugar, há a plausibilidade de enredo.  Porque toda ficção é no fundo uma mentira.  Não uma mentira qualquer, mas uma mentira que se pretende verossímil.  À medida que a trama se deslinda, o autor tenta convencer seus leitores da veracidade do enredo, por mais estapafúrdio que esse pareça a princípio.  É lógico que todo leitor sabe que se trata de mentira, mas se compraz em se deixar enganar, desde que a história seja bem contada.  É uma espécie de acordo tácito firmado entre autor e leitor, onde este último se compromete: “Se a mentira for bem contada, eu a assumirei como verdade, ao menos até o fim da narrativa.”  No meio editorial da literatura fantástica, esse acordo tácito é denominado “pacto da suspensão da incredulidade”.

Em termos ficcionais, no que consistiria essa mentira bem contada?  Como distinguir uma história verossímil de outra, sem-pé-nem-cabeça?  Não existem respostas fáceis para tais questões, pois, na prática, cada leitor possui suas próprias respostas.  Neste sentido, um enredo que soa plausível a um leitor, já não parece sê-lo para outro.  Em um enredo de ficção científica passado no fim da década de 1970, pareceria plausível se um personagem se deslocasse entre as cidades do Rio de Janeiro e São Paulo em cerca de duas horas pilotando seu bom e velho fusquinha?  Provavelmente, não.  Porém, pensando melhor, pode ser que pareça plausível (afinal, em se tratando de FC, tudo pode ser possível), desde que o autor explique como tal se deu e nos convença a acreditar.

Um Brasil colonizado por holandeses que se tornasse uma potência mundial não soou plausível para alguns frequentadores de antanho daquele fórum do CLFC, ao passo que, para outros essa hipótese pareceu mais verossímil do que conceber que este nosso Brasil de colonização portuguesa se torne no futuro uma superpotência.  Nota-se, portanto, que a observância inconsciente do pacto da suspensão da incredulidade constitui uma atitude que depende não apenas do talento do autor, mas também de uma certa receptividade por parte da imaginação do leitor.  Há que se ler sem preconceitos e compreender o argumento do autor antes de julgá-lo ou não plausível,[4] e não apenas esbravejar ante a leitura das primeiras linhas:

— Ah, mas essa ideia de os italianos vencerem as forças de Hitler, evitando a eclosão da Segunda Guerra Mundial é um completo absurdo!

Lógico que, lançado assim, de chofre, o argumento realmente soa implausível.  No entanto, há uma noveleta[5] de história alternativa, “Meados de Março”,[6] de Andrew Schneider, que trata exatamente desta hipótese de uma forma considerada bastante convincente.

Em fins do século passado, o crítico e autor de ficção científica Bráulio Tavares declarou que não conseguia imaginar uma nave estelar comandada por um brasileiro — argumento que foi rapidamente batizado no seio da incipiente comunidade da FC hard brasileira como “Síndrome do Comandante Barbosa”.[7]  Duas décadas mais tarde, época em que, a bem da correção política ou não, os próprios autores anglo-saxões estão populando seus futuros ficcionais com personagens oriundos de países emergentes em geral e luso-brasileiros em particular, não cumpre a nós, leitores e autores lusófonos, nadar contra a corrente.  Ainda mais que, muito antes desse debate fatídico eclodir, L. Sprague de Camp e Frederik Pohl já haviam proposto Brasis como potências hegemônicas do futuro em seus romances Os Construtores de Continentes e Gateway, respectivamente.

*     *     *

A questão da plausibilidade ficcional engloba a questão da autoconsistência.  E o que é isto?  Bem, como se sabe, todo autor de literatura fantástica se assemelha a Deus, no sentido de criar mundos de fantasia, por vezes universos inteiros, repletos de galáxias, sistemas estelares, planetas e espécies alienígenas diferentes, cada uma delas com sua conduta, sua ética e suas histórias evolutiva e cultural distintas.  Esses universos ficcionais possuem suas próprias leis e paradigmas.  Autoconsistência é o respeito por parte do autor às leis que ele próprio estabeleceu.  Um dos exemplos mais vigorosos de universo complexo extremamente autoconsistente é a Terra Média de Tolkien.

Contudo, reparem que autoconsistência implica muito mais que mera observância a um conjunto de leis físicas, por assim dizer.  Implica também e, sobretudo, coerência de uma parte da obra ficcional com todas as outras.  Neste sentido mais amplo, podemos afirmar que os personagens da maioria das telenovelas globais até hoje exibidas não possuem autoconsistência, uma vez que suas personalidades se alteram radicalmente, flutuando livres, leves e soltas ao sabor dos números do IBOPE, coisa que já não ocorre, por exemplo, nas melhores minisséries da mesma emissora.

Autoconsistência tem, é claro, seu lado mais prosaico.  Se o autor afirma no início da história que os olhos da protagonista são castanhos, eles não podem se tornar azuis de uma hora para outra, do meio para o fim da trama.  Ou, ao menos, não o podem fazê-lo sem uma boa explicação.

Na ficção científica, além da plausibilidade propriamente dita e da autoconsistência, temos a questão da plausibilidade científica.

Muitos apreciadores de literatura fantástica não se fartam de criticar as incorreções científicas das produções hollywoodianas de Sci-Fi.  Naves que explodem no espaço interplanetário com estrondos ensurdecedores, apesar do fato notório de que as ondas sonoras não se propagam no vácuo; primeiras expedições tripuladas a Marte que mantêm comunicação instantânea com o controle da missão aqui na Terra, não obstante Marte distar no mínimo quatro minutos-luz do nosso planeta, e isto quando os dois astros estão em conjunção.  Isto para não mencionar os vírus alienígenas capazes de contaminar humanos com facilidade espantosa, ainda que tenham evoluído em biosferas completamente distintas da terrestre, onde seus hospedeiros originais deviam ser criaturas mais diferentes dos humanos em termos de programa genético do que um cogumelo de uma baleia, lembrando sempre que a vasta maioria das moléstias bacterianas ou viróticas que atacam as vacas, por exemplo, são inócuas para nós, ainda que nossos programas genéticos sejam em cerca de 90% idênticos aos das vacas.

É lógico, erros científicos crassos, tão ruins ou piores do que os enumerados acima, também se fazem presentes na literatura de ficção científica, embora — felizmente —sejam hoje bem menos abundantes do que no passado.   São personagens nascidos e criados na Lua que trafegam despreocupados para a Terra, sem ligar a mínima para o fato de que, tão logo desembarquem no planeta de seus antepassados, estarão sujeitos a uma gravitação seis vezes superior a que estavam acostumados.  Nosso velho e confiável Sol que vira-e-mexe se transforma em nova ou, pior, supernova, embora não disponha quer da massa necessária, ou de qualquer outro atributo físico, capaz de explicar essa variabilidade cataclísmica.

Ante dificuldades de plausibilidade científica no bojo da sua narrativa, o autor talvez se questione sobre como elaborar um enredo que pareça de fato cientificamente plausível.  Reparem, não é necessário que o enredo seja cientificamente plausível, mas apenas que soe como tal.  Afinal, poucos autores de FC possuem doutorados em física como Gregory Benford ou em astrofísica como David Brin.  A grande verdade é que a maioria dos autores não possui uma formação científica apurada e nem precisa dela para elaborar enredos cientificamente sólidos.  Como dizem os escritores e editores norte-americanos, para elaborar uma trama plausível de ficção científica hard, basta que o autor faça o seu dever de casa direito.  Não precisa se tornar um grande especialista num dado campo de pesquisa para escrever um trabalho de ficção abordando o assunto.  Contudo, para evitar escrever asneiras ou, pelo menos, reduzir ao máximo as chances de fazê-lo, o autor de ficção científica deveria se habituar a ler periódicos e frequentar sites científicos de vez em quando para se manter atualizado e, na hora de escrever sua narrativa, não se acanhar em fazer uma boa pesquisa em bibliotecas físicas ou digitais, ou mesmo, em caso de necessidade extrema, consultar um especialista na área em questão — prática, aliás corriqueira nos grandes centros produtores de FC.

A exemplo da questão da plausibilidade científica nos enredos de ficção científica convencional, a plausibilidade histórica de um enredo de história alternativa é o tipo de questão em aberto que poderia ser estendida de modo a cobrir vários compêndios volumosos e tanto tempo quanto nossa paciência permitir.

Existem, no entanto, uns poucos parâmetros básicos de consenso que permitem ao estudioso distinguir uma abordagem relativamente verossímil de uma outra que constitui um autêntico atentado à plausibilidade histórica, isto para não falar nada sobre o crime hediondo e pecado mortal imperdoável do homicídio da autoconsistência do trabalho ficcional.

Uma das falhas de plausibilidade mais comuns é a presença de vários pontos de divergência independentes num mesmo enredo de história alternativa, excesso que os puristas costumam considerar tão pouco esportivo quanto pescar trutas dentro de uma tina rasa com disparos de escopeta à queima-roupa, além de denotar uma preguiça intelectual tremenda do autor.  O argumento do enredo com vários pontos de divergência costuma se apresentar mais ou menos na forma seguinte:

SE o Japão não invadisse a China

E Hitler houvesse morrido em 1938,

ENTÃO não teríamos a Segunda Guerra Mundial.

Onde está a falha?  Simples: nesse tipo de argumento em princípio não se pode derivar o ponto de divergência mais recente do mais antigo, de maneira a reduzir o mais recente a mera consequência do mais antigo.  Essa falha ocorre, por exemplo, no romance de Harry Harrison, A Transatlantic Tunnel, Hurrah! — o autor propõe como primeiro ponto de divergência uma vitória islâmica da Batalha de Navas de Tolosa em 1212, abortando assim a Reconquista Ibérica.  Mesmo assim, as Treze Colônias Inglesas se estabeleceram na América do Norte exatamente da forma como aconteceu em nossa linha histórica (NLH), a ponto de existir um George Washington liderando a revolução e um Duque de Cornwallis combatendo-a.[8]  Claramente, não faz sentido.

Outra falha frequente é a falácia das figuras históricas paralelas.  Se o autor descreve uma história alternativa cujo ponto de divergência ocorreu em um passado remoto, não parece plausível admitir a existência das mesmas figuras históricas atuais, ainda que exercitando papéis alternativos, diferentes daqueles que desempenharam em NLH.[9]  Um exemplo recente muito criticado pelos puristas foi o do ladino e inescrupuloso vendedor de carros usados, Richard Milhous Nixon, personagem do romance The Two Georges (1995), escrito a quatro mãos pelo ator Richard Dreyfuss & Harry Turtledove.  Considerado com justiça uma espécie de grão-mestre da história alternativa, Turtledove aparentemente não resistiu ao pecadilho.  Ou, como se diria deste lado debaixo da linha do equador, “joga a plausibilidade histórica no lixo, mas não perde a piada”.[10]

Crimes e castigos à parte, por vezes torna-se muito difícil para o pobre autor de história alternativa resistir à tentação de empregar uma figura histórica importante num papel ficcional diverso do desempenhado em nossa linha histórica.  De qualquer modo, existem técnicas para driblar a falácia das personalidades paralelas, despertando no leitor a reminiscência da personalidade histórica real sem a necessidade de usar seu doppelgänger literário exato como personagem.[11]

Se o uso das figuras históricas paralelas já constitui pecado grave, o que falar então da falácia dos eventos históricos paralelos?  Imaginem que, numa linha histórica alternativa (LHA) qualquer, a Alemanha e o Império Austro-Húngaro venceram a Primeira Guerra Mundial.  Neste caso, soaria plausível que o autor dessa LHA, propusesse a ascensão do nazismo e a eclosão de uma Segunda Guerra Mundial nos mesmos moldes daquele que ocorreu em nossa linha histórica?  Provavelmente não, tendo em vista que a derrota do Reich Alemão na Primeira Guerra e a severa crise econômica alemã do pós-guerra, condições essenciais para o surgimento do nazismo.  Pois é.  No entanto, há vários autores de renome que já cometeram deslizes análogos.

É claro que a plausibilidade não é o único critério válido para decidir se um trabalho de ficção constitui uma boa leitura.  Todos nós podemos citar de cabeça um punhado de enredos completamente inverossímeis que se revelaram histórias bem contadas e divertidas.  Além disso, em última análise, cabe a cada leitor julgar se um enredo lhe soa plausível ou não.  Para alguns, plausibilidade é sinônimo de boa escrita, enquanto para outros, não importa nem um pouco se uma história é verossímil, desde que seja bem contada.  Ainda há aqueles que consideram a plausibilidade, em sua acepção mais ampla (científica, histórica, de enredo), um elemento necessário, mas não suficiente para aferir a qualidade de um trabalho de ficção.

História Oculta: um Caso Emblemático Brasileiro

O romance O Dia em que Napoleão Fugiu de Santa Helena, de Fernando G. Sampaio, um autor carioca há muito radicado no Rio Grande do Sul, foi publicado em 1994 pela S, M & B Editores, como primeiro volume da coleção “Romances Brasileiros”.

Pelo título, somos levados a suspeitar de que O Dia em que Napoleão Fugiu de Santa Helena é  um romance de história alternativa.  No entanto, trata-se em realidade de história oculta e não alternativa.

E o que vem a ser “história oculta”?

História oculta é aquela que, embora possua eventos pretéritos um pouco diferentes dos ensinados na escola, não chega a se constituir numa história alternativa genuína pelo simples fato de que essas nuances não alteram significativamente o presente e o futuro.

Um exemplo concreto seria a teoria da conspiração legendária, segundo a qual o Presidente Kennedy teria sobrevivido ao atentado de Dallas em 1963, mas em estado comatoso ou, de acordo com outras versões, como deficiente mental.  Kennedy estaria sendo mantido vivo em segredo até hoje em um hospital militar dos EUA.  Imaginemos que tal teoria fosse verídica.  Bem, do ponto de vista do cenário histórico alternativo, o fato de John Kennedy estar vivo ou morto perde toda a importância quando assumimos alguns pressupostos simples: (i) ele desapareceu do cenário histórico; (ii) a versão oficial afirma que ele morreu; e o principal, (iii) a grande maioria das pessoas acredita que ele está de fato morto.  Em resumo, mesmo se Kennedy estivesse vivo, sob as condições acima imaginadas isto não faria lá grande diferença.  Não é como se ele houvesse sobrevivido publicamente e continuado a governar os EUA, ou como se estivesse em coma, mas todos soubessem disso.  Essa sobrevivência oculta dos olhos de todos não gera uma linha histórica alternativa.  Porque nada impede que, sem que nós o saibamos, Kennedy esteja de fato vivo em nosso mundo real.  Ou seja, se Kennedy permanecesse vivo, mas incógnito e muito poucas pessoas soubessem do fato, isto seria história oculta, mas não alternativa.

Pois bem.  O mesmo ocorre no romance de Sampaio.

Em busca de apoio dos EUA para criar um Estado republicano no nordeste brasileiro do início do século XIX, revolucionários pernambucanos são obrigados a compactuar com o plano mirabolante tramado pelo governo norte-americano, com o auxílio de refugiados franceses, para libertar Napoleão Bonaparte da sua prisão na ilha de Santa Helena.

A premissa do interesse dos governantes ianques em libertar Napoleão soa algo implausível numa primeira leitura.  Segundo o autor, eles pretendiam evitar que o Corso fugisse por sua própria conta e risco para o México, onde seria capaz de criar um novo império expansionista que talvez entrasse em disputa pela posse de territórios cobiçados pelos próprios EUA.  Neste ponto, uma pergunta se faz obrigatória: não seria mais fácil assassinar o ex-imperador dos franceses?  Afinal, para eliminar Napoleão bastaria uma ação de espionagem isolada, e não uma operação militar da envergadura daquela que foi tão bem descrita no romance.

Uma vez superado o problema da premissa inverossímil, a leitura é agradável para o apreciador de romances históricos em geral.

Napoleão é resgatado e instalado numa fazendola do interior do nordeste, mas o fato pouco ou nada influencia o curso da história tal como conhecida.  Um sósia é deixado em seu lugar em Santa Helena e os captores ingleses jamais desconfiam da troca.  O substituto morre em 1821, na data exata em que sabemos que o Napoleão real faleceu.  O conhecimento da libertação (ou, melhor dizendo, do novo cativeiro) do ex-imperador é um segredo de Estado, zelosamente guardado por uns poucos poderosos.  Ele é mantido em total isolamento até a data da sua verdadeira morte, em dezembro de 1822.

Em realidade, é justamente o fato da fuga de Bonaparte ter sido preservada inteiramente fora dos anais históricos oficiais, não desempenhando a menor influência no curso dos eventos posteriores, para quaisquer das nações ou personagens envolvidos, que nos permite classificar O Dia em que Napoleão Fugiu de Santa Helena não como história alternativa, mas como história oculta.

O que se observa na estruturação do romance é que o resgate de Napoleão funciona não como mola propulsora do enredo, mas como mero pretexto para que o autor se exercite seu talento nos temas que lhe são caros, abordando com pertinência considerável determinadas questões históricas assaz instigantes do processo de independência do Brasil; questões essas que vêm intrigando várias gerações de estudiosos.

Assim, é sob este prisma de mainstream histórico que se deve ler e analisar o trabalho de Sampaio, não obstante o fato de o próprio autor ter classificado o seu texto como romance fantástico.

Como romance histórico O Dia em que Napoleão… funciona muito bem.

A narrativa começa em Washington, em março de 1816, logo após um breve prólogo em Paris, no gabinete do imperador Napoleão, em 27 de novembro de 1800.  Acompanhamos as peripécias de um representante dos revolucionários pernambucanos na tentativa de conseguir o apoio do governo dos EUA para a sua causa.  Pelos motivos expostos acima, os norte-americanos acabam condicionando esse auxílio à libertação de Bonaparte.

Desde o início, duas tramas se entrelaçam, desenvolvendo-se em paralelo durante a primeira metade do romance.  A primeira é a conspiração para retirar Napoleão de Santa Helena e trazê-lo para a América.  A segunda é uma narrativa semificcional do processo de independência brasileiro.  Essa segunda linha de enredo é de longe a temática principal de Sampaio.  É nela que o autor procura desmistificar certas versões oficiais equivocadas da nossa história, como por exemplo, o Dia do Fico, o Grito do Ipiranga e a noção de que Dom Pedro I era um constitucionalista convicto.

O enredo transcorre ora nos EUA, ora em Pernambuco, quando acompanhamos as articulações dos revolucionários republicanos, ou ainda na própria corte portuguesa, então sediada na cidade do Rio de Janeiro.  Há ainda breves passagens pela ilha de Santa Helena, quando o resgate de Bonaparte transcorre sob a forma de um desembarque anfíbio,[12] e pelo arquipélago de Fernando de Noronha, onde o ex-monarca é provisoriamente instalado.

Ao longo de toda a trama, observa-se a preocupação precípua do autor em se manter fiel às fontes históricas tradicionais, narrando com detalhes as marchas e contramarchas do nosso processo de independência.  A história apresentada não é aquela versão romanceada pelo ufanismo que muitos aprenderam na escola.  Mas é a versão mais fiel e também aquela que oferece a explicação mais plausível para os eventos que culminaram na independência do Brasil.

Sampaio obtém êxito na tentativa de transformar figuras históricas em personagens literários convincentes, um procedimento bem simples em princípio, mas de execução difícil na prática.  Alguns desses, como D. Pedro I e Dom João VI foram bem trabalhados.  Outros, até por uma questão de espaço, aparecem tão somente esboçados.

Leitores mais atentos e interessados talvez sintam prazer em realizar umas poucas pesquisas, no intuito de confirmar a existência real de alguns dos personagens empregados pelo autor.  Neste ponto Sampaio faz jus a um elogio merecido: logrou abordar as figuras históricas, das mais ilustres às menos conhecidas, com rigor e respeito às fontes disponíveis, sem com isto se descuidar dos aspectos fictícios do romance, recheando a história real aqui, ali e acolá com uma ficção que dá prazer de ler.

O romance se divide em sete partes, com mais de trinta capítulos pequenos, os quais se subdividem geralmente em duas ou mais cenas.  Ao contrário do que o leitor desta análise possa imaginar a princípio, tais divisões tornam a leitura mais ágil, não prejudicando a compreensão graças à prosa limpa do autor e ao artifício simples, mas sempre útil, de principiar cada capítulo com o local e a data onde a ação se desenrola.

No seu todo, o romance de Fernando G. Sampaio é uma obra que vale a pena ser conferida.  Não é história alternativa, embora exiba uns poucos elementos deste subgênero.  É, porém, um romance histórico brasileiro da mais fina estirpe.


[1].  Fonte consultada: Schmunk Robert [org.]: Uchronia — The Alternate History Listhttp://www.uchronia.net.

[2].  Um bom exemplo é o de Two Hawks from Earth, romance de história alternativa onde Philip José Farmer imagina como seria o nosso mundo e a nossa civilização se o continente americano não existisse.  Na tradução para o português, esse trabalho recebeu o título algo enganoso de Universos Paralelos (Coleção Argonauta, 343).

[3].  Nesse fix-up o autor parece ter mudado de ideia à medida que escrevia os diferentes contos e noveletas que compõem o romance.  Logo no prólogo, dá a entender claramente que se trata de uma história alternativa.  Contudo, no epílogo, para surpresa do leitor mais atento, é insinuado que aquela era a nossa própria Terra, após um holocausto nuclear.  Proposição canhestra para lá de implausível.  Afinal, será que a história percorreria exatamente pelos mesmos trilhos uma segunda vez, até a vitória da Armada Espanhola de Felipe II?  Se for este o caso, sinceramente, a proposta soa muito pouco convincente, a ponto de abalar o status de clássico canônico do subgênero, que a maioria dos especialistas atribui ao romance.

[4].  Reparem que não se faz aqui nenhuma crítica explícita ou velada aos comentários do frequentador do fórum do CLFC.  Se um autor lusófono de história alternativa decidir escrever uma peça ficcional passada numa linha histórica alternativa onde a colonização holandesa vingou no Nordeste brasileiro e essa parte do país tornou-se uma superpotência, cabe a esse autor tecer seus argumentos de forma convincente.  Se ele o fizer, nós leitores apreciaremos a história com isenção e, ao fim da leitura, cada um de nós julgará se é ou não verossímil e se é ou não bem contada.

[5].  No jargão da literatura fantástica, “noveleta” é uma peça de ficção curta maior do que o conto (até 7.499 palavras) e menor do que a “novela” (a partir de 17.500 palavras).

[6].  “Meados de Março” (tradução de “Ides of March”) foi publicada no fanzine Megalon nº 52 (edição de março de 1999).

[7].  Como autor, tive oportunidade de tecer meu humilde comentário sobre o assunto em forma ficcional na noveleta “A Ética da Traição”, onde aparece um Barbosa como oficial-comandante de um submarino de ataque brasileiro.  Contudo, a resposta definitiva à Síndrome do Comandante Barbosa foi dada por Flávio Medeiros Jr. em sua bela noveleta, “Pendão da Esperança”, na qual há um Comandante Barbosa no comando de uma nave estelar brasileira, ambientado em um cenário plausível o suficiente para arrebatar o Prêmio Argos 2012 na categoria ficção curta.

[8].  O segundo ponto de divergência é justamente o fracasso da Revolução Americana e a execução de George Washington pelos crimes de alta traição e lesa-majestade.

[9].  Um argumento difícil de engolir, quando nos lembramos que o simples modo como um homem cruza as pernas, bem como o exato momento em que ele o faz, balançará muito ligeiramente seus testículos, fazendo muito provavelmente com que um espermatozoide diferente fecunde o óvulo de sua parceira na próxima vez que fizerem amor, dando origem a um ser humano diferente.  Ora, se um mero cruzar de pernas é potencialmente capaz de gerar um ser humano diferente, o que falar de um ponto de divergência que mantém toda a Península Ibérica como um califado islâmico até os nossos dias?  Como imaginar, então, as mesmíssimas pessoas nascendo e vivendo com as mesmas características que possuíam em nossa linha histórica, tendo nascido nessa linha alternativa décadas ou séculos após a divergência?

[10].  Durante um debate num painel numa Convenção Mundial de Ficção Científica (WorldCon), quando questionado sobre pretensas inconsistências e falhas de plausibilidade em um de seus enredos de história alternativa, Harry Turtledove teria se justificado, alegando que o trabalho em questão era apenas “AH-lite” (SIC).

[11].  Vide, por exemplo, o personagem do técnico de futebol brasileiro Nascimento dos Santos na noveleta “Pátrias de Chuteiras”, analisado no capítulo 20, Cenários Alternativos Lusófonos.

[12].  Do ponto de vista militar, essa operação de desembarque é bem descrita e consideravelmente bem planejada.  Há uma manobra desviacionista interessante.  A empreitada conta inclusive com o apoio de submarinos!  Porém, novamente, trata-se de uma operação de envergadura desnecessariamente grande, excessiva para atingir o simples objetivo de subtrair Napoleão aos ingleses.

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Referências

Apêndice A

Relação de Histórias Alternativas em Português

A relação abaixo inclui apenas trabalhos de história alternativa e ficção alternativa publicados profissionalmente.

Os títulos originais das obras serão dados entre parênteses sempre que as traduções deturparem os significados pretendidos pelos autores.

Os nomes dos autores foram mantidos exatamente conforme apareceram nas publicações citadas.  Assim, por exemplo, os trabalhos que publiquei sob meu pseudônimo “Carla Cristina Pereira” aparecem sob esse nome.

Aguiar, João: “Seis Momentos em Tempo Real”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Aldiss, Brian: Frankenstein Libertado, Coleção Argonauta Nº 369, Livros do Brasil (1988).  Tradução: Eurico Fonseca.

Anderson, Poul: “Delenda Est”, in Os Guardiões do Tempo, Francisco Alves (1984).  Tradução: Reinaldo Guarany.

Aragão, Octávio: “Eu Matei Paolo Rossi”, in Outras Copas, Outros Mundos, antologista: Marcello Simão Branco, Ano-Luz (1998).

Aragão, Octavio: “A Fazenda-Relógio”, in Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, Draco (2010).

Aragão, Octavio: “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2011)

Barbet, Pierre: Os Cruzados do Espaço (Baphomet’s Meteor), Coleção Argonauta Nº 258, Livros do Brasil (1980).  Tradução: Eurico Fonseca.

Barcellos, Roberval: “Primeiro de Abril”, in Phantastica Brasiliana, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi Martinho, Ano-Luz (2000).

Barcia, Jacques: “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”, in Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, antologista: Gianpaolo Celli, Tarja Editorial (2009).

Barreiros, João: A Verdadeira Invasão dos Marcianos, Editorial Presença (2004).

Bertolotto, Rodrigo; Rodrigo Bueno e Sérgio Teixeira Jr.: “As Copas Que Não Aconteceram” (não-ficção), in Folha de São Paulo, reportagem especial do caderno “Esporte” na edição de 9 de novembro de 1997.

Bester, Alfred: “Os Assassinos de Maomé”, in Viajantes no Tempo, Panorama (1970).  Tradução: Eduardo Saló.

Bradbury, Ray: “O Reboar do Trovão”, in Ficção Científica Para Quem Não Gosta de Ficção Científica, antologista: Terry Carr, O Cruzeiro (1969).  Tradução: Edgar Costa Moreira.  Existem outras edições, algumas sob títulos traduzidos diferentes do citado.

Candeias, Jorge: “Unidade em Chamas”, in Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, Draco (2010).

_______________: “Só a Morte te Resgata”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2011)

Castro, Ruy: Bilac Vê Estrelas, Companhia das Letras (2004).

Castro, Sid: “Cobra de Fogo”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2011)

Castro, Sid: “Notícias de Marte”, in Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk, antologistas: Fábio Fernandes e Romeu Martins, Draco (2014).

Causo, Roberto de Sousa: “A Vitória dos Minúsculos”, in Nossas Edições # 4 (1996) editor: Márcio França Rangel.

Causo, Roberto de Sousa: “O Plano de Robida: un Voyage Extraordinaire”, in Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, antologista: Gianpaolo Celli, Tarja Editorial (2009).

Causo, Roberto de Sousa: Selva Brasil, Draco (2010).

Chalker, Jack L.: “A Orquestra de Danças do Titanic”, in Asimov: O Melhor da Ficção Científica, antologista: George Scithers, Expressão e Cultura (1973).  Tradução: César Tozzi.

Costa, Antonio Luiz M.C.: “Outros Quinhentos”, in CartaCapital # 121 (2000), editor: Bob Fernandes.

___________________: “A Flor do Estrume”, in Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário, antologista: Gianpaolo Celli, Tarja Editorial (2009).

___________________: “Ao Perdedor, as Baratas”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi Ribeiro, Draco (2011).

___________________: “Palestra de Lançamento”, in Fantástica Literatura Queer: Volume Amarelo, antologistas: Cristina Lasaitis & Rober Pinheiro, Tarja Editorial (2012).

___________________: “Era uma Vez um Mundo”, in Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, antologista: Gerson Lodi Ribeiro, Draco (2012).

___________________: “Ainda Além de Taprobana”, in Dinossauros, antologista: Gerson Lodi Ribeiro, Draco (2016).

___________________: “O Padre, o Doutor e os Diabos que os Carregaram”, in Brasil Fantástico: Lendas de um país sobrenatural, antologistas: Clinton Davisson, Grazielle de Marco & Maria Georgina de Souza, Draco (2013).

Costa, Antonio Luiz M.C.: “Jaya e o Enigma de Pala”, in Super-Heróis, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Luiz Felipe Vasques, Draco (2013).

De Camp, L. Sprague: A Luz e as Trevas (Lest Darkness Fall), Coleção Argonauta Nº 361, Livros do Brasil (1987).  Tradução: Eurico Fonseca.

Deighton, Len: SS-GB, Civilização Brasileira (1982).  Tradução: Roberto Raposo.

Dick, Philip K.: Fenda no Espaço, Europa-América (1984).  Tradução: Elisabeth Maria Jesus de Souza.

Dick, Philip K.: O Homem do Castelo Alto, Brasiliense (1985).  Tradução: Sílvia Escorel.

Dutra, Daniel I.: “Uma Sombra do Passado”, in A História é Outra, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco, no prelo.

Effinger, George Alec: “Tudo Menos a Honra” in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 6 (1990) , editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Ícaro S. França.

Ellis, Warren; Chris Weston & Laura Martin: Ministério do Espaço, Devir (2014).  Tradução: Marquito Maia.

Farmer, Philip José: O Outro Diário de Phileas Fogg, Global (1974).  Tradução: Lauro S. Blandy.

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Fernandes, Fábio: “Para Nunca Mais Ter Medo”, in Dragão Brasil # 11 (1995), editor: Marcelo Cassaro.

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________________: Back in the USSR, eBook (Draco, 2013).

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Freitag, David L.: “Prestes João no Ano do Elefante”, in Phantastica Brasiliana, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi Martinho, Ano-Luz (2000).

Garrett, Randall: O Tempo da Magia (Too Many Magicians), Coleção Argonauta Nº 271, Livros do Brasil (1980).  Tradução: Eurico Fonseca.

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Orsi, Carlos: “Fúria do Escorpião Azul”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2011)

Orsi, Carlos: “De Praeputio Domini”, in A História é Outra, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco, no prelo.

Pereira, Carla Cristina: “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, in Outras Copas, Outros Mundos, antologista: Marcello Simão Branco, Ano-Luz (1998).

Pereira, Carla Cristina: “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”, in Pecando a Sete / Sinning in Sevens – Antologia dos Quartos Encontros de FC&F de Cascais, antologistas: António de Macedo & Silvana de Menezes, Simetria (1999) (edição bilíngue português-inglês).  Em inglês: “Xochiquetzal and the Vengeance Fleet”.  Tradução: David Alan Prescott.  Também in Phantastica Brasiliana, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi Martinho, Ano-Luz (2000).  Também in Altair special edition 6 & 7 (2000), editor: Robert N. Stephenson & Andrew Collings.

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Pohl, Frederik: “A Missão Mortal de Phineas Snodgrass” in Dia Milhão, José Olympio (1975).  Tradução: José Sanz.

Pohl, Frederik: “Esperando os Olimpianos” in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 3 (1990) , editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Fábio Fernandes.

Ramos, Sacha Andrade: “O Preço de uma Coroa”, in Mensageiros das Estrelas, antologistas: Octávio dos Santos; Adelaide Meira Serras & Duarte Patarra, Fronteira do Caos (2012).

Relva, Carlos: “Franksteam & Electrônia”, in Erótica Steampunk, antologista: Tatiana Ruiz, Ornitorrinco (2013).

Rittenhouse, James: “História Alternativa” (não-ficção), in Phantastica Brasiliana, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi Martinho, Ano-Luz (2000).

Robert, Yves: “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”, in Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, Draco (2010).

Roberts, Keith: Pavana, Clássica (1992).  Tradução: Trindade Santos.

Robinson, Kim Stanley: “The Lucky Strike”, in Planeta Sobre a Mesa, Editorial Caminho (1988).  Tradução: Paula Reis.

Santos, Octávio dos: “A Marcha sobre Lisboa”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Schwarz, Rodrigo: A Ilha dos Cães, Bertrand Brasil (2005).

Seixas, João: “A Noite das Marionetas”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Sequeira, Luís Richheimer de: “Ao Serviço de Sua Majestade”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Shaw, Bob: Crime no Tempo B (The Two-Timers), Tecnoprint (1972).  Tradução: Neyde Godolphim e Silva Tucci.

Shiner, Lewis: “Cidade Branca”, in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 9 (1991) , editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Ronaldo Sérgio de Biasi.

Silva, André Soares: “Xibalba Sonha com o Oeste”, in Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2012).

___________________: “O Fantasma Zonguanês”, in Samurais x Ninjas, antologistas: Eduardo Kasse & Erick Santos Cardoso, Draco (2015).

Silva, Luís Filipe:In Falsetto”, in Mensageiros das Estrelas, antologistas: Octávio dos Santos; Adelaide Meira Serras & Duarte Patarra, Fronteira do Caos (2012).

Silva, Luísa Marques da: “Missão 121908”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Silverberg, Robert: “Erro de Leitura”, in Rumo à Estrela Negra (The Cube Root of Uncertainty), Expressão & Cultura (1974).  Tradução: Elza Martins.

Silverberg, Robert: Os Correios do Tempo (Up the Line), Coleção Argonauta Nº 432, Livros do Brasil (1993).  Tradução: Abel Coimbra.

Simak, Clifford D.: A Irmandade do Talismã, Coleção Argonauta Nº 274, Livros do Brasil (1980).  Tradução: Eurico Fonseca.

Simak, Clifford D.: O Mundo do Caos (Special Deliverance), Coleção Argonauta Nº 323, Livros do Brasil (1984).  Tradução: Eurico Fonseca.

Simak, Clifford D.: Onde Mora o Mal, Coleção Argonauta Nº 338, Livros do Brasil (1985).  Tradução: Eurico Fonseca.

Soares, Bruno Martins: “O Nome do Rei”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Sousa-Rodrigues, Sérgio: “Rei sem Coroa”, in A República Nunca Existiu!, antologista: Octávio dos Santos, Saída de Emergência (2008).

Spinrad, Norman: O Sonho de Ferro, José Olympio (1976).  Tradução: José Sanz.

Stableford, Brian: O Império do Medo, Clássica (1991).  Tradução: Trindade Santos.

Sterling, Bruce & Lewis Shiner: “Mozart de Óculos Espelhados”, in Reflexos do Futuro (Mirrorshades), antologista: Bruce Sterling , Coleção Argonauta Nº 376, Livros do Brasil (1989).  Tradução: Eduardo Saló.

Sterling, Bruce: “Dori Bangs”, in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 2 (1990), editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Bráulio Tavares.

Sullivan, Tim: “Dinossauro de Bicicleta”, in Dinossauros!, antologistas: Jack Dann & Gardner Dozois, Zenith (1993).  Tradução: Fábio Fernandes.

Tartari, Ataíde: “Folha Imperial”, in Phantastica Brasiliana, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro & Carlos Orsi Martinho, Ano-Luz (2000).

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Tércio, Daniel: A Vocação do Círculo, Coleção Mamute, Editorial Caminho (1984).

Tércio, Daniel: Pedra de Lúcifer, Editorial Caminho (1998).

Turtledove, Harry: O Dilema de Shakespeare (Ruled Britannia), Saída de Emergência (2006).  Tradução: Jorge Candeias.

Turtledove, Harry: O Agente de Bizâncio, Coleção Argonauta Nº 374 e 375, Livros do Brasil (1990).  Tradução: Eduardo Saló.

Veiga, José J.: A Casca da Serpente, Bertram Brasil (1989).

Ventura, João: “O Sol é que Alegra o Dia…”, in Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades, antologistas: Gerson Lodi-Ribeiro e Luís Filipe Silva, Draco (2010).

Vera, Hugo: “Impávido Colosso”, in Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco (2011)

Watt-Evans, Lawrence: “Por Que Saí do Harry’s 24 Horas” (“Why I Left Harry’s All-Night Hamburgers”), in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 20 (1992), editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Ronaldo Sérgio de Biasi.

____________________: “Um Disco Voador com Placa de Minnesota”, in Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 22 (1992), editor: Ronaldo Sérgio de Biasi.  Tradução: Ronaldo Sérgio de Biasi.

Witter, Nikelen: “Uma Missão para Miss Boite”, in Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk, antologistas: Fábio Fernandes e Romeu Martins, Draco (2014).

Zuin, Lídia: “Ad Finem Fidelis”, in A História é Outra, antologista: Gerson Lodi-Ribeiro, Draco, no prelo.

Apêndice B

Histórias Alternativas Lusófonas

A relação abaixo inclui apenas trabalhos de história alternativa publicados profissionalmente por autores lusófonos originalmente em português.

À medida do possível, a relação abaixo seguirá o formato e o padrão preconizados nos registros do site Uchronia – The Alternate History List:

[Título]

[POD] = : ponto de divergência.

[E]: resumo do enredo.

[P]: história de publicação.

[p]: premiação.

Aguiar, João: “Seis Momentos em Tempo Real”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Filho caçula do rei resiste ao golpe de Estado pós-atentado enquanto o pai e o irmão convalescem em estado grave.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Aragão, Octávio: “Eu Matei Paolo Rossi”.

[POD] = 1982 ec: Seleção brasileira vence a Copa do Mundo da Espanha.

[E]: Jovem brasileiro descobre conspiração temporal para impedir a vitória da seleção canarinho em 1982 e em outras Copas do Mundo.  Ele acaba capturado por agentes da Intempol, foge da Prisão-dos-Homens-que-Nunca-Existiram e se torna um cronoterrorista.  Gênese do U.F. Intempol.

[P]: Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).  Intempol: uma Antologia de Contos sobre Viagens no Tempo (Ano-Luz, 2000).

Aragão, Octavio: “A Fazenda-Relógio”.

[POD] = circa 1880 ec: Barões do café passam a empregar autômatos a vapor em suas fazendas e o Império do Brasil abole a escravidão dois anos mais cedo (1886).

[E]: Ex-escravos se revoltam contra os autômatos e o Exército é enviado para combatê-los.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

Aragão, Octavio: “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado”.

[POD] = 1925 ec: Cangaceiros e militares rebeldes recebem armas futuristas das mãos de um suposto viajante retrotemporal.

[E]: Cangaceiros de Lampião e a Coluna Prestes se enfrentam com armamento hipertecnológico nos sertões do Nordeste.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

Barcellos, Roberval: “Primeiro de Abril”.

[POD] = 1964 ec: Golpe militar fracassa e intervenção norte-americana provoca guerra civil sangrenta que transforma o Brasil num Vietnã de proporções continentais.

[E]: Reminiscências de um veterano da guerra civil em 1994 para um grupo de crianças que apresentará um trabalho de grupo sobre o tema na época da comemoração do vigésimo aniversário da reunificação do país.

[P]: Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).

Barcia, Jacques: “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: História de amor entre um robô e uma golem em Catalônia, cidade-fábrica flutuante, durante uma revolta contra as forças da opressão.

[P]: Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial, 2009).

Bertolotto, Rodrigo; Rodrigo Bueno e Sérgio Teixeira Jr.: “As Copas Que Não Aconteceram” (pseudofactual)

[POD] = 1942 ec: Copas do Mundo de 1942 (Argentina) e 1946 (Portugal) se realizam normalmente, apesar da Segunda Guerra Mundial.

[E]: Pseudofactual sob a forma de jornalismo esportivo.  Detalhamento histórico das Copas do Mundo de 1942 e 1946.

[P]: Folha de São Paulo, reportagem especial do caderno “Esporte” na edição de 9 de novembro de 1997.

Candeias, Jorge: “Unidade em Chamas”.

[POD] = 1709 ec: Padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão projeta e constrói a mítica “Passarola” e o balão se revela funcional.  Portugal desenvolve uma força aérea de passarolas.

[E]: Às vésperas de uma invasão francesa, o Reino de Portugal decide fundir seus dois corpos de passarolistas, o colonial e o metropolitano.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

_______________: “Só a Morte te Resgata”.

[E]: Após a abolição dos escravos, brasileiro racista se alinha à causa da Aliança das Potências, grupo de nações que se opõe aos princípios de igualdade racial lusitanos.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

Castro, Ruy: Bilac Vê Estrelas.

[POD] = 1903 ec: Com o apoio de Santos Dumont, o escritor e líder abolicionista José do Patrocínio projeta e constrói um aeróstato.

[E]: Espiões franceses tentam roubar os planos do aeróstato.

[P]: Companhia das Letras (2004).

Castro, Sid: “Cobra de Fogo”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.  Guerra Mundial (1919-1929) culmina em troca de explosões nucleares.  Liga das Nações impõe Pax Atomica.

[E]: Conflitos geopolíticos e divergências diplomáticas são resolvidos através de corridas mundiais disputadas por superlocomotivas high-tech.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

Castro, Sid: “Notícias de Marte”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]:Oficial aviador naval da Marinha Imperial de Brasil Alternativo cruza portal dimensional em 1900 e chega dez anos no futuro, só que em nossa linha histórica, em plena Revolta da Chibata.

[P]: Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (Draco, 2014).

Causo, Roberto de Sousa: “O Plano de Robida: un Voyage Extraordinaire”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Após batalha aérea steampunk, vilão captura Santos Dumont com o emprego de tecnologia da civilização perdida de Atlântida.

[P]: Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial, 2009).

Causo, Roberto de Sousa: Selva Brasil.

[POD] = 1962 ec: Brasil invade Guianas.  Em represália, os EUA, a Grã-Bretanha e a França retaliam invadindo a Amazônia brasileira.  Na guerra de atrito que se segue, o Brasil recebe apoio da União Soviética e dos países da América do Sul.

[E]: Décadas mais tarde, experimento científico-militar norte-americano ameaça romper o equilíbrio de forças na guerra de atrito pela posse da Amazônia.  Protagonista é alter ego alternativo do autor.

[P]: Draco (2010).

Costa, Antonio Luiz M.C.: “Outros Quinhentos”

[POD] = 1473 ec: Dom Afonso V de Portugal desposa uma fidalga lusa em lugar de Dona Joana de Castela.  Cristóvão Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa.

[E]: Pseudofactual sob a forma de artigo de divulgação em jornal infantojuvenil apresenta visão panorâmica de toda a linha histórica alternativa, desde a divergência até o início do século XXI.  Gênese do U.F. Outros Quinhentos.

[P]: CartaCapital # 121 (2000).

___________________: “A Flor do Estrume”

[E]: Por volta de 1740 ec, bióloga brasileira de origem maia desenvolve antibióticos e anticoncepcionais.

[P]: Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial, 2009).

___________________: “Ao Perdedor, as Baratas”.

[E]: Operativo norte-colombiano tenta interferir na eleição presidencial brasileira, circa 1810 ec, para impedir a vitória de um candidato socialista.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

___________________: “Palestra de Lançamento”.

[E]: No lançamento de seu novo romance, escritora anglo-brasileira Emily Brontë rememora seus primeiros anos como adolescente recém-emigrada para o Brasil.

[P]: Fantástica Literatura Queer: Volume Amarelo (Tarja Editorial, 2012).

___________________: “Era uma Vez um Mundo”.

[E]: Em 1929 ec, durante a inauguração da primeira usina de fusão nuclear, grupo terrorista do Partido Futurista sequestra a Primeira-Comissária da União das Nações.

[P]: Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável (Draco, 2012).

___________________: “Ainda Além de Taprobana”.

[E]: Expedição de naturalistas brasileiros explora o interior da ilha de Taprobana, descobrindo uma fauna única, incluindo dinossauros e pterossauros.

[P]: Dinossauros (Draco, 2016).

___________________: “O Padre, o Doutor e os Diabos que os Carregaram”.

[E]: Em 1592 ec, dois anos após a transferência da corte portuguesa de Dom Sebastião I para o Brasil, expedição ao interior estabelece contato com uma raça de seres humanos diferentes.

[P]: Brasil Fantástico: Lendas de um país sobrenatural (Draco, 2013).

___________________: “Jaya e o Enigma de Pala”.

[E]: Cidadã da linha alternativa Outros Quinhentos visita o futuro próximo da nossa linha histórica e frustra golpe de Estado em um país asiático.

[P]: Super-Heróis (Draco, 2013).

Dutra, Daniel I.: “Uma Sombra do Passado”.

[POD] = 1919 ec: Hitler emigra para o Brasil e se torna ilustrador.  Em 1935, o Brasil assume o regime comunista e o Rio Grande do Sul declara sua independência.

[E]: A mente do ditador Adolf Hitler de uma linha histórica muito semelhante à nossa se apossa da mente do ilustrador austríaco.

[P]: A História é Outra  (Draco, no prelo).

Fernandes, Fábio: “A Vingança da Ampulheta”.

[POD] = 1905 ec (?): advento das viagens temporais.

[E]: Guerra temporal entre linhas históricas alternativas.  Cronoterrorista neandertal enfrenta agentes da Intempol.  U.F. Intempol.

[P]: Intempol: uma Antologia de Contos sobre Viagens no Tempo  (Ano-Luz, 2000).

[p]: segundo lugar no Prêmio Argos 2001, categoria melhor ficção.

Fernandes, Fábio: “O Alferes de Ferro”.

[POD] = 1637 ec: René Descartes publica Discurso sobre o Método da Guerra.  Maurício de Nassau cria corpo de “cartésios” no Recife Holandês.  República de Nova Neerlândia consolidada como nação soberana no Nordeste em 1648.

[E]: Cartésios intervêm na Inconfidência Mineira encomendando armaduras metálicas ao Alferes Joaquim da Silva Xavier.

[P]: Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (Draco, 2014).

Freitag, David L.: “Prestes João no Ano do Elefante”.

[POD] = 1440 ec: o Reino de Prestes João realmente existiu.

[E]: Historiador recém-chegado ao Céu questiona anjo cicerone sobre a existência de Prestes João.

[P]: Phantastica Brasiliana  (Ano-Luz, 2000).

Gonzalez, David M.: “A Esquadra Fantasma”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Durante a Primeira Guerra Mundial, Reich Alemão destrói Londres com bombardeio aéreo implementado por esquadra de dirigíveis indetectáveis.

[P]: Erótica Steampunk  (Ornitorrinco, 2013).

Lemos, Cirilo S.: “Auto do Extermínio”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Por volta de 1935 ec, o Exército trama para derrubar Dom Pedro III do trono do Império do Brasil, estabelecendo cenário propício para intervenção militar norte-americana no país.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

________________: E de Extermínio.

[E]: Sob o regime republicano, Brasil alia-se ao Terceiro Reich e os EUA ocupam trechos do litoral brasileiro em plena Segunda Guerra Mundial.

[P]: Draco (2015).

Lodi-Ribeiro, Gerson: “A Ética da Traição”.

[POD] = 1865 ec: Paraguai derrota Marinha Imperial na Batalha Naval do Riachuelo.  Paraguai vence a Guerra da Tríplice Aliança.

[E]: Físico foge para a Gran República del Paraguay após sabotar projeto secreto de intervenção retrotemporal que pretendia transformar sua linha histórica alternativa na nossa.  Gênese do U.F. Pax Paraguaya.

[P]: Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 25 (Record, 1993).  O Atlântico Tem Duas Margens (Editorial Caminho, 1992).  Outros Brasis (Mercuryo, 2006).  Em francês: “L’Ethique d’une Trahison”, Antarès # 41/42 – Special Courts Romans Ed. (1992).  Tradução: Jean-Pierre Moumon.

__________________: “Crimes Patrióticos”.

[E]: Veterano brasileiro tenta assassinar Dom Pedro II durante a assinatura do tratado de paz com a Gran República do Paraguay e veterano confederado que se tornou herói na Guerra da Tríplice Aliança tenta impedi-lo.

[P]: O Vampiro de Nova Holanda (Editorial Caminho, 1998).  Fronteiras / Frontiers – Antologia dos Terceiros Encontros de FC&F de Cascais (Simetria, 1998) (edição bilíngue português-inglês).  Outros Brasis (Mercuryo, 2006).  Em inglês: “Patriotic Crimes”.  Tradução: Judy Grevan.

Lodi-Ribeiro, Gerson: Aventuras do Vampiro de Palmares.

[POD] = 1647 ec: Maurício de Nassau retorna da Europa para reassumir o governo de Nova Holanda.  Nassau propõe aliança à Confederação de Palmares.

[E]: Romance fix-up que reúne as narrativas: “A Noiva e o Vampiro” (prólogo); “Crepúsculo Matutino” (história oculta); “O Vampiro de Nova Holanda”; “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; e “Assessor para Assuntos Fúnebres”.  U.F. Três Brasis.

[P]: Draco (2014).

__________________: “O Vampiro de Nova Holanda”.

[E]: Em 1680 ec, inteligência palmarina emprega o último filho-da-noite (espécie de humanoides hematófagos) como agente secreto no Brasil Luso, mas ele se evade para o Recife e se torna um assassino serial.  Gênese do U.F. Três Brasis.

[P]: O Vampiro de Nova Holanda (Editorial Caminho, 1998).  Outros Brasis (Mercuryo, 2006).  Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).

[p] Prêmio Nova 1996, categoria Melhor Ficção.

__________________: “Assessor Para Assuntos Fúnebres”.

[E]: De férias no Reino Unido, Dentes Compridos, o último filho-da-noite, defronta-se com Jack Estripador numa Londres vitoriana alternativa.

[P]: Outras Histórias… (Editorial Caminho, 1997).  Outros Brasis (Mercuryo, 2006).  Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).

__________________: “Pátrias de Chuteiras”.

[E]: Na final da Copa do Mundo de 1986 nos EUA, Brasil e Palmares disputam a posse definitiva da Taça Jules Rimet.  Como técnico da seleção palmarina, o brasileiro Nascimento dos Santos, maior futebolista de todos os tempos, sente sua lealdade dividida entre seus ideais patrióticos e de igualdade racial.

[P]: Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).

__________________: A Traição de Palmares.

[E]: Em 1685 ec, emissário da Coroa Portuguesa chega aos Brasis e propõe uma aliança a Palmares contra Nova Holanda.  Eclosão de guerra generalizada entre os Três Brasis.

[P]: Writers (1999).

__________________: “Capitão Diabo das Geraes”.

[E]: Por volta de 1750 ec, liderados pelo filho-da-noite, um comando secreto palmarino disfarçado de bando de salteadores perturba as remessas de diamantes do Arraial do Tijuco para Lisboa, como represália ao apoio português à guerra civil de cunho religioso que fermenta no sul de Palmares.

[P]: Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).  Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).

__________________: “Morcego do Mar”.

[E]: Em 1775 ec, a Primeira República presta auxílio aos rebeldes das Treze Colônias Inglesas em sua luta pela independência.  Batalha naval entre uma fragata palmarina comandada pelo filho-da-noite e a frota da Real Marinha Britânica que conduz os reforços necessários para debelar a rebelião.

[P]: Aventuras do Vampiro de Palmares, Draco (2014).

__________________: “Consciência de Ébano”.

[E]: Na primeira metade do século XIX, quando Palmares constrói a primeira represa hidroelétrica do mundo, um agente secreto que dedicou a vida a proteger a existência em segredo de Dentes Compridos, considera a dependência que a pátria desenvolveu em relação ao filho-da-noite como uma abominação intolerável.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

__________________: “Azul Cobalto e o Enigma”.

[E]: No início do século XXI, Dentes Compridos enfrenta um operativo brasileiro trajado com armadura high-tech na estação orbital São Paulo.

[P]: Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável (Draco, 2012).

__________________: “Crepúsculo Matutino”.

[E]: História oculta.  Narrativa dos mitos de criação do Povo Verdadeiro (filhos-da-noite) e da infância e juventude de Dentes Compridos, até sua chegada a Palmares.

[P]: Aventuras do Vampiro de Palmares, Draco (2014).

Lodi-Ribeiro, Gerson: “O Preço da Sanidade”.

[POD] = 1989 ec: Luiz Inácio Lula da Silva vence a eleição presidencial contra Fernando Collor de Mello.  Brasil vive uma década de prosperidade econômica, encerrada pelo golpe militar de 2001.

[E]: Por volta de 2020 ec, ex-xenologista e preso político obtém a prova definitiva da existência de inteligências extraterrestres durante Primeiro Contato.

[P]: Outras Histórias… (Editorial Caminho, 1997).

Lodi-Ribeiro, Gerson: “Missão Secundária”.

[POD] = 65.000.000 aec: Expedição interestelar humana encontra vestígios de dinossauros racionais terrígenas nos destroços de uma nave sinistrada em órbita ao redor de uma anomalia gravitacional situada a três anos-luz do Sistema Solar.  História natural alternativa.

[E]: Ao regressar ao Sistema Solar, os expedicionários se deparam com civilização humana hipertecnológica de linha histórica alternativa em que a República de Roma converteu-se ao budismo.

[P]: Efeitos Secundários / Side Effects – Antologia dos Segundos Encontros de FC&F de Cascais (Simetria, 1997) (edição bilíngue português-inglês).  Em inglês: “Secondary Mission”.  Tradução do autor.

Lodi-Ribeiro, Gerson: “Primos de Além-Mar”.

[POD] = 1850 ec: Pedro Afonso, filho do imperador Dom Pedro II, sobrevive a uma moléstia infantil e, dezessete anos mais tarde, torna-se o grande herói da Guerra do Paraguai ao capturar o tirano Solano Lopez e trazê-lo para cumprir pena no Brasil.

[E]: Na década de 1930, o rei de Portugal foge para o exílio no Império do Brasil, quando seu país é invadido pelas forças de Franco, com o apoio da Alemanha Nazista.

[P]: A República Nunca Existiu!  (Saída de Emergência, 2008).  Words Without Borders (Janeiro 2015).  Em inglês: “Cousins from Overseas”.  Tradução de Sarah A. Wells.

Lodi-Ribeiro, Gerson: Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas.

[POD] = 1488 ec: Bartolomeu Dias naufraga ao tentar dobrar o Cabo das Tormentas.  Portugal não descobre o caminho marítimo para as Índias.  Cristóvão Colombo descobre as Américas sob a bandeira portuguesa.

[E]: Aventuras militares-navais das forças lusitanas comandadas por Dom Vasco da Gama, primeiro em Calicute, mais tarde no Oceano d’el Rei (Atlântico) e, finalmente, na guerra civil que grassava no Império Inca.  Narrativa apresentada por Dona Xochiquetzal da Gama, esposa mexica do almirante português.  Versão anterior escrita sob o pseudônimo Carla Cristina Pereira.

[P]: Draco (2009).

Lodi-Ribeiro, Gerson: “Pais da Aviação”.

[POD] = 1803 ec: Napoleão Bonaparte convence o inventor norte-americano Robert Fulton a fabricar navios a vapor para a Marinha Francesa.  O Almirante Villeneuve derrota Nelson na Batalha Naval de Cape Trafalgar e os franceses invadem e conquistam as Ilhas Britânicas, estabelecendo a Hegemonia Europeia.

[E]: Um século mais tarde, os Irmãos Wright tentam vender a ideia de aeronaves mais pesadas do que o ar ao napoleão da Hegemonia Europeia.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época  (Draco, 2011)

Lodi-Ribeiro, Gerson: “Para Agradar Amanda”.

[POD]: n/a (fantasia alternativa): metamorfos compartilham a Terra com a humanidade normal.

[E]: No Estado soberano da Guanabara, fêmea licantrópica convence o amante humano a frequentar uma terapia de casal para tentar superar uma dificuldade sexual bastante específica.

[P]: Erótica Fantástica 1 (Draco, 2012).

____________________: “A Moça da Mão Perfeita”.

[E]: Operativo do Império do Brasil se defronta com uma metamorfa guanabarina inusitada.

[P]: Mitos Modernos (inédito).

Lodi-Ribeiro, Gerson: Estranhos no Paraíso.

[POD] = 235 aec: Monges budistas enviados pelo imperador indiano Asoka expõem sua doutrina no Senado de Roma.  A fusão dos princípios da civilização romana com os ideais do budismo geram uma civilização mundial hipertecnológica muito mais avançada do que a nossa.

[E]: Em sua viagem de regresso, nave estelar de expedição humana enviada para estabelecer o primeiro contato com inteligências alienígenas é translada para linha histórica alternativa em que romanos budistas se aliaram aos chineses da dinastia Han para proteger a civilização dos ataques bárbaros e disseminar a doutrina de Sidharta Gautama planeta afora.

[P]: Draco (2015).

Lopes, José Manuel: “A Encenação”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Dom Carlos sobrevive incólume, mas seu filho caçula, Dom Manuel contrai doença mental.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Lopes, Nei: Oiobomé: a Epopeia de uma Nação.

[POD] = circa 1795 ec: Ex-escravos e ameríndios estabelecem a nação soberana de Oiobomé na Ilha de Marajó.

[E]: Narrativa panorâmica aborda diversas épocas de Oiobomé, desde 1800 até 1950 ec.

[P]: Agir (2010).

Machado, João Afonso: “A Realidade, Não Fora a Loucura”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: O Príncipe Dom Luís Filipe morre no atentado.  O Partido Republicano é execrado.  O filho caçula do rei assume a coroa em 1915 ec.

[P]: Mensageiros das Estrelas (Fronteira do Caos, 2012).

Martinho, Carlos Orsi: “Não Mais”.

[POD] = 1817 ec: Alquimista fornece poção da imortalidade a Dom Pedro II e aos aliados do Império do Brasil.  No presente, o velho monarca imortal ainda reina e o Brasil se tornou a grande superpotência mundial.

[E]: Resistência luta para aniquilar o alquimista imortal e livrar o Brasil da opressão.

[P]: Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).

Martinho, Carlos Orsi: “O Colosso de Bering”.

[POD] = 1884 ec: Delegação francesa na Conferência do Meridiano de Origem em Washington logra impedir a escolha do Meridiano de Greenwich.

[E]: Físico nipo-brasileiro vai parar em linha histórica alternativa e se envolve numa guerra para impor Bering como meridiano de origem.

[P]: Ficções: Especial Ficção Científica (7 Letras, 2006).

Martins, Romeu: “Cidade Phantastica”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Detetive brasileiro impede sequestro da noiva de bilionário norte-americano que se associou ao Barão de Mauá para alavancar a industrialização do Império, transformando o Brasil na nação mais avançada da Terra.

[P]: Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (Tarja Editorial, 2009).

______________: “Tridente de Cristo”.

[E]: Detetive brasileiro salva a vida do amigo bilionário no dia de seu casamento, salvando também o Império do Brasil.

[P]: Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (Draco, 2014).

Medeiros, Jr., Flávio: Homens e Monstros: A Guerra Fria Vitoriana.

[POD] = 1520 ec: Mexicas aniquilam Cortez no ataque de “La Noche Triste”.  Sobrevivência do Império Asteca sob suserania britânica.

[E]: Em cenário steampunk retrofuturista, eclode guerra fria vitoriana entre o Império Britânico e o Império Francês.  Romance fix-up.

[P]: Draco (2013).

Medeiros, Jr., Flávio: “O Espírito, a Água e o Sangue”.

[POD] = 1897 ec: Revoltosos de Canudos logram capturar o Marechal Carlos Machado de Bittencourt.

[E]: Rebeldes recebem ajuda de engenheiro inglês que constrói tanques de guerra para combater o Exército Brasileiro.

[P]: A História é Outra (Draco, no prelo).

 

Melo, João Batista: “A Moça Triste de Berlim”.

[POD] = 1935 ec.

[E]: Ato terrorista contra a ditadura de Vargas resulta na explosão do dirigível Hindenburg nos céus do Rio de Janeiro.

[P]: As Baleias do Saguenay (Rocco, 1995).

Menezes, Maria de: “O Patriota Improvável”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Durante referendo para decidir se Portugal se manterá como monarquia, paparazzo considera que os súditos portugueses amariam mais a família real se a rainha e as princesas se vestissem melhor.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Novello, Eric: “O Dia da Besta”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Agente imperial investiga o aparecimento de um metamorfo homicida no Rio de Janeiro.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

Orsi, Carlos: “A Extinção das Espécies”.

[POD] = circa 1800 ec: Cientistas descobrem a conversão direta da luz solar em energia cinética, empregada para animar autômatos e deslocar veículos.

[E]: Durante sua estada na Patagônia, Charles Darwin presencia o emprego das novas tecnologias para exterminar as populações autóctones de forma mais eficiente do que em nossa linha histórica.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

Orsi, Carlos: “Fúria do Escorpião Azul”.

[POD] = circa 1930 ec: Regime comunista é implantado com êxito no Brasil.

[E]: Décadas mais tarde, surge um herói mascarado para combater os excessos da ditadura de molde stalinista que se instaurou no país.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

Orsi, Carlos: “De Praeputio Domini”.

[POD] = 1237 ec: Imperador bizantino Balduíno II se apodera da relíquia do prepúcio do Menino Jesus e logra estancar a invasão búlgara.

[E]: No futuro alternativo, equipe de cientistas extraeuropeus é formada para descobrir qual das duas relíquias do prepúcio de Jesus Cristo é verdadeira: a guardada no Vaticano ou a mantida em Constantinopla.

[P]: A História é Outra (Draco, no prelo).

Pereira, Carla Cristina: “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”.

[POD] = 1519 ec: Conquistadores espanhóis liderados por Cortez concordam em disputar uma partida de tlachtli contra os maias da Ilha de Cozumel.

[E]: Às vésperas da Copa do Mundo de Balípodo Moderno de Tenochtitlán, repórter esportiva brasileira especula se Cortez teria sido capaz de conquistar o México se não houvesse sido derrotado e sacrificado pelos maias em Cozumel.

[P]: Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).

Pereira, Carla Cristina: “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”.

[POD] = 1488 ec: Bartolomeu Dias naufraga no Cabo das Tormentas.  Portugal não descobre o caminho marítimo para as Índias.  Cristóvão Colombo descobre as Américas sob bandeira portuguesa.

[E]: Em 1523 ec, Dom Vasco da Gama chega a Calicute no comando de uma expedição punitiva repleta de soldados lusos e guerreiros astecas, para punir o governante local pelo assassínio de Fernão de Magalhães.

[P]: Pecando a Sete / Sinning in Sevens – Antologia dos Quartos Encontros de FC&F de Cascais (Simetria, 1999) (edição bilíngue português-inglês).  Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).  Em inglês: “Xochiquetzal and the Vengeance Fleet”.  Altair special edition 6 & 7 (2000).  Tradução: David Alan Prescott.

[p]: Finalista no Sidewise Awards 2001 na categoria ficção curta.

_______________________: “Xochiquetzal em Cuzco”.

[E]: Em 1525 ec, esquadra de Dom Vasco da Gama chega às costas peruanas e intervém na guerra civil do Império Inca ao lado do Príncipe Atahualpa, contra as hostes de Húascar.

[P]: Por Universos Nunca Dantes Navegados (Lulu, 2005).

Ramos, Sacha Andrade: “O Preço de uma Coroa”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Em 2010 ec, Dom Dinis sofre atentado enquanto cogitava se devia ou não assumir a coroa de Portugal.

[P]: Mensageiros das Estrelas (Fronteira do Caos, 2012).

Relva, Carlos: “Franksteam & Electrônia”.

[POD] = 1480 ec: Protosteampunk cujos avanços tecnológicos precoces são atribuídos às invenções de Leonardo da Vinci.

[E]: Ciborgue mecânica portuguesa enfrenta ciborgue a vapor espanhol na disputa pela posse de um artefato misterioso.

[P]: Erótica Steampunk (Ornitorrinco, 2013).

Robert, Yves: “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”.

[POD] = 1889 ec: Dom Carlos de Portugal conjura forças ocultas para transformar Portugal numa potência

[E]: Espiões franceses e britânicos tentam descobrir como Portugal se tornou uma grande potência.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

Santos, Octávio dos: “A Marcha sobre Lisboa”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Por volta de 1930 ec, Dom Luís II lidera contramarcha em reação à organização revolucionária que planeja implantar ditadura fascista em Portugal.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Schwarz, Rodrigo: A Ilha dos Cães.

[POD] = 1868 ec: Explorador britânico Richard Francis Burton naufraga as costas da América do Sul.

[E]: Burton escreve romance de história alternativa, no qual Colombo não descobre a América e o Império Asteca sobrevive século XIX adentro.

[P]: Bertrand Brasil (2005).

Seixas, João: “A Noite das Marionetas”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Em 1916 ec, o primeiro-ministro de Portugal trama contra o Império Britânico e o Reich Alemão.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Sequeira, Luís Richheimer de: “Ao Serviço de Sua Majestade”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Dona Maria III de Portugal estabelece a Subdivisão de Crimes Extraordinários para investigar ocorrências bizarras típicas do Arquivo X.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Silva, André Soares: “Xibalba Sonha com o Oeste”.

[POD] = 1000 ec (?): Chineses descobrem as Américas em linha histórica alternativa onde as culturas europeias provavelmente não existem.  A suserania do Trono Celestial acaba com a hegemonia maia no continente.

[E]: Herói de etnia tupi ajuda a protagonista a lutar contra as injustiças.  Juntos, descobrem o segredo mantido pelo grupo radical maia Filhos de Palanque sobre o que de fato existem para além do Oceano do Nascente.

[P]: Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável (Draco, 2012).

___________________: “O Fantasma Zonguanês”.

[E]: Operativo de elite zonguanês é enviado de Beijing para combater o herói subversivo de etnia tupi.

[P]: Samurais x Ninjas (Draco, 2015).

Silva, Luís Filipe:In Falsetto”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Inspetor de polícia lisboeta auxilia detetive austríaco a desvendar o roubo de um autômato francês especial empreendido por um ladrão de casaca semelhante a Arsène Lupin.

[P]: Mensageiros das Estrelas (Fronteira do Caos, 2012).

Silva, Luísa Marques da: “Missão 121908”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Patrulheiros temporais de linha histórica alternativa regressam a 1908 para impedir que cronoterroristas perpetrem o regicídio.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Soares, Bruno Martins: “O Nome do Rei”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Regicídio de Dom Afonso IX em 2008 ec.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Sousa-Rodrigues, Sérgio: “Rei sem Coroa”.

[POD] = 1908 ec: Atentado regicida contra Dom Carlos fracassa.  Sobrevivência do regime monárquico em Portugal.

[E]: Jovem português planeja o regicídio de Dom Manuel III em 1954 ec.

[P]: A República Nunca Existiu! (Saída de Emergência, 2008).

Tartari, Ataíde: “Folha Imperial”.

[POD] = 1889: Golpe republicano fracassa.  Marechal Deodoro da Fonseca é condenado à morte.  Regime monárquico brasileiro sobrevive até o presente.

[E]: Cotidiano de um paparazzo a serviço da Folha Imperial que se esforça para documentar as aventuras amorosas do príncipe imperial.  Conto humorístico.

[P]: Phantastica Brasiliana (Ano-Luz, 2000).

Tércio, Daniel: A Vocação do Círculo.

[POD]: n/a (fantasia alternativa): mágica funciona.

[E]: Lisboeta de nossa linha histórica é transladado para Lisboa alternativa, em linha histórica onde a mágica existe e a história parece estacionada na Idade Média.  Lá ele se apaixona por uma jovem bruxa e a ajuda a salvar o avô, que foi levado para uma segunda linha alternativa, aparentemente estacionada na época romana e cujos residentes se referem a Lisboa como “Olisipo”.

[P]: Editorial Caminho (1984).

Tércio, Daniel: Pedra de Lúcifer.

[POD] = 1.000.000 aec (?): No passado remoto, entidade alienígena envia esporos microscópicos à Terra para estimular a inteligência das criaturas terrígenas.  Os esporos do conhecimento se revelam incompatíveis com as formas locais, mas acabam propiciando o surgimento de uma grande religião numa Europa onde o cristianismo e a civilização romana jamais existiram.

[E]: Pessoas infectadas com o “cristal do conhecimento” tornam-se mártires da Grande Religião.  Contudo, os efeitos do cristal parecem estar perdendo intensidade.  A Igreja do Cristal e a própria civilização ocidental correm perigo.

[P]: Editorial Caminho (1998).

Veiga, José J.: A Casca da Serpente.

[POD] = 1898 ec: Antônio Conselheiro sobrevive ao massacre dos Canudos.

[E]: Conselheiro abandona o fanatismo religioso e funda comunidade utópica no sertão nordestino, servindo de inspiração para outras comunidades, erigidas nos mesmos moldes.

[P]: Bertram Brasil (1989).

Ventura, João: “O Sol é que Alegra o Dia…”.

[POD] = 1904 ec: Pirelióforo inventado pelo Padre Himalaya desencadeia revolução industrial alimentada por energia solar.

[E]: Associado ao motor de Stirling, o pirelióforo torna obsoleta a geração de energia pela queima de combustíveis fósseis, possibilitando o advento de uma civilização tecnológica sustentável e um meio ambiente livre de poluição.

[P]: Vaporpunk: Relatos steampunk publicados sob as ordens de Suas Majestades (Draco, 2010).

Vera, Hugo: “Impávido Colosso”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Em 1946 ec, durante a inauguração de Brasília, o Império e seus aliados paraguaios se preparam para travar a terceira guerra contra a República Argentina.  Quando os argentinos invadem o Brasil com exército de robôs militares, os brasileiros se defendem com um autômato gigante projetado por Rudolf Diesel.

[P]: Dieselpunk: Arquivos confidenciais de uma bela época (Draco, 2011).

Witter, Nikelen: “Uma Missão para Miss Boite”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Sociedade secreta criada no século XVI para garantir segurança de portais dimensionais que conduzem aos Territórios Invisíveis trava luta para impedir o vazamento de tecnologia humana para outros planos de realidade.

[P]: Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (Draco, 2014).

Zuin, Lídia: “Ad Finem Fidelis”.

[POD] = 1850 ec: cenário steampunk e/ou retrofuturista; avanços tecnológicos precoces modificam sociedade.

[E]: Terrorista envolve noviça em seus planos de eliminar figurões do Partido Nazista em cenário de Guerra Mundial Alternativa.

[P]: A História é Outra (Draco, no prelo).

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Cenários Alternativos Lusófonos III

Steampunks

Embora não constitua exatamente uma novela steampunk, Bilac Vê Estrelas (2000), de Ruy Castro, apresenta elementos do sub-subgênero ao propor como ponto de divergência o projeto de um dirigível em 1903.  Estimulado por seu amigo Alberto Santos Dumont, o escritor e líder abolicionista José do Patrocínio (1853-1905) projeta o aeróstato em pleno bairro carioca de Todos os Santos.

A trama gira em torno de uma espécie de Mata-Hari lusitana avant de lettre a soldo de espiões industriais franceses que tenta seduzir Olavo Bilac (1865-1918) a fim de conquistar acesso aos planos do projeto de Patrocínio.  No todo, trata-se de uma ideia original mal aproveitada em virtude da própria ligeireza da trama.  A ambientação é correta, porém, o ponto alto da novela é a bela homenagem não só a Olavo Bilac como à cidade do Rio de Janeiro da segunda década da República.

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O boom steampunk na literatura fantástica lusófona eclodiu em 2009 e, passada mais de meia década, o movimento não dá mostras de se exaurir.  De lá para cá foram lançadas um punhado de antologias, reunindo trabalhos de ficção curta dentro sub-subgênero, bem como alguns romances.

Não há pretensão de empreender uma análise exaustiva de todas as narrativas steampunks publicadas por autores brasileiros e portugueses nesta última década.  No entanto, com tantos espécimes saudáveis à disposição, será possível selecionar a dedo alguns dos exemplares mais representativos do steampunk lusófono.

As três narrativas analisadas a seguir foram publicadas na antologia Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (2009).

Como muitas narrativas desse sub-subgênero, ao focar a ação num Brasil alternativo do século XIX, “Cidade Phantastica”, de Romeu Martins, também se constitui em Império do Brasil Alternativo.  Também é típico em não situar precisamente a divergência: o progresso científico e tecnológico simplesmente se desenrolou de forma mais acelerada e pronto.[1]  Recheada de referências a figuras históricas e personagens ficcionais de terceiros, a trama pulp se inicia a bordo do vagão-restaurante de uma composição da ferrovia Gibson-Mauá, que liga Manaus à cidade do Rio de Janeiro, quando, em uma cena digna de faroeste, a intervenção oportuna de João Fumaça impede o sequestro de uma bela jovem por uma quadrilha de homens armados.  A jovem não é outra se não Maria Pinto, noiva de J. Neil Gibson, biliardário norte-americano que se associou ao Barão de Mauá para alavancar o progresso industrial do Império, transformando-o na nação mais avançada da Terra.  A propósito, a Cidade Phantastica do título se refere não apenas à capital do Império, mas também ao edifício de cem andares que abriga a sede brasileira de um outro império, o complexo industrial e financeiro de Gibson.  Das janelas do centésimo andar do Cidade Phantastica, Fumaça contempla o cume do Corcovado, onde uma estátua imensa do Imperador Dom Pedro II se ergue, quase concluída.  Contudo, nem tudo são flores nesse cenário progressista e o antagonista que ameaça pôr tudo a perder é nada mais, nada menos do que Leôncio Almeida, o vilão odioso do romance Escrava Isaura.

Roberto de Sousa Causo mistura Império Alternativo e steampunk com a temática das civilizações perdidas na noveleta “O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire”, quando o vilão do título (calcado em Robur o Conquistador, de Jules Verne), após uma breve batalha aérea, captura Santos Dumont e um oficial do Exército Imperial, com o emprego de tecnologia apropriada da civilização de Atlântida.

Já o conto “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”, de Jacques Barcia, funde steampunk com o subgênero new weird, ao mostrar a história de amor do “motolang” Fritz (um robô) com a golem Chaya.  Para concretizar a relação, o casal emigra para Catalônia, uma cidade-fábrica flutuante que extrai “éter” da alta atmosfera.  Só que a revolução tomou conta de boa parte de Catalônia e o casal se integra à luta de humanos e seus constructos conscientes em busca de liberdade e autodeterminação.  Uma trama tão instigante quanto implausível, que talvez merecesse ser mais bem abordada numa narrativa mais ampla.

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As seis narrativas analisadas abaixo foram publicadas em Vaporpunk: Relatos Steampunk publicados sob as Ordens de Suas Majestades (2010), primeira antologia luso-brasileira da trilogia punk da editora Draco.

No conto “A Fazenda-Relógio”, Octavio Aragão chuta os baldes das plausibilidades científica e histórica, concentrando-se na ação para lograr um resultado bastante satisfatório.  A ação se passa em Jundiaí, 1886, época em que os barões do café empregam autômatos a vapor em suas fazendas e o Império do Brasil abole a escravidão.  A alegria dos libertos só dura até a constatação de que eles não têm para onde ir e tampouco como se sustentar.  Como os ludditas britânicos antes deles, os libertos se revoltam contra o sistema e são forçados a enfrentar a truculência das forças imperiais comandadas pelo Conde d’Eu.

A noveleta “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”, de Yves Robert, mistura steampunk com horror para tecer uma narrativa complexa num cenário geopolítico alternativo da última década do século XIX.  As três maiores potências mundiais são o Império Britânico; o Império Francês; e o Reino de Portugal.  O poder britânico reside na tecnologia e na industrialização, como em nossa linha histórica, só que com computadores e navios de propulsão avançada.  Os franceses ergueram seu império graças ao desenvolvimento dos poderes parapsicológicos.  E quanto aos portugueses?  Esse é o mistério que espiões ingleses e franceses lutam para desvendar.  Como o Dom Carlos teria logrado transformar ao longo de uma década um reino na bancarrota em potência hegemônica?

A bela novela “Unidade em Chamas”, de Jorge Candeias, parte de um ponto de divergência singelo: as experiências do padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão com pequenos balões de ar quente (semelhantes aos balões de São João) em 1709 evoluíram para a mítica “Passarola”, que, segundo consta, jamais chegaram a ser construídas na nossa linha histórica.  Na linha alternativa postulada pelo autor, as passarolas não só foram construídas, como funcionaram a contento, transformando o Reino de Portugal no único país do século XVIII a dispor de uma força aérea.  Candeias descreve o funcionamento de suas passarolas — dirigíveis de ar quente — com verve mais detalhada e aerodinâmica bem mais plausível do que os dragões de Naomi Novik no universo ficcional Temeraire, abordados no capítulo 4, Histórias Alternativas na Fantasia.  O voo nas passarolas não é romantizado.  Ao contrário, o autor apresenta o cotidiano duro do “minorca”[2] Sidónio, um passarolista típico do Reino de Portugal.

Às vésperas de uma invasão francesa pela fronteira leste, Sidónio e os demais passarolistas lusitanos são surpreendidos pelo aparecimento inopinado de um segundo corpo de aeronautas recém-chegado das colônias, cuja existência era mantida em sigilo até então.  Esse corpo de passarolistas coloniais é formado por negros, mulatos e hindus oriundos das possessões portuguesas no Brasil, em África e no subcontinente indiano.  Em atitude surpreendente, os comandantes do Corpo Aéreo resolvem fundir as duas esquadras de passarolas numa só, misturando as tripulações, medida que exacerba as tensões raciais entre passarolistas de diversas origens e etnias.  Numa tentativa de combater os preconceitos, os tripulantes da passarola para a qual Sidónio é destacado decidem batizá-la como Unidade.

Com narrativa enxuta, ambientação bem trabalhada, protagonista antológico e, sobretudo, pelas questões que enfoca, “Unidade em Chamas” é considerada com justiça um tour de force de história alternativa lusófona.  Literatura fantástica de alto nível.

Em “A Extinção das Espécies”, de Carlos Orsi, ao empreender sua viagem de pesquisas a bordo do Beagle na década de 1830, um naturalista — que não é outro se não uma versão alternativa de Charles Darwin — depara-se primeiro com um inventor misterioso, o Fabricante de Autômatos, residente no Rio de Janeiro e, mais tarde, em Bahia Blanca, na Patagônia argentina, com outro naturalista, Luís Adolfo Morel.  O inventor demonstra ao naturalista inglês capacidades insuspeitas de suas criaturas artificiais, associadas ao emprego precoce da energia solar e da nanotecnologia.

O autor não propõe simplesmente um cenário histórico alternativo na noveleta, mas um universo paralelo com leis físicas diferentes do nosso, onde a existência da força vital constitui um fato científico, comprovado na prática pelo efeito Waldman-Ingolstadt[3], que possibilita a captação direta de luz solar e sua conversão em energia cinética, empregada na animação de autômatos, propulsão de navios etc.

Na Patagônia, o protagonista se encontra não apenas com Morel, mas com o engenheiro francês Charcot.  Ambos os estudiosos servem aos planos genocidas do General Juan Manuel de Rosas em seu esforço para exterminar os indígenas com métodos tecnológicos mais eficientes e cruéis que os empregados com o mesmo propósito em nossa linha histórica, tecnologias que não pareceriam fora de lugar em um clássico de George Romero.  Ao presenciar esse morticínio, o naturalista inglês questiona o futuro da humanidade no admirável mundo novo criado pelos engenhos de Morel, Charcot e do Fabricante.

O cenário alternativo da noveleta “O Dia da Besta”, de Eric Novello, é um Império do Brasil da década de 1860, às vésperas da Guerra do Paraguai.  Um país mais industrializado e tecnológico do que seu análogo de nossa linha histórica, com aeronaves e cavalos robóticos.  A Princesa Isabel é uma aviadora adolescente libertina cujos voos orientam os ataques invariavelmente bem-sucedidos de uma quadrilha de piratas.  Contudo, o protagonista dessa trama divertida e movimentada é o Conde de Tunay, um agente imperial que investiga o aparecimento de uma criatura metamorfa perigosa no Rio de Janeiro.

A narrativa da noveleta “O Sol é que Alegra o Dia…”, de João Ventura, emprega uma figura histórica real como protagonista: o padre e inventor português Manuel António Gomes, cognominado “Padre Himalaya” em virtude da estatura elevada.  Em nossa linha histórica, Himalaya inventou o pirelióforo, um coletor de energia solar capaz de fundir aço, engenhoca premiada na Feira Mundial de Saint Louis em 1904.

 

Padre Himalaya e Pirelióforo

Fig. 19 — Padre Himalaya com seu pirelióforo.

 

A divergência proposta pelo autor é que a invenção aclamada houvesse desencadeado uma revolução industrial alimentada por energia solar.  Associado ao motor de Stirling, o pirelióforo torna obsoletas da noite para o dia as máquinas alimentadas pela queima de combustíveis fósseis, possibilitando o surgimento de uma civilização tecnológica sustentável e um meio ambiente livre de poluição.  É possível que essa narrativa utópica e otimista tivesse se encaixado melhor na antologia Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável.

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As duas narrativas abaixo foram publicadas na antologia Erótica Steampunk (2013).

No conto “A Esquadra Fantasma”, de David M. Gonzalez, em um cenário steampunk típico de Primeira Guerra Alternativa, o Reich Alemão emprega uma Armada de dirigíveis militares indetectáveis para bombardear e destruir Londres.  Paris será o próximo alvo dos aeróstatos mortíferos.  A destruição da Cidade-Luz conduzirá os aliados à capitulação.  No clima de euforia reinante no Reich, quando o Conde Ferdinand von Zeppelin é aclamado como novo herói nacional, uma espiã aliada é enviada para tentar seduzir o inventor e roubar informações técnicas que possibilitem o desenvolvimento de contramedidas para combater o ataque iminente.

O conto “Franksteam & Electrônia”, de Carlos Relva, mostra o conflito entre dois agentes ciborgues num século XVI alternativo onde o progresso tecnológico se deu de forma mais célere, aparentemente devido aos inventos de Leonardo da Vinci.  Franksteam, o ciborgue espanhol, foi sequestrado pelos portugueses para ajudá-los na missão espinhosa de recobrar um artefato misterioso.  Electrônia, a ciborgue portuguesa, nutre atração intensa pelo rival espanhol, nessa espécie de Guerra Fria travada entre Espanha e Portugal.  A trama se divide entre a busca do tal artefato e a paixão recíproca entre os dois ciborgues que defendem interesses opostos.

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Homens e Monstros (2013), de Flávio Medeiros, constitui a um só tempo um fix-up de fina estirpe, com fortes elementos de história alternativa, salpicado de ficção alternativa, e um romance steampunk instigante e original.

Falando assim, até parece uma salada mista.  No entanto, é fácil de explicar e mais fácil ainda de entender.  Afinal, como diria Jack, o Estripador — não por coincidência, um dos personagens do romance em pauta — vamos por partes.

Como já se viu acima, fix-up é uma narrativa longa, algo semelhante ao romance, só que composta por histórias menores, que podem ser lidas de forma independente, como contos ou noveletas, que seriam como azulejos, benfeitos por si sós, capazes de compor um mosaico mais belo e complexo do que qualquer um deles, se tomado individualmente.  O fix-up ou romance-mosaico representa uma tradição venerável, conquanto mais frequente na literatura fantástica do que em outros tipos de literatura de gênero e no pobre e reles mainstream.  Neste sentido, Homens e Monstros é constituído por seis noveletas.  Cada uma das peças desse mosaico faz sentido isoladamente.  Tanto é que as duas últimas já foram publicadas em antologias fantásticas de ficção curta.  Contudo, apesar de fazerem sentido sozinhas, esse é um daqueles casos clássicos em que o todo é maior do que a soma das partes.

Embora o fix-up em questão não constitua história alternativa puro-sangue, ao menos não de um ponto de vista castiço — uma vez que se apropria de personagens ficcionais de outros autores e não apenas de figuras históricas reais, transformando-os em seus próprios personagens literários — ao propor um ponto de divergência calcado na história e não na ficção, e alinhavar seu cenário histórico alternativo a partir dessa divergência, a citar, a sobrevivência do Império Asteca sob suserania britânica, Flávio Medeiros delineia seu texto norteado pela filosofia de trabalho da história alternativa, criando um mundo semelhante ao nosso e, ao mesmo tempo, inteiramente distinto em seus matizes steampunks.  Um mundo onde a tecnologia avançou mais rápido.  Uma linha histórica alternativa na qual os Impérios Britânico e Francês se digladiam numa genuína “guerra fria vitoriana” que, aliás, é o termo usado como subtítulo do romance.

Além de romance steampunk, Homens e Monstros também pode ser lido como ficção alternativa bona fide, escrita na melhor tradição estabelecida por Kim Newman em Anno Dracula e, aqui no Brasil, por Octavio Aragão em A Mão que Cria.  Flávio Medeiros segue os passos desses dois precursores, mas avança mais longe, ao se apropriar de personagens literários dos contos e romances científicos de Edgar Allan Poe, Jules Verne, H.G. Wells, Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson e vários outros autores dos clássicos fantásticos da literatura vitoriana, presentes no imaginário popular até hoje.

Quanto às partes referidas pelo Red Jack, o fix-up abre com “O Som e o Aroma da Morte”, onde vemos uma dupla de agentes secretos do Império Francês atuando na Confederação Argentina em busca de uma grande invenção que talvez venha a se tornar a arma definitiva.

A noveleta que empresta seu título ao livro nos brinda com uma nova versão do clássico “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, com um final enxuto e surpreendente, num texto permeado pelo clima da guerra fria vitoriana.

Em “Máscaras”, um agente britânico é enviado para aferir a lealdade de um dissidente francês que vem empreendendo experiências biológicas revolucionárias numa ilha deserta.  Só que, antes de chegar lá, o agente se envolve numa missão secundária em busca de um operativo prussiano em pleno coração da África Negra, tropeçando uma megalópole siderúrgica, numa trama movimentada e mirabolante, repleta de reviravoltas, na qual absolutamente nada e ninguém é exatamente o que parece.

“O Lamento da Águia” é a única peça deste mosaico que apresenta personagens astecas e nos mostra como a civilização europeia, sobretudo a britânica, influenciou a cultura asteca sem, no entanto, destruí-la.  Em busca do esclarecimento que lhe permitirá ascender na carreira militar, o protagonista Itzcoatl se embrenha no território dos Estados Unidos, aqui um estado-membro do Império Britânico, para desvendar o desaparecimento de seu irmão gêmeo e o mistério acerca de um surto epidêmico mortal.

“Os Primeiros Aztecas na Lua” é ficção alternativa por excelência: uma noveleta que homenageia boa parte dos romances científicos vitorianos, com ênfase especial a Da Terra à Lua, de Jules Verne e A Máquina do Tempo, de H.G. Wells.  É a história de um agente duplo, com seus dramas de consciência e suas lealdades divididas, às vésperas de uma grande conquista científica que parece prestes a romper o equilíbrio de forças da guerra fria franco-britânica.

Última peça deste mosaico candente, “Por um Fio” responde a pergunta que muitos fãs de Jules Verne já se fizeram: o que aconteceria se o submarino Nautilus do misterioso Capitão Nemo combatesse o Albatross, de Robur o Conquistador?  Nesse cenário alternativo, enquanto o Almirante Nemo comanda a esquadra de submersíveis do Império Francês, Robur lidera a frota de dirigíveis militares do Império Britânico.  Autêntico duelo de titãs que, com perdão da expressão surrada, fecha com chave de ouro esse romance inspirador.

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Organizada por Fábio Fernandes e Romeu Martins, a antologia Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (2014) retoma a temática da antologia original de 2010 com novas narrativas e novos autores.

A antologia abre com a noveleta do coantologista Fábio Fernandes, “O Alferes de Ferro”, uma bela Inconfidência Mineira Alternativa.  O ponto de divergência é que René Descartes não escreve o mesmo título de nossa linha histórica, mas sim Discurso sobre o Método da Guerra.  Inspirado nas doutrinas marciais de Descartes, Maurício de Nassau cria um corpo de “cartésios” no Recife e, como resultado, os holandeses prevalecem no nordeste colonial brasileiro.  Quando Nassau regressa à Europa em 1648, deixa para trás uma República de Nova Neerlândia consolidada como nação soberana.

Portugal se resigna com a posse do resto do Brasil.  Um século mais tarde, engenheiros do reino constroem o Caminho Novo, uma ferrovia para escoar a produção de ouro da Capitania de Minas Geraes para o Rio de Janeiro.

Contudo, apesar de alguns elementos de progresso, a miséria da população colonial brasileira nessa linha alternativa é tão intensa quanto em nossa linha histórica.  Ao herdar a fazenda e a mina de ferro do engenheiro Antônio Eustáquio, Joaquim da Silva Xavier descobre entre os papéis e documentos do finado, os esboços para a construção de uma armadura metálica.

A conjuração da elite econômica e intelectual de Vila Rica acontece na mesma época que em NLH, só que com o apoio dos cartésios enviados por Nova Neerlândia.  Um mês antes da data da “Derrama” determinada pelo Visconde de Barbacena, Tiradentes recebe dos cartésios a encomenda impraticável para fabricar cinquenta armaduras.  Desesperado, no dia decisivo para a conjuração, ele traja sua própria armadura para enfrentar o seu destino.

A noveleta “Tridente de Cristo”, do coantologista Romeu Martins, é ambientada na mesma linha histórica alternativa de “Cidade Phantastica”.  A ação se passa em 1868, dois anos após o fim da narrativa anterior.  Mais uma vez o protagonista João Fumaça salva o dia, agora durante o casamento do milionário norte-americano J. Neil Gibson com a manauara Maria Pinto, que também já haviam aparecido na trama anterior.  O casamento inaugurará a Catedral de São Patrício, nova sé metropolitana.  A homenagem ao santo se deve em última análise à emigração maciça de irlandeses para o Império do Brasil, para substituir a mão de obra escrava, após a Abolição em 1850.

Na fila de revista aos convidados, à porta da nova catedral, João Fumaça conversa com um capitão dos Dragões do Império e veterano da Guerra de Cuba, que o Império e o Paraguai travam juntos contra a Espanha.  O pretexto para a aventura imperialista é o afundamento do navio brasileiro Marquês de Olinda.[4]  O capitão confidencia a Fumaça que os soldados imperiais e os mercenários norte-americanos que haviam lutado pelos confederados estariam praticando atrocidades contra a população civil de Cuba.  Crimes de guerra que nada ficam a dever àqueles praticados pelo Exército Imperial de NLH durante o último ano da Guerra do Paraguai.

O clímax dessa noveleta recheada de referências históricas e ficcionais se desenrola na sala da caldeira da catedral, onde Fumaça e Gibson enfrentam o vilão Blomsberry, antigo oficial norte-americano e sócio do famoso Clube do Canhão de Baltimore.

A narrativa do conto steampunk “Uma Missão para Miss Boite”, de Nikelen Witter, insinua mais do que mostra.  A protagonista é Ana Joaquina Tolledo Leite, integrante destacada da Irmandade dos Cavaleiros do Sol, sociedade secreta criada no século XVI para garantir a segurança dos vários portais dimensionais que conduzem aos Territórios Invisíveis e impedir o vazamento de tecnologia humana para outros planos de realidade.

Ana Joaquina veio à Corte em companhia do marido Serafim Magno e do filho Luís Serafim, para cumprir uma missão vital para a Irmandade.  Para tanto, ela contrata os serviços da ladra Charlotte Boite, que deverá subtrair uma pedra que atua como chave para uma arma que poderia ser usada contra a humanidade.  Durante o encontro com Miss Boite no Café Paris, na Rua do Ouvidor, essa lhe informa da existência de um traidor no grupo de Ana Joaquina.  Durante uma soirée no Teatro Imperial, ocorre um assalto performático e Miss Boite aproveita para surrupiar a pedra, visto que seu proprietário também se encontrava na plateia.

Apesar da trama instigante, infelizmente, os pontos mais interessantes do universo ficcional de “Uma Missão para Miss Boite” permanecem sem esclarecimento ao fim da narrativa.  Uma pena.

A noveleta “Notícias de Marte”, de Sid Castro, exibe um Império do Brasil Alternativo onde o progresso científico e tecnológico avançou mais rápido, a ponto de os físicos imperiais terem estabelecido buracos de Einstein-Planck (portais dimensionais) em novembro de 1900.[5]  Também se constata a presença de elementos de história natural alternativa, quando somos informados que o planeta Marte dessa LHA é maior e se situa mais perto da órbita terrestre do que o planeta vermelho da nossa linha histórica.

Cientistas imperiais a bordo do navio aeródromo Amazônia abrem um buraco E-P que conduzirá o dirigível Brazil ao planeta Marte Alternativo, então no perigeu (menor distância da Terra).  A bordo do Brazil seguem Alberto Santos Dumont e o astrônomo confederado recém-radicado no Império, Percival Lowell, grande especialista em planetologia marciana.  Faz sentido, uma vez que, pelo que o autor insinua, com seus canais e mares rasos, tal planeta se assemelha ao Marte que o Lowell da nossa linha histórica julgou existir.

O protagonista de “Notícias de Marte” é o Capitão-Tenente Antonio d’Almeida Andradas, Visconde do Cerradinho, piloto de caça da Armada Imperial, membro da força aeronaval do navio aeródromo Amazônia.  Ao escoltar o dirigível em sua travessia até o buraco E-P, o hidroplano de Andradas cruza uma aurora austral, efeito secundário da abertura do portal, indo parar dez anos no futuro, só que em NLH.  Quase sem combustível, acaba capturado pela tripulação do encouraçado Amazônia, da Marinha dos Estados Unidos do Brasil.

Enquanto tenta convencer a oficialidade desse Amazônia alternativo de suas origens, Andradas, um oficial e um cavalheiro cafuzo no Império Alternativo, revolta-se com o tratamento desumano imposto aos marinheiros do encouraçado.  Porque, em sua linha alternativa, a Abolição se deu na década de 1860, um fruto indireto da industrialização precoce.[6]

Enquanto a bordo do NAe Amazônia, o Imperador Dom Pedro II e uma entourage de sábios composta por Landell de Moura, Nikola Tesla, Albert Einstein, Max Planck, dentre outros, aguardam ansiosos a confirmação do êxito da travessia do Brazil, no encouraçado homônimo eclode a Revolta da Chibata, com consequências fatídicas para o piloto aeronaval do Império Alternativo.

O cenário esboçado por Sid Castro é sem dúvida original e instigante.  O autor lança ao ar um punhado de ideias fascinantes, porém, talvez por limitação de tamanho, não as explora a contento.

A narrativa de “Meus Pais, os Pterodáctilos”, de Cirilo S. Lemos, está mais para new weird do que para steampunk, embora a cidade de Vurap realmente exiba a dose certa de chaminés de fábricas e engenhocas retrofuturistas.

O narrador e protagonista é Gvrilo, jovem humano adotado por um casal de pterossauros,[7] que herdou a profissão do pai adotivo como reparador dos inúmeros relógios instalados nos topos das torres e arranha-céus de Vurap.  Enredo inventivo e trama interessante, porém desprovida de elementos de história alternativa.

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Publicada em 2012, a novela “In Falsetto”, de Luís Filipe Silva, para além de uma obra prima da história alternativa lusófona — somente comparável em qualidade e complexidade à magnífica “Unidade em Chamas”, de Jorge Candeias — constitui uma narrativa steampunk inspirada e deliciosa de investigação policial num Portugal Alternativo em que a ciência e a tecnologia avançaram mais céleres do que em nossa linha histórica.

O protagonista da narrativa é o Inspetor-Geral Gervásio Lopes, da Polícia Civil do Reino.  Quando a trama começa, Lopes está em seu escritório, na chefatura, em pleno domingo, quando recebe a visita de um arauto — um pequeno mensageiro alado mecânico, com asas de pano, mecanismos de mola e propulsão a vapor, controlado por corda, que transporta mensagens de voz de um canto a outro de Lisboa.  O pássaro mecânico porta o dístico da Casa Real em seu peito.  Trata-se de uma mensagem do próprio Comandante da Segurança do Rei.  A autoridade determina que Lopes preste assistência a um membro destacado da guarda pessoal do Imperador Fernando da Áustria, às vésperas da visita desse monarca à corte portuguesa por ocasião da comemoração do aniversário do Rei.

Instantes depois do arauto sair voando janela afora, o membro da guarda austríaca chega ao escritório do inspetor-geral.  A verdadeira missão de Günther Abendschmidt é capturar Verloven, um ladrão de casaca e mestre dos disfarces, do tipo Arsène Lupin.

Lopes e Günther visitam o palacete onde se encontra hospedado o milionário paraplégico Gulliver, líder da indústria francesa da automação.  Gulliver se movimenta livremente graças a um maciço exoesqueleto a vapor.  O detetive austríaco informa ao magnata francês que Verloven planeja um atentado para sabotar o novo autômato com que o milionário pretende presentear o monarca português por ocasião de seu aniversário.  O cientista-chefe das empresas de Gulliver, Gorzinsky, desconfia das intenções reais do detetive.

Horas mais tarde, o português e o austríaco são convocados às pressas para o encouraçado sofisticado que Gulliver mantém fundeado na foz do rio Tejo.  Verloven já havia atuado a bordo, assassinando o técnico responsável pela operação de Baltasar, o tal autômato especial, dotado, aparentemente, de autoconsciência.

A caçada a Verloven se desenvolve a bordo da embarcação com diversas reviravoltas, ocupando boa parte da narrativa.  Lá pelas tantas, o ladrão ousado logra sabotar o próprio encouraçado.

Luís Filipe Silva batizou os títulos dos capítulos dessa novela paradigmática da história alternativa lusófona com os nomes de movimentos de composições musicais.

O clímax e a resolução da narrativa são surpreendentes, despertando a ânsia no leitor de retornar ao começo da trama para confirmar que todos os elementos necessários para desvendar os mistérios que cercam a existência de Verloven já estavam de fato ali desde o início.  Enredo de tessitura magistral ou, como se diria àquela época, “de se tirar o chapéu”.

Dieselpunks

Nas narrativas dieselpunk, o vapor do steampunk é substituído pelo petróleo, os motores de combustão interna e a eletricidade.  As oito noveletas abordadas a seguir foram publicadas em Dieselpunk: Arquivos Confidenciais de uma Bela Época (2011), segunda antologia luso-brasileira da trilogia punk da editora Draco.  Até onde se sabe, trata-se da primeira antologia desse sub-subgênero em âmbito mundial.

Minha narrativa de passado alternativo “Pais da Aviação” se desenrola em três épocas ou episódios, ou quatro, se contarmos com o prólogo curto, no qual se explicita a divergência: em 1803, Napoleão Bonaparte convence Robert Fulton a construir uma flotilha de belonaves a vapor para a Armada Francesa.  Dois anos mais tarde (primeiro episódio), os franceses derrotam a Marinha Real Britânica na Batalha de Cape Trafalgar.  Após uma segunda batalha naval com resultado idêntico no Canal da Mancha, a Grã-Bretanha é invadida e ocupada pelos exércitos napoleônicos.  Dá-se início à Hegemonia Europeia sob a égide francesa.  O segundo episodio se passa quase um século mais tarde, quando os Irmãos Wright tentam vender a ideia do avião para o napoleão da Hegemonia.  Contudo, em conluio com o estadista, Alberto Santos Dumont prega uma peça nos inventores estadunidenses.  O terceiro e último episódio se desenrola cerca de trinta anos mais tarde que o anterior e consiste na narrativa entrecortada de uma guerra travada na América do Sul a oeste dos Andes entre as forças expedicionárias da Hegemonia e as repúblicas do Chile e do Peru, que lutam com o apoio dos EUA.

A noveleta “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, fala de um Brasil tecnologicamente mais avançado sob a égide comunista.  Só que, como nem tudo são flores nessa pretensa utopia marxista tropical, eis que surge um herói mascarado para reparar as injustiças.  Embora não possua superpoderes, à semelhança de Batman, o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o Escorpião Azul exibe habilidades, equipamento hi-tech e motivações formidáveis que o definem como herói.  Um paladino que passa longe do politicamente correto como, aliás, também não o eram os heróis pulp das décadas de 1930 e 1940.  Em sua identidade secreta, o Escorpião Azul é um idealista que acreditou no sonho de uma utopia socialista, até que se desiludiu com a realidade da ditadura de moldes stalinistas imposta ao país.  A noveleta abre com o herói salvando um bebê prestes a ser sequestrado pelos gângsteres do Partido.  Sim, porque nesse cenário distópico, os comunistas comem criancinhas, por assim dizer.  Para desvendar as motivações reais desses sequestros, o herói invade a Zona de Exclusão, uma base científica fortificada nas cercanias de São Paulo, e descobre que a trama macabra possui uma conexão inusitada com a explosão de Tunguska em 1908.

Em “Grande G”, Tibor Moricz brinda os leitores com uma narrativa alegórica em que a cobiça, o sexo e o poder se misturam numa luta sucessória desenfreada travada por várias gerações da mesma família pelo comando da megacorp que governa a sociedade de Smoke City, a maior cidade do planeta.  A trama se situa em um locus espaçotemporal onde a fumaça e a poluição representam um estilo de vida.  Smoke City extrai sua energia da queima do petróleo.  O líder da cidade, Grande G, recusa-se a fornecer conhecimentos tecnológicos a Steam City, comunidade mais atrasada, que ainda depende da queima de carvão para mover suas máquinas a vapor primitivas.  Os herdeiros de Grande G conspiram para derrubá-lo e implantar uma matriz energética mais limpa.  O autor fornece uma prova contundente de que é possível haver dieselpunk sem elementos de história alternativa.

Em sua noveleta, “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado”, Octavio Aragão mostra o que aconteceria se os cangaceiros de Lampião e a Coluna Prestes se enfrentassem com armas hipertecnológicas de procedência misteriosa.  Nossa linha histórica é alterada por volta de 1925 quando um carioca que se afirma viajante temporal fornece armas futuristas semelhantes àquelas que despontavam nas primeiras revistas pulp de ficção científica daquela época.  Trama bem ambientada no sertão nordestino com personagens bem caracterizados e verossímeis.

A narrativa de “Impávido Colosso”, de Hugo Vera, tem lugar em 1946 de uma linha histórica alternativa em que o Império do Brasil e seus aliados paraguaios já travaram duas guerras contra a República Argentina e se preparam para uma terceira, em plena inauguração de Brasília.  O Exército Argentino inicia as hostilidades ao invadir o Império com divisões de mecanoides (soldados robóticos) e os brasileiros se defendem com um autômato gigante projetado por Rudolf Diesel e fabricado nas indústrias do Barão de Mauá[8].  Ao contrário dos robôs de guerra inimigos, o Colosso do título precisa ser pilotado por sua tripulação, como um tanque bípede.

“Auto do Extermínio”, de Cirilo Lemos, é o relato pungente das agruras de Jerônimo Trovão, assassino profissional em um Império Alternativo distópico em que o Exército conspira contra o trono de Dom Pedro III, estabelecendo o cenário propício para a intervenção norte-americana no país.

Temperada com doses generosas de new weird, essa trama dieselpunk brinca com a temática da percepção extrassensorial: tanto Jerônimo quanto o filho adolescente Deuteronômio são assombrados por visões mediúnicas que só eles veem.  O pai é orientado por uma santa com os olhos da atriz Nancy Carroll, enquanto o filho, consumidor de revistas pulp, é aconselhado por um super-herói supostamente imaginário.

O Império está em crise, integralistas e comunistas se digladiam nas ruas do Rio de Janeiro e, nos gabinetes, o General Protássio Vargas lidera uma conspiração para derrubar um Dom Pedro III senil, de forma a evitar que o trono seja herdado por um príncipe bebê que muitos duvidam que seja filho do velho monarca.  Quando se imagina que as coisas não possam piorar, os EUA intervêm para apoiar Vargas com aviões e um ciborgue trajado de xerife do Velho Oeste.[9]

“Cobra de Fogo”, de Sid Castro, fala de outro Império do Brasil Alternativo.  Agora em uma linha histórica em que, após a “Guerra que Acabou com Todas as Guerras” (1919-1929), que culminou com a troca de explosões nucleares, a Liga das Nações impôs uma Pax Atomica.  Aqui, embora mais um Dom Pedro III reine no Império, quem realmente governa o Brasil é o primeiro-ministro Getúlio Vargas.  O autor propõe um cenário divertido e original no emprego inteligente de clichês bem conhecidos, em que os conflitos geopolíticos e as diferenças diplomáticas são resolvidos através de corridas mundiais disputadas por locomotivas aerodinâmicas gigantescas que se deslocam não sob os trilhos de uma malha ferroviária, mas flutuando acima do solo graças à ação de rotores.

As grandes potências almejam internacionalizar a Amazônia.  Para dirimir essa disputa, a Liga das Nações propõe a Corrida Mundial Amazônica e diversos países enviam locomotivas para a competição, entre eles, o Reich Alemão do Kaiser Wilhelm IV; a União Soviética de Leon Trotsky; o Império Austríaco de Adolf Hitler; os Estados Confederados da América; a República Britânica; o Reino de França, o Império Nipônico; e, logicamente, o Império do Brasil, que pretende manter o domínio exclusivo da Amazônia.

No início da trama, o protagonista Damocles Dumont, dublê de oficial dos Dragões Imperiais, agente da inteligência brasileira e homem-foguete, aparece voando em sua mochila autopropulsada para embarcar a bordo da M’Boitatá, com a missão de assumir o comando da locomotiva imperial durante a corrida.

Com diversas fases que se desenrolam em países e territórios diferentes, a corrida mundial dá margem à execução de uma série de estratégias e alguns golpes baixos dignos do seriado de desenho animado Corrida Maluca de Hanna & Barbera.  A partida é dada em Casablanca, após uma noite memorável no Rico’s Café Américain Bar, e termina em plena floresta amazônica.  Segundo o crítico Antonio Luiz M.C. da Costa, essa noveleta é a “mais cinematográfica (da antologia Dieselpunk) em todos os sentidos, a mais digna de virar uma superprodução hollywoodiana”.

Jorge Candeias volta a explorar a linha histórica alternativa criada para sua novela “Unidade em Chamas”, publicada no ano anterior em Vaporpunk: Relatos Steampunk publicados sob as Ordens de Suas Majestades e já considerada um clássico da história alternativa lusófona.  A noveleta “Só a Morte te Resgata” constitui uma sequência da novela anterior.  Agora, o grosso da ação se dá fora das vastas fronteiras da Confederação Lusitana, entidade supranacional de caráter multirracial composta pelas nações do antigo Império Português.  A noveleta é protagonizada por Jeferson, um brasileiro racista, filho de um antigo senhor de escravos que, após a Abolição, alinha-se à causa da Aliança das Potências, grupo de nações imperialistas que se opõe aos princípios de igualdade racial lusitanos.  A trama gira em torno dos dilemas pessoais de Jeferson, que acabam fazendo-o regressar ao Brasil e à casa paterna.

Linha Histórica Alternativa Pax Paraguaya

Em meados de 1990, a editora Record anunciou que patrocinaria um concurso literário, o Prêmio Jerônymo Monteiro, através de sua revista Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica, a edição brasileira da Asimov’s Science Fiction.  O concurso provocou uma comoção enorme na comunidade de leitores e escritores do gênero, pois, além dos prêmios em dinheiro, os editores da IAM prometiam publicar os três melhores trabalhos nas páginas da revista, que até então só veiculara autores estrangeiros.  Pelos regulamentos, cada autor poderia submeter um máximo de dois trabalhos e esses deviam se limitar ao tamanho máximo de quarenta laudas, com 32 linhas por lauda.[10]  Para compor a banca julgadora foram convidados os escritores Jorge Luiz Calife e José dos Santos Fernandes; o terceiro membro foi Luiz Marcos da Fonseca, então presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).

O fandom brasileiro de literatura fantástica entrou em polvorosa por conta do Jerônymo Monteiro.  Embora na época não se dispusesse de internet e, muito menos, redes sociais ou Facebook, durante alguns meses não se falou em outra coisa.

Decidido a participar do certame com dois trabalhos, este autor selecionou sua noveleta de ficção científica “Alienígenas Mitológicos” e, como segunda opção, resolveu escrever um novo trabalho, inspirado em um sonho antigo de produzir uma narrativa de história alternativa genuinamente brasileira.

Sempre apreciei as narrativas de história alternativa.  Dois ou três anos antes, havia escrito um ensaio sobre o subgênero que foi publicado no Somnium, fanzine que atuava, já àquela época, como veículo oficial do CLFC.  Ao cogitar produzir um cenário histórico alternativo de minha própria lavra, cabia escolher um tema convincente.  Os norte-americanos exploram à exaustão a temática das Guerras de Secessão Alternativas.  Faz certo sentido.  Afinal, tratou-se do maior conflito militar travado nas Américas.  Uma guerra que, mais do que qualquer outra, definiu o caráter dos EUA como nação.  Diante da questão: qual o maior conflito já travado pelas forças militares brasileiras, o equivalente nacional, por assim dizer, à Guerra de Secessão?  A resposta óbvia é a Guerra do Paraguai.  Pronto.  O tema da minha primeira narrativa de história alternativa havia sido escolhido.[11]

A Guerra do Paraguai foi o maior conflito militar da história brasileira e a maior e mais sangrenta guerra da América do Sul.  Tendo durado desde dezembro de 1864 até março de 1870, a Guerra do Paraguai alterou definitivamente todo o panorama econômico e político do subcontinente.  O Paraguai foi arrasado num processo brutal, considerado hoje por vários historiadores como tendo sido um autêntico genocídio.  A Argentina e o Uruguai tiveram suas próprias nacionalidades forjadas durante e pelo conflito.  Já o Brasil, emergiu do conflito com sua hegemonia no cone sul confirmada de forma inconteste, mas também com suas estruturas sociais e políticas modificadas para sempre, num processo que culminou com a profissionalização das Forças Armadas e com a própria desestabilização e queda do Império.

Somente com o mapa concluído, imbuí-me da coragem necessária para esboçar a linha alternativa batizada Pax Paraguaya.

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Ética da Traição Ilustração IAM

Fig. 20 — Ilustração de “A Ética da Traição”, publicada na Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 25 (janeiro 1993).

 

Em nossa linha histórica, o Paraguai de Francisco Solano Lopez constituía uma potência emergente na América do Sul do início da segunda metade do século XIX.  Com a morte de seu pai, Carlos Antonio Lopez, em 1862, Solano Lopez assume o posto de presidente vitalício e inicia o aparelhamento do Exército e da Marinha Fluvial da República.[12]

Enquanto isto, noutras plagas da Região do Prata, ao assumir o poder em 1860, o presidente eleito da República Oriental do Uruguai, Bernardo Berro (Partido Blanco), adotara uma postura mais dura em relação à penetração brasileira através da província do Rio Grande do Sul.  As consequências não se fizeram tardar: em 1863, o General Venâncio Flores (Partido Colorado), invadia o Uruguai através da Argentina, com o apoio de Bartolomeu Mitre, presidente daquele país, e dos liberais brasileiros do Rio Grande do Sul.  Em reação, uma missão diplomática uruguaia (blanca) se dirigiu à Assunção em busca de uma aliança com o Paraguai, contra a Argentina e o Brasil.  Lopez hesita em sua resposta por seis meses, porém, ao fim desse prazo emite uma advertência: a independência uruguaia era condição essencial para o equilíbrio de forças no Rio da Prata.  Advertência ignorada, Lopez reage, decretando a mobilização geral no Paraguai no início de 1864.  Um mês mais tarde, Berro renunciava, transferindo o poder executivo para Atanásio Aguirre, presidente do Senado Uruguaio.

Em maio de 1864, a missão diplomática Saraiva chega a Montevidéu (seguido pelo Vice-Almirante Tamandaré e pela Esquadra Imperial.  Para que ninguém duvide que o Brasil daquela época era não só imperial, mas imperialista).  Com o fracasso das negociações, Lopez oferece a mediação paraguaia para a questão de fronteira entre o Império do Brasil e a República Oriental.  O oferecimento é recusado.  No início de agosto, o Império emite um ultimato ao Uruguai: cumprimento das exigências ou retaliação militar.  Em reação, Lopez emite seu próprio ultimato ao Império, advertindo contra a intervenção no Uruguai.  Em outubro, tropas brasileiras invadem o Uruguai, em apoio às forças de Venâncio Flores.  A Marinha Imperial bloqueia o porto de Montevidéu.

Em novembro, o vapor de guerra paraguaio Tacuary apresa o paquete brasileiro Marquês de Olinda, que zarpara de Assunção rumo a Corumbá.  Entre os detidos está o presidente nomeado da província de Mato Grosso.  O apresamento leva ao rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e o Paraguai.  No mês seguinte, a República do Paraguai declara formalmente guerra ao Império do Brasil e dá início à invasão do Mato Grosso.  Após dois dias de luta, a guarnição brasileira do Forte de Coimbra é obrigada a evacuá-lo diante da Esquadra Paraguaia.

Em janeiro de 1865, a Argentina nega o pedido de permissão de Lopez para que as forças paraguaias pudessem cruzar o território disputado da região das Missões, de maneira a atacar o Rio Grande do Sul e dar apoio aos blancos no Uruguai.

Em fevereiro, Montevidéu cai em poder dos colorados.  É celebrada a paz em Villa de Unión.  Com a vitória colorada na guerra civil uruguaia, Venâncio Flores é nomeado presidente provisório do país.

Em março, o Paraguai declara guerra à Argentina e dá início à invasão, pela província de Corrientes.  Após o bombardeio empreendido pela Esquadra Paraguaia ao porto fluvial de Corrientes, tropas do exército de Lopez, comandadas pelo General Robles (18.000 homens) tomam a cidade.  Em maio é firmado o Tratado da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) contra o Paraguai.  Em junho, sob o Comando do coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, o exército paraguaio cruza Missões e invade São Borja, no Rio Grande do Sul.

Em 11 de junho de 1865, trava-se a Batalha Naval do Riachuelo.  A vitória imperial possibilitou que os aliados exercessem um bloqueio completo contra a República do Paraguai, impedindo a chegada de todo e qualquer auxílio oriundo do exterior.  A derrota paraguaia em Riachuelo representou o início do fim para os ideais de grandeza de Solano Lopez, um governante que um dia sonhou se tornar o Napoleão das Américas.  No entanto, o Brasil e seus aliados ainda demorariam cinco longos anos para derrotar inteiramente o inimigo.

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Palacio Pedro Ernesto
Palacio Pedro Ernesto

Fig. 21 — Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, Acervo do Museu Histórico Nacional.

 

Jamais houve qualquer dúvida de que a Batalha do Riachuelo devia ser o ponto de divergência da linha histórica alternativa Pax Paraguaya.  Porque, ao menos naquele engajamento, as forças de Lopez dispunham, aparentemente, de todas as vantagens ao seu lado: melhor conhecimento do terreno e das vias fluviais; baterias artilhadas na margem do rio prontas a disparar contra os vasos imperiais; navios repletos de tropas preparadas para abordar e apressar as naus brasileiras.  E, de fato, durante as primeiras horas da batalha, os paraguaios se valeram dessas vantagens e pareciam prestes a vencer a contenda.  Se a história militar ensina alguma coisa, os oficiais navais paraguaios fizeram seu dever de casa direitinho.  Embora a Marinha Paraguaia estivesse em inferioridade numérica, logrou prevalecer no começo da contenda, graças ao emprego de uma tática velha de milênios e algo semelhante à utilizada pelos atenienses para destroçar a esquadra persa na Batalha de Salamina.  Atacando de surpresa, com a corrente a seu favor, as belonaves e as chatas paraguaias, jangadas pequenas e ágeis, armadas com canhões, atraíram as naus brasileiras para as águas rasas, próximas a uma das margens.  Ali encurralados, entre o fogo cerrado das chatas, os bancos de areia e a artilharia guarani oculta num barranco da margem do rio, os navios maiores do Império acabariam encalhando e então se tornariam presas indefesas de uma abordagem cruel, ou simplesmente dos incêndios provocados pela ação dos disparos inimigos em seus cascos de madeira.

Poderia perfeitamente ter sido assim.  Contudo, graças à experiência e ao sangue frio do comandante naval brasileiro, Barroso da Silva, a situação desfavorável se inverteu e a Marinha Imperial logrou sair-se vitoriosa.

Porém, e se uma das primeiras salvas, disparadas no meio daquela manhã de céu claro pelas baterias de canhões e foguetes paraguaios do Coronel Bruguez conseguisse atingir a danificar a roda de boreste da Amazonas, capitânia da Marinha Imperial?

E, se, pior ainda para a desdita da causa brasileira, um daqueles disparos iniciais atingisse em cheio o Chefe-de-Divisão Barroso da Silva, comandante daquela força-tarefa, que então realizava uma última inspeção nos dois sistemas de rodas?

Em última análise, visão microcósmica, a divergência que produz essa linha histórica alternativa se reduz a um disparo certeiro fortuito: Barroso da Silva tomba logo no início da batalha.  Sem sua iniciativa, a Esquadra Imperial é destroçada.

A vitória paraguaia assegura a via de acesso fluvial ao Atlântico, garantindo, a médio prazo, o recebimento de belonaves e material bélico já adquirido no exterior[13] e, a longo prazo, o predomínio paraguaio nas águas do Rio Paraná.

Já em julho, as notícias do malogro da Marinha Imperial em Riachuelo provocam a defecção do General Urquiza, presidente da província de Corrientes, para a causa paraguaia.  Aproximadamente dez mil cavalarianos correntinos são incorporados às forças de Robles.  Em agosto, os federales da província argentina de Entre-Rios e os blancos de Montevidéu abjuram a Tríplice Aliança, convertendo-se à causa de Lopez.  Em consequência, as tropas brasileiras e argentinas são cercadas em Corcórdia.  Poucos dias mais tarde, as tropas paraguaias de Estigarribia tomam Uruguaiana.  No mês seguinte, as forças do General Barrios sitiam e conquistam Corumbá.

Entre outubro e novembro, chegam à região do Prata os encouraçados paraguaios Meduza, Trion, MinervaBelona, Nemezis, e o transporte de tropas Orellana — navios construídos ou adquiridos em estaleiros europeus.

Em meados de novembro, as tropas de Robles desembarcam em Montevidéu, capturando a capital oriental sem resistência dos colorados, que fugiram para o Rio Grande do Sul.  No mês seguinte, chegam ao Paraguai cem mil fuzis de fabricação europeia e cerca de quinhentos canhões de longo alcance e grosso calibre, encomendados por Solano Lopez à Krupp alemã.

Em janeiro de 1866, comandados por Estigarribia, tropas conjuntas paraguaio-orientais avançam Rio Grande do Sul adentro, conquistando vitórias importantes e repelindo as mal arregimentadas forças brasileiras que vieram ao seu encontro.  Em fevereiro, as forças brasileiras e argentinas são desbaratadas em Concórdia.  O General Osório é capturado e o General-Presidente Bartolomeu Mitre tomba em combate.  O novo malogro representa o fim da resistência brasileira aos avanços paraguaios em solo estrangeiro.

Em março se dá a ocupação militar de Porto Alegre.  Soldados negros aprisionados em campo de batalha juram fidelidade à República e a López, passando a integrar o exército paraguaio.

Ao longo de 1866, emissários de López na França e nos EUA conseguem estabelecer acordos comerciais com os governos  de Paris e Washington, liberando aos paraguaios linhas de crédito que lhes permitiriam a aquisição de trinta mil rifles de repetição americanos[14] e a construção às pressas de couraçados de baixo calado (próprios para a guerra fluvial) em estaleiros franceses.

Entre julho e setembro do mesmo ano, tropas paraguaias avançam pelo interior do Rio Grande do Sul.  As forças da guerrilha brasileiras são combatidas com êxito por pelotões de soldados negros e ex-escravos libertos lutando pela causa paraguaia.  Sob o comando de Estigarribia, o Paraguai invade a província de Santa Catarina.

Em agosto, Buenos Aires se rende às forças de Robles.  Com a rendição, dá-se o fim do predomínio da província de Buenos Aires na Confederação Argentina.  Um mês mais tarde, as províncias da Confederação Argentina assinam os termos de armistício com a República do Paraguai.

No fim de 1866, reforçado pela cavalaria de Corrientes, pelas forças voluntárias de Entre-Rios e da República Oriental e, sobretudo, pelos pelotões de negros libertos em território brasileiro, o efetivo do Exército Paraguaio se eleva acima de 200.000 soldados.

A Guerra da Tríplice Aliança prossegue até novembro de 1869, quando, pressionado pelo povo, pelo Senado e por republicanos e abolicionistas, S.M.I. Dom Pedro de Alcântara solicita um armistício a Solano López.  São estabelecidos os termos e condições de ocupação.  Após conferenciarem entre si, os comandantes paraguaios passam por cima da autoridade de López e concordam em nomear brasileiros simpáticos à causa abolicionista e republicana para o governo provisório das províncias ocupadas.

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A noveleta “Crimes Patrióticos” (1998) constitui uma narrativa de passado alternativo.  Escrita sete anos após “A Ética da Traição”, sua ação se passa toda no século XIX, mais especificamente, no dia 9 de janeiro de 1873, ocasião fatídica em que o veterano brasileiro Álvaro Augusto de Carvalho (que realmente existiu em nossa linha histórica) tentará cumprir uma missão patriótica: eliminar o monarca pusilânime que implorou pela paz ao tirano paraguaio.  Carvalho serviu como Primeiro-Tenente na Marinha Imperial e participou da Batalha Naval do Riachuelo.  Através de flashbacks, através dos olhos do veterano brasileiro, o leitor assiste esse malogro que colocou toda a causa aliada a perder.

O outro protagonista dessa narrativa também é um veterano de outra guerra perdida.  General confederado, ele desempenhou um papel decisivo na Batalha de Gettysburg, evento crucial que mudou a maré da Guerra de Secessão em favor dos exércitos da União.  Como diria seu oficial-comandante, General Robert E. Lee, esse veterano “sobreviveu à derrota para lutar uma vez mais em um outro dia”.  Finda a guerra civil, com a Confederação derrotada e os sonhos de erigir uma nação soberana escravista no sul dos EUA desmantelados, o veterano sente que é necessário lutar não apenas novas batalhas, mas uma nova guerra.  Destarte, em 1867, ele desembarca num porto de Buenos Aires sob ocupação paraguaia no comando de cinco mil veteranos confederados, transformados em mercenários sob soldo de Solano Lopez.  Os militares paraguaios o apelidaram “Estaca”.

Através dos olhos de Estaca, o leitor assiste outro malogro militar em flashback, dessa vez o fracasso da brigada de Estaca em tomar uma colina dominada pelas forças da União no terceiro e último dia da Batalha de Gettysburg.

No entanto, esse veterano de duas guerras tornou-se um vitorioso, ídolo e herói em toda a Gran República.  O Alto-Comando Paraguaio confirmou sua patente de general desde a chegada em Buenos Aires e agora, finda a guerra, cumpre concluir uma missão derradeira.  Estaca deve impedir que o patriota brasileiro equivocado elimine o monarca, pois a nova elite militar paraguaia nutre planos diversos.

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A noveleta “A Ética da Traição” (1992) é uma narrativa de presente alternativo.  Foi escrita originalmente em 1990 e sua trama se desenrola em 1993, inteiramente a bordo da barcaza nuclear Espírito Santo, ao longo de uma viagem pelo Paranapanema, nessa linha histórica alternativa, rio fronteiriço que separa o Brasil da Gran República del Paraguay.

Nessa LHA, a Guerra Mundial de 1914 se estendeu até 1927.  Em compensação, não houve uma Segunda Guerra.  Em 1928, dá-se o advento da Confederação Germânica, englobando Alemanha, França, Itália, Suíça, Dinamarca, Holanda, Bélgica e as nações que anteriormente pertenciam ao Império Austro-Húngaro.  Entre 1940 e 1947, é travada a Guerra do Pacífico, entre a Comunidade Britânica e o Império Nipônico.  Neuroquímicos paraguaios desenvolveram tecnologias que permitem a aprendizagem hipnopedagógica no início da década de 1960.  Em 1967, com a inauguração da base lunar germano-paraguaia, inicia-se a colonização do satélite.  Dezesseis anos mais tarde, é estabelecida a primeira base científica permanente em Marte, sob os auspícios da Liga das Nações, com financiamento paraguaio e alemão.

O protagonista da noveleta é o físico brasileiro Júlio César de Albuquerque Vieira, negro e detentor do Prêmio Nobel de Física de 1985 por suas teorias e propostas de aplicações na gravitofísica das dobras espaçotemporais.  Albuquerque fugiu do Brasil após sabotar o projeto de pesquisas secreto que coordenava.  Desenvolvido num laboratório da Universidade de São Paulo, o Projeto Cronos tinha por objetivo inicial a construção de um “holovisor temporal”, dispositivo capaz de possibilitar a visualização de eventos históricos pretéritos.  Contudo, uma vez ativado, o holovisor não visualizou o passado daquela linha alternativa, mas sim o da nossa linha histórica.  Albuquerque conclui que o fenômeno se dá pelo fato de que a ocorrência da NLH ser muito mais provável do que a da LHA.

Quando a cúpula científico-militar do Brasil Alternativo idealiza um plano para transformar o holovisor numa máquina do tempo rudimentar, a fim de enviar informações ao passado de forma a possibilitar que o Brasil vencesse a Guerra do Paraguai, transformando o país na maior potência da América do Sul e a LHA na NLH, que Albuquerque considera “uma Terra de Pesadelo”, repleta de injustiça, miséria, guerras, preconceitos e desigualdades, o cientista se rebela e sabota o projeto, arruinando irremediavelmente a possibilidade física de se transmitir informações ao passado.  Considerado o traidor da pátria mais pusilânime desde Dom Pedro II, ele logra escapar do país antes de cair nas garras dos militares.  Com auxílio do cônsul da República Guarany em São Paulo, o cientista obtém disfarce, identidade falsa e passagem para embarcar na Espírito Santo.

A bordo da barcaza, a começar pelo Professor Albuquerque, ninguém é exatamente o que parece.  Disfarçado como o industrial paulista Antônio de Oliveira, já em sua primeira manhã a bordo, Albuquerque é convidado para almoçar à mesa do comandante, um paraguaio de ascendência alemã, Ruiz Liebe.  As demais companhias do fugitivo durante a refeição são José Hernandez, um major do Despacho General de Información (uma das agências secretas paraguaias), encarregado de protegê-lo; Hans e Inga Hoffmann, um casal alemão supostamente em lua-de-mel; e a dupla Silva e Pereira, dois agentes federais brasileiros.  Mais tarde, o protagonista descobre que o casalzinho alemão servia à agência de espionagem da Confederação Germânica.  Inga, na verdade Heidl, é uma operativa com doutorado em História, intrigadíssima com as fotos de um mapa da América do Sul que retrata as fronteiras geopolíticas presentes em nossa linha histórica e não na dela.  Hans Hoffmann, ou melhor, Marcel Klein, possui doutorado em literatura de ciencia fictícia (ficção científica).  Leciona CF na universidade mundial de Berlim, além de ser um cientista fictício de renome internacional, publicando seus romances sob o pseudônimo de Daniel Alvarez.[15]

 

Pax Paraguaya - Mapa da América do Sul

Fig. 22 — Mapa da América do Sul, LHA Pax Paraguaya.

 

Após o almoço, ao regressar ao seu camarote, Albuquerque é abordado pelos federais brasileiros.  Hernandez tenta socorrê-lo, mas sua intervenção não é bem-sucedida.  Os operativos alemães intervêm, mas a situação foge inteiramente ao controle dos passageiros disfarçados nesse genuíno baile de máscaras, quando a barcaza é abordada por um grupo de destruição do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, trazidos pelo submarino fluvial Tietê.

Divergências Recentes

O ponto de divergência do cenário histórico pincelado em minha noveleta de futuro alternativo “O Preço da Sanidade” (1997) se situa no passado recente.  O que teria acontecido se Luiz Inácio Lula da Silva houvesse derrotado Fernando Collor de Mello no segundo turno das eleições presidenciais de 1989?

Bem, para começo de conversa, não haveria o processo de impeachment dois anos mais tarde.  Porém, e além disso?  Como seria um governo petista hipotético no início da década de 1990?

Àquela época, muitos acreditavam que a vitória do Partido dos Trabalhadores teria dado início a uma utopia tupiniquim.  Tal como pensaram desse mesmo modo em 2003, quando Lula realmente venceu as eleições presidenciais em nossa linha histórica.  Contudo, será que aquela utopia na última década do século XX teria de fato ocorrido?  Cumpre lembrar que o PT daqueles tempos exibia uma postura bem mais autêntica e radical do que o partido que venceu as eleições de 2003 em NLH.  Daí, a questão: haveria reações ao estabelecimento da nova ordem?  Em caso afirmativo, por quanto tempo duraria a utopia?  Afinal de contas, como diz o ditado, “Tudo que é bom, dura pouco.”

O fluxo principal da narrativa se dá em um ponto qualquer da segunda década do século XXI.  Em meio a uma tempestade na localidade fluminense  de Serrinha do Lambari, Geraldo Lopes Ramos desce a estrada de terra em sua camionete rumo à Via Dutra.  No banco de trás do veículo, coberto por uma lona grossa, há um cadáver que, se tudo correr como o protagonista planeja, atestará sua sanidade mental para além de qualquer possibilidade razoável de dúvida.  Geraldo ruma para o bunker da Unicamp, segundo foco de resistência mais importante ao regime autoritário que se instalou no país após o golpe militar de 2001.  Ou o foco mais importante, se desconsiderarmos a República do Piratini, constituída pelos três antigos estados da Região Sul, que decidiram pela secessão após o golpe.

Os elementos de história alternativa da trama são mostrados sob a forma de flashbacks, porém sem a menor preocupação com a ordem cronológica.  Pois, afinal, tratam-se de recordações que fluem pela mente do protagonista à medida que ele medita sobre os motivos que o conduziram à situação crítica em que se encontra no presente da narrativa.

Em 1998, Geraldo tinha 25 anos e estava prestes a defender sua tese de doutorado em xenologia.  O Brasil havia acabado com a inflação, nosso parque industrial crescia quase 10% ao ano e o país elegia um governante comprometido com os anseios da população pela terceira vez consecutiva: uma mulher decidida a prosseguir com a tarefa hercúlea de seus dois antecessores de demolir os privilégios daqueles que, embriagados nas fontes de lucro fácil e do poder irresponsável, impediram durante mais de meio século a ascensão do Brasil ao mundo desenvolvido.

O que poderia dar errado nesse cenário utópico?  A raiz dos males de Geraldo reside na associação política entre os progressos na área da xenologia com o regime petista.

Em 1997, o candidato independente à presidência dos EUA causou furor na Assembleia Geral das Nações Unidas com um discurso bombástico em que admitiu que seu país já possuía há mais de uma década evidências da existência de uma cultura tecnológica alienígena, que estaria empreendo visitas periódicas à Terra.  Na ocasião, com os ufologistas do mundo inteiro fazendo escarcéu sobre o assunto, Geraldo cogitou desistir da defesa de sua tese de doutorado na área de SETI, mas no fim acabou resolvendo prosseguir com a carreira nessa área de estudo.  A decisão pareceu acertada, pois a comunidade científica internacional reagiu à altura e, ao longo da guerra sem tréguas contra os ufólogos em prol da seriedade científica, logrou estabelecer a disciplina da Xenologia.

O florescimento dessa disciplina fez com que os ventos da mudança começassem a soprar sobre os solos férteis da comunidade científica brasileira.  Responsável por uma economia em franca expansão e uma estabilidade política aparentemente sólida, o governo criou o Instituto de Estudos Xenológicos.  Na época, Geraldo concluía seu doutorado em Berkeley e não pensou duas vezes antes de aceitar o convite para trabalhar e lecionar na primeira instituição nacional de pesquisa xenológica.

Ao longo de 1999, Geraldo e seus colegas arregimentam uma equipe de pesquisadores que em pouco tempo se tornou uma das mais respeitadas da disciplina.  Criaram seu próprio periódico acadêmico, o Xenoestudos, cujos artigos gozavam do respaldo da comunidade xenológica internacional, sendo traduzidos e republicados nas melhores publicações norte-americanas e europeias da área.

O Brasil caminhava a passos largos há quase uma década rumo ao tão almejado desenvolvimento e, em termos de pesquisa xenológica, o nível do trabalho no IEX se equiparava ao padrão de qualidade das melhores instituições de pesquisa do hemisfério norte.  Portanto, não foi de se estranhar que, em começo de mandato, o governo Erundina associasse os progressos notáveis da pesquisa xenológica brasileira com o desenvolvimento formidável do país.  Aliás, neste sentido, seu antecessor, José Genoíno, indicara o caminho.  Para os xenologistas, a grande vantagem dessa associação íntima entre ciência e política foi um fluxo de verbas caudaloso e ininterrupto.  Uma das consequências naturais dessa política científica engajada foi a filiação de quase todos os pesquisadores e funcionários do IEX ao Partido dos Trabalhadores.

Então, quase da noite para o dia, as coisas começaram a mudar para pior.

Em 19 de janeiro de 2001 dá-se o golpe militar malfadado, que interrompe a trajetória de progresso e prosperidade social brasileira rumo ao mundo desenvolvido, mergulhando o país em mais um período de caos.  Depois de uma década e meia de democracia plena, a nação reafirma seu pendor para a ditadura.  Pretensamente sobretaxados, os líderes do capital financeiro se associaram aos setores descontentes com as mudanças implementadas pelos governos petistas para promover o golpe.  Uma parcela considerável dos efetivos das Forças Armadas apoiou essas elites descontentes.  Consequência lógica da insatisfação com os cortes sucessivos nos orçamentos de suas pastas.

À primeira vista, a derrubada da presidente e o fechamento do congresso desabaram sobre as cabeças dos cidadãos como se houvessem surgido do nada, autêntico raio em céu aberto.  Contudo, analisando a posteriori, Geraldo conclui que já havia sinais de descontentamento com as mudanças em diversos setores da elite e da classe média alta.  Imerso em meu mundo perfeito de pesquisa científica e felicidade conjugal, ele só percebeu o contexto desfavorável quando já era tarde demais.

É claro que houve reações.  Passado o aturdimento inicial, os focos de resistência no campo e nas cidades do interior assumiram proporções de autênticas guerras civis.  Na Região Sul, a história foi diferente.  Governantes e governados não colocaram o rabo entre as pernas como no resto do Brasil.

Apoiados pelo grosso de suas populações civis e pelos fortes efetivos militares estacionados em seus estados, os governadores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina resistiram ao golpe.  Diante do impasse, o governo revolucionário optou pelo envio de tropas federais do Rio, de Minas e de São Paulo para o Sul.  Como a medida de intimidação só resultou para acirrar os ânimos, deu-se o confronto do Exército e a FAB com as forças mobilizadas pelos governadores legalistas.  No fim, depois de várias idas e vindas, substanciadas por milhares de baixas de ambos os lados, lá pelos fins de março os sulistas lograram deter o avanço das tropas federais na fronteira sul do Paraná.  Sob os protestos da junta militar recém-empossada em Brasília, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina oficializaram suas secessões da União e se fundiram para estabelecer ou melhor, restabelecer, a República Piratini.  Mais tarde, o estado do Paraná se integraria à nova república.

A xenologia nacional pagou caro pelo apoio entusiástico que o antigo governo democrático lhe prestara.  Já nos primeiros dias de seu mandato, a junta militar declarou que o apoio do PT à xenologia em geral e ao IEX em particular constituía uma “simbiose imoral”.  A analogia estabelecida de forma tácita por Genoíno, mais tarde explicitada por Erundina, do avanço brasileiro em xenologia com o progresso social em outras áreas se converteu na ruína dos estudos xenológicos no país  Para os militares tacanhos, a crença na existência de civilizações alienígenas era “coisa de contrarrevolucionário”.

O regime militar prepara um atentado contra Geraldo, mas é a esposa dele e a filhinha que perecem em seu lugar.  O xenólogo logra obter provas da autoria do atentado, mas acaba internado em uma clínica psiquiátrica e permanece sob tratamento durante vários anos, sendo declarado “curado” e, portanto, liberado apenas em 2008.

Uma vez em liberdade, Geraldo passa a residir em Serrinha do Lambari, onde cuida do sítio de seu padrinho, enquanto se esforça para reconfigurar sua vida estilhaçada, unindo os cacos restantes do seu passado no caos distópico do seu presente.

Enfim, cumpre alertar que, para além de história alternativa, “O Preço da Sanidade” constitui, sobretudo, uma narrativa de primeiro contato entre humanos e alienígenas, conquanto essa temática fuja ao escopo do presente trabalho.

[1]  A divergência desse conto talvez resida em atitudes mais inteligentes e pragmáticas da diplomacia imperial, ao acordar tratados de fronteiras e direitos de navegação com Carlos Lopez, presidente vitalício do Paraguai.  Esses acordos impedem que o filho do ditador, Solano Lopez, iniciasse a Guerra do Paraguai.  Talvez, consista na libertação dos escravos, implementada muito mais cedo por Dom Pedro II nessa linha histórica alternativa.

[2].  Gíria proposta pelo autor para os passarolistas, selecionados, como os jóqueis das corridas de cavalos modernas, essencialmente pelo peso reduzido e pela baixa estatura.

[3].  Victor Frankenstein estudou na Universidade de Ingolstadt.  Lá frequentou as aulas de Química do Professor Waldman.  Aliás, em “A Extinção das Espécies” é feita uma breve referência-homenagem à trama do romance de Mary Shelley.

[4].  Em nossa linha histórica, o apresamento de um navio homônimo (levando a bordo o recém-nomeado presidente da Província de Mato Grosso) ordenado por Solano Lopez constituiu um dos estopins da Guerra do Paraguai.  Aliás, por falar em navios, mais tarde, Gibson comenta com Fumaça que um estaleiro imperial estaria concluindo a construção do navio porta-balões Rio de Janeiro, para ser empregado contra a Marinha Espanhola no Mar do Caribe.

[5]  É de se imaginar que Einstein tenha elaborado sua Teoria da Relatividade Restrita e quiçá também a Teoria da Relatividade Geral mais cedo, como pré-requisitos necessários para os avanços teóricos que possibilitaram a abertura de portais dimensionais.  Contudo, se em 1900 Albert Einstein era um jovem de 21 anos, fica a pergunta: com que idade ele teria lucubrado a TRR?

[6].  Não houve Guerra do Paraguai nessa linha histórica alternativa.  Por outro lado, os Estados Confederados da América venceram a Guerra de Secessão e, décadas mais tarde, travaram uma Guerra das Guianas contra o Império.  Pelo visto, Castro propõe um cenário alternativo com múltiplos pontos de divergência: Marte Alternativo; Vitória Confederada; e Império do Brasil Alternativo.  Em 1900, desenrola-se uma Guerra Fria entre o Império e os Estados Confederados, incrementando ainda mais o progresso tecnológico nessa LHA.

[7].  Pterossauros, mas não pterodáctilos, como sugere o título, pois esses últimos constituíam répteis alados com as dimensões de um pombo atual.

[8].  Imagina-se que o protagonista, Felipe Evangelista, seja descendente de Irineu Evangelista de Sousa, o primeiro Barão de Mauá (mais tarde Visconde).  Contudo, ao contrário do que acontecia na maioria das monarquias europeias, no Império do Brasil os títulos nobiliárquicos não eram hereditários.  Assim, o filho de um barão era um plebeu.  Se esse filho plebeu também fosse eventualmente guindado à nobreza por merecimento real ou suposto, provavelmente receberia um título diferente daquele pertencente ao pai.

[9].  O autor dá prosseguimento às aventuras do matador paranormal Jerônimo Trovão e seu filho Deuteronômio, agora homem feito, no romance fix-up E de Extermínio (Draco, 2015).  A noveleta inicial constitui a primeira das quatro partes da narrativa que se desenrola entre 1936 e 1948.  Sob regime republicano, o Brasil alia-se ao Terceiro Reich, provocando uma invasão norte-americana em vários trechos da costa brasileira e o bombardeio maciço do Rio de Janeiro em plena Segunda Guerra Mundial.

[10].  Vivíamos no século XX: não havia limite fixo quanto ao número de palavras.  A inexistência de tal limite gerou algumas situações inusitadas.  O regulamento foi publicado na IAM # 06.

[11].  Seria maravilhoso poder afirmar que o primeiro passo na produção desse universo ficcional foi o esboço de uma linha histórica alternativa.  No entanto, não foi bem assim que as coisas se deram.  Cumpre confessar que o primeiro passo foi desenhar um mapa da América do Sul Alternativa que teria surgido como consequência da vitória paraguaia no conflito que, naquela LHA, era referido como “Guerra da Tríplice Aliança”.

[12].  Fontes contemporâneas estimam o efetivo do Exército Paraguaio no início da Guerra da Tríplice Aliança como algo entre 80.000 e 100.000 soldados.  Cifra impressionante, quando se leva em conta que a população paraguaia girava em torno de 400.000 habitantes.

[13].  Em nossa linha histórica, os navios, canhões e fuzis passaram às mãos brasileiras, quando os emissários imperiais “completaram” o restante dos pagamentos às fábricas de material bélico e estaleiros europeus.

[14].  Carabina militar Spencer, então em uso no Exército dos Estados Unidos da América, modelo 1865, calibre ponto 56-50.  Sistema de municiamento rápido através de cilindro de carregamento com capacidade para sete cartuchos.

[15].  Albuquerque era fã dos romances de ciencia fictícia de Daniel Alvarez.  No entanto, julgava tratar-se de um autor paraguaio.  Alvarez fora agraciado três vezes com o Cortázar, premiação máxima do gênero.  O físico lamenta que o cientista fictício não escrevesse histórias alternativas, mas apenas ciencia fictícia convencional:

“Sempre o imaginara como um sujeito mais velho.  Não esse rapazote metido a agente secreto, que só deve escrever CF nas horas vagas.  Só que não era bem assim.” — Conclui no instante seguinte. — “Pela qualidade e volume da produção literária de Alvarez, eu me arriscaria afirmar que ele brinca de agente germânico nas horas vagas.  Um cientista fictício germânico escrevendo com pseudônimo paraguayo…  Enfim, o mercado editorial de CF tem razões que a própria razão ignora.”

Cenários Alternativos Lusófonos II

Guerras Inexistentes e Conflitos Alternativos

Embora o conto “O Colosso de Bering” (2006), de Carlos Orsi Martinho, comece no futuro, onde os planetas do Sistema Solar já foram colonizados,[1] boa parte da ação se desenrola no ano 1908 de uma linha alternativa que divergiu da nossa linha histórica em 1884, quando, durante a Conferência do Meridiano Internacional em Washington, a França logra impedir a escolha de Greenwich como meridiano de origem.  Em prol da neutralidade, define-se Bering como o meridiano de longitude zero.  De algum modo, essa iniciativa alterou outros parâmetros do sistema internacional de medidas, a ponto de a hora agora possuir cem minutos e cada minuto cem segundos (hora cosmopolita), o ano contém nove meses de quarenta dias, com cinco dias adicionais de feriados (seis nos anos bissextos), e assim por diante.

A narrativa inicia com o narrador reencontrando o amigo Tomio Arakaki, um físico brasileiro de ascendência nipônica que havia morrido dez anos atrás em um acidente.  Tomio revela que após o acidente, despertara à noite mergulhado no mar gélido.  Pouco mais tarde é resgatado por um navio que conduz refugiados russos rumo ao Estreito de Bering, onde se situa o tal colosso do título, uma estátua descomunal erigida num território neutro administrado pelo Bureau da Longitude de Paris-Rio de Janeiro.  O físico descobre que o Império Russo está em guerra contra o Império Nipônico, porque os japoneses ainda insistem em manter o meridiano de Quioto como origem das longitudes.

Tomado por espião japonês, o físico é interrogado e torturado por agentes do Bureau.  Enfim, o prisioneiro começa a desconfiar que o Bureau é um organismo internacional bem mais poderoso do que parece.  Quando o Japão capitula, desistindo do meridiano de Quioto em favor de Bering, Tomio começa a ser mais bem tratado.  No entanto, é atraído para uma armadilha preparada por um terrorista infiltrado no Colosso.  Ao perecer na explosão, desperta em Buenos Aires da nossa linha histórica meros dez anos depois da época de sua primeira morte.

Narrativa original, enxuta e bem escrita.  No entanto, os eventos se dão de forma algo gratuita.  Parece falar certa coerência ou sentido.  AH-Lite?  Pode ser.  De qualquer modo, tremendo samba do relógio doido.

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Em sua noveleta “Uma Sombra do Passado” (201?), Daniel I. Dutra mostra o que acontece quando a mente de Adolf Hitler é transferida para o cérebro de um emigrante alemão no Rio Grande do Sul.  Nessa trama instigante e original, o autor advoga ainda o restabelecimento da República Piratini no sul do Brasil.  Aliás, a ação se passa num Rio Grande do Sul independente.  O ponto de divergência se dá em 1919, quando Adolf Hitler emigra para o sul do Brasil.  Algures na década de 1930, Luís Carlos Prestes logra implantar o regime comunista no país.  Em reação, em 1935, Getúlio Vargas proclama a independência do Rio Grande do Sul e desencadeia a Segunda Guerra dos Farrapos, com o apoio da França e da Grã-Bretanha, interessadas em conter a expansão do comunismo na América Latina.  Durante a guerra, o Brasil conta com o apoio da União Soviética e da República Socialista da Alemanha.  Após cinco anos de conflito, a independência gaúcha é finalmente assegurada em 1940.  Enquanto isto, Luís Carlos Prestes consolida o comunismo no resto do Brasil.

A narrativa é apresentada por Marcos Dorneles Vieira, psiquiatra responsável por estudar o caso sui generis do emigrante Adolf Hiedler, que se afirma governante de um Terceiro Reich Alemão que nem sequer existe naquela linha histórica alternativa.  Hiedler e a esposa Stefanie haviam emigrado para o Brasil em 1919.  Residente em Porto Alegre, Hiedler obteve trabalho como ilustrador do jornal de língua germânica, o Vaterland.  Hiedler incorpora a personalidade do Adolf Hitler da nossa linha histórica em julho de 1942.

À medida que o tratamento de Hiedler prossegue, o psiquiatra se convence cada vez mais de que existe um fundo de verdade nas histórias estapafúrdias que o emigrante lhe descreve.  No clímax da noveleta, o autor exibe uma explicação plausível e imaginativa para a estranha síndrome do ilustrador.

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“O Espírito, a Água e o Sangue” (201?), de Flávio Medeiros, é uma noveleta bem escrita, de porte avantajado, quase uma novela.  Em termos de taxonomia do subgênero, constitui uma narrativa de evento alternativo.  Além disso, constitui um cenário de Canudos Alternativo bem mais consistente e verossímil do que o descrito no romance A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga.  Ao transformar a figura histórica de Antonio Conselheiro em personagem literário, Medeiros respeita a integridade da personalidade desse líder carismático do início da República.

Até a metade dessa narrativa na terceira pessoa, cujo foco narrativo se situa na figura de Euclides da Cunha, os elementos de história alternativa em geral e de steampunk em particular se mantêm atenuados, praticamente ocultos à percepção do leitor.

O Tenente Tasso Fragoso é o emissário do Governo, responsável pela negociação com os revoltosos de Canudos.  Em troca da integridade física do Marechal Carlos Machado de Bittencourt, mantido como refém no povoado rebelado, Fragoso concorda em fornecer alguns gêneros de primeira necessidade aos rebeldes.  Mais tarde, propõe facilitar a execução de um projeto de irrigação em Canudos, em troca da libertação do marechal.  O projeto é chefiado pelo engenheiro inglês John Withmore.  Contudo, o anglo-saxão nutre seus próprios planos para auxiliar os rebeldes e esses consistem em construir tanques de guerra in situ para combater as forças do Exército que cercam a comunidade.  Só que Tasso Fragoso também possui suas próprias cartas na manga.  A solução do conflito é algo deus ex machina, porém, em seu todo, essa quase novela exibe uma narrativa enxuta, satisfatória e divertida.

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“Ad Finem Fidelis” (201?), de Lídia Zuin, é uma noveleta com elementos marcadamente dieselpunks cuja ação se desenrola em um cenário alternativo nazista delineado com pinceladas algo surreais.  A trama se passa numa Alemanha Nazista Alternativa, embora o ponto de divergência não apareça explicitado, como é praxe em diversas narrativas do sub-subgênero steampunk e seus congêneres.

A autora estabelece um clima de mistério, numa trama seca e econômica, em que poucas explicações são fornecidas.  A protagonista é a noviça órfã Katya Liebrein, retirada do convento onde vivia, com a conivência das freiras, por um homem misterioso, que se apresenta como Joseph, sob a alegação de que sua mãe havia morrido e ela precisava cuidar da herança.  A bordo de um automóvel negro, Joseph e Katya são conduzidos até uma estação ferroviária e dali embarcam no trem que os levará até a cidade de Tiliae, onde se instalam numa hospedaria próxima à estação.

Joseph envolve Katya em seus planos para eliminar oficiais do alto escalão do Partido Nazista, empregando a beleza e a juventude da moça como chamariz para atrair suas vítimas para armadilhas fatais, em uma trama que avança num crescendo até o clímax do duelo contra um general ciborgue.

Linha Histórica Alternativa dos Três Brasis

As análises das narrativas dessa linha histórica alternativa criada por este autor serão apresentadas pela ordem cronológica interna, isto é, não pela ordem em que as narrativas foram escritas e publicadas, mas sim pela época em que a ação de passa, caminhando, naturalmente, do passado em direção ao presente.

Embora as narrativas ambientadas nessa linha alternativa constituam obviamente trabalhos de ficção, as nações citadas ao longo do dos contos, noveletas e novelas realmente existiram na época do Brasil-Colônia.  Tanto a República de Palmares quanto Nova Holanda persistiram durante várias décadas no nordeste brasileiro do século XVII, se bem que não exatamente nos moldes esboçados pelo autor.

A República — na verdade uma confederação de quilombos e mocambos — teve seus alicerces lançados nos primeiros anos daquele século.  Os relatos de uma expedição comandada por Bartolomeu Bezerra por volta de 1605 já nos falam da existência de um mocambo de negros rebelados no alto da Serra da Barriga, no atual Estado de Alagoas, àquela época parte da Capitania de Pernambuco.

No início das Invasões Holandesas, aproveitando os conflitos e escaramuças entre as forças regulares holandesas e a guerrilha luso-brasileira, bem como a interrupção das atividades produtivas coloniais, consequência natural de um conflito dessa intensidade e duração, grande parte do contingente de escravos dos engenhos de açúcar da Capitania de Pernambuco fugiu das senzalas para engrossar a população de Palmares.  Essa confederação de quilombos coligados persistiria como nação independente por todo o século XVII — um autêntico Estado dentro do Estado; um outro Brasil, negro e livre, existente no interior do Brasil Colonial Luso habitado por brancos de ascendência europeia, ameríndios de diversas etnias e escravos de origem africana.

Já Nova Holanda existiu por menos tempo.  Embora tenha deixado marcas indeléveis na memória do Brasil Colonial, a permanência dos holandeses no país limitou-se a um período de pouco mais de trinta anos, desde a conquista efêmera de Salvador em 1624, passando pela ocupação da região do Recife e de boa parte do litoral nordestino, até a capitulação definitiva das forças holandesas em 1654.

A fase mais brilhante da existência de Nova Holanda se deu sob o governo do Stadhouder Johann Moritz, conde de Nassau-Siegen, que ficou conhecido no Brasil como Conde Maurício de Nassau.  Estadista perspicaz, Nassau conseguiu em certa medida conciliar os interesses de comerciantes e militares holandeses protestantes com os dos senhores de engenho luso-brasileiros e do clero católico.  Homem de visão e empreendedor, Nassau aterrou uma área pantanosa próxima ao Recife para construir um novo bairro, a cidade Maurícia, onde instalou as sedes da administração de Nova Holanda e dos escritórios da Companhia das Índias Ocidentais.  Em poucos anos, boa parte da classe abastada da capital da colônia se mudaria para lá.  Também data da época de Nassau, a construção no Recife do primeiro observatório astronômico do hemisfério sul.

O regresso de Nassau à Europa marca o início da decadência de Nova Holanda.  Apesar disso, levou ainda cerca de uma década para que os luso-brasileiros lograssem expulsar definitivamente o invasor.

Com o declínio econômico de Nova Holanda, o governo das Sete Províncias Unidas e a direção da Companhia das Índias Ocidentais propuseram a Nassau que regressasse ao Brasil no comando de navios e exércitos, para restabelecer a ordem e recuperar a produção açucareira, enfraquecida no período imediatamente posterior à partida do stadhouder.

A princípio, Nassau teria concordado com a ideia do regresso ao Recife, mas impôs como exigência que lhe concedessem poderes absolutos para governar a colônia, além do comando de um contingente militar superior em homens e navios àquele que a Companhia parecia disposta a financiar.

Diante do impasse, Nassau teria recusado a proposta de regressar ao governo de Nova Holanda.  O resultado dessa recusa faz parte de nossos livros de história.

O ponto de divergência dessa linha alternativa é exatamente o resultado diverso para tal impasse.  E se Nassau ou a Companhia se houvessem mostrado menos intransigentes e acabassem chegando a um acordo?  Nassau teria regressado ao Brasil para retomar a obra deixada pela metade.

Em nossa linha histórica, após a partida de Nassau, os holandeses empreenderam duas investidas militares contra a Confederação de Palmares.  Dois malogros completos.

Após seu regresso na linha alternativa, quem sabe Nassau não teria adotado uma atitude mais sábia e pragmática que a de seus antecessores, dando ouvidos à velha máxima da estratégia militar que afirma que “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”.

Quando se propôs a escrever narrativas de história alternativa sobre uma Confederação de Palmares que houvesse vingado, a ponto de persistir até hoje, não apenas como nação independente, mas como potência mundial, este autor esbarrou na questão da plausibilidade histórica: como justificar que os palmarinos pudessem competir com os luso-brasileiros de igual para igual, acabando por sobrepujá-los em seu próprio jogo?  Pareceu claro desde o início que os quilombolas só teriam chance de sucesso a longo prazo nesse jogo de equilíbrio político delicado, caso dispusessem de uma estratégia eficaz para absorver algumas das melhores “virtudes” das culturas europeias.

Com este objetivo em mente, escolhi meu ponto de divergência, o evento crucial a partir do qual essa linha histórica fictícia se desviaria da história real que aprendemos na escola.  Esta divergência é justamente a hipótese do regresso de Nassau ao Brasil em 1647 no comando de um grande exército e uma Armada poderosa.  Reassumindo o governo de Nova Holanda, Nassau perceberia a conveniência de tentar uma aliança com a República de Palmares contra o inimigo comum luso-brasileiro.

Não se pretende discutir no âmbito desse cenário de história alternativa se a referida aliança funcionaria ou não a longo prazo.  O essencial é que, uma vez assumida a premissa, o argumento da sobrevivência de Palmares como nação independente se torna bem mais verossímil.

E quanto aos filhos-da-noite?  Afinal, segundo as más-línguas, há vampiro nesta história.  Onde o Povo Verdadeiro em geral e Dentes Compridos em particular se encaixariam neste cenário histórico alternativo?

Bem, a história do Povo Verdadeiro, desde sua gênese mítica até as guerras secretas contra o Império Inca, assim como a história do filho-da-noite Dentes Compridos — desde sua fuga das grutas ancestrais até a caçada noturna na Londres vitoriana e, mais tarde, seu confronto com um superoperativo brasileiro fora da Terra — não constituem tópicos de história alternativa per si.

Dentro do campo de ação deste universo ficcional, as aventuras de Dentes Compridos devem ser encaradas antes como fragmentos de história oculta, isto é, conjuntos de eventos que, embora ausentes de nossos livros de história, poderiam ter ocorrido essencialmente da maneira como foram descritos, sem a necessidade de uma divergência e, portanto, de uma história alternativa.  Embora a história não aconteça exatamente como aprendemos na escola, ninguém a não ser o leitor saberia disso.

Ainda assim, este autor crê que as narrativas ambientadas nessa linha histórica alternativa que exibem as aventuras do filho-da-noite Dentes Compridos devam ser lidas, sobretudo, como peças de história oculta que têm no vampirismo científico[2] sua temática principal.  Contudo, é inegável que também se trata de uma história oculta inserida num panorama mais amplo de história alternativa.

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A novela “Crepúsculo Matutino” (2014) não constitui história alternativa per si.  É, antes, uma narrativa de ficção científica e também uma história oculta que possui no vampirismo científico sua temática principal.  Contudo, é ambientada no cenário de história alternativa Três Brasis e fala da gênese factual e dos Mitos de Criação do Povo Verdadeiro, também conhecidos como filhos-da-noite, humanoides hematófagos que evoluíram como nossos predadores.  Mostra o apogeu e a queda dessa cultura não humana na América do Sul pré-colombiana, a guerra secreta que travaram contra o Império Inca e a fuga em marcha lenta do jovem filho-da-noite Dentes Compridos Brasil Colonial adentro, até trombar, dois séculos mais tarde, com os bantos da Confederação de Palmares, então já sob forte influência cultural de Nova Holanda.

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A novela “O Vampiro de Nova Holanda” (1998) foi o primeiro trabalho escrito nesse cenário histórico alternativo, aquele para o qual o universo ficcional foi estabelecido.  É a narrativa dos primeiros anos de Dentes Compridos como agente secreto da Confederação de Palmares.  A ação se desenrola por volta de 1675, época em que ele atua no Recife — cidade que, nessa linha histórica alternativa, permaneceu sob o domínio holandês e se tornou não só uma grande metrópole, mas também o maior porto açucareiro do mundo.  Zumbi e Andalaquituche, os dois sobrinhos primogênitos do rei Ganga-Zumba, disputam sobre como dispor dos talentos invulgares do filho-da-noite.  O segundo leva a melhor, mas a crise eclode quando uma sucessão de crimes hediondos com cadáveres exangues se desenrola nas cercanias do porto do Recife.  Os palmarinos não se perturbam com a chacina, até que o maníaco escolhe uma noiva de Palmares por vítima.  Naturalmente, Dentes Compridos é cogitado como principal suspeito e, em seu encalço, além do serviço secreto da Confederação, partem um espadachim gascão que se afirma filho de Cyrano de Bergerac; uma princesa banta recém-chegada de África; e o comissário de política Van Helsing, responsável pelas investigações criminais na Cidade Maurícia.

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A novela A Traição de Palmares (1999) descreve as aventuras de um fidalgo lusitano enviado aos Brasis para propor que a Confederação abjurasse sua aliança de quase quatro décadas com Nova Holanda em favor do reconhecimento formal de sua independência por parte da Coroa de Portugal.  Por conta desse acordo, Palmares alia-se aos luso-brasileiros e declara guerra aos holandeses.  Uma narrativa de história alternativa sem a presença do último dos filhos-da-noite.  Embora a ação da novela se dê em fins do século XVII, seu epílogo se passa em 1986, quando o ministro das ciências da Primeira República profere um discurso crucial na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, na mesma época em que Brasil e Palmares disputam a posse definitiva da Taça Jules Rimet, conforme descrito quando da análise da noveleta “Pátrias de Chuteiras” (1998), na seção Futebol Alternativo.

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“Capitão Diabo das Geraes” (2000) é a quinta narrativa escrita na linha alternativa Três Brasis,[3] embora se insira cronologicamente cerca de sete décadas após o clímax de “A Traição de Palmares” (que ocorre com o reconhecimento da independência de Palmares) e quase um século e meio antes do confronto entre um vampiro e um lobisomem bastante heterodoxos na Londres vitoriana de “Assessor Para Assuntos Fúnebres”.  A ação agora se passa na província das Minas Geraes lá pelos idos de 1750.  Mais especificamente, no Distrito Defeso do Tijuco, onde a vontade do contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira é a lei em nome de El-Rei e onde a mulata Chica da Silva reina inconteste no coração do contratador.

João Fernandes está às voltas com o descaminho e o roubo dos diamantes das lavras do Tijuco.  Ele suspeita que os crimes sejam perpetrados por salteadores a mando de Palmares ou de Nova Holanda, respectivamente a única nação independente do continente americano e a mais rica das oito Províncias Unidas — duas forças aliadas em sua inimizade comum à Coroa Portuguesa; dois Estados firmemente estabelecidos no nordeste brasileiro, algumas poucas centenas de léguas a norte das Minas Geraes.

O Capitão Diabo do título é o líder do bando de salteadores que atemoriza o Tijuco.  Torna-se claro desde o início que se trata de uma nova identidade do mesmo personagem que protagonizou duas outras noveletas da série.

A Coroa Portuguesa ordena ao contratador que financie a guerrilha dos colonos iorubas que se haviam fixado na província palmarina da Bahia do Norte duas gerações atrás.  Os guerrilheiros possuem motivação religiosa, pois, ao contrário dos bantos palmarinos, quase todos convertidos ao cristianismo, os iorubas insistem em se manter fiéis aos cultos de seus ancestrais africanos.  Como são os diamantes do Tijuco que financiam o esforço de guerra dos rebeldes, em represália ao apoio do contratador aos iorubas, Palmares envia salteadores para prejudicar ou interromper o fluxo de diamantes para a metrópole.  “Capitão Diabo das Geraes” é a narrativa do duelo de astúcias entre um filho-da-noite solitário imbuído da tarefa árdua de comandar um grupo de operativos militares travestidos de salteadores e um vida-curta dos mais sagazes, mas sempre disposto a dar ouvidos aos conselhos de sua Chica.

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A novela “Morcego do Mar” (2014) constitui a narrativa mais longa escrita nesse universo ficcional.  A ação se passa em 1775, época em que a Primeira República presta apoio aos rebeldes das Treze Colônias Inglesas em sua luta pela independência.  A história reúne outra vez os personagens João Fernandes e Anduro, criados em “Capitão Diabo das Geraes”.  Agora a serviço da Primeira República, Fernandes, vira-casaca e ganga branco de Palmares, é enviado junto com o velho amigo para as Treze Colônias em plena insurgência que culminaria na Guerra de Independência.  Uma vez lá, Fernandes e Anduro firmam tratados para apoiar a causa dos rebeldes norte-americanos.  O ganga branco se desespera ao descobrir que parte desse apoio, para além do fornecimento de armas, consiste em embarcar na Morcego do Mar, fragata da Marinha Palmarina sob o comando de José Meia-Noite, que não é outro se não seu velho desafeto, o Capitão Diabo.  Sob essa nova identidade, Dentes Compridos fará seu vaso engajar contra a frota da Marinha Real Britânica que conduz os reforços necessários para debelar a rebelião.

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A ação na noveleta “Consciência de Ébano” (2010) se desenrola na primeira metade do século XIX.  Palmares dispõe de uma malha ferroviária extensa, seus cientistas aceitaram há décadas a Evolução pela Seleção Natural como fato concreto e seus engenheiros começam a cogitar aplicações práticas para a eletricidade.  Nesse clima de avanços científicos e tecnológicos, Dentes Compridos, ora na pele do engenheiro José Trevoso, propõe a construção da primeira represa hidroelétrica da história em pleno rio São Francisco.

No entanto, nem tudo são flores nos rincões da Primeira República.  Pois essa também é a história de João Anduro, neto de João Fernandes e membro do Círculo de Ébano, organização secreta criada pouco antes de Palmares se tornar uma república para proteger o segredo da existência de Dentes Compridos.  Anduro é um mbundo de lealdades divididas.  Por um lado, prestou juramento para defender o filho-da-noite com sua própria vida.  Por outro, julga a proteção que a pátria faculta ao monstro imortal uma abominação e considera a dependência que a República desenvolveu em relação à eficiência mortífera do protegido um sacrilégio.  Esse dilema ético atroz é a mola que propulsiona a narrativa da noveleta.

 

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Fig. 18 — Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).

 

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A trama da noveleta “Assessor para Assuntos Fúnebres” (1997) transcorre durante um período de férias de Dentes Compridos na Londres vitoriana na penúltima década do século XIX, época em que o último filho-da-noite se envolve com as atividades literárias de Bram Stoker, autor de Drácula, e com a série de crimes hediondos perpetrada por Jack o Estripador.

Ambientada nessa época e local, num cenário alternativo em que a ciência e a tecnologia avançaram mais rápido do que na nossa linha histórica (apenas para situar: a embaixada palmarina em Londres é alimentada por um reator de fissão nuclear instalado em seu subsolo), a noveleta exibe ares ligeiramente steampunks, embora escrita mais de uma década antes do movimento ganhar corpo no panorama literário e cultural lusófono em geral e brasileiro em particular.

Essa narrativa também pode ser lida como mais uma abordagem da temática algo surrada vampiro-enfrenta-lobisomem, embora, no caso presente, nem o “vampiro” e nem o “lobisomem” se encaixem confortavelmente nas expectativas do melhores clichês do horror literário e, muito menos, cinematográfico.

Ao fim da noveleta, preocupado com a possibilidade de que a natureza do filho-da-noite se torne pública, o embaixador palmarino convence Dentes Compridos a pôr o horror de Bram Stoker de lado em prol da ficção curta escritas pelo proponente de um novo gênero literário, Mr. Herbert Wells.

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A novela “Azul Cobalto e o Enigma” (2012) foi de longe a peça mais difícil de escrever desse universo ficcional e por um motivo muito simples: pelo fato de se passar na época atual de outra linha histórica, em que a ciência e a tecnologia se desenvolveram mais rápido do que na nossa, a narrativa praticamente abandona as sendas da história alternativa propriamente dita para ingressar na seara da ficção científica hard.  É, portanto, a primeira narrativa no universo ficcional dos Três Brasis com mais cara de FC do que de história alternativa.  Este autor nutria dúvidas sérias se uma narrativa desse gênero funcionaria na prática.  Talvez essa incerteza ajude a explicar a hesitação em concretizar o sonho de mandar Dentes Compridos para uma aventura final no espaço interplanetário.  A oportunidade ideal surgiu com o projeto da antologia Solarpunk.

No posto de antagonista, o herói Jonas Aranha foi criado para assumir o papel de rival brasileiro à altura de Dentes Compridos e cumprir a nobre missão de encontrar e aniquilar o último representante do Povo Verdadeiro (ou quase).  Pois, em pleno século XXI, o filho-da-noite ainda constitui fonte de preocupações para a comunidade da inteligência militar brasileira.  Aranha é o Azul Cobalto do título: um oficial tetraplégico tornado em super-herói graças à sua armadura invencível, uma espécie de Homem-de-Ferro brasileiro alternativo.  Lógico que “Enigma” é como o Serviço de Inteligência Brasileiro designa seu pior inimigo.

Embora parte da narrativa de “Azul Cobalto e o Enigma” se passe na Terra, as cenas de ação mais intensas são ambientadas num satélite de Júpiter, num veleiro espacial e na estação orbital São Paulo.  O próprio o confronto crucial entre os dois “heróis” não ocorre em nosso planeta.

Além do herói brasileiro, “Azul Cobalto e o Enigma” marca o retorno de uma dupla de amigos escritores, Gilson Pellegrino e Carlos Fernandes, que já havia aparecido num conto desta linha histórica, “Gigante dos Pés de Barro”.[4]  Pellê e Fernandes agora se arvoram em investigadores, correlacionando dados para tentar provar a existência de um assassino serial indestrutível que vem atuando contra o Brasil há séculos.

“Azul Cobalto e o Enigma” foi publicada na Solarpunk, terceiro e último volume do projeto de triantologia punk sui generis que organizei para a Editora Draco.[5]

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O romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares (2014) foi montado pela reunião das narrativas “Crepúsculo Matutino”; “O Vampiro de Nova Holanda”; “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; e “Assessor Para Assuntos Fúnebres”.  A título de prólogo, inseriu-se o conto “A Noiva e o Vampiro”, que mostra a cena em que Dentes Compridos bebe a noiva de Palmares Tumarea, melhor amiga da princesa-sem-medo Amalamale, homicídio que desencadeia a trama da novela “O Vampiro de Nova Holanda”.

Ficções Alternativas

Publicado em outubro de 1995 na revista Dragão Brasil nº 11, o conto “Para Nunca Mais Ter Medo” de Fábio Fernandes talvez constitua a primeira ficção alternativa a empregar um Frankenstein Alternativo como tema.  O que se sabe ao certo é que foi a primeira frankensteiniana alternativa da literatura fantástica lusófona.  Porém, mais do que mera frankensteiniana brasílica, “Para Nunca Mais Ter Medo” constitui-se numa inusitada frankensteiniana carioca, pois o conto curto é todo ambientado na cidade do Rio de Janeiro.  Mesmo sem recorrer a cenas de ação, através de um corte do cotidiano, onde um homem considera o que teria acontecido se sua namorada não pudesse ser ressuscitada, o autor consegue transmitir o quão profundas foram as mudanças psicológicas e sociais numa civilização onde todos têm acesso às técnicas de ressurreição desenvolvidas por Victor Frankenstein.  Pronto.  Estava inaugurada a ficção alternativa brasileira.[6]

Muito mais complexa e animada do que “Para Nunca Mais Ter Medo” é a noveleta “Back in the U.S.S.R.” escrita por Fábio Fernandes na mesma linha ficcional alternativa criada para seu conto seminal e que foi publicada no fanzine Megalon 46 (Outubro 1997)[7].  Nesse mundo onde os mortos não costumam permanecer nesse estado muito tempo, John Lennon é ressuscitado após seu assassínio.  Para sua desdita, o novo Lennon logo percebe que se tornou um joguete nas mãos de seus benfeitores russos.  A nova vida não traz a paz e a tranquilidade almejadas pelo ex-Beatle.  Ele se envolve numa trama política perigosa, arriscando-se a morrer de novo, dessa vez para sempre.

O terceiro conto de Fábio nessa mesma linha alternativa, “O Nascimento do Livre Arbítrio”, publicado na revista Quark 11 (Abril 2000), trata do discurso proferido por Michael Foucault sobre as implicações políticas, históricas e sociais do Método Frankenstein.

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Em 1998, o carioca Octavio Aragão iniciou a Intempol, primeiro projeto multimídia e primeiro universo ficcional compartilhado da literatura fantástica brasileira.  Oito anos mais tarde, com o lançamento de A Mão que Cria, o autor assumiria novamente o papel de desbravador de novos caminhos do literatura fantástica lusófona ao publicar a primeira novela brasileira de ficção alternativa.

Embora a publicação de A Mão que Cria já lhe garanta o status de versão brasileira de Kim Newman, Aragão exibe a ousadia típica de Farmer, ao adotar como personagens principais não apenas o próprio Jules Verne, como ainda vários heróis, criaturas e super-heróis bem conhecidos da literatura e das histórias em quadrinhos.

No começo, o leitor é levado a crer que a divergência consiste tão somente numa revolução científica e tecnológica desencadeada em França na segunda metade do século XIX, quando o escritor Jules Verne assume suas ambições políticas, primeiro como prefeito de Paris e, mais tarde, na presidência da república francesa.  Se fosse só isto, a narrativa se limitaria a mais um cenário histórico alternativo steampunk.  Contudo, depois de certo tempo, ao longo da trama, o leitor mais perceptivo começará a intuir que a proposta do autor não é tão simples quanto pareceu no início.

As experiências assustadoras descritas em A Ilha do Doutor Moreau de H.G. Wells já não soam tão implausíveis assim.  A Marinha Francesa se equipa com submarinos modernos, cuja tecnologia “Nautilus Rapinantes” se inspira no famoso Nautilus, submersível proposto pelo Jules Verne da nossa linha histórica no romance Vinte Mil Léguas Submarinas.

Outra inspiração verniana é o sobrinho-neto do emérito Professor Otto Lidenbrock, líder da expedição descrita no romance Viagem ao Centro da Terra.  Axel Lidenbrock II desaparece na Sibéria ao investigar o enigma por trás da queda de um objeto incandescente misterioso em Tunguska, 1908.

Enquanto isto, o autor passa de Verne a Wells quando aborda a fusão das artes de “modelagem da carne” propostas por Moreau com as técnicas modernas de manipulação genética e também com a nanotecnologia.  Nasce assim uma espécie de criaturas híbridas, amálgama das características humanas com as dos golfinhos — uma estirpe cujo líder apresenta semelhanças instigantes com diversos humanoides anfíbios da ficção popular.

O grande antagonista é ninguém menos do que o famoso Ariano.  Só que, como o leitor já pode muito bem supor a esta altura, as coisas não são bem o que parecem.

A tecnologia nessa linha ficcional alternativa avançou mais rápido do que em nosso mundo, em grande parte graças à política científica visionária de Jules Verne, que abriu as portas e, sobretudo, os cofres, de França a cientistas, engenheiros e inventores, tanto nativos quanto estrangeiros.

Em A Mão que Cria, Octavio Aragão estabelece muito mais do que um mero universo ficcional alternativo.  No fundo, o que o autor propõe é uma nova tradição literária para o fantástico brasileiro.  Seguindo os passos de Farmer e Newman, bem como os do precursor lusófono Fábio Fernandes, ele se lança como principal paladino de um novo gênero literário no Brasil.  Um gênero fecundo, que já proporcionou colheitas magníficas noutras plagas.

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Em 2004, o decano da literatura fantástica portuguesa, João Barreiros, publicou o romance curto de ficção alternativa A Verdadeira Invasão dos Marcianos, constituído pela fusão da novela homônima, publicada originalmente em 1992 com a novela “Não Estamos Divertidos”.

O autor consegue amarrar com perfeição a trama de “Não Estamos Divertidos”, narrativa do jovem expedicionário H.G. Wells em Marte — acompanhado por Jules Verne, Edgar Rice Burroughs, John Carter e pelo Doutor Moreau — da expedição punitiva enviada pela humanidade ao planeta vermelho, após a invasão malograda à Terra (narrada em A Guerra dos Mundos, do próprio Wells) com a trama-explicação da invasão forjada, narrativa da novela homônima ao romance, elaborada por um cientista louco com o propósito de unificar a humanidade, tornando-a capaz de resistir ao assédio dos Galácticos, amálgama de civilizações alienígenas quase onipresente ao longo da obra de Barreiros.

Neandertal Alternativo

Considerado por muitos leitores como a melhor narrativa do universo compartilhado Intempol, a ponto de conquistar num ano disputadíssimo o segundo lugar na categoria Ficção do Prêmio Argos 2001, a novela “A Vingança da Ampulheta” de Fábio Fernandes não é uma história alternativa propriamente dita, mas antes, um trabalho de ficção científica com fortes elementos de história alternativa; como costumam ser, aliás, vários dos trabalhos que descrevem os esforços e as peripécias de agentes das patrulhas temporais para preservar a integridade de nossa linha histórica.

É justo nessa missão de manter nossa linha histórica nos trilhos corretos, banindo todas as linhas alternativas e pontos de divergência indesejáveis, que os agentes da Intempol “colidem” com Dualai, um cronoterrorista de origem misteriosa, que surge sempre nos locais mais inesperados; sobretudo, naqueles vulneráveis a divergências significativas, capazes de obliterar a história e a própria realidade “como nós as conhecemos”.

Só que Dualai não é um mero cronoterrorista, o tipo motivado por ideais políticos equivocados, por loucura ou simples idiotia.  É um crononauta neandertal, o último dessa estirpe, que logrou sobreviver ao genocídio perpetrado pelos humanos anatomicamente modernos, pelo simples fato de ter estado em trânsito temporal quando o holocausto se abateu sobre seu povo.

Ao tentar reverter a situação, restaurando sua própria linha histórica, apagada pela ação da Intempol, ou, quando não o consegue e decide se vingar dos exterminadores de sua gente, Dualai se transforma não em cronoterrorista, mas num guerrilheiro temporal, que luta de forma insana e desesperada pela sobrevivência de sua cultura.

“A Vingança da Ampulheta” é uma novela instigante, de enredo complexo e movimentado.  Sua trama repleta de reviravoltas admite a hipótese de se assumir a presença de Dualai como um elemento menor, uma pitada de tempero adicional num prato em si já delicioso.  Talvez seja assim.  Porém, é possível que Dualai seja mais do que isto.

Em primeiro lugar, Dualai é de longe o personagem neandertal mais interessante e mais bem construído da ficção científica lusófona.  Uma figura vívida e estimulante, ainda mais quando se leva em conta o quão tímida e imatura costuma ser a abordagem do alienígena, do robô ou, em termos genéricos, do outro, na literatura fantástica brasileira, sobretudo quando comparada com o que se faz lá fora.

Em segundo lugar, a ideia excitante e original do conflito entre duas linhas históricas antagônicas — uma neandertal e a outra habitada por humanos anatomicamente modernos — tem um potencial tremendo, do qual poderá germinar não um simples romance, mas todo um universo ficcional repleto de multilogias, haja vista o exemplo da trilogia do autor canadense Robert J. Sawyer, The Neanderthal Parallax, já abordada neste livro.

A proposta de Fábio Fernandes, no entanto, é ainda mais ambiciosa que a de Sawyer: “A Vingança da Ampulheta” não nos fala apenas do contato de duas linhas históricas, habitadas por espécies humanas distintas.  Pelo que se depreende da leitura da novela, havia originalmente duas culturas tecnológicas, a nossa e a neandertal.  Ambas capazes de viajar no tempo.  Num belo dia, uma delas — a nossa, representada no enredo do autor pelos agentes da Intempol — regressa dezenas de milênios ao passado e elimina a civilização rival no nascedouro.

O conceito subjacente à concepção de Dualai é formidável.  Merecedor de nota máxima nos quesitos originalidade e conteúdo.

Guerras Alternativas na Amazônia

Roberval Barcellos estreou profissionalmente com a publicação da noveleta “Primeiro de Abril” na Phantastica Brasiliana (2000).  Dos cinco cenários de história alternativa incluídos nessa antologia, a noveleta de Barcellos foi a única que propôs uma divergência recente: uma intervenção militar norte-americana no Golpe Militar de 1964 transforma o Brasil quase da noite para o dia num gigantesco Vietnã de 8,5 milhões de quilômetros quadrados; uma nação dividida em dois Estados rivais e castigada por uma guerra longa e sangrenta.  “Primeiro de Abril” é uma narrativa forte e convincente, bem embasada em fatos históricos de nosso passado recente e que esboça um quadro de plausibilidade terrível: o naufrágio da nação brasileira num maremoto político-militar; um país fragmentado por uma guerra civil de proporções continentais.

Boa parte da ação se passa na selva amazônica e o clímax transcorre na cidade do Rio de Janeiro.  A história do conflito é narrada por um veterano a um grupo de jovens brasilienses que preparam um trabalho de pesquisa escolar sobre os trinta anos do Contragolpe de 1964.  O trabalho de grupo faz com que o narrador, um veterano tanto da Guerra Civil Brasileira quanto da Segunda Guerra Mundial, rememore suas experiências como oficial subalterno servindo num comando de combate na selva sob as ordens de um certo Capitão Carlos Lamarca.

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Publicada em 2010, a novela de história alternativa Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo constitui um bom contraponto a noveleta de Roberval Barcellos.  A trama da novela é mais bem trabalhada do ponto de vista formal, com costuras e arremates da trama mais bem feitos.  A narrativa é na primeira pessoa e o narrador não é outro senão o próprio Roberto Causo.  Não o escritor e estudioso de ficção científica, mas um Terceiro-Sargento do Exército Brasileiro, um símile do autor na linha histórica alternativa postulada para a novela.

Tanto a estratégia narrativa de Causo quanto a de Barcellos possuem seus méritos e limitações.  O palco de “Primeiro de Abril” é mais amplo no tempo e no espaço: a ação se estende não apenas através dos anos, como se alterna entre a Amazônia e o Rio de Janeiro.  Já em Selva Brasil a ação se encontra circunscrita a um espaçotempo restrito.  Associada à narrativa na primeira pessoa, esta contenção torna mais suave o mergulho do leitor dentro da trama, facilitando o estabelecimento do propalado pacto da suspensão da incredulidade — acordo tácito que será estabelecido entre autor e leitor, desde que esse último consiga se identificar minimamente com o protagonista, fenômeno que de fato ocorreu com este leitor em relação à novela em pauta.

Enquanto a noveleta de Barcellos é uma história alternativa (claramente caracterizada como tal desde a abertura) com elementos de ação militar e suspense dramático, a novela de Causo é essencialmente uma história militar que também é marginalmente alternativa.  Marginalmente, no sentido de que boa parte da história (mas não a sua conclusão) poderia ser contada essencialmente da mesma forma sem o emprego de uma linha histórica alternativa.  A marginalidade em relação à história alternativa não constitui demérito ou tampouco inovação, sendo uma técnica experimentada vez por outra tanto por autores estrangeiros quanto brasileiros, este estudioso inclusive, como no caso de sua noveleta “O Preço da Sanidade”.[8]

No caso de Selva Brasil, ao longo da maior parte da narrativa, as nuances alternativas que realmente caracterizam a novela como tal ante o leitor comum — que supostamente não sabe que em nossa linha histórica Roberto Causo não é sargento do EB[9] — são sutis e dependem essencialmente do maior ou menor conhecimento que esse leitor possua dos modelos de armas e marcas de munições adotados pelas Forças Armadas brasileiras nas últimas duas ou três décadas.  No fim da novela, o autor explicita a narrativa como alternativa através do encontro entre dois amigos oriundos de linhas históricas diferentes, que a princípio nem sequer se reconhecem como tais.

O atestado definitivo de história alternativa, contudo, é emitido apenas sob a forma de um posfácio, onde o Causo-Autor emerge do texto para explicar as diferenças entre a nossa linha história e a linha alternativa, e para justificar a plausibilidade histórica de seu ponto de divergência — Se essa “emersão” produz uma fissura no PSI, não chega a causar sua ruptura total.  Embora posfácios e adendos desse tipo constituam lugar-comum na ficção científica, há estudiosos e autores de história alternativa que consideram tais artifícios verdadeiros atentados contra o subgênero.  Purismos e pruridos à parte, o que se deve questionar é se o posfácio se encaixou organicamente na história propriamente dita, ou se não passa de mera excrescência.  Este é o tipo de discussão em que cada leitor terá a sua opinião.  Na opinião deste leitor, o posfácio do autor de ficção científica da nossa linha histórica casou bem com a narrativa do Terceiro-Sargento Causo do EB alternativo.  Se o matrimônio não chega a ser perfeito, é ao menos harmonioso, bem mais do que se pode afirmar a respeito de vários romances de história alternativa escritos por autores estrangeiros laureados.

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Na noveleta de Barcellos o ponto de divergência situa-se justo em 1º de abril de 1964, quando os EUA intervêm no desenrolar do Golpe Militar, torpedeando várias belonaves da Marinha do Brasil.  A premissa inicial do argumento soa plausível, pois hoje sabemos que os norte-americanos de fato chegaram a arquitetar planos secretos de intervenção no Brasil daquela época.

Nessa linha histórica alternativa, a reação militar e popular à intervenção estrangeira é tão grande que o golpe fracassa e os rebeldes fogem para a Amazônia.  Lá, com apoio norte-americano, eles estabelecem um governo paralelo, fragmentando o Brasil em dois Estados antagônicos.

A questão discutível aqui é se os norte-americanos iriam tão longe em sua intervenção a ponto de provocar a secessão num país com as dimensões territoriais e a população do Brasil.  A questão crucial aqui é se eles estariam de fato dispostos a sustentar tamanho esforço de guerra durante tanto tempo e, sobretudo, se lograriam manter suas Forças Armadas engajadas simultaneamente na Guerra Civil Brasileira e no conflito do Sudeste Asiático.  Reparem, isto não equivale a afirmar que os EUA não teriam capacidade de orquestrar ofensivas simultâneas nesses dois teatros de operações tão distintos e até eventualmente conquistar a vitória em ambas as frentes.  O que se questiona é se os norte-americanos teriam vontade política de engajar nesses dois conflitos ao mesmo tempo.  Na Segunda Guerra Mundial, os EUA fizeram isto, em condições muito piores, em uma escala muito maior, e foram bem-sucedidos.  Contudo, naquela ocasião, eles não tiveram escolha.  Este não é o caso no cenário histórico alternativo de “Primeiro de Abril”, onde, ante as proporções do conflito brasileiro, os norte-americanos muito provavelmente não participariam da Guerra do Vietnã.  Ou, ao menos, não com a intensidade que o fizeram na nossa linha histórica.

Apesar empregar figuras históricas do Brasil recente como personagens,[10] “Primeiro de Abril” tem como protagonista Rubião, vulgo “Pracinha”, um veterano da Força Expedicionária Brasileira que, embora não seja exatamente um garoto, alista-se como voluntário no esforço patriótico para restaurar a integridade territorial brasileira.

“Primeiro de Abril” abre em 1994, nas comemorações do trigésimo aniversário do Contragolpe de 64.  Por solicitação de um sobrinho-neto que precisa fazer um trabalho em grupo, Pracinha — agora velho militar reformado — rememora seu envolvimento na guerra de guerrilha que os brasileiros “de verdade” travaram com os secessionistas norte-brasileiros pesadamente armados e treinados pelos EUA.  Seu comandante de pelotão é o Capitão Carlos Lamarca, que nessa linha alternativa acabará se revelando um herói nacional do porte de Antônio Vieira; Tiradentes ou Francisco Manuel Barroso.  Heroico ou não, Lamarca é visto apenas através da narrativa de Pracinha aos garotos.

No início da trama, o comando de Lamarca está em plena floresta amazônica (mas precisamente, no sul da Amazônia), engajado em uma série de ações de guerrilha contra um inimigo mais bem armado e organizado.  O General Guevara surge no meio da selva como conselheiro militar e, ante a sucessão de vitórias dos patriotas brasileiros, anuncia que chegou a hora de passar da guerrilha para a guerra convencional.  Lamarca é contra por suspeitar da ação de um traidor nos altos escalões do governo.  A nova estratégia é posta em prática assim mesmo, resultando em grave malogro militar.

Enquanto isto, devido a um envolvimento político espúrio em seu passado, Pracinha é removido à revelia da frente de combate.  Tempos mais tarde, já de volta ao Rio de Janeiro, ele é procurado por Lamarca, que lhe pede auxílio para capturar o tal traidor acima de qualquer suspeita, numa operação que nos conduz ao clímax da noveleta.

A narrativa é entremeada por comentários e perguntas dos alunos, um recurso válido para intercalar ação e explicação, além de uma solução aceitável para evitar a temível síndrome de “As you know, Bob…”, na qual um personagem explica a outro algo que esse outro já sabe, ou deveria saber.

No fim de “Primeiro de Abril”, apesar dos milhões de mortos na guerra fratricida, o Brasil está novamente unido numa só nação e emerge para o último quartel do século XX como um país mais forte e mais justo, um país do qual cidadãos de todas as idades sentem mais orgulho do que nós sentimos do nosso Brasil e, com justo motivo, visto que ao contrário de nossos pais e irmãos, os deles não compactuaram com a ditadura dos poderosos e tampouco se deixaram iludir ou intimidar pela máquina de propaganda dessa ditadura.

É possível se extrair outra mensagem do fim da noveleta: muitas vezes é mais fácil lutar contra o inimigo externo e o traidor declarado do que contra os populistas, e os falsos democratas existentes em nossa linha histórica.

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Selva Brasil se insere dentro dos thrillers militares amazônicos que se tornaram uma constante na obra de Roberto de Sousa Causo nas últimas décadas.[11]  O autor apresenta uma vez mais sua preocupação  ecológica com o desmatamento e a exaustão ambiental da Amazônia, bem como a questão dos índios brasileiros, abordada aqui mais ligeiramente do que nos outros dois trabalhos citados na nota de rodapé abaixo.  A crítica mais pertinente de Selva Brasil é a feita contra os maus militares que, embora tenham sido treinados para defender a pátria com o sacrifício da própria vida numa guerra de atrito que já dura mais de uma geração, acabam espoliando as riquezas naturais dessa mesma pátria por um monte de dólares.  Não é difícil traçar um paralelo entre esses maus militares alternativos e os servidores públicos da nossa linha histórica que tantas e tantas vezes colocaram e colocam seus interesses pessoais escusos acima dos interesses dos ideais que juraram defender.

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Em resumo, Selva Brasil e “Primeiro de Abril” são dois cenários de Amazônia Alternativa de fina estirpe, instigantes e merecedores de um lugar de destaque na jovem história do subgênero no Brasil.

Linha Histórica Alternativa Outros Quinhentos

O primeiro esboço dessa linha alternativa foi estabelecido pelo autor e crítico Antonio Luiz M.C. Costa por ocasião da publicação da edição especial da revista CartaCapital no aniversário dos quinhentos anos do Descobrimento do Brasil em abril de 2000.

O ponto de divergência proposto é que Dom Afonso V, décimo-segundo Rei de Portugal, apaixonasse-se por uma fidalga lusitana, Dona Ana, circa 1473, desistindo de seu plano de desposar sua sobrinha (Joana de Trastâmara, herdeira do Reino de Castela) na esperança de incorporar a coroa castelhana, subordinando-a à de Portugal.  Sob influência de Dona Ana, o rei estabeleceu uma política de tolerância religiosa, abrandando o tratamento dado às minorias judaica e moura residentes no Reino.

Em 1482, Cristóvão Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa.  No ano seguinte, em sua segunda viagem, Colombo estabelece contato com representantes do Império Asteca, então governado pelo Huey-Tatloani Ahuízotl.  Na terceira viagem, em 1487, explora as costas atlânticas do continente, navegando até a Patagônia.  Após o mapeamento, o Novo Mundo passa a ser conhecido sob o nome de “Colômbia”.

Décadas mais tarde, já no século XVI, os indígenas brasileiros desfrutam de uma relação mais harmoniosa com os colonos portugueses.  Uma característica dessa linha alternativa é que a revolução industrial eclode bem antes do que na nossa linha histórica.  Outro traço marcante desse cenário é o emprego extensivo de figuras históricas reais (e também personagens literários), exibindo-os em existências alternativas.

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“Outros Quinhentos” apresenta uma visão panorâmica dessa linha histórica alternativa.  Trata-se de um pseudofactual disfarçado de jornal infantil supostamente bilíngue, redigido em português e tupi, escrito para crianças de um Brasil Alternativo por Potyra Tapirapé Porandutepé.

Como se trata de um texto dirigido ao público infantil, a narrativa se dá em uma linguagem simples e acessível,[12] percorrendo toda a linha alternativa, desde o ponto de divergência já mencionado, até o fim do século XX, passando pela emigração da corte portuguesa para o Brasil em 1590; o estabelecimento de uma aliança tríplice entre o Reino de Portugal transplantado na América do Sul, o Império Inca e o Império Asteca; o advento da máquina a vapor em Sabará, em 1649; a reconquista de Portugal em 1670; a abolição da escravidão em 1695; a revolução científica e industrial precoce a partir da segunda metade do século XVII; os avanços da medicina moderna a partir da primeira metade do século XVIII; a proclamação da república em 1796; a Guerra Mundial (1865-1870); e a conquista espacial no início do século XX.[13]

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A trama da noveleta “O Padre, o Doutor e os Diabos que os Carregaram” (2013) começa em 1592, meros dois anos depois do transplante da corte portuguesa de Dom Sebastião I para o Brasil, após a invasão do reino pelas hostes da Santa Aliança organizada pelo Papa contra Portugal.

Além de assinar tratados de aliança com o Sapa Inca Túpac Amaru e o Huey-Tatloani Cuautémoc, aconselhado por seu chanceler Fernão Moro, com o propósito de garantir a integridade territorial brasileira contra invasores e piratas, Dom Sebastião I estabeleceu a estratégia de incorporar as nações tupis e guaranis à causa portuguesa.  Na prática, essa estratégia foi implementada com o auxílio de sertanistas e ex-jesuítas.

Uma dessas entradas civilizatórias é a comandada por Gabriel Soares de Sousa, Barão do Paraguaçu, que segue o curso do Rio das Contas até atingir a Chapada Diamantina.  De passagem pela taba de Jaçapucaia, os expedicionários ouvem relatos dos indígenas sobre a existência de uma estirpe de demônios que os nativos denominam “caaporas”.  Os indígenas de fala tupi praticariam escambos e conjunções carnais com os tais demônios.

Antes de seguir viagem rio acima, Soares de Sousa destaca o Doutor Sanches, médico e naturalista da entrada, e o Padre Cardim, narrador da trama, para estabelecer contato com os caaporas.  Os dois portugueses penetram na mata, com os tupinambás como guias.  O primeiro contato se dá de forma amistosa e a troca de presentes entre tupis e caaporas é celebrada com uma orgia da qual os portugueses não se furtam em participar.  Ao fim da bacanal, eclode uma luta entre indígenas e caaporas.  Esses últimos batem em retirada, sequestrando os portugueses em sua fuga.

Na aldeia dos caaporas, Cardim e Sanches são usados como escravos sexuais das fêmeas caaporas.  Os portugueses entabulam uma discussão de caráter teológico sobre a natureza dos caaporas.  Cardim afirma que são íncubos e súcubos dispostos submeter os humanos às tentações da carne.  Sanches julga que aqueles pigmeus esguios, de púbis hirsutos, orelhas compridas e pontiagudas, e olhos oblíquos grandes e negros, com íris ocupando toda a órbita ocular, constituem tão somente uma variedade distinta da espécie humana.  De concreto, concordam que os caaporas se deslocam tão à vontade como bípedes ou como quadrúpedes e que exibem um comportamento sexual extremamente libertino (um naturalista do século XXI talvez dissesse que a conduta sexual dos caaporas se assemelha a dos bonobos).

Enfim, os machos caaporas auxiliam os dois portugueses a regressar à taba de Jaçapucaia.  Algum tempo depois, eles relatam a descoberta da nova variedade de gente ao Barão do Paraguaçu.

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O conto “A Flor do Estrume” (2009) se passa um século e meio após a ação da narrativa anterior.  Balam Chan Chel, bióloga brasileira de origem maia, estudando as práticas da medicina tradicional de seu povo, desenvolve a penicilina, a pílula anticoncepcional e os preservativos no Instituto Butantã, na cidade de Piratininga.

A equipe coordenada pela Dra. Chel convida o empresário do ramo farmacêutico Brás Cubas a participar do projeto, emprestando sua reputação ao empreendimento de produzir antibióticos e contraceptivos em escala industrial.  Ante a possibilidade de se tornar muito mais rico do que já é, Cubas aceita o convite, mas um traidor rouba o frasco contendo amostras de penicilina do cofre dos laboratórios do instituto e o empresário se vê forçado a bancar o herói para evitar o pior.  Brás Cubas aparece sempre acompanhado do indefectível Quincas Borba, outro personagem machadiano que, nessa linha alternativa, é o principal defensor da doutrina filosófica do Humanitismo.

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Na noveleta “Ainda Além da Taprobana” (201?), o leitor acompanha um trecho da viagem de circunavegação terrestre do bergantim hidrográfico da Marinha Imperial Podengo, que conduz o casal de naturalistas brasileiros Carlos Roberto Zambi de Deus[14] e Eugênia Domingues, em companhia da artista ilustradora nipônica Yamazaki Ryujo.

O narrador é o aventureiro Alão Quartelmar[15], que serve de guia aos pesquisadores numa expedição ao interior da Ilha de Taprobana, detentora de um ecossistema único que inclui em sua fauna pterossauros, mamíferos ovíparos e dinossauros (referidos como “dragões” no enredo), inclusive, saurópodes gigantes e um carnívoro tiranossaurídeo, o gorgossauro.  A flora também é típica do Período Mesozoico.  Mesmo antes da expedição começar, Quartelmar e Ryujo se tornam amantes.

Já no segundo dia de expedição, o grupo se defronta com um casal de deinonicos emplumados.  Quartelmar abate o macho a tiro e Ryujo decepa a cabeça da fêmea com sua katana.  Logo em seguida, o quarteto é atacado por dois gorgossauros.  O aventureiro abate o menor deles, mas o outro dispara no encalço dos expedicionários.  Quartelmar e Eugênia rolam por uma ribanceira para escapar ao predador.  O grupo retoma viagem, porém, horas mais tarde, é capturado por um comando militar holandês da Companhia das Índias Orientais.

Os mercenários conduzem os expedicionários ao forte que mantêm no interior de Taprobana.  Quando a situação parece crítica, as coisas pioram ainda mais com a aparição inesperada de um monstro sauriano, tipo Godzilla.

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“Palestra de Lançamento” (2012) é uma narrativa no limite entre conto e noveleta.  Como o próprio título indica, trata-se da palestra ministrada pela escritora anglo-brasileira Emily Brontë na noite de lançamento de seu novo romance.[16]

Ao longo da palestra, a autora pouco fala da gênese do romance em si.  Prefere focar nos primeiros anos de vida no Brasil após a emigração da Inglaterra e sua adaptação aos modos e costumes mais liberais dessa sociedade brasileira alternativa.  Fala também de sua paixão adolescente pela amiga Bárbara e de seu trabalho de pesquisa biográfica sobre a juventude e as primeiras experiências sexuais e amorosas de Guataçara, avó de sua melhor amiga, Camapuã.  A anciã fora icamiaba (membro da tribo de índias guerreiras que não aceitavam a presença masculina em seu meio) quando jovem e prestou serviço militar no Império.  Mais tarde, lutou na revolução para derrubar o Imperador Dom João VI e proclamar a república.  Já adulta, Emily Brontë se torna a biógrafa oficial de Guataçara.

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A noveleta “Ao Perdedor, as Baratas” (2011) se passa coisa de sete décadas após “A Flor do Estrume”.  O protagonista da narrativa é Robbert, operativo infiltrado da Colômbia do Norte[17], enviado ao Brasil com a missão de interferir na eleição presidencial, de forma a evitar a vitória de um candidato socialista.  Como já se tornou praxe nesse universo ficcional, o autor veste figuras da nossa linha histórica — tais como Cosme Bento, Francisco Lima e Silva, Karl Marx e Richard Wagner — em roupagens um pouco (mas não demasiado) alternativas e os força a contracenar com personagens literários, no caso, de autoria de Oswald de Andrade, Ariano Suassuna e Franz Kafka.  Aliás, o autor brinda os leitores com uma explicação científica plausível para a metamorfose sofrida por Gregor Samsa.  Outro ponto alto é o teor de superciência da arma secreta que Robbert emprega no atentado que empreende, digno das revistas pulp da década de 1930, NLH.  O grosso da narrativa se desenrola na cidade de São Paulo, num clima, segundo o próprio autor, de Pauliceia Desvairada.

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A ação da noveleta “Era uma Vez um Mundo” (2012) se desenrola em 1929, época em que a primeira missão internacional tripulada chega a Marte, comandada por Luís Carlos Prestes e patrocinada pela agência espacial da União das Nações.  A trama não tem nada a ver com a conquista do espaço.  Ao contrário, trata do sequestro de Rosa Luxemburg, Primeira-Comissária da União das Nações, perpetrado por um grupo terrorista no dia da inauguração da primeira usina de fusão nuclear.

A narrativa abre com um holonoticiário ancorado por Patrícia Galvão, Pagu, polêmica e famosa tanto em nossa linha histórica quanto na linha alternativa de Outros Quinhentos.  A matéria principal do programa é a missão internacional a Marte.  No dia seguinte, após uma noitada com os dois outros componentes do seu ménage à trois, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, Pagu segue para Palmares em companhia do colega Guira.  Durante a coletiva de imprensa, os dois travam contato com o jornalista anarquista inglês George Orwell, pintado como um sujeito em guerra particular contra o sistema métrico decimal, e também com Monteiro Lobato, deputado brasileiro no Conselho da União.

Em meio a uma apresentação científica dos princípios do novo reator para a imprensa, radicais do Partido Futurista atacam, capturando vários VIPs como reféns, dentre os quais a Primeira-Comissária Luxemburg; o presidente brasileiro João Cândido e, naturalmente, Pagu e Orwell.  Os terroristas são comandados por Filippo Marinetti.  Entre seus integrantes constam Hitler, Franco, Mussolini, Salazar e Plínio Salgado.  Os radicais se insurgem contra o governo mundial, num mundo sem fome, guerra ou miséria, onde a queima de combustíveis fósseis é coisa do passado e a vigilância promovida através de câmeras automáticas concede segurança universal.

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A noveleta “Jaya e o Enigma de Pala” (2013) não constitui história alternativa, mas ficção científica convencional.  No entanto, a trama exibe a incursão de uma cidadã da linha histórica alternativa de Outros Quinhentos à Terra da nossa linha histórica.  Uma curiosidade semelhante em enfoque ao romance Drakon, onde uma viajante retrotemporal oriunda da linha alternativa da Dominação Draka empreende uma visita involuntária à Terra do fim do século XX de NLH.  A noveleta brinda o leitor com uma narrativa instigante e prazerosa que não será analisada aqui por fugir ao escopo deste estudo.

[1].  O narrador ganha a vida escrevendo thrillers de ação (e não de ficção científica) ambientados em Vênus e Mercúrio.

[2].  O termo “vampirismo científico” é empregado aqui para definir o tipo de ficção científica que advoga a existência de vampiros naturais, entidades não-humanas cuja existência e natureza podem ser explicadas através do emprego das leis científicas, prescindindo, portanto, da proposição de elementos sobrenaturais.

[3].  O Brasil se encontra dividido desde o século XVII entre portugueses, bantos de Palmares e a próspera província de Nova Holanda.  As histórias anteriores, pela ordem cronológica desta linha alternativa são:

  • “O Vampiro de Nova Holanda”, in O Vampiro de Nova Holanda (Caminho, 1998); Outros Brasis (Mercuryo, 2006); e Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).
  • “A Traição de Palmares” (Writers, 1999).
  • “Assessor Para Assuntos Fúnebres”, in Outras Histórias… (Caminho, 1997); Outros Brasis; e Aventuras do Vampiro de Palmares.
  • “Pátrias de Chuteiras”, in Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).

[4].  Publicado no fanzine Megalon nº 59, em dezembro de 2000.

[5].  As narrativas de história alternativa do quarteto composto por “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; “Consciência de Ébano”; e “Azul Cobalto e o Enigma” inspiraram-se, por assim dizer, nas quatro estrofes da canção “Highwayman”, composta por Jimmy Webb.  Aos curiosos sobre tal fonte de inspiração e sobre a gênese dessas quatro narrativas, mais detalhes em meu depoimento no blog da Editora Draco: http://blog.editoradraco.com/2014/04/a-saga-do-salteador/.

[6].  Pouco tempo mais tarde, Roberto de Sousa Causo escreveria a ficção alternativa “A Vitória dos Minúsculos” (Nossas Edições 4), decerto inspirada nos contos da antologia War of the Worlds: Global Dispatches (Bantam-Spectra, 1996), organizada por Kevin J. Anderson.  Esse conto mostra a invasão dos marcianos de H.G. Wells à cidade do Rio de Janeiro, uma experiência marcante narrada por ninguém menos do que Machado de Assis.

[7].  Vale informar que essa noveleta foi selecionada pelo Clube de Leitores de Ficção Científica para publicação na revista Sci-Fi News Contos 3 que, infelizmente, jamais chegou às bancas, privando o grande público leitor de uma ficção alternativa interessante e original.  Felizmente, a editora Draco corrigiu esse lapso, publicando a noveleta sob a forma de e-book em 2013.

[8].  A versão reduzida de “O Preço da Sanidade”, publicada no fanzine Somnium 60, consistia num conto de cerca de 7.000 palavras destituído de quaisquer elementos de história alternativa.  Uma versão posterior, publicada na coletânea Outras Histórias…, é uma noveleta de ficção científica com elementos de história alternativa.  A versão publicada na antologia A História é Outra constitui história alternativa genuína.

[9].  Aliás, talvez justamente aqui resida a maior dificuldade desta análise da novela.  Como se trata de uma história personalíssima, é discutível até que ponto a apreciação crítica deste estudioso se encontra comprometida pelo conhecimento que possui sobre a personalidade do autor, seus valores e aspirações.  É difícil mensurar o quão efetiva a novela seria para um leitor que desconheça inteiramente a história pessoal do autor.

[10].  Leonel Brizola; Carlos Lamarca e até mesmo Che Guevara são apenas algumas das figuras históricas transformadas em personagens literários nessa noveleta.

[11].  Além dessa novela, há pelo menos uma outra, Terra Verde, publicada sob a forma de livro em 2000 pela editora Cone Sul, e o conto “Salvador da Pátria”, publicado na antologia Phantastica Brasiliana.

[12].  Desde que a criança seja bilíngue nos dois idiomas mencionados, pois há uma série de termos em tupi.  Para os leitores da nossa linha histórica, na versão atual dessa narrativa, há um punhado de notas de rodapé esclarecedoras.

[13].  Há uma série de alusões e coincidências propositais entre as datas de ocorrência dos eventos históricos na linha alternativa Outros Quinhentos e dos ocorridos em nossa própria linha histórica.  Assim, Portugal é invadido em 1590 LHA, meros dez anos após o estabelecimento da União Ibérica em NLH.  A Abolição se dá em 1695 LHA, ano da destruição do Quilombo de Palmares em NLH.  A república é proclamada na LHA apenas quatro anos após a Inconfidência Mineira de NLH (pelo Marechal Joaquim José da Silva Xavier).  A Guerra Mundial da LHA ocorre durante o mesmo período de cinco anos que a Guerra do Paraguai se desenrolou em NLH.

[14].  Zambi de Deus é o Charles Darwin Alternativo dessa linha histórica.  Em sua obra A Ascendência das Espécies e da Humanidade, ele propõe a teoria da descendência com modificações cerca de um século antes de Darwin em NLH.

[15].  Alusão clara a Allan Quatermain, protagonista do romance As Minas do Rei Salomão (1885), do autor britânico H. Rider Haggard.

[16].  A existência de uma escritora inglesa Emily Brontë bastante semelhante a que viveu em nossa própria linha histórica — quatro séculos após a divergência em uma linha histórica alternativa na qual a Inglaterra perdeu as colônias norte-americanas para os holandeses após a derrota da Santa Aliança na Guerra de Reconquista de Portugal em 1670, transformando-a num país agropastoril, na qual a revolução industrial jamais se deu — é, no mínimo, problemática.  Contudo, uma vez aceito esse esgarçamento do pacto da suspensão da incredulidade, “Palestra de Lançamento” constitui uma narrativa divertida e interessante.

[17].  A Colômbia do Norte é o equivalente dos Estados Unidos da América nessa linha histórica alternativa, conquanto constitua em sua essência uma nação soberana descendente de colônias holandesas e não inglesas.

Cenários Alternativos Lusófonos I

Já se comentou em capítulo anterior que as narrativas de história alternativa, sobretudo as mais longas, como as novelas e os romances, exercem um grande apelo junto ao público leitor dos países desenvolvidos, visto possuírem o tipo de enredo capaz de agradar tanto aos fãs de ficção científica e fantasia, quanto aos amantes dos romances históricos.

Contudo, dependendo da formação acadêmica do autor, escrever história alternativa de qualidade pode revelar-se tarefa mais árdua do que escrever noutro subgênero qualquer da ficção científica.

Expostas as peculiaridades do subgênero, observa-se que, se nem tudo são flores, tampouco são apenas espinhos.  Autores lusófonos que porventura decidam escrever história alternativa contam com um trunfo poderoso que seus congêneres anglo-saxões já não dispõem há várias décadas.  Apesar de nossa relativa inexperiência no subgênero, gozamos da vantagem imensa de contar com jazidas históricas praticamente inexploradas.  Temos toda a história de Portugal e do Brasil, ainda intatas, à nossa disposição.  Ao todo, quase 1.300 anos de história documentada, isto para não falarmos da pré-história lusitana.[1]

Daí a importância para o êxito do subgênero no idioma português, que os autores lusófonos, quando decidirem singrar os meandros de nossas linhas históricas alternativas, façam-no no comando de suas próprias naus, navios construídos com seus próprios conhecimentos, junto às nossas praias e não às alheias.  Pois não faz muito sentido escrever sobre vitórias confederadas na Guerra de Secessão ou derrotas da Inglaterra para a Armada Espanhola de Filipe II.  Além da competição imensa, o autor lusófono típico não possui conhecimentos históricos tão amplos, quando comparados com o de autores que estudaram esses temas desde a infância e que dispõem de fontes de consulta mais abundantes e acessíveis do que aquelas que nos seria viável ao lusófono mobilizar.

Ao contrário, seria de bom alvitre para o autor lusófono escolher temas que lhe digam respeito e que lhe sejam caros.  Temas que tenham a ver com as histórias do Brasil e de Portugal.  Assuntos que, em tese, ele ou ela deveria ser capaz de abordar melhor do que qualquer autor estrangeiro.

No entanto, antes de avançar na preleção das temáticas lusófonas, convém fazer uma pequena digressão sobre as diferenças quanto ao ensino da história pátria em Portugal e no Brasil.

A maioria dos brasileiros estuda História do Brasil de forma intermitente, ao longo de vários anos letivos, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio.  Contudo, com raras exceções, nossa história não teve seu ensino valorizado.  Há membros da academia que atribuem à ditadura militar-tecnocrática parte da responsabilidade por essa obliteração do nosso passado histórico.  Aquela ditadura possuía realmente um caráter desenvolvimentista, enxergando o Brasil não apenas como o país do futuro, mas também como um país sem passado.

Os brasileiros que cursaram os ensinos fundamental e médio na época da ditadura provavelmente não tiveram a disciplina História do Brasil ministrada todos os anos.  Além disso, do ponto de vista curricular, o programa da disciplina acabava com a Proclamação da República.  Mesmo que o colégio dispusesse de bons professores de história, eles jamais abordaram tópicos que dissessem respeito ao século XX.  Revolta dos Canudos?  Nem pensar!  Tais tópicos nem sequer faziam parte da matéria cobrada nos exames de admissão às universidades.  Havia exceções?  Sim, é claro.  Poucas e louváveis.

É bem possível que a ditadura militar tenha possuído a sua parcela de culpa.  No entanto, a explicação como um todo parece um tanto simplista.  Talvez o ensino da História do Brasil não seja e nunca tenha sido muito valorizado pelo fato de os brasileiros não valorizarem seu próprio passado histórico.  Ao contrário de outros povos, certo ou errado, o brasileiro típico não se orgulha dos feitos heroicos das grandes figuras do passado.  Quem sabe esse brasileiro padronizado não possua certa dose de razão?  Afinal, todas as nossas revoluções libertárias fracassaram; a nossa maior guerra tornou-se o genocídio de um povo, coisa que a muitos envergonha até hoje; e o nosso próprio processo de independência revelou-se em verdade um mecanismo de continuidade, elaborado de modo a permitir a manutenção do status quo da classe dominante.

Por outro lado, será que as grandes batalhas e revoluções vencidas por outros povos que não o nosso foram realmente tão grandiosas assim?  Ou não será tudo uma questão de marketing histórico?  Porque, de acordo com os cânones, “os vencedores escrevem a história.”

Já em Portugal, a ditadura salazarista se distinguiu da brasileira tanto por seu caráter antiprogressista quanto pelo ufanismo histórico exacerbado, o que em termos de ensino da história pátria implicou na valorização do passado de glórias do país, bravamente granjeadas durante a Reconquista Ibérica e, sobretudo, mais tarde, na época das grandes navegações e dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI.

Em resultado não tanto das distinções culturais, mas das diferenças no ensino da história pátria nos dois países, os portugueses de hoje não apenas conhecem a história de Portugal bem melhor do que os brasileiros conhecem a sua, mas, talvez mais importante, possuem maior apreço por seu passado histórico.

Voltando à questão do marketing histórico, convém lembrar que, como luso-brasileiros, possuímos uma história pelo menos tão rica quanto a dos anglo-americanos.  Se eles dispõem da Invasões Vikings e da Conquista Normanda, nós temos a Reconquista Ibérica.  À Guerra de Secessão podemos contrapor a Guerra do Paraguai.  O nosso equivalente à Guerra dos Sete Anos foram os trinta anos de guerra para expulsar os invasores holandeses.  As guerras civis inglesas do século XVII encontram seu contraponto nas guerras civis portuguesas da primeira metade do século XIX, onde se bateram liberais e absolutistas.  A existência dos Estados Confederados da América, país efêmero surgido do seio de uns EUA fraturados pela Guerra de Secessão, traz-nos à memória os ecos da República do Piratini, que sobreviveu durante uma década (1836-1845) no sul do Brasil em plena Era Imperial.  E, dentro deste espírito, assim por diante.

Para os autores lusófonos que pretendem se dedicar aos cenários de história alternativa, as perspectivas hoje não poderiam ser melhores.  Porém, é possível que esta situação favorável não perdure muito tempo.  Pois, diante de tantos filões históricos riquíssimos e, no entanto, inexplorados, é de se imaginar que corramos o risco de nos depararmos, caso não ocupemos logo o território que é nosso por direito, com invasores estrangeiros desembarcando em nossas praias.  Este temor relativo, abordado aqui de forma algo jocosa, tem sua razão de ser.  Porque os autores de literatura fantástica anglo-saxões possuem uma visão bastante pragmática e profissional do mercado literário capaz de absorver os trabalhos de história alternativa.  Têm plena consciência de que seus filões históricos estão prestes a se esgotar.  Existem autores, como Patricia Anthony que já exploram hoje tanto os filões históricos brasileiros[2] quanto os portugueses,[3] se bem que não em termos de história alternativa.  Ainda não.

De qualquer modo, as histórias das duas nações parecem repletas de eventos interessantes que poderiam ser facilmente aproveitados como pontos de divergência, a partir dos quais nossos autores poderiam elaborar suas linhas históricas alternativas luso-brasileiras e daí escrever seus contos e romances históricos alternativos.

E se o Brasil houvesse perdido a Guerra do Paraguai?  A República Guarani vitoriosa transformar-se-ia em potência mundial, ou a megalomania de López cedo ou tarde abortaria os sonhos de grandeza de sua nação?  E o que aconteceria com o Brasil em cada um desses casos?

E se Nassau houvesse regressado ao Brasil e os holandeses derrotassem os luso-brasileiros na Segunda Batalha de Guararapes, teríamos um país de fala batava no nordeste brasileiro?  E se tal acontecesse, seria esse país a maior potência da América do Sul, ou apenas um Suriname nordestino?  E onde se encaixaria a Confederação de Palmares nesse quadro?

E se Dom Sebastião I houvesse deixado herdeiros varões, e Portugal não fosse incorporado à Espanha durante as seis décadas da União Ibérica?  Um Portugal independente decerto manteria sua esquadra, sua construção naval, e não teria suas colônias invadidas pelos holandeses.  Diante disso, lograria manter-se como potência de primeira linha ao longo do século XVII, ou acabaria por ceder terreno às potências emergentes, como a Inglaterra e a própria Holanda?

Por outro lado, como seriam Portugal e o Brasil se a União Ibérica houvesse perdurado mais tempo, ou até sobrevivido até os dias de hoje?

E se Dom João VI houvesse ousado enfrentar os exércitos de Napoleão com o auxílio dos ingleses, ao invés de fugir com a Família Real para o Brasil?  Teríamos um Império do Brasil deste lado do Atlântico?  Ou, como nossos vizinhos hispano-americanos, passaríamos direto de colônia à república?  E, neste caso, teria o Brasil conseguido manter sua integridade territorial, ou se fragmentaria, à semelhança do que ocorreu nas antigas colônias espanholas?

E se, por outro lado, depois de a corte portuguesa ter fugido para o Brasil, Napoleão houvesse afinal decidido não invadir Portugal, haveria uma espécie de Reino Unido de Portugal e Brasil ao longo do século XIX?  Ou os dois países acabariam se separando de qualquer modo, com o Brasil tornando-se um império e Portugal uma república?

Romas Alternativas?  E se Viriato, líder das tribos lusitanas e primeiro grande herói da história portuguesa, houvesse conseguido resistir às legiões da República de Roma em 145 aec?  Ficaria o oeste da Península Ibérica desta linha histórica hipotética tão livre da influência romana quanto os bárbaros da Germânia da nossa linha histórica após a vitória de Armínio sobre as três legiões de Varus?  Neste caso, que tipo de cultura surgiria dali?

E, por falar em Brasil Fragmentado, o que teria acontecido se a República de Piratini houvesse resultado?  Serviria a independência gaúcha de exemplo a outras províncias revoltosas?  E esses diferentes Brasis, como seriam?

E quanto à Revolução de 1964?  Se ela não houvesse ocorrido, teríamos um Brasil significativamente diferente do existente em nossa linha histórica?  Essas diferenças dar-se-iam para melhor ou pior?

E se a Globo houvesse evoluído não para uma rede de televisão mas sim para uma indústria cinematográfica?  Teríamos uma espécie de Hollywood tropical no Brasil?

E se a emenda das Diretas Já fosse aprovada pelo Congresso em 1984?  A linha dura do Exército realmente tentaria um golpe de Estado, obrigando Ulysses Guimarães e Tancredo Neves a um governo no exílio?  Nesse caso, como se posicionariam a Marinha e a Aeronáutica?

E se Lula houvesse vencido as eleições presidenciais de 1989?  Um governo federal petista àquela época conseguiria colocar o Brasil na trilha da prosperidade?  Como as elites econômicas e os militares reagiriam?

E se o impeachment de Collor houvesse fracassado?  Teríamos uma guerra civil?  Ou quem sabe, apenas um atentado presidencial?

Por tudo o que se discutiu acima, observa-se que em termos de cenários alternativos lusófonos, autores e leitores são como os primeiros descobridores, “singrando por mares nunca dantes navegados”.  Vagamos por territórios virgens, uma autêntica Terra Incognita.  As possibilidades são infinitas.  Cabe aos autores lusófonos explorá-las.

Precursor de Fina Estirpe

José J. Veiga é considerado por muitos como o maior fantasista brasileiro da atualidade.  Desde o final da década de 1950 seus trabalhos vêm sendo publicados sob a forma de romances e coletâneas de contos.  Seus textos abordam por vezes temáticas próximas às tipicamente encontradas em narrativas convencionais de ficção científica e fantasia.  A narrativa de Veiga, contudo, é sempre conduzida num tom propositada e decididamente interiorano, muitas vezes com uma mensagem edificante e uma crítica social implícita no contexto.

Em 1989, Veiga lançou o romance A Casca da Serpente pela Bertrand Brasil.  Não é um trabalho de ficção científica ou fantasia.  Pelo menos, não se encaixa dentro da concepção ortodoxa que a maioria dos críticos e leitores mantém em relação a esses gêneros literários.  Curiosamente, trata-se de um texto com fortes elementos de história alternativa.

O ponto de divergência é a hipótese da sobrevivência de Antônio Conselheiro, líder do levante de Canudos, nos primeiros anos da República, ainda no século XIX.  Em nossa linha histórica, Conselheiro tombou na Quarta Batalha de Canudos, quando as tropas federais conseguiram finalmente invadir o povoado, massacrar os revoltosos e demolir o vilarejo fortificado de Canudos.

Na alternativa proposta por José J. Veiga, o velho líder teria logrado escapar com uns poucos seguidores fiéis.  Depois de algum tempo, eles conseguem erigir uma nova comunidade numa serra íngreme dos sertões do norte da Bahia.

O caminho escolhido por Veiga é aquele que, de acordo com o jargão do subgênero, costuma ser designado como “história do herói alternativo”.  Uma subvertente pouco explorada dos enredos históricos alternativos que se caracteriza por dois aspectos principais:

  1. A maior parte da ação transcorre na vizinhança espaçotemporal do ponto de divergência. Uma narrativa de evento alternativo, portanto, e não um suposto presente ou passado alternativo; e
  2. esse ponto de divergência se encontra quase sempre associado à sobrevivência de um personagem histórico, ou a alguma decisão crucial que esse personagem teria tomado.

Na literatura de ficção científica existem alguns bons exemplos de histórias de heróis alternativos.  No conto Departures (1989), de Harry Turtledove, Maomé se converte à fé cristã e o islamismo jamais é fundado.  Já em Roncesvalles (1989) de Judith Tarr, o Islã leva a melhor, quando Carlos Magno volta-se para o credo muçulmano, ao descobrir que a retaguarda de seus exércitos fora atacada nos Pirineus não pelos mouros como supôs inicialmente, mas sim por mercenários a soldo de Bizâncio.

Pelo estilo de Veiga, é de se supor que, à época da escrita do romance, ele não estivesse consciente da existência de uma tradição literária de história alternativa.  Porém, conhecedor ou não dessas tradições, o importante é que o autor não se encontra inserido nelas (pior para as histórias alternativas brasileiras, é lógico).

O fato é que o autor inicia sua narrativa com a fuga de Antônio Conselheiro nos últimos dias de Canudos.  Boa parte do romance se dedica aos acontecimentos que teriam se dado nos primeiros dias após essa fuga.

Ao longo de uns poucos meses, Conselheiro consegue erigir uma nova comunidade, segundo ele, um Canudos passado a limpo.  Em paralelo à luta dos sertanejos para construir a nova utopia, o autor vai gradativamente descaracterizando o velho líder religioso.  É fato concreto que as experiências pelas quais uma pessoa passa no limiar da morte parecem ter às vezes o condão de mudar a maneira de ser dessa pessoa.  Contudo, a mudança que Veiga propõe de Antônio Conselheiro para “Tio Antônio” é radical demais para ser aceita como verossímil.  De líder carismático e autoritário, inspirado por uma religiosidade beirando o fanatismo e incapaz de discutir suas decisões com os subordinados, o velho Antônio torna-se da noite para o dia um democrata convicto, imbuído de fortes tendências anárquicas.  Abandona o hábito religioso em favor das vestimentas civis.  Raspa a longa barba e tosa a vasta cabeleira.  Torna-se mais aberto, às opiniões alheias.  Um homem inteiramente novo: pragmático e bem pouco preocupado com rezas e questiúnculas religiosas.  O próprio título do romance é a maior prova de que o autor estava consciente da mudança abrupta implementada à personalidade de Antônio Conselheiro.  Antes de “Canudos passado a limpo”, o que se tem em A Casca da Serpente é “Antônio Conselheiro passado a limpo”.  Veiga reescreve uma das figuras históricas mais intrigantes do início da Velha República.

A nova comunidade cresce, à medida que recebe a adesão de sertanejos e retirantes, atraídos como moscas pela fama do ex-beato.  Mas a fama da nova comunidade perdida nos confins do sertão acaba se sobrepondo à antiga notoriedade do povoado de Canudos, formação social decapitada em seu apogeu.  A nova comunidade é um vilarejo sem líderes autoritários, onde o mais humilde dos trabalhadores pode expressar suas ideias e preocupações verbalmente durante as reuniões comunais, sem medo de sofrer represálias.  Ouvir o povo?  Um contraste gritante com a prática das elites políticas brasileiras, tanto na época da Velha República, quanto nestes tempos de Novíssima República Imperial que ora (sobre)vivemos.

Humanistas e homens de ciência se sentem naturalmente atraídos para aquela comunidade sui generis e acabam travando contato com o novo Antônio Conselheiro, um líder laico, pragmático e democrata.

A narrativa só se aproxima do presente alternativo nas últimas duas páginas, nos quatro últimos parágrafos.  O leitor é então informado de forma telegráfica que a “Concorrência de Itatimundé”, vilarejo fundado pelos sobreviventes dos Canudos, teria perdurado por cerca de setenta anos, servindo como modelo para muitas outras comunidades semelhantes, criadas em vários países, nas mesmas bases de cooperação e igualdade.

Finalmente, o autor acrescenta que essa comunidade original teria sido varrida do mapa em 1965 (Pelos militares vitoriosos no golpe do ano anterior?  Veiga deixa a questão em aberto).  Os solos onde a Concorrência teria existido por quase três quartos de século foram transformados num depósito de lixo atômico, administrado por uma indústria química multinacional.

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Embora não constitua um precursor da história alternativa lusófona, como José J. Veiga, o sambista, compositor, escritor e especialista em culturas africanas em geral e bantas em particular, Nei Lopes escreveu seu romance de história alternativa, Oiobomé: a Epopeia de uma Nação (2010).

O ponto de divergência proposto por esse autor polivalente se situa no fim do século XVIII ou no início do XIX, quando, sob a liderança de Francisco Domingo Vieira dos Santos, ex-escravos negros e tribos ameríndias estabelecem um Estado independente na Ilha de Marajó no fim do período colonial.

A narrativa tênue acompanha as diversas fases históricas da nação de Oiobomé até a década de 1950.  O autor propõe várias implausibilidades históricas e inconsistências geográficas.  Os personagens são bidimensionais.  Contudo, o mais irritante desse cenário de história alternativa é o excesso de didatismo e explicações enfadonhas que abundam ao longo do romance, a ponto de prejudicar a leitura em certos trechos.

No que se pese a relevância de Nei Lopes para a cultura brasileira, Oiobomé não se sustenta, quer como romance, quer como narrativa de história alternativa.

Fantasias Alternativas Lusófonas

Embora as narrativas alternativas brasileiras superem em muito as portuguesas em número, a equação se inverte no que tange as fantasias alternativas e tudo por causa de um único autor, Daniel Tércio, que escreveu nada menos do que dois romances de fantasia histórica alternativa: A Vocação do Círculo (1984) e A Pedra de Lúcifer (1998).

Em A Vocação do Círculo, um cidadão lisboeta da nossa linha histórica vai parar numa Lisboa Alternativa onde a magia funciona e a Europa parece estacionada na Idade Média.  Lá ele se apaixona por uma jovem bruxa e a ajuda a encontrar o avô, um grande feiticeiro, e a combater uma confraria de magia negra numa segunda linha histórica alternativa, onde a história estacionou na época romana e Lisboa é chamada de Olisipo, que é como os romanos da nossa linha histórica se referiam à cidade.

Publicado catorze anos mais tarde, A Pedra de Lúcifer é uma história alternativa com fortes elementos de fantasia científica.  Num passado remoto, uma superentidade alienígena envia esporos microscópicos à Terra para estimular a inteligência das criaturas terrígenas.  No entanto, algo funciona mal.  Os esporos do conhecimento se revelam incompatíveis e letais às formas locais e acabam propiciando o surgimento de uma grande religião, numa Europa onde o cristianismo e, aparentemente, a civilização romana, jamais existiram.

As pessoas infectadas propositalmente com o “cristal do conhecimento” têm a chance de se tornar mártires da Grande Religião.  No entanto, a força do Cristal parece estar perdendo intensidade e com isto a Igreja do Cristal e a própria civilização ocidental (que se encontra, grosso modo, no equivalente à nossa Idade Média) correm perigo.

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Embora este autor de literatura fantástica não se considere exatamente um cultor da fantasia, mas antes da ficção científica em geral e da história alternativa em particular, de fato escrevi dois contos de fantasia alternativa ambientados em um mesmo universo ficcional.  A premissa inicial é mais típica da fantasia alternativa do que da história alternativa propriamente dita: metamorfos (lobisomens e que tais) existem.  Metamorfos apoiaram o advento do Estado Soberano da Guanabara (grosso modo equivalente ao Município do Rio de Janeiro da nossa linha histórica ou, mais prosaicamente, ao Estado da Guanabara antes da fusão imposta pela ditadura militar com o antigo Estado do Rio de Janeiro).  Como toda fantasia alternativa que se preza, a simples premissa da existência de metamorfos exclui a necessidade de um ponto de divergência explícito.  “Para Agradar Amanda” (2012) é uma ficção fantástica erótica em que uma lobisomem fêmea tenta realizar sua grande fantasia sexual com o parceiro humano e o casal vai parar numa sessão com uma terapeuta sexual assanhada.  Já “A Moça da Mão Perfeita”, conto até agora inédito, escrito para um projeto de contos inspirados no folclore brasileiro, enfoca o confronto sensual entre um playboy do Império do Brasil e a atendente de um barzinho da moda requintado, só que nenhum dos dois é exatamente o que aparenta.

Impérios do Brasil Alternativos

Quando se falou em preferências nacionais nos capítulos 8 e 9, comentou-se rapidamente que a temática favorita dos autores de cenários históricos brasileiros são os Impérios do Brasil Alternativos.  Do outro lado do Atlântico, os autores portugueses favorecem os Reinos de Portugal Alternativos.  Mudar a forma de governo, da monarquia para a república não constitui uma transição insignificante, muito ao contrário.  Daí a pertinência de empregar a ficção para tentar imaginar como seria o Brasil ou Portugal hoje em dia se o país ainda estivesse sob regime monárquico.

Como seria o Brasil de hoje caso a República não houvesse sido proclamada em 1889 e o país permanecesse até hoje como o único império das Américas?  A noção de que o Império pudesse sobreviver mais do que uns poucos anos além da data de sua queda em nossa linha histórica é quase indefensável.  Como se ensina nas aulas de história, a abolição dos escravos fez com que a monarquia perdesse a apoio dos grandes senhores de terra, último sustentáculo do Império.  É claro que se o autor situar seu ponto de divergência bem antes de 1889, digamos na década de 1860 ou 1870, e se a trama for bem urdida, pode ser que, em termos de plausibilidade, a coisa mude de figura.

Contudo, não constitui exatamente um crime gravíssimo deixarmos tais argumentos puristas de lado em prol de uma ou duas narrativas convincentes e divertidas.  Cumpre apelar para o pacto da suspensão da incredulidade.  A proposta neste caso é que aceitemos o equivalente, em termos de história alternativa, ao hiperespaço ou às viagens retrotemporais da ficção científica convencional.

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O primeiro espécime de Império Alternativo a eclodir no âmbito da literatura fantástica brasileira foi o conto “Folha Imperial” (1996), de Ataíde Tartari, uma fusão harmoniosa rara de história alternativa e conto humorístico digna das melhores tentativas de AH-Lite de Harry Turtledove ou da ficção curta satírica de James Morrow.

O ponto de divergência é o malogro do golpe republicano de 1889 liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.  Segundo o autor, em consequência desse fiasco, o Império do Brasil perduraria até os dias atuais.  Deodoro é considerado o “traidor dos traidores” (SIC).  Foi condenado à morte pela tentativa de golpe contra Dom Pedro II, embora tenha sido posteriormente anistiado pelo próprio monarca.  No presente alternativo, “deodoro” tornou-se alcunha pejorativa que denota os simpatizantes da causa republicana.

Folha Imperial é o nome do jornal onde trabalha o protagonista, Ronaldo Cetro, um repórter interessado em cobrir as vidas dos membros do jet-set do Império em geral e a do príncipe-herdeiro em particular.

Como seu antepassado, Dom Pedro I, o príncipe Dom Joãozinho é um bon-vivant e um tremendo mulherengo.  Já teria mantido um caso até com a Lady Di e agora, em plena década de 1990, parece disposto a noivar com uma das mulatas do Sargentelli.

“Folha Imperial” exibe nas entrelinhas uma série de insights políticos e sociais, bem como paralelismos entre personalidades contemporâneas presentes tanto na nossa linha histórica quanto nessa linha alternativa.  O paralelismo é um pecadilho relativamente comum para a maioria dos autores de história alternativa.  Apesar de condenado pelos puristas, trata-se de um vício por vezes irresistível.  Assim, várias personalidades históricas do Brasil real têm suas contrapartes ficcionais, reflexos quase perfeitos nesse império tupiniquim alternativo, sendo citados en passant por seus títulos de nobreza.  Deste modo, Ayrton Senna é o Conde de Interlagos; Pelé é o Marquês de Santos e Fernando Henrique Cardoso é o Visconde de Higienópolis.

Essa narrativa repleta de bom humor mostra um dia de trabalho estafante do repórter Ronaldo Cetro.  Primeiro ele é perseguido pelo Barão do Dona Marta, um favelado que acabara de receber um título de nobreza.  Mais tarde, ele e um fotógrafo cumprem vigília próximo ao Palácio Imperial na esperança de flagrar o príncipe saindo para mais uma de suas incursões amorosas noturnas.  Acabam obtendo um furo jornalístico ao surpreender Dom Joãozinho com a mulata Rosinete.

No dia seguinte, na redação da Folha, o editor-chefe quase tem um ataque apoplético.  Monarquista conservador, o velho treme nas bases ao imaginar o bruto escândalo se o Príncipe do Grão-Pará, herdeiro da coroa imperial, desposar uma plebeia.  No meio dessa crise política iminente, a redação é visitada por uma senadora do PTR, Partido dos Trabalhadores Republicanos, agremiação política que congrega os deodoros mais radicais.

“Folha Imperial” é uma história alternativa leve, divertida e eficaz.  O autor foi extremamente feliz na tentativa de fundir história, fantasia e humor.  Aliás, em certos aspectos o conto de Tartari pode ser comparado a algumas histórias alternativas de James Morrow.  De qualquer forma, sem a menor sombra de dúvida, o autor foi mais bem-sucedido nessa harmonização do que Barry Malzberg ou George Zebrowski, dois queridinhos da crítica de ficção científica norte-americana, que há anos vêm se debatendo furiosamente na tentativa infrutífera de escrever histórias alternativas humorísticas.  Ou talvez, quem sabe, os contos de Malzberg e Zebrowski só agradem ao senso de humor do público e da crítica norte-americanos.

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Embora parta do mesmo pressuposto básico de que a monarquia sobreviveu até hoje, ao contrário do que ocorre no conto de Tartari, na noveleta “Não Mais” (1998), de Carlos Orsi Martinho, o ponto de divergência não reside no fracasso do golpe da Proclamação da República em 1889, mas no envolvimento escuso de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, com Athanasius Kircher, alquimista europeu misterioso que detém o segredo da imortalidade.

Athanasius assume a tutela do futuro imperador Pedro II e instala em pleno Jardim Botânico Imperial do Rio de Janeiro uma usina para produzir o fluido verde cujos banhos periódicos tornam as pessoas imortais.  O alquimista torna imortal não apenas o monarca, a família real e os principais nobres do Império, mas todos aqueles, grandes ou pequenos, brasileiros ou estrangeiros, que sejam de algum modo úteis ao cumprimento de seus desígnios.  Pois nessa linha histórica alternativa o Império do Brasil é a maior potência da Terra e Athanasius governa o Império ao controlar o fornecimento do fluido da imortalidade, tendo nas mãos o destino tanto de governantes quanto de governados.

Também as lideranças estrangeiras foram cooptadas à causa da hegemonia brasileira, graças à concessão criteriosa da imortalidade entre suas fileiras.  A Guerra do Paraguai foi vencida em apenas dois anos.  As monarquias foram restauradas em quase todos os países da Europa.  Enquanto isto, na América, o Império do Brasil estendeu-se do México à Patagônia.  Os Estados Unidos perderam duas guerras contra o Império.  E, na única superpotência do mundo atual, o imperador imortal Dom Pedro II ainda reina e a vontade de Athanasius governa os destinos da humanidade.

Mas nem tudo são flores nesse Superimpério do Brasil.  A escravidão prevalece até hoje de uma forma ainda mais cruel do que a outrora existente no Brasil da nossa linha histórica.  Essa sociedade governada por uma casta de imortais não parece muito disposta a incentivar o progresso tecnológico e os avanços sociais.  Além disso, existem sempre umas poucas vozes discordantes que recusam a se deixar calar pela sedução da vida eterna.  No passado, foram homens da estatura de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Santos Dumont, H.G. Wells e Albert Einstein que, não obstante a tentação suprema, negaram-se peremptoriamente a vender suas almas.  No alvorecer do novo milênio é o movimento brasileiro “Não Mais” que empreende uma luta desesperada para obliterar o segredo do fluido verde e destruir a elite de imortais, para salvar o país e o mundo de uma distopia imobilista, desumanizadora e cruel.

Quem já leu Anno Dracula (1992) não deixará de notar certo paralelismo temático entre a noveleta de Martinho e o romance de ficção alternativa do britânico Kim Newman.  Anno Dracula mostra o que teria acontecido se Drácula houvesse vencido o confronto contra o grupo liderado por Van Helsing e Jonathan Harker.  O Império Britânico é dominado por uma estirpe de imortais, no caso a nobreza inglesa vampirizada por um Drácula que desposou a Rainha Vitória e tornou-se Lorde Protetor do Império.  Mais ou menos a mesma coisa ocorre em “Não Mais”, embora os imortais de Martinho não sejam vampiros.  Em ambos os trabalhos há uma revolta de homens e mulheres notáveis que se recusam a compactuar com a nova ordem, mesmo ao preço de abrir mão da imortalidade.  Tanto num quanto noutro há uma espécie de sociedade secreta composta por mortais patriotas e abnegados — a “Não Mais” da noveleta e o Diogenes Club do romance — lutando desesperadamente para reverter a situação ao status vigente antes do advento da imortalidade.  Esse paralelismo é um tour de force adicional da noveleta que constitui um trabalhos mais interessantes e elaborados já escritos por aquele que é considerado o autor de horror mais criativo do mundo lusófono.

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Nunca cogitara escrever uma narrativa de Império Alternativo, até receber o convite para participar da antologia A República Nunca Existiu! (2008).  Desafio aceito, cumpria arbitrar um ponto de divergência capaz de estabelecer um cenário histórico minimamente plausível.  Daí, a divergência do conto “Primos de Além-Mar” é a sobrevivência de Pedro Afonso, filho de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, que pereceu em 1850 aos dezoito meses de idade em nossa linha histórica.  Mal saído da adolescência, esse príncipe imperial se torna o grande herói da última fase da Guerra do Paraguai, ao capturar Solano Lopez e trazê-lo vivo para cumprir pena no Rio de Janeiro.  Em 1908, a presença de Dom Pedro Henrique, filho de Dom Pedro III do Brasil em Lisboa frustra o atentado regicida contra a vida de Dom Carlos, garantindo assim a permanência da Casa Bragança em tronos nas duas margens do Atlântico.  A ação desse conto se desenrola na década de 1930, época em que o rei de Portugal fugiu para o exílio no Império do Brasil, quando seu país foi invadido pelas forças de Franco, apoiadas pela Alemanha Nazista.  A maior parte da narrativa se dá ao longo de uma caçada de onça na região serrana nas cercanias da cidade de Petrópolis.

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Um análogo português dos cenários de Impérios do Brasil Alternativos é a sobrevivência da monarquia em Portugal até os dias de hoje.  Organizada por Octávio dos Santos, a recém-citada antologia temática A República Nunca Existiu! (2008) reuniu algumas narrativas interessantes de Reinos de Portugal Alternativos.

O ponto de divergência é praticamente o mesmo nos nove trabalhos considerados como Reinos de Portugal Alternativos: o regicídio de 1908 malogra e a monarquia sobrevive no país.

No conto de evento alternativo “Seis Momentos em Tempo Real”, de João Aguiar, o atentado regicida não resulta num fracasso total, pois o rei Dom Carlos e o príncipe-herdeiro Dom Luís Filipe são gravemente feridos pelos disparos dos criminosos e se encontram internados no hospital sob severo risco de vida.  Ante tais circunstâncias, cabe ao príncipe Dom Manuel, filho caçula do rei, na posição de regente, arregimentar forças para lutar contra a ditadura que se instalara no país logo após o atentado.  Já “A Encenação”, de José Manuel Lopes, parte da premissa diametralmente oposta à do conto anterior: o príncipe caçula não se porta de forma tão digna.  Embora seu pai e irmão sobrevivam incólumes ao atentado de 1908, Dom Manuel contrai uma grave doença mental após o ataque malogrado.

Apesar de também constituir um Reino de Portugal Alternativo, o conto “Missão 1211908”, de Luísa Marques da Silva, será analisado na seção Patrulhas Temporais Alternativas, a seguir.

Dois contos da antologia tratam de atentados contra outros reis de Portugal que reinaram depois de Dom Carlos.  No conto de passado alternativo “Rei Sem Coroa”, de Sérgio Sousa-Rodrigues, um jovem português planeja assassinar o rei Dom Manuel III em 1954.  Já Bruno Martins Soares postula em seu conto de presente alternativo “O Nome do Rei”, o regicídio do bem-amado rei Dom Afonso IX de Portugal, um século após o fracasso do atentado contra a vida de Dom Carlos.

No passado alternativo “A Marcha Sobre Lisboa”, de Octávio dos Santos, após sobreviver ao atentado de 1908 junto com o pai, o Príncipe Luís Filipe, agora Dom Luís II de Portugal, lidera uma contramarcha em reação a uma organização de revolucionários fascistas de inspiração hitlerista que planeja tomar o poder e implantar uma ditadura no país.

No divertido e bem escrito “O Patriota Improvável”, de Maria de Menezes, durante um referendo para consultar a população portuguesa se ela desejava manter o regime monárquico, um paparazzo considera que os súditos nutririam mais amor à família real se a rainha e as princesas se portassem e se vestissem com mais elegância.

No conto “Ao Serviço de Sua Majestade”, de Luís Richheimer de Sequeira, Dona Maria III de Portugal estabelece a Subdivisão de Crimes Extraordinários, um departamento especial da Polícia Judiciária, para investigar casos bizarros, do tipo Arquivo X, com direito, inclusive, a conspirações alienígenas.

No conto de passado alternativo, “A Noite das Marionetas”, de João Seixas, em 1916, o primeiro-ministro português trama contra o Reich Alemão, o Reino Unido, a Espanha e a Maçonaria.  Como resultado, o Reino de Portugal acaba ingressando na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados, à semelhança do que se deu em nossa linha histórica.

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Monarquista convicto, Octávio dos Santos, antologista de A República Nunca Existiu!, aprovou vários trabalhos de história alternativa baseados na mesma divergência do malogro do atentado regicida de 1908, para publicação na antologia Mensageiros das Estrelas, que coorganizou em 2012.  Dentre os sete contos coligidos na seção da antologia, designada como “A República Nunca Existiu 2”, dois se destacam: “O Preço de uma Coroa” e “A Realidade, Não Fora a Loucura”.

No conto “O Preço de uma Coroa”, de Sacha Andrade Ramos, o jovem príncipe Dom Dinis cogita se deve ou não assumir a coroa portuguesa em 2010, após o reinado extremamente bem-sucedido de sete décadas de seu tio-avô, Dom Pedro VI, monarca que logrou converter o Império Colonial Português na Comunidade Lusa.  Depois de sofrer um atentado na Praia do Guincho, ao interrogar a jovem ativista que quase lhe tirara a vida, Dinis toma enfim a decisão crucial quanto ao seu futuro e ao do Reino de Portugal.

Em “A Realidade, Não Fora a Louca”, de João Afonso Machado, Dom Carlos sobrevive ao atentado de 1908, mas o Príncipe Dom Luís Filipe é mortalmente abatido.  Em consequência, o Partido Republicano é execrado e alijado do cenário político português.  Abalado e sem condições de governar, Dom Carlos nomeia seu caçula, Dom Manuel, como regente.  Em 1915, o velho rei perece e o filho sobrevivente assume a coroa sob o título de Dom Manuel II.  A partir desse ponto, o autor propõe uma utopia geopolítica panegírica que culmina no estabelecimento de uma Comunidade de Nações de Língua Portuguesa, na qual os países-membros reconhecem a autoridade do monarca de Portugal.

Futebol Alternativo

Em matéria publicada no caderno de esportes da edição de 9 de novembro de 1997 do jornal Folha de São Paulo, “As Copas que Não Aconteceram”, os jornalistas Rodrigo Bertolotto, Rodrigo Bueno e Sérgio Teixeira Jr. discorrem no tom documental mais sério imaginável sobre os resultados das Copas do Mundo de 1942 na Argentina e de 1946 em Portugal.

Qualquer futebolista de meia-tigela está farto de saber que não houve Copa alguma em 1942 ou 1946.  Fato: em nossa linha histórica, por causa da Segunda Guerra Mundial, tais competições não se deram.  Já na linha histórica alternativa criada pelos articulistas da Folha, apesar do conflito mundial, as duas Copas de fato ocorreram.  Ao que se saiba, trata-se do primeiro exemplo de pseudofactual lusófono abordando o futebol.

Segundo a “reportagem”, a Argentina foi bicampeã em 1942 e 1946.

Como premissa principal, os autores alegam que nossos grandes rivais portenhos possuíam o melhor selecionado do mundo àquela época.  Além disso, a Itália e a Alemanha, as maiores potências futebolísticas europeias, não puderam enviar suas equipes para a Copa de 1942 na Argentina (por causa da própria Guerra) e não tiveram condições de reunir seleções bem preparadas para a Copa de Portugal, que ocorreu apenas um ano após o término do conflito mundial.

Em nossa linha histórica, a Copa de 1942 teria sido provavelmente na Argentina se não houvesse a Guerra, pois a nação vizinha já se havia candidatado para sediar a competição, já possuía grandes estádios e um futebol profissional de altíssima qualidade.  Na linha histórica alternativa proposta pelos articulistas, por causa do conflito, apenas onze seleções compareceram: seis sul-americanas e cinco europeias — essas últimas de países não participantes do conflito.  Um problema grave de plausibilidade nessa especulação é se supor que a Suíça (completamente isolada em 1942), a Espanha (recém-saída de uma guerra civil dolorosa) ou a Dinamarca (ocupada pelas forças do Terceiro Reich) teriam sido capazes de reunir equipes nacionais e enviá-las até a América do Sul.  Contudo, um problema muito mais sério é se julgar que haveria clima para uma Copa do Mundo em meio ao maior conflito militar jamais travado pela humanidade.  É preciso ser muito apaixonado por futebol para imaginar algo do gênero.  Porém, argumentam os autores, admitindo-se tal premissa como válida, a Argentina teria se sagrado campeã e o Brasil vice.

Quatro anos mais tarde, em Portugal, a história não teria sido muito diferente.  Porque em Portugal?  Porque era um dos poucos países europeus inteiros em 1946.  Foram dezesseis as seleções competidoras.  A Argentina tornou-se bicampeã, tendo a Itália como vice, a Suécia em terceiro lugar e o Brasil em quarto.

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Até 1998, não havia registro de cenários de futebol alternativo na literatura fantástica brasileira.  Naquele ano, a editora Ano-Luz publicou a antologia Outras Copas, Outros Mundos com duas narrativas de história alternativa stricto sensu e uma terceira sobre viagens retrotemporais futebolísticas no melhor estilo das histórias de patrulha temporal de Poul Anderson, além de fortes elementos de história alternativa.

O conto “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, escrito por meu pseudônimo feminino, Carla Cristina Pereira, é um pseudofactual apresentado sob a forma de matéria jornalística.  Não exatamente o artigo normal de um diário, mas antes, uma matéria de fundo, daquelas que costumamos encontrar nos cadernos dominicais dos jornais de grande circulação.  A jornalista Cari Cuandu Pires especula sobre as mudanças históricas que adviriam caso Cortez e seus homens houvessem vencido uma partida de tlachtli, um jogo de bola disputado com uma pelota de borracha dura (ou, mais raramente, com a cabeça dos jogadores do time derrotado na partida anterior), onde os contendores só podem tocar na bola com os ombros e os quadris.  Escrita às vésperas da final da Copa do Mundo de Balípodo Moderno por Cari Cuandu, uma enviada especial do Diário de Pindorama[4] para cobrir a copa em Tenochtitlán, a matéria jornalística rememora os eventos históricos que teriam provocado o fracasso da terceira expedição castelhana ao México, especulando sobre o que teria acontecido se Cortez houvesse logrado êxito.

É sabido que em nossa linha histórica, os navios dessa terceira expedição fizeram realmente uma parada breve em Cozumel, tendo sido bem recebidos pelos maias, que à época mantinham um pequeno entreposto comercial por lá.

Na linha alternativa proposta, os maias convidam os castelhanos a disputar uma partida de tlachtli, jogo de bola praticado por diversas culturas pré-colombianas.  Os arqueólogos encontraram quadras dessa modalidade desportiva nas ruínas de várias cidades maias e astecas.  Algumas dessas quadras foram construídas antes de 1.000 aec, o que faz do tlachtli não apenas o primeiro antepassado registrado do futebol, mas também o esporte oficial com bola mais antigo de que se tem notícias.

Tlachtli

Fig. 13 — Tlachtli, representação no Museo Nacional de Antropologia, Cidade do México (Foto do Autor).

 

É de todo provável que em nossa linha histórica a peleja do título jamais se tenha dado.  Contudo, na linha alternativa do conto, é justo a partir do resultado dessa peleja inocente de Cozumel que toda a história mundial se altera em 1520.  Como capitão da equipe derrotada, Cortez é sacrificado.  Na batalha que se segue ao sacrifício, não obstantes as baixas tremendas sofridas pelos maias, os demais conquistadores espanhóis são massacrados no próprio estádio.

Deste ponto de divergência esportivo, a história começa a mudar numa progressão de círculos concêntricos cada vez maiores.  De imediato: sem Cortez, o Império Asteca não é conquistado.  Contudo, as notícias da peleja chegam aos ouvidos dos astecas, e estes tomam conhecimento da existência dos conquistadores castelhanos, compreendendo de imediato que os invasores não são deuses e que podem ser mortos.  Quando novas levas de invasores ibéricos aparecem na fronteira do império, os exércitos astecas estão preparados para enfrentá-los e conseguem rechaçar o inimigo.  Sem o exemplo da conquista do Império Asteca, o Império Inca também é deixado mais ou menos em paz, pois ao fim do século XX ainda existe na América do Sul um Estado moderno poderoso chamado Império K’eshua com sede em Cuzco.

Em lugar do Brasil, há uma Confederação Pindorama, onde os elementos culturais ameríndios e europeus ter-se-iam fundido de modo mais harmonioso e equilibrado do que ocorreu em nosso país.

A questão crucial do efeito das moléstias infecciosas de origem europeia sobre as populações nativas é lembrada en passant pela autora da matéria jornalística.  Presentes nesse pseudofactual estão ainda umas poucas pinceladas sobre um tema que, à falta de nomenclatura melhor, poderíamos designar “pré-história do futebol”.  Doses homeopáticas dos primórdios do futebol na Europa da Antiguidade Clássica e da Idade Medieval.

A estrutura do pseudofactual começa com a rememoração da partida entre maias e castelhanos, que inclui uma explicação breve do tlachtli, passando em seguida às consequências imediatas da derrota esportiva (e militar) dos europeus, vistas pelos olhos de um sobrevivente.  A repórter conclui a matéria jornalística com uma especulação de como seria o mundo atual se Cortez houvesse vencido a partida e a Espanha houvesse conquistado os Impérios Asteca e Inca.  Nessa especulação, Cari aproveita sua estada em Tenochtitlán para consultar um historiador mexica da Universidade local.  Partindo da máxima discutível que afirma que “implausível é toda história que não aconteceu”, a repórter ecoa a descrença da academia à tese heterodoxa propugnada pelo professor mexica de que os castelhanos poderiam ter realmente conquistado o Império Asteca (“Mas, como seria possível, se os invasores eram tão poucos, contra os exércitos e a população de todo um império?”) e com isto alterado toda a história mundial.

Ao fim do pseudofactual, a especulação histórica cede espaço a uma outra, desportiva: como seria o balípodo moderno caso não houvesse sofrido as influências do tlachtli?  Através da opinião abalizada de uma historiadora esportiva de Pindorama, Cari insinua que, sem essas influências pré-colombianas, o balípodo seria muito mais parecido com o bom e velho futebol da nossa linha histórica, aquele mesmo esporte que os brasileiros do século passado sabiam jogar tão bem.

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Valendo-se do jargão futebolístico, podemos afirmar que Octavio Aragão fez sua estreia literária profissional com categoria na noveleta “Eu Matei Paolo Rossi”.  Trata-se aqui de uma homenagem explícita às narrativas de patrulha temporal escritas por Poul Anderson.  Uma homenagem elaborada, aliás, com doses generosas de verve e bom-humor.  A estrutura das tramas desse tipo é bem conhecida pelo leitor médio de ficção científica: cronoterroristas ou meros turistas temporais viajam ao passado e alteram os resultados de eventos históricos cruciais, gerando assim linhas históricas alternativas a partir de pontos de divergência proposital ou inadvertidamente introduzidos.  Ao regressar ao presente, os viajantes se deparam com culturas inteiramente diferentes daquelas que deixaram na jornada de ida.  Por via de regra, agentes de um ou outro tipo de polícia temporal são obrigados a intervir para colocar a história novamente em seus eixos etéreos, quer do nosso ponto de vista, quer da perspectiva de uma linha alternativa qualquer.

Na noveleta “Eu Matei Paolo Rossi” há todos esses elementos e muito mais.  Em cinco de julho de 1982, um torcedor desarvorado regressa ao lar após a derrota por 3×2 para a Itália na Copa da Espanha.  Descobre que um vizinho italiano empreendeu uma viagem temporal de alguns dias ao passado para dopar o atacante Paolo Rossi, de modo que este jogasse o partidaço que de fato jogou em nossa linha histórica, possibilitando assim a vitória da Squadra Azzura sobre a Seleção Canarinho, então franca favorita ao título mundial.  Diante da incredulidade do protagonista, o viajante lança diante de seus olhos o clássico jornal com o clichê da manchete que jamais aconteceu: “Brasil Tetracampeão Mundial!!!”

Desse ponto em diante, estimulado pelo vizinho italiano, o protagonista se envolve nos mais diversos e emaranhados imbróglios espaçotemporais, alterando cada vez mais a história em geral e os resultados das Copas do Mundo em particular.  Já aprendemos que, nesse tipo de enredo, quanto mais bagunça tocamos nos diferentes continua e linhas históricas, maior será a probabilidade de uma intervenção da temida polícia temporal ou, no caso, da Intempol.  É isto que acontece, só que, refletindo as práticas policiais brasileiras, os agentes da organização famigerada estão longe de ser aqueles funcionários assépticos, bonzinhos e politicamente corretos, típicos da ficção científica anglo-saxã.  Ao contrário, os patrulheiros da Intempol são uns meganhas truculentos, mas tremendamente eficientes, que, no bom e velho estilo dos tempos da ditadura, partem logo para a violência, apagando simplesmente o protagonista do nosso continuum espaçotemporal e o deportando para a “prisão dos homens que nunca existiram”.  E isto é só o começo da história.  Ao longo dos anos seguintes, a Intempol constituiria o universo ficcional compartilhado mais bem-sucedido da ficção científica lusófona.[5]

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O título de minha noveleta “Pátrias de Chuteiras” veio de uma citação do teatrólogo Nélson Rodrigues.  A narrativa aborda exatamente esse patriotismo exacerbado aberrante que no Brasil só aparece às vésperas das Copas do Mundo.  Uma espécie de patriotismo facilmente manipulável por políticos inescrupulosos — reparem, não há aqui a mínima intenção de se empregar um pleonasmo vicioso.  Tampouco a pretensão de exercitar a ironia ou o sarcasmo — daqui e do estrangeiro, e de todas as épocas, com interesses para lá de escusos.

“Pátrias de Chuteiras” é uma narrativa ambientada na linha alternativa batizada Três Brasis, criada para a novela “O Vampiro de Nova Holanda”.[6]  Um cenário histórico em que a República de Palmares existe até os dias de hoje.  A ação se passa em 1986, na final da 15ª Copa do Mundo, nos Estados Unidos.  Na ausência de conflitos mundiais,[7] a história do futebol avançou duas Copas do Mundo em relação à nossa linha histórica: a Copa de 1942 foi disputada em Palmares e a de 1946 na Alemanha.  Embora existam cinco seleções bicampeãs, nenhum país conseguiu ainda se sagrar tricampeão e, portanto, conquistar em definitivo a Taça Jules Rimet.  A final da Copa dos Estados Unidos determinará a posse do troféu para sempre, pois é justamente entre as seleções bicampeãs do Brasil e de Palmares.

Só que, mais do um simples jogo, a final é uma autêntica guerra entre as duas nações rivais — jamais a expressão “batalha campal” se aplicou tão bem a uma partida de futebol.  Isto não significa que haja excesso de jogadas violentas em campo.  Significa, isto sim, a consciência cristalina por parte dos atletas e comissões técnicas das duas seleções, de que há demasiado em jogo, em termos de prestígio nacional, além do mero resultado de uma partida de futebol.

 

Bandeira do Brasil (UF Três Brasis)

Fig. 14 — Bandeira do Brasil (U.F. Três Brasis), por António Martins-Tuválkin.

 

O técnico da seleção palmarina é o brasileiro Nascimento dos Santos, o maior goleador da história do esporte e, segundo muitos cronistas esportivos, o futebolista mais completo de todos os tempos.  Nascimento é um sujeito cujos sentimentos de lealdade se encontram divididos entre sua raça e a pátria em que nasceu, isto num mundo onde Palmares é a campeã da luta contra o escravismo e o colonialismo, a grande defensora da causa da igualdade da raça negra, além de uma superpotência que já derrotou o Brasil em várias guerras, desde os tempos do Império, isto para não falar nas inúmeras escaramuças fronteiriças.

Patrulhas Temporais Alternativas

Até a publicação da noveleta “Eu Matei Paolo Rossi” de Octavio Aragão na antologia temática de futebol Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998), organizada por Marcello Simão Branco, a questão das patrulhas temporais praticamente inexistia na literatura fantástica lusófona.  Como descrito acima, o trabalho original de Aragão abriu as portas ao universo ficcional Intempol, narrativas de uma patrulha temporal à brasileira, dotada de métodos truculentos e jogo de cintura impensáveis nos departamentos de polícia temporal assépticos lucubrados por autores de países desenvolvidos.  Essa trama de viagens no tempo completamente inverossímil, mas nem por isso menos divertida, fez escola.  Seu criador patenteou a marca Intempol, escreveu uma espécie de “bíblia do universo ficcional” e abriu o conceito à exploração dos demais autores interessados,[8] transformando-o no primeiro universo compartilhado da ficção científica brasileira.  Vários autores, com destaque para Fábio Fernandes e Osmarco Valladão, ambientaram suas próprias histórias na Intempol, expandindo consideravelmente o conceito original.

A questão pertinente que se coloca em termos da presente análise é se existe ou não conteúdo de historia alternativa no universo ficcional Intempol.  Da leitura das narrativas ambientadas nesse UF, conclui-se que tal conteúdo existe desde “Eu Matei Paolo Rossi”, quando o autor nos brinda com o vislumbre de uma linha histórica alternativa em que o Brasil ter-se-ia sagrado tetracampeão mundial de futebol em 1982.

A quantidade e o conteúdo de história alternativa variam bastante, dependendo da trama intempoliana analisada.  A novela “A Vingança da Ampulheta” de Fábio Fernandes é a narrativa mais longa e ambiciosa da fase inicial do UF Intempol.  Além disso, é a de conteúdo de história alternativa mais explícito, introduzindo, inclusive, o conceito de guerra entre várias linhas temporais,[9] onde pelo menos um dos contendores é membro de uma cultura que, embora inteiramente humana, não é constituída por “gente como a gente”.  Mais detalhes sobre essa narrativa em particular na seção Neandertal Alternativo.

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No conto de viagem no tempo “Missão 1211908”, de Luísa Marques da Silva, publicada na antologia A República Nunca Existiu!, patrulheiros temporais de uma linha histórica alternativa na qual a monarquia portuguesa persiste pelo menos até o século XXIII regressam ao passado para impedir que cronoterroristas assassinem o rei português Dom Carlos em 1908.  Se fracassarem, sua linha alternativa se transformará na nossa linha histórica.  Uma narrativa instigante, bem escrita e razoavelmente original.

Roma Alternativa

Meu romance Estranhos no Paraíso (2015) começa como uma narrativa de ficção científica hard convencional.  Do meio da trama em diante, transforma-se em história alternativa, mas, daí para o clímax e a conclusão retoma a aparência de FC.

O romance é narrado na primeira pessoa por Sylvia Chang, comandante da Pioneira, nave de pesquisas que conduz seis pessoas brilhantes, escolhidas a dedo entre os maiores expoentes intelectuais e científicos da humanidade do século XXIV, para a primeira missão tripulada a outro sistema estelar.  A missão primária da Pioneira é efetuar o primeiro contato com os pavonianos, inteligências que habitam um dos dois mundos bióticos orbitantes ao redor de Delta Pavonis, uma anã amarela situada a vinte anos-luz do Sol.  A humanidade já havia estabelecido contato radiofônico com essa civilização alienígena algumas décadas antes da partida.  Além do primeiro contato em si, Sylvia e seus companheiros devem permanecer em Delta Pavonis por cerca de uma década para estudar as duas biosferas planetárias do sistema.  Só que, não obstante os anos de treinamento sob os ambientes simulados variados e os protocolos rigorosos da missão, os eventos descambam por rumos inesperados, pois os anfitriões pavonianos tramaram uma surpresa tremenda para os visitantes humanos.

Já em sua viagem de regresso ao Sistema Solar, a missão secundária da Pioneira consiste em estudar a Descontinuidade Molton, singularidade gravitacional nua distante três anos-luz do Sol que exibe um comportamento sui generis: com a massa de um asteroide, possui a assinatura paragravitacional análoga a de um buraco negro com várias massas solares.  Durante a estada em Molton, um pulso anômalo emitido pela singularidade atinge a Pioneira.  Horas mais tarde, os tripulantes da Pioneira descobrem destroços de outra nave estelar.  Fragmentos de DNA extraídos dos destroços confirmam que a nave sinistrada proveio da Terra, embora seus tripulantes não fossem humanos.

Finda a missão em Molton, os tripulantes retornam aos seus hibernáculos para o Sono de regresso ao Sol.  No entanto, ao despertarem no Sistema Solar, deparam-se com uma civilização humana radicalmente distinta daquela que deixaram para trás quase um século antes.  É claro que os pioneiros já esperavam certa dose de mudanças sociais e avanços tecnológicos e culturais, em virtude do período de ausência prolongada, mas nada os preparara para o cenário hipertecnológico praticamente alienígena que se exibe diante dos seus olhos.  Essa humanidade anômala chama a Terra de “Elysium” e se referem à singularidade permeável Molton como o “Olho de Shiva”.

 

Capa Estranhos no Paraíso

Fig. 15 — Capa de Estranhos no Paraíso.

 

Estranhos no Paraíso é o único romance deste autor que não se desenrola num universo ficcional mais extenso, cuja elaboração constitui uma das minhas marcas registradas.  Trata-se de uma narrativa-solo cujo enredo de história alternativa é construído a partir de um ponto de divergência inusitado.  Para explicar tal divergência, faço minhas as palavras de alguém bem mais qualificado do que eu: Olympia Magnus, diplomata e historiadora da Pioneira:

“A origem do ponto de desnível topológico que tornou este plano de realidade que hoje habitamos diferente do nosso, aquilo que os estudiosos de história contrafactual denominam divergência, foi um evento que se iniciou na península indiana por volta de 518 a.u.c. (circa 235 aec).

“Como em nosso mundo, ali reinou naquela época um governante denominado Asoka.  Em 492 a.u.c. (261 aec), o jovem soberano se surpreendeu traumatizado com uma das conquistas mais sangrentas de seus exércitos, realizada no reino vizinho de Kalinga, país submetido somente às custas de requintes de crueldade e dezenas de milhares de mortes.  Asoka meditou sobre a inutilidade da guerra e decidiu modificar sua maneira de ser e sua filosofia de vida.  Converteu-se ao budismo e fez dessa crença a doutrina oficial do Estado, passando a se empenhar pessoalmente na disseminação dos ensinamentos do Príncipe Siddhartha Gautama através de seu reino.  Como seu reinado durou meio século, deveras longo para os padrões da época, apesar do desagrado das castas dominantes, Asoka conseguiu completar sua obra de transformar inteiramente a face de seu império.  Criou uma nação pacífica, porém poderosa e bem organizada, política, econômica e administrativamente, fato até então inédito na história humana.  Ademais, deu prosseguimento aos trabalhos de irrigação iniciados por seus antepassados, fundou hospitais para seres humanos e animais, tomou providências para controlar as finanças e empreendeu uma pujante expansão econômica.

“Concluído aquilo que considerou como marco inicial de seu governo, Asoka decidiu difundir a doutrina filosófica budista para além das fronteiras de seu império.  Enviou emissários ao oriente, para a China, então dividida em pequenos Estados feudais; ao sul, para a ilha do Ceilão, onde logrou a conversão do próprio rei Tissafernes; e ao ocidente, rumo ao subimpério macedônio na Ásia Menor, que Seleuco e seus descendentes herdaram com a morte de Alexandre Magno.  Enviou emissários mesmo às longínquas cidades-Estado helênicas e à ainda mais distante república romana.

“O desnível topológico, o ponto de divergência por assim dizer, residiu precisamente no êxito de um destes emissários.  Em nosso mundo, as crônicas históricas romanas nem sequer mencionavam a visita do embaixador do soberano máuria.  Tito Lívio, historiador romano do fim da República[10], por exemplo, não menciona a visita do emissário de Asoka.  Contudo, cumpre mencionar que em nosso continuum vários livros da obra monumental e detalhista de Lívio, Ab Urbe Condita Libri, perderam-se irremediavelmente.  Os livros referentes à Primeira Guerra Púnica se perderam, ao passo que os relativos à Segunda Guerra Púnica foram conservados.  Como o emissário chegou supostamente à Roma justo no intervalo entre essas duas guerras, talvez o grande cronista romano tenha relatado o fato num dos livros perdidos.  Como não houve um cronista histórico Tito Lívio neste continuum, não podemos consultar aqui os livros dados como perdidos em nosso continuum para esclarecer a questão.[11]

“Contudo, neste continuum, tal emissário não apenas logrou chegar incólume à Cidade das Sete Colinas, como conseguiu expor os ensinamentos budistas em plena tribuna do senado romano, diante de uma audiência interessada, composta pela elite cultural patrícia.

“Semente fecunda lançada às margens do Tibre, numa época em que os ideais mais sinceros da República Romana ainda não haviam sido conspurcados, talvez pelo fato de ainda estarem associados à moral rígida e severa de uma cultura essencialmente camponesa.

“O emissário de Asoka permaneceu vários anos hospedado na vila de um dos senadores mais influentes da República, tratado com honrarias devidas a um chefe-de-Estado.  Quando finalmente retornou à terra natal, se fez acompanhar por um séquito suntuoso de dezenas de patrícios, dentre eles um senador e três tribunos.

“Este evento aparentemente pouco importante constituiu a divergência da qual se irradiaram todas as alterações futuras.  Ao contrário do que se poderia esperar a princípio, não ocorreram modificações imediatas de grande vulto.

“Os romanos haviam recebido a visita do embaixador máuria justamente no curto intervalo de 23 anos entre a Primeira e a Segunda Guerras Púnicas, levadas a efeito contra os cartagineses.

“Segundo Tito Lívio, aquele foi um período de relativa paz e tranquilidade para a República.  Roma aproveitou uma revolta dos exércitos mercenários a soldo de Cartago para subtrair a Sardenha e a Córsega à metrópole africana.  Os romanos encetaram ainda campanhas vitoriosas contra várias tribos bárbaras, dentre as quais, hordas numerosas de gauleses transalpinos, que por mais de uma vez no passado ameaçavam cruzar o Rio Pó, trazendo pânico e destruição aos lares dos colonos romanos e latinos do norte da Itália.

“Naquela mesma época, os sufetas cartagineses enviavam exércitos à Espanha para colonizar novos territórios e erigir um império na Europa meridional que rivalizasse em poder com a República Romana.  Ao longo de uma geração, o expansionismo púnico no sudoeste europeu preocupou o Senado Romano.  À medida que o jovem Aníbal Barca[12] crescia, para se tornar o melhor estrategista da Antiguidade e a maior ameaça ao futuro da República, o clima de tensão entre as duas potências mediterrâneas se elevava ano a ano.

“Destarte, não surpreende que o estabelecimento de relações cordiais, conquanto esporádicas, dos romanos com a Índia dos Máurias não tenha conseguido desempenhar papel preponderante no grande conflito que se seguiu.

“A Segunda Guerra Púnica se deu aqui, em todos os seus acontecimentos principais, de maneira idêntica à constante nos registros históricos que trouxemos conosco a bordo da Pioneira.

“O jovem e brilhante general Aníbal Barca atacou a República pelas costas, atravessando os Alpes com os seus exércitos aparelhados com elefantes de combate.  Quase logrou êxito em seu intento de submeter seus inimigos orgulhosos.  Por cerca de duas décadas os cartagineses assolaram a península, tendo sido poucas vezes batidos pelas legiões romanas em batalhas convencionais.  Somente foram derrotados definitivamente por Cipião o Africano em Zama, próximo à própria Cartago em 552 a.u.c. (201 aec por nossa cronologia).

“Na Índia dessa mesma época, Asoka havia morrido há mais de duas décadas.  Seu império outrora poderoso fora dividido entre seus descendentes, estando já em franca dissolução.

“Contudo, ao fim da Segunda Guerra, a semente que o emissário do imperador máuria plantara no solo romano enfim germinou forte e saudável na maneira branda e humana pela qual os vencedores trataram os derrotados.

“O Senado Romano lembrou-se da história do arrependimento pungente do imperador Asoka em Kalinga e de suas consequências.  Decidiram privar os cartagineses de seus exércitos e Armada.  Atitude lógica, afinal, em mãos púnicas tais recursos constituiriam ameaça perene à sobrevivência de Roma.  Porém, de maneira diversa ao que ocorrera em nosso continuum, os romanos não apenas mantiveram intactos os direitos e os bens da população civil cartaginesa, como ainda ajudaram a reequilibrar as finanças da grande metrópole africana e a auxiliaram na reconstrução de sua esquadra mercante, contribuindo assim, para reerguer a própria dignidade do adversário derrotado.

“Houve um tratado estabelecendo uma paz honrosa, sempre respeitado por ambas as partes.  A atitude firme mas piedosa dos patrícios romanos surpreendeu em muito os sufetas púnicos, fazendo com que passassem a encarar seus antigos adversários com sentimento inédito de admiração e respeito.

“Então, os próprios cartagineses começaram a se interessar por aquela doutrina exótica e poderosa que, no curso de uma única geração, modificara radicalmente a maneira de pensar e agir de seus antigos adversários.

“Jamais ocorreu uma Terceira Guerra Púnica neste continuum.

“Em verdade, uma vez convertidos ao credo budista, os cartagineses transformaram-se num dos aliados mais confiáveis de Roma.  Com o tempo lhes foi delegada a responsabilidade pela maior parte do comércio e transporte marítimo mediterrâneo.  Nos séculos seguintes, os cartagineses passaram a ser referenciados com frequência nas crônicas da época como a “Marinha de Roma”.  Na expansão que se seguiria, trirremes comandadas e tripuladas por cartagineses conduziram milhões de legionários romanos para impor a Pax et Doctrina da República às províncias recém-conquistadas.”

Idades Médias Alternativas

Carlos Orsi[13] brinda o leitor com a prevalência salutar de culturas não europeias entre as sociedades mais progressistas no cenário da noveleta de futuro alternativo, cuja divergência se situa na Idade Média, “De Praeputio Domini” (201?), estabelecendo um diálogo sutil com o romance The Years of Rice and Salt de Kim Stanley Robinson.

A ação que se desenrola numa Londres futura e alternativa consiste, em sua essência, uma trama de intriga política e diplomática com laivos de thriller de investigação policial e de espionagem em cenário histórico alternativo em torno de uma investigação científica para descobrir qual das duas relíquias do prepúcio de Jesus Cristo seria genuína: o prepúcio guardado em Roma, ou o mantido em Constantinopla.  Sim, porque nessa linha histórica alternativa o Império Bizantino sobrevive incólume terceiro milênio adentro.  O ponto de divergência ocorre em 1237 ec, quando o imperador Balduíno II se apodera da relíquia do prepúcio do Menino Jesus e logra vencer uma batalha crucial, estancando a invasão búlgara e, mais tarde, reconquistando Alexandria e Jerusalém.

Os protagonistas são os cientistas incumbidos da análise das relíquias, selecionados, por questão de isenção, entre as comunidades científicas das culturas não-europeias.  A trama se inicia na Abadia de Westminster, onde os sábios estão hospedados, quando um dos membros da equipe é encontrado morto, vítima de homicídio.

Descobrimentos Alternativos

Publicado sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, o conto “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” constitui uma narrativa de Descobrimentos Alternativos.  Assim como também o é o pseudofactual “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, analisado acima, na seção Futebol Alternativo.

O ponto de divergência se situa em 1488 em um ponto crucial da história luso-brasileira.  Os dois navios de Bartolomeu Dias naufragam ao tentar dobrar o Cabo das Tormentas e Portugal não descobre o Caminho Marítimo para as Índias através da circunavegação da África.  Por essa mesma época, Colombo está em Lisboa, sendo cozinhado em banho-maria pelo rei Dom João II.  Sem notícias de Dias há muitos meses e à falta de melhor opção, mesmo contrariando seu conselho de Estado, o monarca português acaba decidindo aceitar a proposta ingênua do navegador genovês.  Daí, Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa, ainda no reinado de Dom João II.  Década e meia mais tarde, Affonso de Albuquerque avassala (mas não destrói) o riquíssimo Império Asteca, tornando os náuatles prepostos e representantes da Coroa Portuguesa no México.  O próprio imperador Montezuma II se converte ao cristianismo, ainda que essa conversão seja apenas pro forma.

Enquanto Portugal enriquece com o ouro asteca, sem a válvula de escape da descoberta da América, a Espanha acaba fragmentada numa guerra civil sangrenta entre as nobrezas de origem castelhana e aragonesa, conflito que eclode com a morte da rainha Isabel de Castela em 1505.  O ouro impulsiona os portugueses à exploração do Novo Mundo, já batizado de Cabrália.  Feitorias e vilas são fundadas tanto na Cabrália do Norte quanto na do Sul, onde se explora o valioso pau-brasil.  Descobrir e avassalar o Império Inca é então apenas uma questão de tempo.  E com a vassalagem de Huyana Capac a Dom Manuel, o Senhor dos Sete Mares, vem a conquista do Mundo Oceano (Pacífico) e o resgate de um velho sonho, agora sim, com três décadas de atraso em relação à nossa linha histórica, o Caminho Marítimo para as Índias.

Sob o comando de Fernão de Magalhães, os portugueses chegam afinal a Calicute em 1520.  Quando o samorim manda torturar e matar esse grande navegador português, Dom Manuel explode em fúria e convoca seu comandante mais duro e capaz para empreender a vingança do Império Português, Dom Vasco da Gama.

Esse Vasco da Gama alternativo não é o comandante que, na plenitude de seus 38 anos, comandou as primeiras naus europeias a alcançar a Índia em 1498 da nossa linha histórica.  É, sim, um ancião de barbas brancas, mas ainda bem disposto, a se confiar na opinião de sua jovem esposa, a princesa asteca Xochiquetzal.  Nessa linha alternativa, a Esquadra da Vingança chega a Calicute em 1523, mais ou menos na mesma época em que o Vasco da Gama da NLH lá chegava para assumir o cargo de Vice-Rei.

Contudo, esses fatos constituem mero background.  A história em si é contada do ponto de vista da tal princesa asteca de nome difícil.  É através de seus olhos de nobre mexica educada em Lisboa, de sua percepção delicada de mulher e criatura híbrida de duas culturas muito diferentes, que o leitor vê a aliança do povo dela com os portugueses; a política do Império Luso,[14] os primeiros efeitos dos Descobrimentos no Novo e no Velho Mundo, as ações do samorim, a iminência do confronto entre portugueses e indianos e, finalmente, a batalha naval apavorante que explode em plena baía de Calicute.

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A ideia de escrever o conto “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”, primeira parte da narrativa que viria a se tornar o romance curto Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas, surgiu de um debate no Point of Divergence[15] em meados de 1998 sobre como seriam as Américas se o continente houvesse sido descoberto e colonizado apenas pelos portugueses, sem a participação dos espanhóis.

Na edição seguinte do apazine, propus uma linha histórica alternativa para justificar a descoberta da América sob bandeira lusitana.  O ponto de divergência teria sido o naufrágio da flotilha comandada por Bartolomeu Dias no Cabo das Tormentas em 1488.  Esta divergência gerou duas consequências imediatas.  Em primeiro lugar, El-Rei de Portugal, Dom João II, aceita a proposta do navegador genovês Cristóvão Colombo para chegar às Índias navegando para o poente.  Em segundo lugar, como consequência desta decisão tecnicamente equivocada, os portugueses não descobrem o caminho marítimo para as Índias e põem de lado por três décadas a ambição de controlar o monopólio do comércio das especiarias.

Em compensação, Colombo descobre a América em 1490.  Em sua segunda viagem, no ano seguinte, descobre Cuba e Lusitânia (Hispaniola, em nossa linha histórica), dando início à colonização e à exploração econômica das Antilhas, pois, os portugueses já estavam bem acostumados a lidar com arquipélagos de ilhas atlânticas.  Gaspar Corte-Real explora o litoral do Novo Douro (Nova Inglaterra) na Cabrália do Norte em 1498 e Pedro Álvares Cabral descobre a Terra do Cruzeiro do Sul, posteriormente batizada em sua homenagem.

O primeiro contato entre navegadores portugueses e pochtecatl (comerciantes) mexicas se dá na Península do Iucatão em 1504, despertando a cobiça dos lusos para as riquezas de Anáhuac.  De fato, entre 1508 e 1510, Affonso de Albuquerque (cognominado “Affonso o Grande” tanto em nossa linha histórica quanto nessa linha alternativa) avassala o Reino Mexica para Portugal, tornando-se o primeiro Vice-Rei do México.  Em presença de Albuquerque, o Tlatoani Motecuhzoma II jura vassalagem a Dom Manuel o Venturoso.  Esse monarca luso tornar-se-ia posteriormente conhecido pelo epíteto de “Senhor dos Sete Mares”.  Entre os mexicas, Dom Manuel é cognominado de “Rei dos Reis”.

Oito anos mais tarde, Fernão de Magalhães estabelece o primeiro contato direto dos portugueses com o Tahuantinsuyu (Império Inca).  Os emissários do Inca Huayna Capac (1450-1525) trocam presentes com os portugueses.  No comando de uma pequena comitiva, Magalhães é recebido na corte do Sapa Inca em Cusco nas Alturas.

A ideia básica inerente à elaboração dessa linha alternativa é que os lusos tratariam os grandes impérios pré-cabralinos com política diversa da praticada pelos conquistadores castelhanos da nossa linha histórica.  Em vez de destruir tais impérios, os lusitanos os avassalariam, à semelhança do que realmente fizeram com os reinos da Península Indiana.  De certo modo, a conquista dos grandes reinos das Cabrálias teria sido mais fácil e amena para os portugueses do que a conquista da Índia.

Para manter os vínculos de lealdade com seus novos vassalos, já em 1511, cerca de quinhentos teuclahtoh (nobres hereditários) e teteuctin (lordes) mexicas e acolhuas, filhos da mais elevada nobreza da Tríplice Aliança de Anáhuac, são levados para Portugal a fim de receber educação cristã.  Então com sete anos, Xochiquetzal desembarca em Lisboa a Branca.  Em verdade, não obstante o fato de receberem educação esmerada e tratamento condizente às suas posições de filhos-d’algo, os teteuctin são de fato reféns de luxo.  Sua estada na Europa garante que os tlatoque mexicas e aliados nem sequer cogitem se revoltar contra El-Rei.

Quando regressam a Anáhuac alguns anos mais tarde, os jovens mexicas e acolhuas já se encontram lusitanizados o bastante para servir em postos de comando intermediário nos exércitos de El-Rei.  Já as filhas-d’algo mexicas se tornam aptas a desposar comandantes lusitanos, como acontece, aliás, com a jovem Princesa Xochiquetzal, esposa de Dom Vasco da Gama, um dos principais comandantes lusitanos das Três Cabrálias.

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Em março de 1999, este autor detinha em mãos uma linha histórica efetiva de Descobrimentos Alternativos e morria de vontade de usá-la.  O problema é que àquela época já estava escrevendo “Capitão Diabo das Geraes” — noveleta de história alternativa ambientada no universo ficcional dos Três Brasis — para publicar na antologia Phantastica Brasiliana.

A solução foi escrever e publicar “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, estabelecido anos antes e que, inclusive, já havia realizado sua própria estreia literária no ano anterior com o conto pseudofactual “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos (1998).

A gana para colocar esse conto de descobrimentos portugueses alternativos no papel foi tão grande que a gênese de “Capitão Diabo das Geraes” foi interrompida para escrevê-lo.  O conto publicado sob pseudônimo foi concluído em abril de 1999 e a noveleta ambientada no Três Brasis no mês seguinte.

Ademais — oficialmente à revelia deste que ora lhes confessa — “Carla” submeteu seu conto à antologia bilíngue portuguesa Pecar a Sete / Sinning in Sevens (Simetria, 1999).  Com uma versão para o inglês à disposição, traduzida por David Alan Prescott, “Carla” submeteu seu conto à revista de ficção científica australiana, Altair.  Graças à publicação de “Xochiquetzal” na Altair, ela foi indicada para o Sidewise Awards 2000 na categoria ficção curta e acabou como finalista, atrás apenas da belíssima noveleta “Seventy-Two Letters”, do genial Ted Chiang.

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Animado pelo sucesso de “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”, decidi escrever uma continuação.  Daí, em janeiro de 2003, após ler uma boa quantidade de livros sobre as culturas asteca e inca, concluí a noveleta “Xochiquetzal em Cuzco”, que se inicia exatamente onde o conto anterior terminava.

A inspiração imediata para escrever essa noveleta foi responder a especulação histórica de um contato hipotético entre as civilizações inca e asteca.  Mesmo que, até onde se sabe, tal contato não tenha ocorrido em nossa linha histórica, é interessante especular sobre suas consequências prováveis.  Astecas e incas ter-se-iam unindo numa frente comum contra o invasor europeu?  Ou se portariam mais ou menos como os ameríndios da etnia tupi do Brasil colonial, em que algumas tribos se aliaram aos portugueses, enquanto outras os combatiam?  De qualquer forma, na linha histórica alternativa Xochiquetzal, o primeiro contato entre astecas e incas se dá sob a égide lusitana.

“Xochiquetzal em Cuzco” foi publicada na antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados (Tecnofantasia, 2007), organizada pelos autores portugueses Luís Filipe Silva e Jorge Candeias.  Mais uma vez sob o pseudônimo Carla Cristina Pereira.

No primeiro semestre de 2006, Fábio M. Barreto estabeleceu seu selo de literatura fantástica, Unicórnio Azul, na editora Mercuryo.  Após publicar a novela de ficção alternativa A Mão que Cria, de Octavio Aragão, e minha coletânea de história alternativa Outros Brasis, Barreto se interessou por outros trabalhos.  Dentre várias propostas e submissões, surgiu a ideia de fundir os dois trabalhos do universo ficcional Xochiquetzal e reescrever a novela resultante, ampliando-a para que atingisse as dimensões de um romance curto.[16]

Infelizmente, o selo Unicórnio Azul foi descontinuado após a publicação dos dois títulos acima referidos.  De qualquer modo, prontifiquei o romance curto e, quando a editora Draco iniciou suas atividades no segundo semestre de 2009, eu tinha os originais desse romance curto de história alternativa para submeter à apreciação do publisher Erick Cardoso.

Dito e feito.  Lançado em dezembro de 2009, Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas foi o primeiro romance publicado pela nova editora.

 

Xochiquetzal [Capa]

Fig. 16 — Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (Draco, 2009).

 

Há ocasiões em que o escritor tem que encurtar um texto, podando-o aqui e ali, reduzindo-o de noveleta para conto, a fim de ajustá-lo às necessidades do editor ou antologista.  No caso de narrativas muito extensas, uma solução de fortuna é pinçar alguns capítulos do romance ou novela e reescrever esses capítulos de forma que façam sentido sozinhos em seu novo formato.  Por vezes essa solução funciona a contento, mas nem sempre.  Não raro, o leitor experiente percebe que o trabalho que tem diante de si constitui o fragmento de um todo maior e que, efetivamente, falta algo à narrativa para torná-la completa.

Noutras ocasiões, cumpre encorpar o texto, transformando-o de conto em noveleta ou de novela em romance.  Neste caso, em geral não basta apenas recontar exatamente a mesma história com mais palavras, pois existe o risco real de o texto parecer encheção de linguiça.  Uma solução é repassar a narrativa com calma a fim de descobrir que trechos estão implorando por novas cenas e personagens.  Outra técnica, de execução mais complexa num único volume, é fazer com que as aventuras daquele grupo de personagens prossiga para além do ponto em que o autor inicialmente convencionou como o fim da narrativa.

 

Mapa Xochiquetzal

Fig. 17 — Mapa da LHA Xochiquetzal, por Antonio Luiz M.C. Costa.

 

Na elaboração de Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas, criei alguns personagens novos, em geral convocando ao palco alguns que só haviam sido citados, mas não chegaram a aparecer em “Xochiquetzal em Cuzco”.  Além disso, escrevi novas cenas, anteriormente apenas insinuadas na noveleta citada.  Também adicionei uma biografia ficcional de Dona Xochiquetzal da Gama, que funciona à guisa de prólogo da narrativa.  Ao fim do processo, obtive o romance curto que pretendia escrever.  A contagem de palavras foi, grosso modo, o dobro da soma do número de palavras do conto com o da noveleta.  Se o resultado da experiência foi satisfatório, cumpre ao leitor julgar.

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Um cenário de história alternativa anômalo é o proposto por Rodrigo Schwarz em A Ilha dos Cães (2005).  Embora o enredo dessa novela não constitua Descobrimento Alternativo, o protagonista da trama escreve um romance de história alternativa ao qual é concedido mais espaço narrativo do que o da própria trama principal.  Esse romance dentro da novela, sim, é Descobrimento Alternativo.

O ponto de divergência da novela situa-se em 1868.  Ao regressar à Inglaterra após uma temporada no Brasil, de 1865 a 1868, o explorador, diplomata e escritor inglês Richard Francis Burton (1821-1890) naufraga em uma pequena ilha do Atlântico, tendo por único companheiro um pescador brasileiro, Nikolai, que é acometido pela cegueira, devido às sequelas do próprio naufrágio.  Numa cabana abandonada da ilhota, Burton encontra papel e tinta. Começa a escrever um romance de história alternativa também chamado A Ilha dos Cães, cujo ponto de divergência é o fracasso da viagem de Colombo e o consequente não descobrimento da América.  O romance de Burton trata de um escriba do Império Asteca do século XIX, Hokan, obrigado a acompanhar Acat, esposa predileta do Huey-Tatloani, a uma outra Ilha dos Cães, na costa do Pacífico, onde a cihuapilli havia sido desterrada pelo monarca.

A novela de Schwarz concede mais espaço ao romance alternativo de Burton do que a si própria.

O autor comete alguns erros grosseiros quanto à biografia de Burton.  Referindo-se a si próprio na primeira pessoa em 1868, o explorador inglês afirma-se tradutor do Kama Sutra e das Mil e Uma Noites, obras que ele só iria verter para o inglês na década de 1880.  Já os erros historiográficos sobre culturas pré-colombianas só não se constituem mais graves do que os praticados na biografia de Burton pelo fato de poderem ser atribuídos à relativa ignorância do autor britânico sobre o assunto. Destarte, os maias são referidos como possuidores de um império em pleno século XVI e seguintes; os incas praticam sacrifícios humanos; e por aí vai.

Curiosamente, embora a ilhota fornecesse pesca abundante aos náufragos, em momento algum é informado de onde o brasileiro cego e o explorador inglês extraem água para aplacar a sede.

Uma novela escrita aparentemente às pressas, sem maiores cuidados estilísticos ou de pesquisa.  Leitura dispensável.

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Mais criativo e original do que a novela de Schwarz, a noveleta “Xibalba Sonha com o Oeste” (2012), estreia profissional de André Soares Silva, brinda o leitor com um cenário histórico alternativo rico e instigante, ambientado em Guanabara e Arariboia, duas cidades litorâneas de uma Sul-Tenoque (América do Sul) sem vestígios da influência cultural europeia.  Aliás, para todo e qualquer efeito prático, é como se as culturas europeias jamais houvessem existido ou houvessem sido obliteradas por uma hecatombe natural desencadeada vários séculos atrás.

Tenoque foi descoberta por navegadores de Zonguá, superpotência asiática erigida a partir da supremacia da China Imperial sob os demais Estados asiáticos.  Após cruzar as águas geladas do Estreito de Dong-Dang (Bering), os zonguaneses libertaram os povos de etnia nahuá e tupi, dentre outros, do jugo cruel do Império Maia, que se estendia pela maior parte do continente.  Além de demolir a hegemonia maia, os zonguaneses trouxeram consigo a tecnologia de coletar a energia dos relâmpagos através de torres de captação, dentre as quais se destaca a Torre da Guanabara, instalada na entrada da baía que banha a cidade-Estado homônima.

A ação da noveleta se desenrola às vésperas do dia da Transição, conclusão de mais um baktun,[17] ocasião em os calendários tenoquês e zonguanês se fundirão num só ou, segundo os ameríndios alternativos, os corações do Dragão (Zonguá) e da Serpente (Tenoque) pulsarão em uníssono.

A protagonista é a professora Maiara de Akangatu, filha do ex-climatologista Ubirajara, condenado pelo homicídio do colega Yunru Zope e expurgado para Xibalba, a terra dos mortos, situada no Leste Proibido, para além do Oceano Nascente.  Numa bela tarde, ao regressar do colégio onde leciona para crianças, Maiara é surpreendida pela aparição do criminoso Anhangá em sua residência.  Acusado da eliminação de autoridades zonguanesas e aliado provável do grupo radical maia Filhos de Palenque, o subversivo traz revelações importantes sobre o destino do pai de Maiara.  Contudo, a intervenção abrupta da força de ocelotes (policiais) comandada pelo Lobo-Guará (Oficial de Armas) Hwang Wei provoca a fuga do invasor.

Em busca de respostas, a protagonista empreende uma incursão arriscada à Cidade Baixa, região degradada de Arariboia, onde é acossada pelos Filhos de Palenque, mas acaba salva por um personagem misterioso que lhe revela que a solução para o enigma do que de fato ocorre aos ameríndios expurgados para Xibalba se encontra nos escritos científicos de Ubirajara, armazenados na biblioteca da Torre da Guanabara.  O clímax da noveleta se dá no confronto final entre o comando de Hwang e o Anhangá, após o qual Maiara enfim compreende parte da verdade que o Trono da Serpente e o próprio Trono do Dragão logram manter oculta das populações da Tenoque.

O autor escreveu outra noveleta, “O Fantasma Zonguanês” (2015), ambientada na linha histórica alternativa criada em “Xibalba Sonha com o Oeste”.  Insatisfeitas com os êxitos espetaculares do subversivo tupi Anhangá, as autoridades de Beijing enviam um operativo de elite, o Fantasma, para combatê-lo.  Ao longo dessa segunda narrativa, o leitor descobre um pouco mais sobre a natureza do cataclismo cósmico que se abateu sobre Xibalba.

[1].  Os autores brasileiros não devem sentir maiores escrúpulos em se assenhorear da História de Portugal, sobretudo no que diz respeito ao período anterior a 1500 ec, do que os demonstrados pelos autores norte-americanos de fantasia histórica e história alternativa ao escrever, por exemplo, sobre a Inglaterra romano-bretã do tempo dos cavaleiros da Távola Redonda ou dos reis saxões.  Afinal de contas, uma vasta maioria de portugueses e brasileiros atuais possuem ancestrais comuns nos habitantes de Portugal de quinhentos anos atrás.

[2]Cradle of Splendor (Ace Books, 1996) — a trama se passa no Brasil de um futuro próximo: cientistas brasileiros perdem o controle de um foguete após o lançamento, mas o veículo continua em seu curso, embora não possua meios de propulsão conhecidos.  O romance aborda também figuras do nosso folclore.

[3]God’s Fires (Ace Books, 1997) — a ação se desenrola em Portugal, durante o período da Inquisição: espaçonave alienígena faz aterragem forçada próximo a uma vilazinha portuguesa e seus tripulantes são capturados por padres jesuítas.  A população local e a própria Igreja se questionam quanto à verdadeira origem dos alienígenas: seriam anjos ou demônios?

[4].  Jornal de uma confederação homônima que constitui o análogo do Brasil nessa linha histórica alternativa.  Embora “Pindorama” seja um termo de origem tupi (significando aproximadamente “região ou país das palmeiras”), cumpre lembrar que esta também era a designação que as gentes ando-peruanas davam ao Brasil Pré-Cabralino.

[5].  Mais detalhes abaixo, na seção Patrulhas Temporais Alternativas.

[6].  “O Vampiro de Nova Holanda” e outras narrativas ambientadas na linha alternativa Três Brasis serão abordadas em seção posterior deste capítulo.

[7].  Nessa linha histórica alternativa, a Grande Guerra Mundial — vitória dos Aliados Ocidentais (Palmares, EUA, Brasil, Províncias Unidas e Império Britânico) sobre os Eurocêntricos Neonapoleônicos (França, Império Alemão, Turquia Otomana, Império Russo e Império Nipônico) — desenrolou-se entre 1907 e 1923, não impossibilitando, portanto, as disputas das Copas do Mundo que, tal como em nossa linha histórica, começaram em 1930.

[8].  Até este autor arriscou duas incursões no universo intempoliano.  Escrita sob meu próprio nome, a noveleta “São os Deuses Crononautas?” possui elementos de história alternativa.  Já a novela “Clandestina Candente de Cosa”, escrita sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, contrapõe duas patrulhas temporais distintas na Roma Antiga, quando a Intempol se defronta com um patrulheiro do universo ficcional de Poul Anderson.

[9].  Um livro de RPG rico em ideias, onde os conflitos e as intrigas intertemporais também são enfocados de maneira interessante é GURPS Time Travel, de Steve Jackson e John M. Ford, onde agentes temporais de nossa linha histórica se defrontam com outros de uma linha alternativa autoritária, o Centrum, em luta pelo controle da exploração e do comércio das diversas linhas históricas alternativas.

[10].  Isto é, Tito Lívio (694 – 770 a.u.c.) viveu nas últimas décadas da República e nas primeiras décadas do Império Romano, em nossa linha histórica.

[11].  Uma hipótese mais simples e, portanto, beneficiada pelo princípio da Navalha de Occam, é que o emissário de Asoka jamais tenha chegado à Roma.

[12].  Filho do grande general cartaginês Amílcar Barca, comandante das forças de seu país na Primeira Guerra Púnica.

[13].  Trata-se do mesmo autor que no início da carreira publicava sob seu nome completo, Carlos Orsi Martinho.

[14].  O leitor descobre várias coisas através das memórias da princesa, como, por exemplo, que aquela cena de vingança e da obliteração iminente da bela Calicute representava a repetição em grande escala de outra atrocidade, ocorrida anos antes na península de Iucatã, quando o mesmo Vasco da Gama bombardeara e destruíra o vilarejo maia de Cozumel.

[15] Point of Divergence é um “apazine” de história alternativa do qual participei desde seu lançamento em 1997 até 2004.  Apazine ou APA (Amateur Press Association) fanzine é um periódico amador em que cada membro se obriga a enviar certo número de laudas a cada edição, com resenhas, ensaios, artigos e peças de ficção dentro do assunto que seus membros se propõem explorar.

[16].  “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” (5.500 palavras); “Xochiquetzal em Cuzco” (15.600 palavras).  Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (42.100 palavras).

[17]Baktun: intervalo de tempo correspondente a 20 ciclos katun do antigo calendário maia de contagem longa.  Contém 144.000 dias, equivalendo a 394,26 anos trópicos.

Histórias Alternativas em Outras Mídias

Em sua obra essencial, Trillion Year Spree (1986), o autor e estudioso de ficção científica Brian Aldiss afirma que a FC se tornou um gênero literário muito mais popular após a estreia do blockbuster cinematográfico de George Lucas, Guerra nas Estrelas (1977), filme que, segundo ele, mudou inteiramente a ordem de grandeza das vendas de livros de ficção científica mundo afora.

Ao contrário da ficção científica, gênero-mãe que lhe deu origem, a história alternativa encontra-se até os dias de hoje, praticamente restrita à expressão literária.  Quando comparado com o cenário reinante na ficção científica, são relativamente poucos os filmes, as séries, os jogos e os quadrinhos de história alternativa.  Este capítulo tratará de uns poucos exemplos de narrativas do subgênero presentes nas mídias extraliterárias.

Filmes

Não existem muitos filmes com cenários de história alternativa.  Há, no entanto, aqueles que, conquanto não constituam espécimes legítimos da expressão cinematográfica do subgênero, exibem certos elementos de história alternativa.

Uma película que se enquadra na definição de ficção científica com elementos de história alternativa é o curta-metragem “Barbosa” (1988), baseado em um conto de Paulo Perdigão, com roteiro de Giba Assis Brasil, Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado.  Com apenas treze minutos de duração, o curta é o drama de um torcedor, interpretado por Antônio Fagundes, que empreende uma viagem retrotemporal, aterrissando no Maracanã em plena final da Copa de 1950.  Ele pretende alertar Barbosa, o goleiro brasileiro, dos detalhes exatos do chute do atacante uruguaio que marcaria o gol da vitória da Celeste Olímpica.  Contudo, justo quando o viajante temporal chama Barbosa, o arqueiro se distrai e deixa de prestar atenção ao ataque adversário e… a seleção uruguaia marca o segundo gol!  Um belo exemplo de paradoxo temporal positivo: a intervenção no passado se faz necessária para criar o próprio passado e o presente conhecidos pelo protagonista.  Não chega a constituir história alternativa na acepção lata do termo, pois não há ponto de divergência a partir do qual a história se desvia do curso conhecido.  Mas que sabe a história alternativa, ah, isto sabe.

Outro exemplo dos tempos de antanho é o telefilme documentário inglês If Britain Had Fallen, apresentado pela BBC-TV em 1972.  O ponto de divergência se dá em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha obtém êxito na tentativa de desembarque nas Ilhas Britânicas, um plano ousado que o Alto-Comando Nazista de nossa linha temporal também acalentava na época, tendo batizado-o de “Operação Leão-Marinho”.  Após a descrição do cenário dessa operação de desembarque hipotética, o filme apresenta algumas especulações sobre os rumos que a ocupação militar nazista teria tomado, discutindo se os ingleses teriam ou não conseguido repelir os invasores.

Um exemplo mais acessível do que esse documentário inglês obscuro realizado há mais de quatro décadas é o filme A Última Tentação de Cristo (1988), dirigido por Martin Scorsese e protagonizado Willem Dafoe.  De fato, a história da vida e da obra de Jesus Cristo não é alternativa per si.  Ocorre, no entanto, que lá para o fim do filme, quando Jesus já está pregado na cruz, ele sofre justamente a última tentação do título, sob a forma de uma visão onde lhe é mostrado como será/teria sido sua vida, se ele renegar/tivesse renegado sua missão na Terra em troca da sobrevivência e de uma velhice tranquila.  Esses breves minutos de filme mostram o que teria acontecido com Jesus, seus descendentes diretos, amigos, seguidores e com o próprio cristianismo, caso ele tivesse decidido abandonar sua fé.  Admitindo-se a realidade histórica de Jesus (assunto que não se pretende abordar no espaço exíguo deste capítulo), é possível considerar A Última Tentação de Cristo senão um filme de história alternativa, pelo menos um com elementos do subgênero.

A comédia Rei Por Acaso (1991), sobre um plebeu norte-americano que se torna rei da Grã-Bretanha, não tem absolutamente nada a ver com história alternativa.  Exceto, é claro, o fato de ter se baseado no romance Headlong: a Novel (1980) de Emlym Williams, esse sim, uma história alternativa.  No livro, a família real britânica morre em um acidente de dirigível em 1935.  Um ator de teatro de 25 anos torna-se o rei da Inglaterra, descobrindo aos poucos os limites do poder real na monarquia britânica do período imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial.  O filme é dirigido por David S. Wart e protagonizado pelo hilário John Goodman, à época um dos atores coadjuvantes mais bem pagos de Hollywood.

A Era da Traição (1993), dirigido por Kevin Connor, é outro filme que não tem nada a ver com história alternativa, exceto por exibir as aventuras e desventuras de Marcus Didius Falco, um típico detetive particular nos primeiros anos do Império Romano.  O filme se inspira no protagonista de uma série de romances de detetive ambientados em Roma Antiga, todos escritos pela autora norte-americana Lindsey Davis.  É isto mesmo: Falco é um detetive particular nos moldes modernos imerso nos tempos e roupagem da Roma Imperial.  Não é história alternativa, é lógico.  Mas tem todo um clima de H.A. além de ser diversão garantida.  A temática deu origem a um subgênero (ou, talvez fosse mais apropriado falar de um sub-subgênero): os Detetives de Toga.

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Até agora se falou apenas em filmes que possuem apenas nuances ou elementos de história alternativa e não num filme cujo enredo fosse realmente calcado no subgênero.

Dirigido por Christopher Menaul e protagonizado por Rutger Hauer, A Nação do Medo (1994) é neste sentido “the real stuff”, a película de história alternativa por excelência.  O filme é uma produção especial da HBO inspirada no romance Pátria Amada (Fatherland, 1990) de Robert Harris.

O enredo do filme segue o romance com fidelidade razoável, mas não absoluta.  Trata-se de mais uma história de Segunda Guerra Mundial Alternativa.  O ponto de divergência é o êxito do ataque-relâmpago alemão à URSS.  A rápida conquista da Ucrânia e da porção europeia da Rússia faz com que esse Reich Alternativo passe a se estender desde o Atlântico até os Urais.  Muito mais fortes do que em nossa linha histórica, os nazistas conseguem repelir os aliados no desembarque maciço do Dia “D”.  Enquanto a Alemanha vence a Guerra da Europa, os EUA derrotam o Império Japonês na Guerra do Pacífico.

A ação do filme se passa em 1964, quando um coronel do departamento criminal da S.S. investiga uma série de assassinatos de figurões da cúpula do Partido Nazista na semana da comemoração do 75º aniversário de Adolf Hitler e às vésperas da visita do presidente americano Joseph Kennedy à Alemanha, para tentar estabelecer tratados que pusessem fim ao clima de Guerra Fria existente entre as duas superpotências.

 

Fatherland (1994)

Fig. 19.1 — Pôster de lançamento de Fatherland (A Nação do Medo).

 

O investigador criminal da S.S. é o típico protagonista alemão dos enredos de Segunda Guerra Mundial escritos por autores norte-americanos: um antigo herói de guerra, contrário aos princípios nazistas e incomodado por sua consciência.  No clímax de A Nação do Medo esse protagonista é forçado a denunciar a farsa que se estabelecera sobre o desaparecimento de milhões de judeus, ciganos e outros “indesejáveis” à glória do Reich.  O destino final do protagonista desse filme é idêntico ao do romance homônimo (no original).  Contudo, ao contrário do clima sombrio do fim do romance, ao término do filme há uma mensagem de esperança cujo ponto principal é a atitude do filho do investigador, então completamente infectado pela doutrina da Juventude Hitlerista.

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Os elementos de história alternativa do filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (2009), são apenas circunstanciais, ao menos até o clímax da narrativa.  Porque a existência de um comando de elite constituído por guerrilheiros judeus atuando em plena Europa dominada pelo Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial pode ser tranquilamente assumido como história oculta e não alternativa.  Contudo, o final dramático no teatro constitui de fato um ponto de divergência de primeira grandeza, alterando a história, gerando uma linha alternativa e, portanto, transmutando o enredo numa narrativa de evento alternativo, uma vez que não é facultado aos espectadores vislumbrar as consequências, sem dúvida memoráveis, da divergência exibida no clímax desse filme interessante.

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O filme Space Station 76 (2014), lançado na TV a cabo brasileira sob o título Sem Gravidade… Sem Cérebro, é uma narrativa singular que mistura ficção científica com comédia de humor negro.  A trama é ambientada num cenário histórico alternativo no qual a conquista espacial se desenrolou mais cedo ou então foi mais bem-sucedida, de maneira que existe uma comunidade espacial florescente vivendo na órbita terrestre na década de 1970 e também em outros sítios do Sistema Solar.

A narrativa começa com a chegada de Jessica à Estação Espacial 76 para assumir a função de imediata do Comandante Glenn, em substituição ao oficial anterior, Daniel, antigo amante de Glenn.

 

Space Station 76

Fig. 19.2 — Pôster de lançamento de Space Station 76.

 

O clima sociocultural a bordo dessa estação de reabastecimento, situada aparentemente no cinturão de asteroides, é bem típico da década de 1970, desde as roupas, cortes de cabelo e hábitos tabagistas, até o tratamento de questões como homossexualidade reprimida, uso de drogas recreativas, técnicas de terapia psiquiátrica etc. — tudo com a ingenuidade e o sabor dos anos setenta do século passado.

Sentindo-se solitária, Jessica se aproxima de Ted, mecânico-chefe da estação, que porta uma mão mecânica fabricada com tecnologia da época; e da filha dele, Sunshine.  Misty, a esposa fútil de Ted, trabalha como nutricionista da estação.  Misty hostiliza Jessica por se sentir ameaçada pela independência da recém-chegada.  A nutricionista mantém um relacionamento extraconjugal com o marido de outra tripulante.  Misty é dependente de tranquilizantes receitados de forma pródiga e inconsequente pelo Doutor Bot, um autômato-psiquiatra dotado de uns parcos rudimentos de inteligência artificial.  Jessica descobre uma análise de risco elaborada por Daniel sobre colisões de fragmentos de asteroides com a estação e a leva ao conhecimento de Glenn.  Contudo, saudoso do ex-amante e lutando para reprimir a própria sexualidade, o comandante invariavelmente bêbado não lhe dá ouvidos.

Embora não constitua uma obra-prima, Space Station 76 é instigante, sobretudo por levar o telespectador a se questionar sobre como teria sido uma colonização espacial implementada com pessoas comuns da década de 1970.

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Em malabarismo intrigante de subgêneros, o filme A Grande Guerra Marciana (2013, The Great Martian War 1913-1917) consegue ser várias coisas ao mesmo tempo, embora não constitua uma narrativa de história alternativa bona fide.

Em primeiro lugar, trata-se de um pseudofactual, isto é, ficção disfarçada de documentário.  De fato, embora veiculado em versão dublada pelo Syfy, o filme exibe aquele jeitão de programa do History Channel, com relatos de antigos veteranos do conflito e de testemunhas da invasão marciana.  Aliás, o filme se apresenta como um documentário comemorativo do centenário da invasão.

Em segundo lugar, a questão da classificação em termos de subgênero da narrativa fantástica.  A Grande Guerra Marciana constitui ficção alternativa.  Pois, conforme vimos no capítulo 18, Ficção Alternativa, a narrativa se insere nesse subgênero sempre que a divergência se situa na ficção e não na história.  No caso desse filme, a divergência é que a invasão marciana proposta por H.G. Wells no romance A Guerra dos Mundos (1898) só ocorre quinze anos mais tarde, em 1913, ano em que as potências europeias da nossa linha histórica estavam armadas até os dentes, engajadas na corrida armamentista feroz que culminaria na Primeira Guerra Mundial.  Cumpre observar que essa ideia de uma invasão alienígena caindo de paraquedas em meio a um conflito armado de âmbito mundial não é inteiramente nova: Harry Turtledove já a explorou amiúde em seu universo ficcional WorldWar,[1] com invasores alienígenas reptiliformes chegando à Terra durante a Segunda Guerra Mundial.

A narrativa desse pseudofactual fascinante se divide treze segmentos, cujos títulos meio toscos da dublagem são os seguintes: “Invasão”; “Aliança”; “Vamos à Guerra”; “Maravilhas de Inverno”; “Entre as Linhas”; “O Avanço”; “Nascimento dos Novos”; “Revelação”; “Virando a Mesa”; “Acordando o Gigante”; “Operação Cavalo de Troia”; “Espólios de Guerra”; e “O Legado Perdido”.

Um aspecto interessante dessa narrativa é o paralelismo estabelecido pelos roteiristas Steve Maher e Stephen Sarossy entre os fatos históricos reais da Primeira Guerra Mundial e os eventos que se desenrolam nessa linha ficcional alternativa.

Em “Invasão”, afirma-se que a força expedicionária marciana leva dois dias para percorrer a distância de Marte à Terra.  Admitindo-se que os dois planetas estivessem em conjunção (distância mínima), conclui-se que a nave de desembarque de tropas marciana viajou a uma velocidade média de cerca de 430 km/s ou, se preferirmos, 1,4 milésimo da velocidade da luz.  Ao atingir a Terra, produz uma cratera de vários quilômetros de diâmetro na Europa.

O desembarque se dá nas florestas da Boêmia e o ataque à humanidade começa no coração do Império Germânico.  Tomadas de surpresa, as grandes cidades da Alemanha são arrasadas em coisa de quatro dias.

 

The Great Martian War

Fig. 19.3 — Pôster de lançamento de A Grande Guerra Marciana.

 

Em “Aliança”, com o Império Germânico praticamente riscado do mapa, a coordenação do esforço de guerra da aliança estabelecida para defender a humanidade da invasão alienígena recai sobre os ombros franceses e britânicos.  Aqui, a narrativa assume um tom de franca apologia à liderança britânica.  Não se fala absolutamente nada sobre o Império Russo.

No segmento “Vamos à Guerra”, os soldados humanos engajam pela primeira vez contra as máquinas de guerra marcianas.  Os trípodes de H.G. Wells são rebatizados aqui como “garças” e aparecem reconfigurados.  Agora dispõem de uma blindagem energética erigida com partículas de energia escura(!); um canhão energético de potência elevada e baixa cadência de tiro em vez dos famosos raios da morte; e empreendem seus ataques envoltas por nuvens tóxicas aos combatentes humanos.  Nos campos de batalha, as garças engajam secundadas por máquinas menores, as “aranhas”.

Quando a situação militar dos Aliados parece desesperadora, os remanescentes do antigo exército do Segundo Reich Alemão reaparecem e se lançam no confronto, ajudando a humanidade a estancar a ofensiva marciana em fins de 1913.  Os Aliados constatam o aparecimento de um terceiro tipo de máquina marciana, os “piolhos”, que executam incursões noturnas aos campos de batalha, coletando cadáveres e materiais bélicos humanos e marcianos.

Em “Maravilhas de Inverno”, os marcianos levam a guerra para os mares e oceanos, encetando uma retaliação naval que ameaça o esforço de guerra aliado.  Máquinas submarinas gigantescas atacam os comboios de suprimentos que os EUA enviavam para a Europa.

No segmento “Entre as Linhas”, as batalhas navais se intensificam em 1914.  O ex-presidente norte-americano Ted Roosevelt cria um corpo de voluntários para lutar na Europa.

Em “O Avanço”, vindos não se sabe de onde, reforços marcianos marcham em direção à França em meados de 1915.  Essa ofensiva leva o Alto-Comando Aliado a antecipar em cerca de um mês o ataque crucial que andava planejando.  A contraofensiva humana é um malogro completo: três milhões de soldados aliados desaparecem da frente de batalha sem deixar pistas.

Em “Nascimento dos Novos”, por volta de 1916, os estrategistas humanos enfim concluem que precisarão adotar técnicas de combate heterodoxas para combater os invasores alienígenas.  Neste sentido, planejam e executam a captura de duas garças.  Quando as garças são derrubadas, as aranhas que as acompanham se rendem às forças humanas e até ajudam os soldados a transportar as cabines das garças para trás de suas linhas.

No segmento “Revelação”, a humanidade começa a adquirir inteligência sobre a natureza dos invasores.  Extraem os pilotos das garças, analisando a morfologia e o metabolismo dos inimigos.  Descobrem que as aranhas não são tripuladas.  Contudo, o mais importante é a revelação de que os marcianos vêm construindo suas máquinas de guerra com o material apreendido nos campos de batalha pelos piolhos.  Essa estratégia explica a postura comumente passiva dos marcianos: os invasores incentivam a humanidade a encetar ataques a fim de obterem matérias-primas para a fabricação de novas máquinas de guerra.

Em “Virando a Mesa”, os Aliados descobrem que as aranhas são comandadas pelo “viticita”, uma espécie de metal orgânico dotado de vida própria e capaz de se autorreproduzir.  As fábricas aliadas começam a produzir tanques de guerra armados com blindagens e canhões elaborados a partir da tecnologia viticita.  As novas armas se revelam efetivas contra as máquinas de guerra marcianas.  Pressionados pelos exércitos aliados, agora armados com engenhos bélicos de viticita, os alienígenas reassumem a ofensiva.

Uma garça solitária avança pelo leito do rio Tâmisa e empreende um ataque ao centro de Londres.  Após destruir o Big Bem, acaba derrubada por aviões de combate aliados.  O piloto marciano é capturado, mas chega agonizante à área de confinamento.  A partir da autópsia do alienígena, os cientistas descobrem que ele morrera de uma infecção virótica contraída dos cavalos que arrastaram a cabine de sua garça pelas ruas de Londres.  Esse conhecimento crucial representará a gênese de uma superarma biológica revolucionária que conduzirá a humanidade à vitória.

O ingresso dos EUA na Grande Guerra Marciana é narrado no segmento “Acordando o Gigante”.  Em janeiro de 1917, os marcianos afundam três contratorpedeiros da Marinha norte-americana.  Em 17 de fevereiro, os EUA declaram guerra aos alienígenas, passando a enviar doze mil combatentes por dia para a Europa.  No documentário, os historiadores discutem se as belonaves norte-americanas teriam sido afundadas por máquinas de guerra marcianas ou por submarinos aliados.

Em “Operação Cavalo de Troia”, a humanidade lança mão de sua última cartada.  No verão de 1917, os aliados encetam um ataque diversionista gigantesco para atrair todos os exércitos marcianos.  Quando o plano logra êxito, não obstante o número de baixas elevadíssimo, os soldados liberam diversas manadas de cavalos infectados entre as máquinas de guerra das forças invasoras.  O resultado é devastador e imediato.  Os pilotos das garças são infectados e morrem aos milhares.  Dois milhões de soldados humanos são mortos nessa batalha que culmina na derrota final dos marcianos.

“Espólios de Guerra” narra as consequências de curto prazo da vitória contra os invasores alienígenas.  O vírus desenvolvido para exterminar os marcianos sofre mutações e começa a infectar seres humanos.  A epidemia se alastra por todo o planeta, sendo batizada de “Gripe Marciana”.  O saldo final da pandemia é de cem milhões de mortos nos cinco anos seguintes.

Nos primeiros anos da lenta reconstrução europeia, à medida que os bunkers e fortalezas dos marcianos vão sendo explorados, a humanidade toma posse de quantidades quase ilimitadas de viticita e, aos poucos, absorve a matriz tecnológica dos marcianos.  As nações humanas se engajam numa corrida do ouro tecnológica.

No segmento final, “O Legado Perdido”, os textos escritos pelos invasores marcianos são finalmente decodificados.  O canadense nativo Gus Lafonde, antigo cabo do Exército do Canadá e veterano da Grande Guerra, desempenha um papel fundamental na decifração do Código Marciano.  Os linguistas descobrem que a maioria dos textos encontrados consiste em relatos pessoais dos guerreiros marcianos.

Enfim, estudiosos do século XXI concluem que Marte teria sofrido sua própria invasão alienígena num passado mais ou menos remoto.  Ao longo dessa invasão, os marcianos foram infectados por um parasita: o metal orgânico que se alimenta da vida.  O viticita teria levado os marcianos a invadir a Terra para disseminar a infecção entre os humanos.

Série: Sliders

Há vinte anos estreava a série televisiva Sliders, a primeira tentativa a sério de se fazer um seriado de ficção científica com temática de história alternativa.  É a história de um inventor pós-adolescente que bem poderia concorrer ao prêmio de Jovem Cientista Louco 1995.  Assim como que meio de orelhada, o garoto constrói uma máquina capaz de abrir portais entre as várias linhas históricas alternativas.  A série durou cinco temporadas nos EUA, sendo exibida de 1995 a 2000.

No piloto da série, o jovem, sua quase namorada, seu professor de física favorito e um cantor de soul music para lá de gaiato naufragam numa linha histórica alternativa quando o dispositivo de navegação dimensional deles se avaria na primeira expedição do grupo.  O quarteto vai parar numa América do Norte afligida por uma Era Glacial.  Em viagem solo anterior, o jovem cientista louco havia visitado uma América onde Elvis Presley estava vivo até o fim do século passado.

No segundo episódio, os quatro náufragos vão parar em uma América transformada em ditadura comunista, emprestando seu apoio ao movimento de resistência ao regime, liderado pela análoga da quase namorada do jovem cientista naquela linha histórica alternativa.  Do outro lado do front ideológico, o análogo do professor de física é um general comunista que comanda o presídio político da Costa Oeste.

Por estranha coincidência, um análogo também assume papel importante no terceiro episódio, numa linha alternativa onde os EUA estão sofrendo os efeitos de uma epidemia de gripe cujo grau de letalidade é muito superior ao do vírus Ebola.  Os EUA se transformam numa ditadura governada por uma elite médica numa tentativa extrema de controlar a disseminação da epidemia.  O líder da resistência é justamente o análogo do protagonista, dessa vez um jovem cientista louco da biologia e não da física.

Um análogo coadjuvante que aparece na maioria dos episódios é um motorista de táxi que o quarteto de protagonistas já aprendeu a empregar como termômetro para avaliar o quão diferente ou esquisita é a nova linha alternativa em que acabaram de desembarcar.  Essa figura hilária é responsável por alguns dos momentos cômicos presentes em quase todos os episódios.

Com enredos demasiado centrados na realidade norte-americana da Costa Oeste (todas as histórias se passam na área da Baía de San Francisco), a crítica principal à série Sliders, desde o fim do primeiro ano de sua exibição nos EUA, é que com o tempo os episódios se tornaram repetitivos e pouco imaginativos.  Uma pena.  Por um lado, Sliders é mais uma ideia excelente desperdiçada.  Por outro lado, para os apreciadores do subgênero, a série foi por algum tempo a única oportunidade de assistir com regularidade um programa cuja temática se assemelha um pouco aos enredos de vários romances e contos do história alternativa.[2]

RPG: GURPS Alternate Earths

Os jogos em geral e os role-playing games (RPG) em particular representam um ambiente fértil para o desenvolvimento de cenários históricos alternativos.

Interpretar o papel de um personagem histórico em um cenário alternativo é a experiência mais próxima que o jogador de RPG pode atingir de vivenciar um mergulho numa realidade virtual psicointerativa emulando uma viagem retrotemporal, ou transladação para uma linha histórica alternativa.  No entanto, ao contrário das RV psicointerativas, os RPG já haviam se tornado possíveis através da tecnologia da segunda metade do século XX.  Os jogadores só precisavam se reunir com os amigos em torno do manual do jogo e escolher um deles para “mestrar” as aventuras do grupo.  Os jogadores encarnavam personagens e colaboravam entre si para criar narrativas ficcionais.  O jogo se desenrolava de acordo com um sistema de regras predeterminado, dentro das quais os jogadores improvisavam ao seu próprio arbítrio.  As decisões dos jogadores determinavam o curso que o jogo iria assumir.

Dentre os RPG, em meados da década de 1980, Steve Jackson estabeleceu o sistema GURPS (Generic and Universal Role-Playing System).  A empresa Steve Jackson Games se associou a vários especialistas em cenários de história alternativa para criar um punhado de manuais de RPG inspirados em alguns temas clássicos do subgênero.

O primeiro deles foi GURPS Time Travel (1991), escrito por Steve Jackson e John M. Ford, um manual de RPG sobre viagens temporais.  O livro traz sugestões interessantes de cenários para narrativas de literatura fantástica com abordagem de ficção científica (viagens temporais propriamente ditas) e história alternativa (linhas históricas alternativas).

Em 1996, Kenneth Hite, Craig Neumeier & Michael S. Schiffer publicaram GURPS Alternate Earths pela Steve Jackson Games.  Tratava-se um manual GURPS que postulava seis linhas históricas alternativas bastante detalhadas para as aventuras de RPG.  Cenários instrutivos e estimulantes até para o aficionado por histórias alternativas que não aprecia jogar RPG:

“Dixie” trata de uma vitória Confederada e do advento dos Estados Confederados da América.  A divergência situa-se em 1856.  O postulado é o aventureiro norte-americano William Walker lograr manter o controle da Nicarágua até a eclosão da Guerra de Secessão e conseguir romper o bloqueio naval da União.  O Sul derrota o norte na Guerra de Secessão.  Em 1980, os EUA, ECA e o Império Alemão constituem potências antagônicas.  Em quase metade dos estados da Confederação, a escravidão ainda é legal, embora não constitua prática comum.

“Reich 5” trata da vitória nazista na Segunda Guerra Mundial.  A divergência se situa no assassínio de Franklin Delano Roosevelt em 1933 (ponto de divergência idêntico ao eleito por Philip K. Dick em seu romance clássico, O Homem do Castelo Alto).  Com o apoio de forças nazistas, os negros norte-americanos são deportados para a África e a presidência dos EUA se torna um cargo vitalício.

Em “Roma Aeterna”, o Império Romano de âmbito quase mundial persiste até os dias de hoje.  O ponto de divergência é o êxito de Drusus em pacificar a Germânia em 9 aec (divergência bastante semelhante à proposta por Frederik Pohl em “Esperando os Olimpianos”).  A trama em si presume que os imperadores romanos tenham logrado estabelecer um ciclo dinástico semelhante ao da China, com tecnologia da Revolução Industrial e controle da maior parte do planeta em fins do século XIX.

No cenário alternativo “Shikaku-Mon”, o Japão e a Suécia dominam o mundo atual.  A divergência se dá em 1497, quando Dom João, filho dos Reis Católicos Fernando & Isabela sobrevive ao acidente em que faleceu em nossa linha histórica.  Portugal não cai sob o domínio espanhol e os missionários católicos portugueses logram espalhar o cristianismo pelo Japão.  Por volta do ano 2000, as maiores potências terrestres seriam a França, o Brasil, um Império Nipônico cristão e um Império Sueco totalitário.

Em “Ezcalli”, os astecas se desenvolvem como um Estado moderno.  A divergência é a descoberta da América pelos cartagineses em 508 aec, três séculos antes do proposto por George Zebrowski no conto “Let Time Shape”.  Embora os romanos ainda vençam as Guerras Púnicas, o comércio cartaginês com as Américas arruína a economia do Império Romano e, quase dois milênios mais tarde, os astecas se tornam a maior potência mundial da Era Industrial em meados do século XIX.

Finalmente, em “Gernsback”, as invenções e sociedades descritas nas primeiras revistas de ficção científica, as “pulp magazines”, tornam-se realidade.  O ponto de divergência é o casamento de Nikola Tesla com Anne Morgan, filha do magnata J.P. Morgan, em 1893.  Com o apoio financeiro do sogro, Tesla lança um punhado de inventos revolucionários no mercado, conduzindo essa linha histórica alternativa a um futuro do tipo dieselpunk, sob a égide da Liga das Nações e de um Conselho Científico Mundial, com sede em Brooklyn, Nova York.  As duas guerras mundiais não eclodem nessa LHA.

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Três anos mais tarde, o mesmo trio de autores — Hite, Neumeier & Schiffer — lançava GURPS Alternate Earths 2, propondo seis novos cenários históricos alternativos:

Em “Cornwallis”, a Revolução Americana fracassa e as Treze Colônias permanecem no Império Britânico até hoje.  O ponto de divergência ocorre na França em 1776, sendo idêntico ao proposto por André Maurois em seu pseudofactual clássico, “If Louis XVI Had Had an Atom of Firmness”: o ministro das finanças francês se mantém no cargo e veta a ideia de prestar apoio militar aos rebeldes norte-americanos.  A revolução fracassa e as monarquias europeias reinam soberanas nessa linha histórica alternativa até o fim do século XX, época em que o radicalismo político da Dominação Russa ameaça desestabilizar o “centralismo monárquico” dos Cinco Tronos da Europa.

Já no cenário “Ming 3”, o ponto de divergência se situa em 1426: após a morte da imperatriz (em nossa linha histórica ela sobreviveu à praga que grassou no Império Celestial), o imperador fica arrasado e decide transferir a capital de volta para Nanquim.  Como resultado indireto do retorno da corte imperial à velha capital, o almirante eunuco Cheng Ho prossegue com suas viagens marítimas.  A China descobre a Europa e se torna um império mundial.  A ação se passa em um Império Chinês Mundial, grosso modo, quatro séculos e meio após a descoberta da Europa.

“Midgard” propõe uma cultura viking mais vigorosa, que logra saquear Constantinopla em 860 (divergência), ocasião em que capturam o segredo do fogo grego.  Assim armados, os vikings colonizam a América do Norte, a Rússia e vários sítios da Europa.  A ação se desenrola em 1412, época em que os reinos nórdicos da América do Norte, da Rússia e da Europa Setentrional iniciam uma nova era de expansão marítima e comercial.

“Caliph” convida o leitor a mergulhar em um cenário islâmico hightech bastante original, em que os árabes estabelecem uma civilização cósmica, com viagens a velocidades superiores à da luz empreendidas através de portais estelares.  O primeiro contato com uma civilização alienígena se dá em 1654.  A divergência é a decisão de Haroun al-Rashid de patrocinar a imprensa de tipos móveis na Bagdá de 796.  Oito séculos após a revolução científica do século IX, o Califado enfrenta uma guerra civil de proporções interestelares.

Em “Aeolus”, a Revolução Gloriosa malogra na Inglaterra em 1688, James II se mantém no trono britânico e as monarquias europeias dominam até meados do século XX, quando surge a primeira república democrática para desafiar o poder absoluto da Casa dos Habsburgos e o antigo regime.

Por último, em “Centrum”, uma cultura transtemporal avançada e meritocrática é implantada a partir de um império anglo-francês alternativo.  A divergência se dá em 1120, quando o White Ship não naufraga, como ocorreu em nossa linha histórica, e o príncipe anglo-francês William the Aetheling sobrevive para se tornar o rei da Inglaterra e de França.  No presente, uma cultura transtemporal pragmática e algo paranoide (provavelmente distópica do ponto de vista da nossa linha histórica) se estabelece após a implosão de um Império Anglo-Francês mundial.

Quadrinhos

O panorama das histórias em quadrinhos e dos romances gráficos é pontilhado de narrativas de ficção alternativa, em geral, versões alternativas dos super-heróis da Marvel e da D.C.  No entanto, as histórias alternativas genuínas são bem mais raras nessa mídia.

Tongue e Lash (2000) é um romance gráfico de história alternativa escrito por Randy L’Officier & Jean-Marc L’Officier, e ilustrado por Dave Taylor.  A edição brasileira inclui as duas narrativas, publicadas originalmente pela editora norte-americana Dark Horse: “O Dente da Serpente” e “O Lugar Oculto”.  As duas tramas se passam em uma América Alternativa jamais descoberta pelos europeus (aparentemente, o ponto de divergência é a extinção dos indo-europeus milênios atrás), onde os maias governam a América do Norte e o Império Inca (referido como “Quadrângulo”), a América do Sul.  A tecnologia é mais avançada do que a da nossa linha histórica.  No entanto, zooantropomorfos produzidos por engenharia genética e viagens transdimensionais convivem com leituras da sorte e sessões de comunicação com os mortos.  Em termos de HQ, as narrativas exibem voltagens eróticas elevadas.  Infelizmente, a edição brasileira é em preto e branco e não colorida, como a original.

Em “O Dente da Serpente”, a dupla de detetives Tongue e Lash é contratada para investigar a amante de um lorde influente.  Quando ela é assassinada, a dupla começa a procurar seu assassino e descobre uma conspiração mortal.

Já em “O Lugar Oculto”, a dupla de investigadores é contratada por uma família maia poderosa.  Antes que consigam descobrir o alvo da investigação, seu cliente e a esposa são trucidados.  Em sua busca por respostas, Tongue e Lash desvendam um esquema do Quadrângulo para subtrair tecnologia maia e tropeçam em um culto antigo e sinistro que se oculta no coração do Império.

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O romance gráfico britânico Ministério do Espaço (2009) constitui uma narrativa alternativa clássica de fina estirpe, escrita por Warren Ellis, belamente ilustrado por Chris Weston e colorizado por Laura Martin.

O ponto de divergência dessa linha histórica alternativa ocorre no fim da Segunda Guerra Mundial, quando os britânicos logram capturar a equipe de cientistas chefiada por Wernher von Braun na base alemã de pesquisas de foguetes de Peenemünde no verão de 1945, antes que as forças norte-americanas ou soviéticas conseguissem pôr as mãos nela.  Em seguida, a Força Aérea Real arrasa a base com um bombardeio aéreo, para não deixar vestígios.

Em nossa linha histórica, a equipe de von Braun foi responsável pelo desenvolvimento das bombas voadoras V-2 que foram lançadas durante a guerra do norte da Alemanha, atingindo alvos no sul da Inglaterra e causando danos significativos em Londres e outros sítios.  Nos estertores da guerra, von Braun se rendeu às forças norte-americanas.  Posteriormente, já nos EUA, como projetista de foguetes, ele desempenhou papéis vitais, primeiro na Guerra Fria, no projeto de mísseis balísticos intercontinentais e, mais tarde, na corrida espacial.

Se von Braun e a equipe de Peenemünde houvessem caído em mãos britânicas, segundo Ellis, por volta do ano 2000, o Reino Unido dominaria o Sistema Solar.  Contudo, de onde um Império Britânico empobrecido do pós-guerra tiraria recursos para financiar essa corrida espacial unilateral?  O autor fornece uma resposta bastante plausível, conquanto revoltante.

A narrativa se desenrola em dois fluxos distintos: o semipresente alternativo de 2001, onde o Império Britânico detém o monopólio da exploração e da colonização do Sistema Solar; e o fluxo narrativo que acompanha o desenrolar dos eventos históricos que conduziram ao presente, cujas cenas são mostradas em flashback pelo protagonista, o primeiro diretor da agência espacial britânica que, em 1945, convenceu o primeiro-ministro Winston Churchill a desencadear a corrida espacial.

Ellis e Weston fornecem um belo exemplo de história alternativa no âmbito dos quadrinhos.

[1].  Mais detalhes no tópico “Segunda Guerra Mundial com Invasão Alienígena”, no capítulo 7, Predileções Universais II: Segundas Guerras Mundiais Alternativas.

[2].  No episódio “Cidade à Beira da Eternidade” da série clássica Jornada nas Estrelas (roteiro de Harlan Ellison), nossa linha histórica quase se transforma numa linha alternativa quando a líder pacifista Edith Keller logra retardar o ingresso dos EUA na Segunda Guerra Mundial, dando tempo à Alemanha Nazista de concluir seus experimentos com água pesada e iniciar um projeto de construção de bombas atômicas.  Com armas nucleares e foguetes V-2 para transportá-las, a Alemanha conquista o mundo.  Tudo isto porque o Dr. McCoy havia salvado a vida de Edith.  Felizmente, Kirk & Cia. contribuem inadvertidamente para que a moça morra atropelada, preservando “a história tal como a conhecemos”.

Ficção Alternativa

Na literatura fantástica há um gênero que parece história alternativa, mas não é.  Trata-se da ficção alternativa.  Como na H.A., o autor de uma narrativa de ficção alternativa postula um ponto de divergência como origem de sua linha alternativa.  Contudo, ao contrário do que ocorre nos cenários de história alternativa, a divergência da narrativa de ficção alternativa não consiste em um evento crucial que se desenrola de maneira diversa daquela que aconteceu em nossa linha histórica.  São, antes, trabalhos de ficção reescritos com extrapolações, consequências ou finais diferentes daqueles propostos por seus autores originais.

O primeiro passo na elaboração de uma ficção alternativa consiste em se apropriar de personagens literários alheios e forçá-los a assumir papéis de personalidades históricas pretensamente reais, dentro dessa estrutura ficcional alternativa.  Nesse novo gênero literário, os pontos de partida das narrativas são justamente os finais diferentes, nos quais os tais personagens apropriados levam vidas diversas daquelas que exibiam nos enredos originais.  Outra estratégia é propor soluções de plots alternativos que se sobrepõem e subvertem os anteriores.

O caso do romance Anno Dracula de Kim Newman é emblemático.  O autor parte do clássico Drácula de Bram Stoker e propõe a divergência seguinte: o que aconteceria se a trama do conde valáquio para dominar a Londres vitoriana houvesse sido bem-sucedida?  Desse ponto de partida, Newman nos propõe uma linha alternativa fascinante onde o Conde Drácula desposa a Rainha Vitória e se torna Lorde Protetor do Império Britânico.  Enredo complexo, background rico, ação incessante e personagens instigantes unem-se na construção de um dos romances de horror e ficção alternativa mais originais e interessantes dos últimos tempos.

Reparem que não existe ponto de divergência histórico.  O caminho alternativo adotado, isto é, a sobrevivência e a vitória final de Drácula, não é e nem nunca foi uma possibilidade histórica, mas apenas uma alternativa literária.  Portanto, a rigor, romances como Anno Dracula não constituem histórias alternativas, o que não os impede, em absoluto, de constituírem grandes trabalhos literários, além de, é claro, diversão garantida.

Apesar de sua proeminência atual, Newman não foi o pioneiro da ficção alternativa.  Tal primazia é atribuída ao escritor norte-americano Philip José Farmer.  Ao longo do último meio século, Farmer se apropriou de personagens alheios tão famosos e diversos quanto Tarzan, de Edgar Rice Burroughs; Phileas Fogg, do romance A Volta ao Mundo em Oitenta Dias, de Jules Verne; e Doc Savage, de Lester Dent.

Ao contrário de Newman, que sempre tomou cuidado em não empregar personagens alheios como protagonistas, Farmer jamais nutriu tais escrúpulos.  Em O Outro Diário de Phileas Fogg, ele reconta a famosa volta ao mundo explicando as verdadeiras motivações daquele milionário inglês excêntrico.  Já em Tarzan Alive, Farmer reconta a biografia de Lorde Greystoke com resultados surpreendentes.

Drácula Alternativo

Como o próprio título já indica, Anno Dracula de Kim Newman é um romance de ficção alternativa diferente.  Pois, não satisfeito em tomar Drácula como seu, o autor ousou tomar emprestado um punhado de personagens de vários dos autores britânicos mais populares da Era Vitoriana.  Entre os principais homenageados estão Conan Doyle, Robert Louis Stevenson, H.G. Wells e, é claro, Bram Stoker.

Outros personagens utilizados como coadjuvantes são os grandes vampiros da literatura, como Sir Francis Varney de James Malcolm Rymer, o Lorde Ruthven do Dr. Polidori e a Condessa Carmilla von Karnstein de Sheridan Le Fanu.

Diferente do que ocorre no romance original de Stoker, na linha histórico-literária alternativa de Newman, o Conde Drácula não é morto pelo pequeno grupo liderado por Van Helsing.  O vampiro consegue expandir sua base na Inglaterra, converte novos seguidores e contrabandeia para a Corte de Saint James um pequeno mas aguerrido exército de vampiros valáquios, composto pelos seus seguidores mais fiéis, cuja lealdade já fora posta à prova por vários séculos de vassalagem inconteste.  A culminância da conquista incruenta do Império Britânico se dá quando Drácula consegue desposar a Rainha Vitória, tornando-se príncipe-consorte e sendo nomeado Lorde Protetor desse império.

Quando o romance começa, Drácula parece ter a situação sob seu inteiro controle.  Os postos mais importantes do império estão ocupados por vampiros.  Lorde Ruthven (The Vampire), um vampiro sênior dandy e cosmopolita, é o Primeiro-Ministro.  Já o sanguinário Francis Varney (Varney, the Vampire, or the Feast of Blood) foi nomeado para o cargo de Vice-Rei da Índia, a mais rica das colônias britânicas.  Em compensação, a nobre vampira Carmilla von Karnstein (Carmilla) é assassinada num atentado em Londres logo no início da trama.

A elite intelectual, política e financeira da Inglaterra está sendo aos poucos convertida de humana em vampira.  Inimigos de peso do novo regime foram afastados, quer pela execução sumária, nos casos de Van Helsing e Jonathan Harker, ou pelo confinamento num campo de concentração criado na Escócia.[1]  Uma instituição que, segundo as insinuações de Newman, ficaria devendo muito pouco aos campos de extermínio nazistas.

No entanto, existem focos de resistência.  Um deles é representado pelos anarquistas e pelos fanáticos religiosos, que consideram o príncipe-consorte como o Anticristo.  Não raro, o palácio emprega sua guarda valáquia para reprimir as revoltas que crassam nessa Londres conturbada.

Outro foco de resistência, este mais sutil e organizado, é o Diogenes Club, uma espécie de serviço de inteligência informal do império, composto por um pequeno grupo de homens de grande poder, que não hesita em contratar vampiros ou se aliar aos mestres do crime organizado, para atingir o propósito de reverter o quadro político ao estado anterior à vitória de Drácula.

Para aumentar ainda mais o embaraço da elite dessa Nova Ordem, há um assassino serial de vampiros assolando o East End londrino.  Mais precisamente, em Whitechapel.  A história está soando familiar?  Pois é.  Nada mais, nada menos que o nosso bom e velho Jack o Estripador; plausível e engenhosamente transformado pelo autor num assassino de prostitutas-vampiras.[2]  A identidade do psicopata não é mistério algum.  Pelo contrário, é justamente a revelação gradativa do seu modus operandi e das suas motivações inconfessáveis que constitui um atrativo adicional desse romance formidável.

Há ainda uma dupla de cientistas que, sem abrir mão de suas humanidades, em favor das vantagens dúbias da conversão, proponhem-se estudar o vampirismo como fenômeno natural, empreendendo um esforço hercúleo para enquadrá-lo no âmbito do conhecimento biológico da sua época.  Os campeões desta causa quixotesca, como a esta altura o leitor já deve estar desconfiado, são o Dr. Jekyll e o Dr. Moreau, protagonistas dos romances O Médico e o Monstro, de Robert Louis Stevenson, e A Ilha do Doutor Moreau, de H.G. Wells, respectivamente.

Os dois protagonistas do romance não foram, no entanto, escolhidos dentre os personagens ilustres citados anteriormente.  Um deles é de fato um oficial humano que trabalha sob as ordens do Diogenes Club.  A outra é uma vampira sênior adorável, uns poucos anos mais idosa que Drácula (embora pareça ter quinze anos, a idade da sua conversão) e pertencente a uma estirpe mais nobre e distinta do que a do velho conde.

O enredo de Anno Dracula gira em torno da subversão gradual do Estado mais civilizado e poderoso da Terra, empreendida pelo golpe de audácia de um vampiro carpatiano bárbaro, e da luta para reverter o processo.

O vampirismo é retratado como um fenômeno natural e social que afeta de maneiras diversas as diferentes camadas da população.  Para as elites, a conversão representa, mais do que qualquer outra coisa, a esperança de um encaixe na Nova Ordem, com uma possível ampliação dos privilégios anteriores.  Para a classe proletária, contudo, a conversão não confere essa certeza de melhoria de vida.  Ao contrário, atua como agente adicional na geração da miséria e do vício.  Jovens vampiros indigentes não precisam de comida, é claro.  Mas necessitam de sangue em abundância, além de proteção contra os raios solares.

O clímax é apoteótico, fazendo realmente justiça à excelente qualidade do romance como um todo.  O fim da história não será, é lógico, contado aqui, para não estragar o prazer dos leitores.  Só se adianta uma coisa: Embora Jack o Estripador tenha sido eliminado quase no fim do romance, um novo assassino serial surge para aterrorizar as madrugadas londrinas.  Já adivinharam, não é?  Isto mesmo: Mr. Hyde!

Frankensteins Alternativos

Drácula não foi o único personagem do horror literário com reescrita alternativa.  Conforme citado acima, Philip José Farmer reescreveu o Doc Savage de Lester Dent; o Phileas Fogg de Volta ao Mundo em 80 Dias de Jules Verne em O Outro Diário de Phileas Fogg (1970) e também repaginou o Tarzan de Edgar Rice Burroughs várias e várias vezes, em diversas abordagens, algumas laudatórias, outras nem tanto.  Além de Kim Newman, vários outros autores se apropriaram de Drácula, para reescrevê-lo a seu bel-prazer.  Alguns desses trabalhos revestem-se da aparência de ficções alternativas.

Pois bem.  Os personagens literários abordados nas ficções alternativas da presente seção são as criaturas construídas por Victor Frankenstein e seus sucessores, aplicando o método de ressurreição desenvolvido pelo mestre.  Os Frankensteins Alternativos.

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No romance Frankenstein Unbound (1973), Brian W. Aldiss publicou a frankensteiniana onde uma distorção espaçotemporal lança um cidadão anglo-saxão de meados do século XXI na Europa do início do século XIX.  Uma vez lá, o protagonista se defronta não só com Lord Byron e o casal Shelley, como descobre que Victor Frankenstein não é um mero produto da imaginação fértil da jovem Mary Shelley.  Ora, se o criador tem existência real, por que não a criatura?  Pois é.  Só que Aldiss não inova quase nada em relação ao romance original.  Pretensa homenagem ao clássico daquela que o próprio Aldiss, como historiador do gênero, considera a “mãe da ficção científica”, Frankenstein Unbound se propõe a recontar a história de criador & criatura à sua moda.  O resultado é sofrível.  Pois, conquanto bastante semelhante, é em tudo inferior ao original.  Com a grande desvantagem de que o leitor já sabe o que vai acontecer.  Pior ainda, no tange ao tópico em pauta: o romance de Aldiss não chega a constituir, em absoluto, aquilo que poderia ser classificado como ficção alternativa.

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Em 2000, a editora independente britânica RazorBlade lançou a antologia frankensteiniana Hideous Progeny, coordenada por Brian Willis, com introdução de nada mais, nada menos do que Kim Newman.  Apesar da capa bonita, o acabamento gráfico do livro é amadorístico, pior do que o de vários fanzines brasileiros contemporâneos ao seu lançamento.  O ponto de partida comum dos dezenove contos é o que teria acontecido se os processos de ressurreição desenvolvidos por Victor Frankenstein tivessem sido bem-sucedidos no mundo real.[3]

Como já havia ocorrido na antologia War of Worlds: Global Dispatches,[4] há alguns trabalhos em Hideous Progeny com mais elementos de ficção alternativa do que outros.

O critério de seleção adotado aqui foi o seguinte: classifica-se como ficção alternativa a narrativa que não possa ser contada essencialmente da mesma maneira, isto é, sem mudanças sensíveis em seu enredo, caso se remova seus elementos de ficção alternativa.

Aplicando esse critério pragmático, seis das dezenove histórias se qualificam como ficções alternativas.  O critério não avalia o mérito literário do trabalho.  Há histórias ótimas em Hideous Progeny que não se enquadram como ficção alternativa e, portanto, não serão analisadas nesta seção.  Por outro lado, há outros contos da antologia que, embora fracos, constituem ficções alternativas, e por isto serão abordadas abaixo.

Em “Traitors Gate”, de Simon Morden, lordes do parlamento britânico lutam para ressuscitar um grande cirurgião inglês, discípulo de Frankenstein, para que o médico possa transplantar o cérebro da Rainha Vitória para o corpo jovem e saudável da filha de um nobre.  A garota não morreria, é lógico, pois em troca lhe seria fornecido o corpo de uma plebeia.  A Resistência Católica a tal regime, comandado por aristocratas ressurrectos, recebe um agente especial do Papa para impedir a ressurreição do cientista a qualquer preço, nesse que, embora longe da perfeição, é o melhor trabalho de ficção alternativa da antologia.

“Know Thine Enemy”, de Gary Greenwood, é a narrativa divertida de um pequeno grupo de soldados europeus que vêm lutando, juntos ou separados, desde a época das guerras napoleônicas.  Através de suas reminiscências de caserna, descobrimos que, após o armistício acordado no fim da Primeira Guerra Mundial, os ingleses receberam o Método Frankenstein de ressurreição das mãos dos alemães, em troca da tecnologia do Raio da Morte que eles haviam adquirido aos marcianos(!) — ao passo que os norte-americanos ficaram chupando o dedo, e por isto acabaram desenvolvendo as armas nucleares.  A ação chega ao presente quando esse grupo de soldados praticamente imortais é mandado a Kosovo para integrar as forças de paz sob o comando norte-americano.  Contudo, uma surpresa desagradável os espera por lá.

“The Day After the Day the War Ended”, de Paul Finch, fala da missão secreta esdrúxula de um capitão do exército norte-americano no dia seguinte à assinatura da rendição nazista, numa Segunda Guerra Mundial Alternativa onde o Terceiro Reich empregou contra os Aliados soldados-zumbis, trazidos de volta à vida graças ao método de ressurreição frankensteiniano.

Ceri Jordan conta em “Mad Jack” a história de um inspetor de polícia à caça de um facínora perigoso: Jack o Ressuscitador.  O criminoso se compraz em proporcionar uma segunda vida a proletários mortos nas ruas infectas da Londres Vitoriana.  É claro que a Igreja e o Estado britânicos não estão nem um pouco satisfeitos com essas ressurreições.  O propósito inquebrantável do inspetor começa a fraquejar quando ele cogita sobre o destino de sua esposa amada que se encontra às portas da morte.

Em “Lips So Tender”, uma das histórias mais fracas da antologia, Richard Wright nos fala de uma mulher desajustada após sua “reconstrução” e de sua insistência doentia para doar os próprios lábios para o corpo que a Coroa Britânica está mandando reconstruir para a ressurreição da recém-falecida Lady Diana.

Em “Monsters”, de John Moralee, vemos Victor Frankenstein como Ministro da Ciência de um Reich Nazista que sobrevive até os dias de hoje.  É certo que Berlim e Bonn foram destruídas por explosões atômicas; mas Nova York e Moscou também o foram.  Desse impasse termonuclear, o Reich e os Aliados decidiram passar à Guerra Fria convencional.  Neste cenário alternativo, sob a égide de Frankenstein, um jovem e brilhante cientista alemão desenvolve um método de reprogramação cerebral, graças às experiências com prisioneiros negros e judeus.  A reprogramação permitirá não apenas a criação de uma casta de escravos perfeitos, como ainda o estabelecimento de um exército de quintas-colunas no seio do território inimigo.  Contudo, a consciência do protagonista começa a incomodá-lo depois que seu pai, um antigo membro influente do Partido Nazista, então bastante enfermo e internado num apartamento de luxo no Hospital Mengele, tem suas pernas e braços amputados para serem implantados em corpos de jovens nazistas mutilados no front da guerrilha do Norte da África.  Um conto original e instigante, infelizmente prejudicado por um final apressado e mal escrito.  Uma pena, pois a última impressão é a que fica.

No todo, apesar de bastante incensada, Hideous Progeny é uma antologia apenas mediana.  Oito contos de bons a ótimos de um total de dezenove.  Média final inferior a 5,0.  Ainda assim, talvez valha a pena conferir, até a título de curiosidade.

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As frankensteinianas de Fábio Fernandes e o romance de ficção alternativa A Mão que Cria (2006), de Octavio Aragão serão analisadas no capítulo 20, Cenários Alternativos Lusófonos.

[1]  O detento mais conhecido do estabelecimento é Sherlock Holmes.  Com sua capacidade dedutiva notável, o detetive começou a desvendar uma série de crimes cujas soluções não interessavam em absoluto ao Palácio de Buckingham.  Para tornar ainda mais crítica a sua situação já precária, Holmes teria recusado peremptoriamente a conversão.  Mais flexível, Oscar Wilde transforma-se no vampiro dandy por excelência.  No que diz respeito a escritores, não há perdão para Abraham Stoker, autor irlandês que ousou revelar umas tantas verdades inconvenientes à realeza vampira sob o disfarce de um romance popular: sua cabeça é mantida espetada num poste em frente ao Palácio de Buckingham para servir de exemplos aos rebeldes incautos.

[2] Os vampiros de Newman podem ser mortos com lâminas ou balas de prata, como os lobisomens.  Outra analogia licantrópica é a metamorfose em formas animais, uma capacidade compartilhada pela maioria das estirpes vampíricas.  O vampirismo é transmitido pela ingestão de sangue de vampiro.  Exatamente como ocorre na Entrevista com o Vampiro (1976) ou no próprio O Império do Medo (1988), de Brian Stableford.  Contudo, ao contrário dos vampiros de Rice e Stableford, os imortais de Newman obedecem o modelo antiquado no que diz respeito à incapacidade de gerar imagem refletida no espelho ou de aparecer em fotografias.  Não poderia ser de outro modo, em se tratando de um romance que procura seguir o mais fielmente possível os passos do original de Stoker.

[3].  Uma especulação interessante é se a ideia para a montagem dessa antologia britânica foi ou não inspirada por um conhecimento prévio do universo ficcional alternativo criado por Fábio Fernandes (detalhado no capítulo 20, Cenários Alternativos Lusófonos).  Por um lado, desde meados de 1998, o prestigioso site Uchronia, que mantém um catálogo mundial atualizado de histórias alternativas, faz menção aos dois primeiros trabalhos de Fábio Fernandes escritos em sua linha ficcional alternativa.  Daí, a inspiração poderia de fato advir dessa fonte.  Por outro lado, com os exemplos do Anno Dracula do Kim Newman e dos contos da antologia War of the Worlds: Global Dispatches à disposição, talvez não fosse difícil conceber a ideia de fazer algo semelhante em relação ao Frankenstein de Mary Shelley.  É provável que esse pequeno mistério jamais venha a ser desvendado.  Cumpre, contudo, registrar em público essa dúvida que, até hoje, não passava de suspeita pessoal, externada apenas vez por outra à mesa de um bar, em geral, após algumas taças de vinho.  De qualquer modo, mesmo afastada a hipótese da inspiração, a primazia da linha ficcional alternativa de Fábio Fernandes é assegurada, tanto pelos registros do Uchronia, quanto pelas datas de publicação.

[4].  Antologia temática que reconta a invasão da Terra pelos marcianos de H.G. Wells pelas vozes dos maiores autores e personalidades da virada do século XX.  Na maioria dos contos, os autores lograram replicar o estilo literário das personalidades emuladas.  Todos os trabalhos foram escritos especialmente para a antologia, com exceção do conto “Night of the Cooters” de Howard Waldrop.

ÍNDICE:

“(H.G. Wells): Foreword” [Kevin J. Anderson];

“(Teddy Roosevelt): “The Roosevelt Dispatches” [Mike Resnick];

“(Percival Lowell): Canals in the Sand” [Kevin J. Anderson];

“(Dowager Empress of China): “Foreign Devils” [Walter Jon Williams];

“(Pablo Picasso): “Blue Period” [Daniel Marcus];

“(Henry James]: “The Martian Invasion Journals of Henry James” [Robert Silverberg];

“(Winston Churchill & H. Rider Haggard): “The True Tale of the Final Battle of Umslopogaas the Zulu” [Janet Berliner];

“(Texas Rangers): Night of the Cooters” [Howard Waldrop];

“(Albert Einstein): Determinism and the Martian War with Relativistic Corrections” [Doug Beason];

“(Rudyard Kipling): Soldier of the Queen” [Barbara Hambly];

“(Edgar Rice Burroughs): Mars: The Home Front” [George Alec Effinger];

“(Joseph Pulitzer): A Letter From St. Louis” [Allen Steele];

“(Leo Tolstoy): Resurrection” [Mark W. Tiedemann];

“(Jules Verne): Paris Conquers All” [Gregory Benford & David Brin];

“(H.P. Lovecraft): To Mars and Providence” [Don Webb];

“(Mark Twain): Roughing it during the Martian Invasion” [Daniel Keys Moran & Jodi Moran];

“(Joseph Conrad): To See the World End” [M. Shayne Bell];

“(Jack London): After a Lean Winter” [Dave Wolverton];

“(Emily Dickinson): The Soul Selects Her Own Society: Invasion and Repulsion: A Chronological Reinterpretation of Two of Emily Dickinson’s Poems: A Wellsian Perspective” [Connie Willis]; e

“(Jules Verne): Afterword: Retrospective” [Gregory Benford & David Brin].

Steampunks

Uma das controvérsias insolúveis no estudo dos cenários de história alternativa reside nos steampunks.  Mais precisamente, se os enredos de steampunk (e seus correlatos, como o dieselpunk etc) constituiriam ou não histórias alternativas.

Os defensores da inclusão dos steampunks como histórias alternativas afirmam jamais terem lido um trabalho de steampunk genuíno que não pudesse ser considerado história alternativa.

Já os puristas advogam que tão somente as narrativas steampunk que exibam um ponto de divergência discernível devem ser classificadas como história alternativa.  Porque, alegam, muitas dessas narrativas postulam apenas cenários em que o progresso técnico e científico chegou mais cedo e se concentram no impacto desses avanços na sociedade, sem se preocuparem demasiado com a plausibilidade histórica o estabelecimento de uma linha alternativa.

Contudo, para início de discussão, cumpre definir o que é steampunk.

Polêmica em torno de um verbete

De acordo com a Encyclopedia of Science Fiction:[1] “trata-se de uma terminologia cunhada no final da década de 1980, em analogia ao cyberpunk, para descrever o subgênero moderno cujos eventos de ficção científica ocorrem sobre um background do século XIX.”

Segundo Peter Nicholls, autor do verbete “steampunk”, rezam as tradições que, embora os primeiros trabalhos de proto-steampunk tenham sido produzidos por autores britânicos, o steampunk em si é um fenômeno literário típico da ficção científica norte-americana.  Ainda de acordo com Nicholls, o subgênero apresenta “características de recorrência”,[2] isto é, certa tendência dos trabalhos mais recentes de revisitar os temas e ambientes clássicos do subgênero.

Para Nicholls, os enredos do subgênero se passam na Inglaterra, quase sempre na Londres vitoriana.  A Inglaterra retratada na maioria dos trabalhos teria pouca correspondência com a nação que de fato existiu no mundo real do século XIX, inspirando-se antes em uma ou outra versão fictícia, cuja gênese talvez remonte à crítica social presente nos romances de Charles Dickens.

Contudo, a informação mais importante diz respeito aos trabalhos considerados como steampunks que não podem ser enquadrados como ficção científica e muito menos como história alternativa.  Apenas para citar dois dentre os principais títulos cinematográficos exemplificados por Nicholls, O Homem-Elefante (1980) e O Jovem Sherlock Holmes (1985).

Na literatura de ficção científica, Nicholls classifica como steampunks romances que, embora já estejam se tornando clássicos[3] dentro do gênero, guardam pouca ou nenhuma relação com as temáticas de história alternativa.  Ao abrir o leque inclusivo em sua definição de steampunk, esse especialista admite de forma tácita a existência de narrativas steampunks que não se enquadram nos cânones da história alternativa.

Muitos amantes do gênero assumem a Encyclopedia of Science Fiction como uma espécie de Bíblia Sagrada.  Neste sentido, as definições ali contidas teriam a força da palavra de Deus.  A sacralização das definições dos especialistas e autoridades é um fenômeno bem conhecido.  Uma das reações previsíveis é a heresia e a iconoclastia.  Não espanta, portanto, que existam hereges que discordem vez por outra do Grande Pai Nicholls, afirmando que o steampunk constituiria um fenômeno exclusivo da ficção científica e que tanto Homunculus quanto Os Portais de Anúbis, dois exemplos citados pelo autor do verbete, estariam muito mais para fantasia do que para FC.  Por outro lado, como já se viu no capítulo Renascenças Alternativas, embora ambientado na Florença de Maquiavel, da Vinci e Michelangelo, e não na Londres vitoriana, o romance A Invenção de Leonardo, de Paul J. McAuley, pode ser tranquilamente considerado como um steampunk avant de lettre.

No entanto, purismos e filigranas teóricas à parte, o interesse do presente trabalho se concentra nos cenários de história alternativa.  Destarte, cumpre abordar as narrativas de steampunk que realmente contêm elementos não só históricos, mas também (e sobretudo) alternativos.

Steampunks Canônicos.

Considerado um dos trabalhos mais importantes do subgênero steampunk, o romance parrudo The Difference Engine (1991), foi escrito justa e ironicamente pelos dois maiores profetas do cyberpunk, William Gibson e Bruce Sterling.

O título do romance é um trocadilho, pois a “máquina diferencial” de Charles Babbage (1792-1871) foi de fato projetada em nossa linha histórica em 1822.

Contudo, não foi apenas a máquina diferencial que tornou o matemático e inventor inglês Babbage famoso, mas sim sua proposta de desenvolver um calculador mecânico, que batizou de “máquina analítica” (provavelmente, Gibson & Sterling julgaram que The Analytic Engine não seria um bom título).  Embora esse dispositivo jamais tenha sido construído de fato,[4] e em sua concepção fosse um aparelho decimal e não binário, é considerado por muitos como uma antecipação clara dos computadores digitais modernos.

O ponto de divergência de The Difference Engine é justamente o êxito na construção da máquina analítica em meados da década de 1820, possibilitando o emprego de computadores digitais mecânicos movidos a vapor praticamente desde os primórdios da Revolução Industrial.

Graças ao advento das máquinas de Babbage, a Revolução Industrial ocorre num ritmo acelerado, conduzindo a Europa em geral e o Reino Unido em particular a revoluções sociais desconhecidas na primeira metade do século XIX em nossa linha histórica.  Capitaneado por Lord Byron, o Partido Industrial Radical (Rads) assume o poder numa Grã-Bretanha governada essencialmente por uma meritocracia inspirada num iluminismo científico (mas não social), onde os sábios e cientistas do império foram bem-sucedidos no empreendimento ousado de assumir o poder político sem intermediários.

O romance se passa em Londres, no ano de 1855, numa época de júbilo nacional para o Império Britânico, após uma vitória militar fulminante contra os russos na Guerra da Crimeia,[5] e um quarto de século depois do início da “Era dos Tumultos”, período conturbado que culminou com o assassínio do Primeiro-Ministro, o Duque de Wellington, a consequente ruptura do antigo regime aristocrático na Inglaterra e a ascensão dos Rads ao poder.

Esse Império Britânico onipotente logra concretizar um sonho que seu congênere da nossa linha histórica ousou acalentar, embora lhe faltasse o ânimo necessário para realizá-lo: a fragmentação dos EUA em vários países distintos.  Graças ao estímulo da Grã-Bretanha, a Guerra de Secessão eclode cerca de uma década mais cedo do que em NLH.  Ao contrário do que se deu em nosso mundo, nessa linha alternativa os ingleses não se furtam em apoiar os confederados e os Estados do Sul emergem do conflito como nação independente.  Não satisfeito com o êxito dessa intervenção, o Império Britânico influi na decisão dos texanos de manterem sua república[6] fora da União e promove o estabelecimento de uma nação soberana na Califórnia.  Mais curiosa ainda é a criação de uma “comuna de Nova York”, onde os cidadãos da Ilha de Manhattan aproveitam o caos reinante naquilo que restou dos antigos EUA para experimentarem um governo autônomo, transformando-se numa espécie de cidade-Estado moderna.

Não obstante essas divagações norte-americanas, o romance se passa quase que exclusivamente numa Londres Alternativa imersa num século XIX ainda mais distópico que o retratado nos romances de Charles Dickens, nos quais os autores parecem ter se inspirado.  Sob a ameaça do colapso ambiental iminente, fruto de uma onda de poluição sem precedentes, Londres é uma cidade de sonho e pesadelo, centro nevrálgico a partir do qual os Rads controlam os computadores que ordenam o império.  Os cidadãos londrinos portam cartões de identidade perfurados e são designados por números; a polícia metropolitana emprega computadores para caçar criminosos.

Aparentemente, os autores gastaram o melhor das suas criatividades na elaboração desse background extremamente rico e complexo.  Porque a narrativa em si é uma trama de mistério convencional que, embora bem escrita e dotada de um estilo erudito, não é lá das mais interessantes.  Um lote de cartões de programação (semelhantes aos usados em nossa linha histórica em trabalhos de “computação eletrônica” na década de 1970) desaparece das mãos de seus proprietários legítimos e várias facções poderosas começam a mover mundos e fundos para resgatá-los.

Os protagonistas são Sybil Gérard, a filha pobre de um agitador luddita; Edward Mallory, um paleontólogo que se tornou famoso com a descoberta de fósseis de Brontossaurus na América do Norte; e Laurence Oliphant, um típico agente do serviço secreto de Sua Majestade (soa algo familiar, não é?).  A filha do Primeiro-Ministro, Ada Byron, exerce nos bastidores (embora quase não apareça em cena é referida com frequência pelos demais personagens) o papel de gênio científico de plantão, sendo conhecida pelo grande público como “Rainha dos Computadores”.

Um dos pontos altos do romance reside em distinguir as figuras históricas dos personagens estritamente ficcionais e observar como a divergência alterou as vidas das primeiras.

Findo o romance em si, há uma série de notas e apêndices históricos que atua tanto para conceder ao trabalho uma espécie de verossimilhança a posteriori quanto para mostrar que os autores fizeram seu dever de casa direitinho.  Como se houvesse alguma dúvida.

O ponto menos plausível é a eficiência do funcionamento dos tais computadores mecânicos.  Em termos de processamento de informação essas máquinas analíticas de Babbage parecem muito mais avançadas do que os computadores digitais que as empresas e universidades de nossa linha histórica possuíam na década de 1960.  Um argumento difícil de engolir quando nos lembramos que as tais engenhocas (ao menos como Babbage as concebeu) trabalhavam em base decimal e não binária.

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Outro romance de história alternativa facilmente classificado como steampunk é Anti-Ice (1993) de Stephen Baxter.  O ponto de divergência inicial é de caráter astronômico: por volta de 1720, a atração gravitacional da Terra captura um asteroide errante, transformando-o em novo satélite natural.  O astro recém-chegado é batizado de “Pequena Lua”.  Alguns fragmentos do asteroide caem na Terra; constituindo o “antigelo” do título.  O antigelo é um supercondutor capaz de explodir liberando energia nuclear quando a temperatura se eleva acima do seu ponto de fusão.  Como o ponto de divergência é de caráter astronômico, seria possível classificar o romance como história natural alternativa.  Contudo, o foco principal de Baxter se concentra na temática steampunk.  Graças ao monopólio da exploração de jazidas de antigelo na Antártida (onde, devido à baixa temperatura, o material pode ser encontrado sob o estado sólido) e ao desenvolvimento da técnica de extração controlada da energia dessa substância, o Império Britânico transforma-se na grande superpotência da segunda metade do século XIX.

É claro que em nossa própria linha histórica a Grã-Bretanha também foi a grande potência da segunda metade do século retrasado.  Contudo, o domínio exclusivo do antigelo, bem como o avanço tecnológico proporcionado pela superabundância de energia barata, tornam essa prevalência ainda mais gritante.

O romance abre com um prólogo interessante, situado cerca de vinte anos antes da década de 1870, onde a ação realmente decorre.  Aqui, ao contrário de em The Difference Engine, os horrores da Guerra da Crimeia não são apenas aludidos en passant, mas retratados em sua inteireza.[7]  Para decidir o conflito, o governo britânico faz explodir uma bomba de antigelo sobre Sebastopol, com um resultado tão drástico quanto os dos bombardeios atômicos de Hiroshima e Nagasaki em nossa linha histórica.

A recorrência temática do romance possui um clima tipicamente verniano.  Defendido por um grande inventor, Sir Josiah Traveller (que também é um dos protagonistas), o controle do antigelo é um conceito técnico revolucionário que introduz modificações de caráter econômico, político e social.  Ao longo do texto há alusões claras a vários dos romances de Jules Verne, como Vinte Mil Léguas Submarinas e Viagem ao Redor da Lua.  Baxter também compartilha com Verne a falta de uma preocupação maior com o desenvolvimento dos personagens.  A dúvida aqui é se tal despreocupação consiste em mero recurso estilístico proposital, ou se é uma limitação inerente do autor.

A ação do romance se inicia em 1870, na abertura de uma grande feira de ciências em Manchester, a nova capital do Império Britânico, em pleno coração industrial da Inglaterra.  Lá o narrador — Ned Vicars, um jovem diplomata inglês ingênuo, não muito inteligente e dotado de uma visão de mundo bastante limitada — trava seu primeiro contato não apenas com Traveller, mas também com o chanceler prussiano Otto von Bismarck, que também comparece ao evento.

Além de Traveller, outros companheiros de aventuras de Vicars são o jornalista patriota George Holden e Pocket, o mordomo fleumático do inventor.  Boa parte do romance decorre no interior da espaçonave experimental do inventor, ao longo de uma viagem interplanetária não planejada que culmina com o primeiro pouso humano na Lua (mais ecos vernianos).

Como bom néscio que se preza, Vicars tem um envolvimento platônico e unilateral com uma astuta diplomata francesa.  Naturalmente, a jovem não é exatamente o que parece aos olhos desse protagonista tolinho.

Uma intriga política de graves proporções funciona como pano de fundo desse romance de aventuras.  Como em nossa linha histórica, Bismarck provoca a França, até que o imperador Napoleão III declara guerra à Prússia.  A superpotência britânica se vê forçada a intervir no conflito, empregando pela segunda vez a sua arma mais terrível, a bomba de antigelo.

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A partir do fim da primeira década deste novo milênio, a literatura fantástica lusófona tornou-se proeminente em narrativas steampunks e correlatas.  As editoras publicaram vários romances, pelo menos quatro antologias steampunks e, inclusive, a primeira antologia dieselpunk que o mundo teve notícia.

Essas narrativas serão analisadas no capítulo 20, Cenários Alternativos Lusófonos.

[1].  Clute, John & Peter Nicholls: Encyclopedia of Science Fiction (1993).  Em vez de lançar uma edição atualizada a ESF tornou-se uma publicação online, migrando para o site: http://www.sf-encyclopedia.com/

[2].  Aliás, a recorrência aos temas clássicos é um fenômeno relativamente comum na literatura fantástica.  No subgênero steampunk esta tendência se manifesta de uma forma exagerada.

[3]Morlock Night (1979) de K.W. Jeter; Os Portais de Anúbis (1983) de Tim Powers, e Homunculus (1986) de James P. Blaylock.

[4].  O projeto jamais foi concluído, embora Babbage tenha se dedicado ao mesmo de 1833 a 1842 e consumido £ 17.000 de verbas governamentais, além de cerca de outras £ 20.000 de sua fortuna pessoal.

[5].  Essa vitória foi conquistada com facilidade graças ao emprego de armas modernas, como metralhadoras, fuzis de repetição, infantaria mecanizada e outros artefatos bélicos típicos das guerras do século XX da nossa linha histórica.  Em consequência, o número de vítimas e o morticínio nos campos de batalha também foram semelhantes aos dos conflitos reais do nosso século XX.

[6].  Na época em que o romance se passa, a Grã-Bretanha presta apoio à guerrilha comanche (através da venda subsidiada de metralhadoras giratórias às tribos combatentes) em sua luta contra uma República do Texas empobrecida e presidida por Samuel Houston, o mesmo general norte-americano que em nossa linha histórica também emergiu como herói na luta pela independência do Texas, tendo sido por duas vezes presidente daquele Estado soberano.

[7].  É curioso notar a fixação desses dois romances steampunk, escritos em estilos inteiramente diferentes, no tópico da Guerra da Crimeia.  Porque será?  Bem, além de se ter constituído num conflito extremamente sangrento em nossa linha histórica, a Guerra da Crimeia (1853-1856) representou o fim de um período de quatro décadas de Pax Britannica na Europa, uma época de paz e progresso material que já se estendia desde a vitória dos exércitos britânico e prussiano sobre Napoleão em Waterloo (1815).  Essa guerra opôs o Império Britânico, a França, o Império Otomano e o Reino do Piemonte de um lado, contra o Império Russo, do outro.  Centrado nas cercanias de Sebastopol, na península ucraniana da Crimeia, onde a esquadra imperial russa possuía uma grande base naval fortificada, o conflito teve como motivo principal frear a expansão da influência russa no Mar Negro.  Este objetivo político-militar foi alcançado com a vitória dos aliados.  A guerra resultou em pouco mais de 500.000 baixas, distribuídas de forma grosso modo equitativa para ambos os lados; deste total, apenas cerca da metade tombou nos campos de batalha.  O restante caiu vítima da cólera, que grassou livremente entre os exércitos das duas facções combatentes.

Alternativas Pessoais ou Microalternativas

Uma questão pertinente que quase sempre vem à baila em discussões sobre os limites de aplicabilidade do subgênero é o quão significativa uma alteração na tessitura da linha histórica precisa ser para se constituir em um ponto de divergência.

Dentre os estudiosos de história alternativa há uma minoria empedernida que defende o argumento segundo o qual qualquer desvio, por microscópico que seja, do fluxo histórico tal como o conhecemos, constitui um ponto de divergência.  É consenso da maioria, no entanto, que somente as alterações significativas, macroscópicas por assim dizer, constituem pontos de divergência e, portanto, geram linhas históricas alternativas.  No âmbito dessa discussão, entende-se por alteração significativa a mudança capaz de perturbar a história da humanidade como um todo.

Tomando um exemplo cotidiano, vamos admitir que você, leitor, não se casasse com seu cônjuge atual, mas com outra pessoa.  Nesse caso, seus filhos seriam diferentes do que são hoje, certo?  E, dessa forma, o universo inteiro seria um pouco diferente do que é.  Tudo bem.  Porém, em termos de história alternativa, será que isto influiria decisivamente no desenrolar da história?  Depende.  Afinal, quem sabe, um de seus filhos, um do futuro do presente ou um do futuro do pretérito, não viesse a se tornar uma figura histórica importante, capaz de mudar os destinos do país, ou até do mundo?  Neste caso, sua decisão de casar com o cônjuge “A” e não com o cônjuge “B” constituiu-se em um ponto de divergência, bastante e suficiente para gerar uma linha histórica alternativa, distinta da nossa linha histórica.  Caso contrário, se nenhum dos seus descendentes, passados, presentes, futuros ou condicionais, mudar significativamente o curso da história, então, segundo os cânones vigentes, sua escolha matrimonial não gerou, gera ou gerará, uma linha histórica alternativa.

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“Hindsight” (1984) é uma noveleta que Turtledove escreveu em homenagem a John W. Campbell, editor emérito da Astounding Science Fiction com o qual o autor jamais manteve contato direto, exceto como leitor da revista.  Trata-se da narrativa da microalternativa gerada por uma norte-americana da década de 1980 que empreende uma viagem retrotemporal à década de 1950.  No intuito de evitar a decadência econômica e moral da sociedade de sua época, a viajante temporal resolve tornar-se autora de ficção científica, “escrevendo” sob seu nome os trabalhos clássicos de autoria de Heinlein, Clarke et cetera que só viriam a ser publicados anos mais tarde em nossa linha histórica.

James McGregor, editor da Astonishing Science Fiction, pede auxílio ao seu autor favorito, o narrador e protagonista da noveleta, a fim de empreender uma investigação conjunta para descobrir quem seria o escritor misterioso e bem-sucedido que enviava seus trabalhos em folhas de impressora de microcomputador.  Dentre outras coisas, “Hindsight” faz uma elegia ao ato de se escrever ficção científica na Golden Age do gênero nos EUA.  Além disso, fala da desilusão com o sonho norte-americano, da decadência dessa cultura e ainda aborda de forma pertinente, as questões do feminismo e da fidelidade conjugal.

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O conto “Southpaw” (1993), de Bruce McAllister, constitui um bom exemplo de história alternativa pessoal e também de história alternativa esportiva.  Contudo, devido à relevância da figura histórica que tem seu destino mudado, é de se crer que nesse caso a microalternativa não persista como tal por muito tempo, convertendo-se, mais cedo ou mais tarde, em um cenário histórico alternativo convencional.

O ponto de divergência se situa em 1948, quando Fidel Castro aceita a oferta de contrato do New York Giants e se torna um arremessador relativamente bem-sucedido na liga profissional de baseball norte-americana.  Três anos mais tarde, já plenamente radicado nos EUA, em seus sonhos esse Fidel Alternativo se vê uniformizado, empunhando um rifle em Sierra Maestra, onde a revolução cubana começou a fermentar.  Intrigado, decide procurar o conterrâneo Desi Arnaz, à época o cubano mais famoso residente no país,[1] para descobrir o que está de fato ocorrendo em Cuba.

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De volta à questão dos pontos de divergência minimalistas, muitos estudiosos e leitores interessados se perguntam se o conto “Dori Bangs”, de Bruce Sterling, publicado na finada Isaac Asimov brasileira, constituiria ou não história alternativa.

Esta é uma questão assaz pertinente, tanto que gera até hoje polêmicas entre os estudiosos de história alternativa.  Dentro da nossa área de pesquisa há uma minoria vocal que defende a classificação desse conto dentro do subgênero.  No entanto, a maioria discorda.

Conforme advogado no início deste capítulo, o conto “Dori Bangs” — narrativa biográfica de Lester Bangs (1948-1982), crítico de rock e figura emblemática do pop underground norte-americano das décadas de 1960 e 1970 que, segundo Sterling, poderia ter vivido mais tempo e se casado com a cartunista Dorthea Seda (1951-1988), a Dori do título — não constitui em princípio, uma história alternativa.  Exceto, é claro, se o roqueiro inveterado enrustido no leitor insistir que um dinossauro da contracultura a mais ou a menos faça de fato alguma diferença em termos globais a longo prazo.

Em todo caso, em prol da inclusividade taxonômica, é possível classificar “Dori Bangs” como microalternativa.

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O romance The Two-Timers (1968) do autor britânico Bob Shaw normalmente não é considerado uma narrativa de história alternativa, mas pode ser lido como uma trama de alternativa pessoal, uma vez que o protagonista regressa ao passado e o altera, gerando uma linha histórica divergente, em tudo semelhante à original, exceto por um pequeno detalhe.

Do ponto de vista dos enredos de viagens no tempo, trata-se de um paradoxo temporal negativo: obcecado com a morte da esposa Kate, estuprada e estrangulada por um maníaco nove anos antes, o viúvo Jack Breton é acometido por forte sentimento de culpa.  Com o tempo, em seu desespero, desenvolve a capacidade de visualizar cenas do passado e, mais tarde, de viajar no tempo.  Ele emprega seu novo poder para regressar ao passado e salvar a esposa.  Ao abater o criminoso a tiros antes que ele pudesse atacar Kate, Jack estabelece uma linha histórica em que a esposa permanece viva, só que agora possui dois maridos: Jack, o viajante temporal viúvo e seu eu passado, John Breton, versão nove anos mais jovem de Jack, cuja esposa sempre permaneceu viva.

Incapaz de regressar ao presente, Jack confronta John e tenta convencer Kate de que será um marido melhor para ela do que sua versão mais nova.  A narrativa se desenvolve em torno desse triângulo sui generis.  A situação se complica ainda mais com a investigação policial do homicídio do maníaco.  Testemunhas afirmam que o assassino era extremamente parecido com John Breton.  No entanto, esse consegue provar que estava em outro sítio na ocasião em que o homicídio foi perpetrado.

No clímax do romance, Shaw corrobora a crença arraigada entre autores, leitores e estudiosos do gênero, segundo a qual uma microalternativa raramente permanece circunscrita muito tempo à vida pessoal dos principais envolvidos.  Em The Two-Timers, a narrativa abandona seu caráter “micro” e se transforma noutro tipo de história com o aparecimento de uma terceira versão de Jack Breton.

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A novela de passado alternativo “The Last Ride of German Freddie” (2002), de Walter Jon Williams, é um exemplo típico de alternativa pessoal do tipo “e se a figura histórica X não tivesse sido roqueiro, mas sim presidente dos EUA (ou vice-versa)?”.  O ponto de divergência neste caso é a emigração do filósofo alemão Friedrich Nietzsche para o Velho Oeste norte-americano da segunda metade do século XIX.  Nessa narrativa de AH-Lite divertida, num belo dia no Velho Oeste, Nietzsche resolve se tornar um pistoleiro.  Daí para frente, a trama aborda as aventuras e desventuras de German Freddie em Tombstone, Arizona, quando o pistoleiro-filósofo tenta aplicar seus princípios existenciais à vida sem lei do Velho Oeste.  Apaixonado pela mesma mulher que Wyatt Earp, num surto de oportunismo Nietzsche assassina o delegado à traição durante o confronto de O.K. Corral.

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Em seu conto de presente alternativo “The Return of William Proxmire” (1988), Larry Niven brinca com a figura histórica do senador democrata Edward William Proxmire.  Crítico severo dos gastos com missões espaciais em nossa linha histórica, Proxmire declarou diversas vezes que gostaria de fechar a NASA.

“The Return of William Proxmire” também pode ser lido como Alternativa Pessoal, pois atribui uma existência alternativa ao escritor de ficção científica Robert A. Heinlein.

A divergência ocorre em 1933, quando Heinlein não contrai tuberculose e prossegue com sua carreira militar naval até conquistar a patente de almirante.

A alteração é provocada por Proxmire, que regressa ao passado é inocula Heinlein com a vacina contra tuberculose.  O raciocínio do político é simples e simplista: sem a influência das obras de Heinlein e a inspiração de seus escritos nas vidas de toda uma geração de jovens cientistas e engenheiros, a agência espacial norte-americana jamais teria sido criada.

Vacinado, o jovem Tenente Heinlein não contrai a doença e prossegue em sua carreira militar naval na Marinha de seu país e jamais se torna autor de literatura fantástica.

A emenda de Proxmire sai pior do que o soneto.  Pois, como oficial-general, Heinlein assume o comando de uma agência espacial norte-americana militarizada, muito mais pujante e arrojada do que a NASA jamais foi.

[1].  À época, Arnaz coestrelava, com Lucille Ball, um seriado de grande sucesso na TV norte-americana, I Love Lucy.

Alternativas Recentes

No âmbito deste trabalho, define-se arbitrariamente Alternativa Recente como aquela cujo ponto de divergência ocorreu após o fim da Primeira Guerra Mundial, um período de pouco mais de um século, portanto.

Quando se examina a relação de histórias alternativas da Uchronia listada por data do ponto de divergência, observa-se que existem relativamente poucas narrativas cujas divergências ocorreram de 1946 para cá.  Trata-se de uma escassez até certo ponto compreensível.  Os historiadores costumam afirmar que é necessário determinado distanciamento temporal entre o estudioso e seu objeto de estudo, a fim de que eventos e fatos históricos possam ser analisados de maneira imparcial, longe dos eflúvios passionais das gerações que vivenciaram os referidos eventos, não como históricos, mas como parte de suas experiências cotidianas.  Talvez algo do gênero também se dê com a maioria dos autores de história alternativa, ao menos, durante a maior parte do tempo.

Ainda assim, há narrativas que podem ser classificadas como Alternativas Recentes, como o romance Cowboy Angels, de Paul J. McAuley, cujo ponto de divergência (invenção dos portais de Turing conectando a linha histórica dos inventores às demais) situa-se em 1963.  Contudo, pareceu mais pertinentes analisar esse trabalho em particular no capítulo 5, Viajantes Temporais, Cronoterroristas, Patrulhas Temporais Alternativas.  Em virtude de sua amplitude temática, as Segundas Guerras Alternativas mereceram seu próprio capítulo e também não serão abordadas agora.  Embora seu ponto de divergência se situe na década de 1950, a noveleta “Hindsight” (1984), de Harry Turtledove, será analisada no capítulo seguinte, Alternativas Pessoais ou Microalternativas.  Enfim, as Alternativas Recentes escritas por autores brasileiros e portugueses serão analisadas no capítulo 20, Cenários Alternativos Lusófonos.

Portanto, neste capítulo serão analisadas tão somente as Alternativas Recentes não enquadradas dentro de temas específicos abordados em capítulos anteriores ou posteriores.

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Na noveleta “Lenin in Odessa” (1990), de George Zebrowski, Lênin é assassinado por um judeu russo no início da Revolução, em 1918, e Josef Stalin assume seu papel histórico como primeiro líder da União Soviética.  Em nossa linha histórica, Lênin viveu até 1924.

Quando, em plena Primeira Guerra Mundial, o Reich Alemão liberou Vladimir Ilyich Lênin e o enviou de volta à Rússia na esperança de que o exilado conseguisse assumir o poder e retirar seu país da guerra, a Grã-Bretanha dessa linha alternativa enviou seu próprio exilado para eliminar Lênin antes que esse lograsse êxito.  Embora judeu, Sigmund Rosenblum (vulgo Sidney Reilly) se considerava antes de mais nada um patriota russo.

A trama é narrada na primeira pessoa por Stalin e gira em torno da descrição passo a passo do plano para assassinar Lenin.  O líder é morto enquanto se recobrava de um atentado anterior na cidade de Odessa.

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A divergência do conto “We Could Do Worse” (1988), de Gregory Benford, é a vitória de Robert Taft sobre Eisenhower nas eleições presidenciais de 1952.

Richard Nixon convence a delegação da Califórnia a apoiar Taft na convenção do Partido Republicano para as eleições de 1952, com a condição de que o Senador Joseph McCarthy fosse o vice-presidente da chapa republicana.  Taft sofre uma morte repentina após as eleições e McCarthy assume a presidência, extinguindo as liberdades civis nos EUA.

A trama se passa em 1956, quando os EUA se transformaram numa ditadura lato sensu e um deputado é sequestrado.  Alguns brasileiros decerto se recordarão de um filme com enredo bastante semelhante, só que estrelado por atores nacionais.

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A ação do conto de futuro alternativo “Remaking History” (1989), de Kim Stanley Robinson, se passa numa época em que já existem cidades na Lua.  Só que a narrativa não decorre em nossa linha histórica, mas em uma linha alternativa em que a operação militar para resgatar os reféns na embaixada norte-americana em Teerã em 1980 foi bem-sucedida e, em resultado, o Presidente Jimmy Carter conseguiu se reeleger.

A trama gira em torno de uma equipe de filmagem selenita que debate a Teoria do Herói na História enquanto trabalha na segunda versão cinematográfica(?) do resgate bem-sucedido na embaixada.  Um remake do clássico Escape from Teheran, protagonizado por Robert De Niro.

Uma consequência indireta do resgate dos reféns é que John Lennon não é assassinado e o mundo como um todo se torna um lugar melhor.

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O ponto de divergência da noveleta de passado alternativo de “Dispatches from the Revolution” (1991), de Pat Cadigan, ocorre em 1968, quando o governo norte-americano decide reprimir os protestos sociais dos anos 1960 com o emprego da violência.  Além disso, o Presidente Lyndon Johnson decide concorrer à reeleição e o Senador Robert Kennedy não é assassinado pelo militante palestino Sirhan Sirhan.

A sucessão de protestos recrudesce, as manifestações se tornam cada vez mais violentas e o governo responde no mesmo tom, até culminar no massacre da convenção do Partido Democrata em Chicago, que aniquila a maioria dos candidatos à indicação do partido para concorrer à presidência.  No caos político resultante, os militares assumem o poder sob o pretexto de restabelecer a ordem pública e os EUA acabam se transformando em uma ditadura, à semelhança do que ocorre no conto “We Could Do Worse”, de Benford.

A narrativa é apresentada sob a forma de uma série de cartas, despachos e fragmentos de entrevistas produzidas por dissidentes do regime militar que se instalou nos EUA.

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O romance de presente alternativo The Yiddish Policemen’s Union (2007), de Michael Chabon é a Alternativa Recente mais ambiciosa escrita dos últimos tempos.

A divergência é a morte do deputado pelo estado do Alasca, Anthony Diamond, por atropelamento em 1939.  Sem a forte oposição de Diamond, no ano seguinte o congresso norte-americano aprova a lei King-Havenner, que autoriza a realocação dos judeus no Alasca.  Com a dissolução do Estado de Israel em 1948, os judeus são expulsos do Oriente Médio e emigram em massa para o Alaska.

Em fins de 2008, a dois meses da Reversão (reincorporação do Distrito de Sitka ao Estado do Alasca), Meyer Landsman, um detetive desiludido e alcóolatra do Departamento de Polícia de Sitka, investiga o homicídio de um enxadrista viciado que poderia ter se tornado o tão aguardado Messias.

Narrado sob a forma de um romance policial “demi-noir” de história alternativa cuja ação se passa numa costa do Alasca prestes a voltar à posse norte-americana depois de seis décadas sob o controle dos judeus, The Yiddish Policemen’s Union é muito bem escrito, mas algo estiloso em alguns trechos.  O romance exibe um cenário alternativo extremamente rico e verossímil, uma narrativa compassada que se desenrola pouco a pouco, à medida que Landsman, com o apoio de seu primo e parceiro Berko, deslinda a teia de mistério que envolve o homicídio e tem que lidar com suas desilusões, as privações e os apagões causados pelo álcool e com a ex-esposa linha-dura, pela qual ainda é apaixonado (embora não admita sequer para si mesmo) e que acaba de se tornar sua chefe no Departamento.

Chabon soberbo, ainda que com trechos maçantes.

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Mais efetivo, bem menos badalado, mais antigo do que o romance de Chabon e, sobretudo, mais instigante e muito mais divertido de ler, é o Archangel (1995), de Mike Conner, escrito em uma época em que o subgênero da história alternativa ainda não havia adquirido o prestígio que goza hoje em dia.

Porém, antes de analisar a proposta da narrativa brilhante de Conner, cumpre abordar uns poucos fatos epidemiológicos da nossa própria linha histórica.  A Gripe de 1918, também conhecida como “Gripe Espanhola”, constituiu uma pandemia do vírus da gripe que se disseminou mundo afora, causada por uma cepa de virulência invulgar e bastante mortal do vírus Influenza A, do subtipo H1-N1.

Apesar de sua designação popular, quase um século mais tarde, a origem geográfica da pandemia de gripe de 1918-1919 (espanhola) ainda não se encontra inteiramente confirmada.  A moléstia foi designada como “gripe espanhola”; “gripe pneumônica”; “peste pneumônica”; ou, mais simplesmente, “pneumônica”.  Mesmo à época da pandemia, a designação “gripe espanhola” foi questionada, provocando debates na literatura médica.  Essa designação talvez se deva ao fato de que a imprensa espanhola não estava sob censura na época (uma vez que a Espanha não se engajou na Primeira Guerra Mundial) e, portanto, noticiou livremente que um grande número de civis estava adoecendo e morrendo em muitos lugares do país, vítima de uma moléstia desconhecida.

A doença foi observada pela primeira vez no Kansas, EUA, em janeiro de 1918 e no Queens, Nova York, dois meses mais tarde.  Os primeiros casos confirmados da gripe na Europa em deram em abril de 1918, atingindo tropas francesas, britânicas e norte-americanas, estacionadas em portos de desembarque na França, em pleno curso da Primeira Guerra.  Em maio, a doença atingiu a Grécia, Portugal e Espanha.  Em junho, Dinamarca e Noruega.  Em agosto, Holanda, Bélgica e Suécia.  Todos os exércitos aquartelados na Europa foram severamente afetados pela moléstia.  Estima-se que a gripe espanhola tenha afetado, grosso modo, metade da população mundial e vitimado entre cinquenta e cem milhões de pessoas em todo o planeta, tornando-se, em termos absolutos, a pandemia mais mortal da história.

A pandemia de gripe de 1918-1919 se desenvolveu em três estágios ou ondas epidêmicas distintas: a primeira e mais benigna, terminou em agosto de 1918.  Fruto de uma cepa mais virulenta e mortífera do Influenza A, a segunda onda se iniciou em outubro e terminou entre dezembro e janeiro de 1919, galgando a taxa de mortalidade elevada, estimada entre 6 e 8%.  A terceira e última começou em fevereiro e terminou em maio de 1919, com taxa de mortalidade superior à da primeira onda e inferior à da segunda.

O ponto de divergência proposto por Mike Conner em Archangel é uma segunda pandemia, agora de febre hemorrágica, eclodindo em 1919, após uma tentativa malograda dos cientistas do Kaiser alemão em desenvolver uma arma biológica definitiva a partir do vírus Ebola, para empregá-la contra as tropas aliadas que então acossavam as forças germânicas em várias frentes de batalha.  O vírus geneticamente modificado escapa ao controle, a própria população civil alemã é infectada e esse surto inicial acaba se transformando numa pandemia em âmbito planetário, muito mais devastadora do que a gripe espanhola, porém, com uma peculiaridade especial: os negros desde o início se revelam imunes à moléstia.

Década e pouco mais tarde, em 1930, após três ou quatro ondas de febre hemorrágica — popularmente apelida “Huna” nos EUA, o país perdeu três quartos de sua população e os poucos resquícios remanescentes do governo federal já perderam há muito o controle da situação.  Muitos núcleos urbanos outrora próximos nas Costas Leste e Oeste se tornaram pouco mais do que cidades-fantasma.  Para todo e qualquer efeito prático, as nações europeias já deixaram de existir.

A ação se desenrola na cidade de porte médio de “Milltown” (fictícia), em Minnesota, onde o governo local ainda consegue oferecer um mínimo de vida civilizada e esperança à população, talvez por ter sido atingida com menos severidade pelos surtos anteriores de Huna, talvez em virtude da política esclarecida das autoridades e empresários de importar mão de obra, qualificada ou não, constituída por brancos saudáveis e, sobretudo, por negros oriundos dos estados do norte da Costa Leste.

Em 1930, o protagonista Danny Constantine, repórter fotográfico que trabalha em um dos dois jornais remanescentes em Milltown, começa a investigar pistas de uma série de crimes macabros, supostamente perpetrados por uma vampira serial killer, enquanto um novo surto de Huna atinge a cidadezinha.  Com o auxílio algo relutante de Dooley Wilson, veterano negro da Grande Guerra que se tornou sargento da divisão de homicídios da polícia local, as investigações de Constantine o conduzem ao novo instituto de pesquisas epidemiológicas recém-inaugurado na cidade, sob o comando de Simon Gray, hematologista e cirurgião torácico renomado que promete nada mais, nada menos, do que a cura definitiva para a Huna.

Paralelamente ao avanço do novo surto da moléstia e das investigações sobre os homicídios terríveis que o jornal de Constantine se recusa a divulgar, para não afetar o clima de relativa normalidade reinante na cidade, — isto para não falar no recrudescimento das atividades da Ku Klux Klan, o desmantelamento gradual do time de baseball local e o desaparecimento misterioso de centenas de cidadãos negros com o beneplácito aparente da elite branca remanescente — o único consolo da população de Milltown parece ser as transmissões radiofônicas noturnas atribuídas a uma figura misteriosa, a “Arcanja” do título, que conclama a população a resistir à doença e aos desmandos das autoridades locais.

Em suma, Archangel constitui um romance de história alternativa inusitado, de trama ágil e narrativa impactante.  Autêntico tour-de-force.

 

Renascenças Alternativas

Se as narrativas de história alternativa que abordam a História Antiga extrarromana já constituem minoria e aquelas ambientadas em Idades Médias Alternativas se contam em números ainda menores, os enredos calcados em pontos de divergência situados no período da Renascença podem ser enumerados nos dedos da mão.

Dos poucos exemplos disponíveis, dois romances se destacam: Ariosto Furioso, de Chelsea Quinn Yarbro e A Invenção de Leonardo, de Paul J. McAuley.

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O ponto de divergência do romance de passado alternativo Ariosto Furioso: a Romance for an Alternate Renaissance (1980) é a sobrevivência do estadista florentino de Lorenzo di Medici.  O cognominado Lorenzo o Magnífico não morre em 1492, como em nossa linha histórica, e logra unificar a Itália sob a égide da cidade de Florença em 1515.  Uma linha histórica alternativa em que os navegadores italianos descobriram a América e estão começando a colonizar a costa oriental do subcontinente norte-americano.

Dezoito anos mais tarde, em Florença, capital da Itália Federada, em meio às intrigas da corte, patrocinado por il Primario Damiano di Medici, o poeta épico Ludovico Ariosto compõe uma nova obra-prima, uma peça de fantasia histórica alternativa, cuja ação se desenrola em Nuova Genova, a colônia italiana erigida na costa leste da América do Norte.  Lá, seu alter ego literário heroico — o Ariosto Furioso do título — surge invariavelmente montado num hipogrifo para engajar ao lado das nações ameríndias em sua luta contra a tirania de Anatrecacciatore, um mago poderoso, capaz de conjurar forças sobrenaturais maléficas.

Enquanto isto, na corte florentina, o Ariosto de verdade se vê em sérios apuros quando decide apoiar os Medici contra as forças de oposição, que almejam destruir a Federação Italiana.

Chelsea Quinn Yarbro logra estabelecer uma bela superposição entre as duas linhas históricas alternativas que decorrem em paralelo, sendo apresentadas em capítulos alternados: La Fantasia e La Realtà.  A narrativa que se passa na Itália Federada é de longe mais vívida e instigante do que a fantasia heroica ambientada no Nuovo Mondo.  Além disso, a autora acaba despertando a curiosidade do leitor sobre como teria sido realmente a colonização italiana alternativa na América do Norte, uma vez abstraídos os elementos fantasiosos conjurados pela imaginação febril de Ariosto.  Curiosidade que permanece insatisfeita.

A estrutura narrativa, a ambientação e o background elaborados pela autora são bastante interessantes.  O clímax, no entanto, embora bem escrito, soa algo decepcionante.

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A Invenção de Leonardo (1994), de Paul J. McAuley, é um passado alternativo cujo ponto de divergência se situa por volta de 1470, quando Leonardo da Vinci resolve abandonar a carreira artística, dedicando-se exclusivamente à ciência, à mecânica e à engenharia, para concretizar todos os inventos apenas concebidos por esse gênio criativo em nossa linha histórica.  Em consequência, a revolução industrial se inicia três séculos mais cedo.  Da Vinci introduz máquinas de guerra futuristas, teares automáticos, propulsão a vapor e outros inventos revolucionários na península italiana.  Não obstante a pujança da Renascença Italiana, os artífices constituem a classe social mais importante, superando até mesmo a classe artística.  Ao contrário do que se dá em Ariosto Furioso, nessa linha histórica alternativa os Medici foram alijados do poder em Florença.

A ação é ambientada em 1518, às vésperas da visita auspiciosa do Papa Leão X para negociar um tratado de paz entre o Vaticano e Florença.  Só que essa não é a Florença que conhecemos, mas uma cidade alternativa, efervescente de mudanças científicas e sociológicas, resultantes da aplicação prática das invenções maravilhosas do Grande Engenheiro, Leonardo da Vinci.  Contudo, o progresso tecnológico cobra seu preço: a arquitetura monumental dos novos edifícios da metrópole não logra ocultar inteiramente os céus florentinos, que já não se exibem tão azuis como dantes, mas escurecidos de poeira e gases advindos da poluição industrial, gerada por miríades de fábricas e siderúrgicas.  As águas do Arno também se encontram poluídas com os despejos industriais da nova metrópole.

Agora que o Grande Engenheiro, que tanto progresso proporcionou à Florença, queda-se velho e cansado, vivendo recluso em seu castelo, os rafaelitas, artistas tecnofóbicos liderados pelo pintor Rafael di Urbino, clamam pela excomunhão de da Vinci.  Nessa linha histórica alternativa, Rafael desempenha o papel duplo de grande artista renascentista[1] e emissário do Sumo Pontífice na tentativa de estabelecer a paz duradoura entre Florença e os Estados Papais.

 

Tanque-de-Guerra de da Vinci

Fig. 9 — Tanque de Guerra concebido por Leonardo da Vinci (Foto do Autor).

 

O protagonista do romance é Pasquale di Cione Fiesole, um pintor-aprendiz que almeja criar a imagem perfeita de um anjo (daí o título do romance no original, Pasquale’s Angel).  Pasquale trava amizade com Nicolau Maquiavel, que perdeu sua posição de conselheiro influente dos poderosos com a derrubada dos Medici do governo da República de Florença, supostamente por ser considerado um simpatizante daquela família.  Agora, o autor de O Príncipe atua como jornalista e comentarista político num tabloide especializado em fofocas e escândalos.  McAuley cria um Maquiavel alternativo simplesmente saboroso.  As falas e diálogos do personagem soam maquiavélicas até em suas conversas coloquiais com o amigo.

Pasquale e Maquiavel se envolvem na investigação de uma série de crimes misteriosos.  Juntos, investigam o assassínio de um pintor da entourage de Rafael, o primeiro de uma sucessão de homicídios que culmina com o envenenamento do próprio Rafael, cujo cadáver desaparece.  À certa altura, Pasquale se torna suspeito e passa a ser perseguido tanto por artistas quanto artífices.  O jovem empreende uma fuga desesperada.  Em sua luta para provar a inocência, o pintor-aprendiz conta com o auxílio de Maquiavel.

À medida que avançam em suas investigações, Pasquale e Maquiavel desvendam camadas sucessivas de conspirações, incluindo a “demonologia” dos seguidores do profeta e pregador Girolamo Savonarola e, naturalmente, a conspiração espanhola.  Pois, a deterioração das negociações entre a República e o Papado eleva consideravelmente o risco de eclosão de uma guerra contra a Roma dos Papas e a Espanha.  A crise se agrava quando os florentinos descobrem que os couraçados da Armada Espanhola já singram no Mar Tirreno, ao largo da costa italiana, sob o comando do impávido Almirante Hernán Cortez.[2]

McAuley funde com maestria esses temas e eventos aparentemente díspares para criar um thriller de mistério e suspense complexo, com trama bem urdida, rica em detalhes históricos e repleta de reviravoltas e insights brilhantes.  Uma investigação criminal em que um Maquiavel alternativo, imbuído de argúcia invulgar, desempenha o papel de um Sherlock Holmes do século XVI.  Uma narrativa divertida e instigante.  Um tour de force.  Ademais, em certo sentido, um belo steampunk avant de lettre.

 

Máquina Voadora de da Vinci

Fig. 10 — Máquina voadora concebida por Leonardo da Vinci.

 

[1].  Rafael é guindado ao posto de artista mais reputado de Florença e, por conseguinte, da Itália, depois que Michelangelo Buonarroti cai em desgraça ao falhar em concluir a pintura do teto da Capela Sistina.

[2].  Cortez já havia sofrido uma derrota fragorosa para a Marinha Florentina no Golfo do México, quando os canhões de fogo grego da República incendiaram a maior parte das naus de sua esquadra.  Porém, nessa segunda incursão, os espanhóis dispõem de navios com cascos metálicos.