Cenários Alternativos Lusófonos III

Steampunks

Embora não constitua exatamente uma novela steampunk, Bilac Vê Estrelas (2000), de Ruy Castro, apresenta elementos do sub-subgênero ao propor como ponto de divergência o projeto de um dirigível em 1903.  Estimulado por seu amigo Alberto Santos Dumont, o escritor e líder abolicionista José do Patrocínio (1853-1905) projeta o aeróstato em pleno bairro carioca de Todos os Santos.

A trama gira em torno de uma espécie de Mata-Hari lusitana avant de lettre a soldo de espiões industriais franceses que tenta seduzir Olavo Bilac (1865-1918) a fim de conquistar acesso aos planos do projeto de Patrocínio.  No todo, trata-se de uma ideia original mal aproveitada em virtude da própria ligeireza da trama.  A ambientação é correta, porém, o ponto alto da novela é a bela homenagem não só a Olavo Bilac como à cidade do Rio de Janeiro da segunda década da República.

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O boom steampunk na literatura fantástica lusófona eclodiu em 2009 e, passada mais de meia década, o movimento não dá mostras de se exaurir.  De lá para cá foram lançadas um punhado de antologias, reunindo trabalhos de ficção curta dentro sub-subgênero, bem como alguns romances.

Não há pretensão de empreender uma análise exaustiva de todas as narrativas steampunks publicadas por autores brasileiros e portugueses nesta última década.  No entanto, com tantos espécimes saudáveis à disposição, será possível selecionar a dedo alguns dos exemplares mais representativos do steampunk lusófono.

As três narrativas analisadas a seguir foram publicadas na antologia Steampunk: Histórias de um Passado Extraordinário (2009).

Como muitas narrativas desse sub-subgênero, ao focar a ação num Brasil alternativo do século XIX, “Cidade Phantastica”, de Romeu Martins, também se constitui em Império do Brasil Alternativo.  Também é típico em não situar precisamente a divergência: o progresso científico e tecnológico simplesmente se desenrolou de forma mais acelerada e pronto.[1]  Recheada de referências a figuras históricas e personagens ficcionais de terceiros, a trama pulp se inicia a bordo do vagão-restaurante de uma composição da ferrovia Gibson-Mauá, que liga Manaus à cidade do Rio de Janeiro, quando, em uma cena digna de faroeste, a intervenção oportuna de João Fumaça impede o sequestro de uma bela jovem por uma quadrilha de homens armados.  A jovem não é outra se não Maria Pinto, noiva de J. Neil Gibson, biliardário norte-americano que se associou ao Barão de Mauá para alavancar o progresso industrial do Império, transformando-o na nação mais avançada da Terra.  A propósito, a Cidade Phantastica do título se refere não apenas à capital do Império, mas também ao edifício de cem andares que abriga a sede brasileira de um outro império, o complexo industrial e financeiro de Gibson.  Das janelas do centésimo andar do Cidade Phantastica, Fumaça contempla o cume do Corcovado, onde uma estátua imensa do Imperador Dom Pedro II se ergue, quase concluída.  Contudo, nem tudo são flores nesse cenário progressista e o antagonista que ameaça pôr tudo a perder é nada mais, nada menos do que Leôncio Almeida, o vilão odioso do romance Escrava Isaura.

Roberto de Sousa Causo mistura Império Alternativo e steampunk com a temática das civilizações perdidas na noveleta “O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire”, quando o vilão do título (calcado em Robur o Conquistador, de Jules Verne), após uma breve batalha aérea, captura Santos Dumont e um oficial do Exército Imperial, com o emprego de tecnologia apropriada da civilização de Atlântida.

Já o conto “Uma Vida Possível Atrás das Barricadas”, de Jacques Barcia, funde steampunk com o subgênero new weird, ao mostrar a história de amor do “motolang” Fritz (um robô) com a golem Chaya.  Para concretizar a relação, o casal emigra para Catalônia, uma cidade-fábrica flutuante que extrai “éter” da alta atmosfera.  Só que a revolução tomou conta de boa parte de Catalônia e o casal se integra à luta de humanos e seus constructos conscientes em busca de liberdade e autodeterminação.  Uma trama tão instigante quanto implausível, que talvez merecesse ser mais bem abordada numa narrativa mais ampla.

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As seis narrativas analisadas abaixo foram publicadas em Vaporpunk: Relatos Steampunk publicados sob as Ordens de Suas Majestades (2010), primeira antologia luso-brasileira da trilogia punk da editora Draco.

No conto “A Fazenda-Relógio”, Octavio Aragão chuta os baldes das plausibilidades científica e histórica, concentrando-se na ação para lograr um resultado bastante satisfatório.  A ação se passa em Jundiaí, 1886, época em que os barões do café empregam autômatos a vapor em suas fazendas e o Império do Brasil abole a escravidão.  A alegria dos libertos só dura até a constatação de que eles não têm para onde ir e tampouco como se sustentar.  Como os ludditas britânicos antes deles, os libertos se revoltam contra o sistema e são forçados a enfrentar a truculência das forças imperiais comandadas pelo Conde d’Eu.

A noveleta “Os Oito Nomes do Deus Sem Nome”, de Yves Robert, mistura steampunk com horror para tecer uma narrativa complexa num cenário geopolítico alternativo da última década do século XIX.  As três maiores potências mundiais são o Império Britânico; o Império Francês; e o Reino de Portugal.  O poder britânico reside na tecnologia e na industrialização, como em nossa linha histórica, só que com computadores e navios de propulsão avançada.  Os franceses ergueram seu império graças ao desenvolvimento dos poderes parapsicológicos.  E quanto aos portugueses?  Esse é o mistério que espiões ingleses e franceses lutam para desvendar.  Como o Dom Carlos teria logrado transformar ao longo de uma década um reino na bancarrota em potência hegemônica?

A bela novela “Unidade em Chamas”, de Jorge Candeias, parte de um ponto de divergência singelo: as experiências do padre luso-brasileiro Bartolomeu de Gusmão com pequenos balões de ar quente (semelhantes aos balões de São João) em 1709 evoluíram para a mítica “Passarola”, que, segundo consta, jamais chegaram a ser construídas na nossa linha histórica.  Na linha alternativa postulada pelo autor, as passarolas não só foram construídas, como funcionaram a contento, transformando o Reino de Portugal no único país do século XVIII a dispor de uma força aérea.  Candeias descreve o funcionamento de suas passarolas — dirigíveis de ar quente — com verve mais detalhada e aerodinâmica bem mais plausível do que os dragões de Naomi Novik no universo ficcional Temeraire, abordados no capítulo 4, Histórias Alternativas na Fantasia.  O voo nas passarolas não é romantizado.  Ao contrário, o autor apresenta o cotidiano duro do “minorca”[2] Sidónio, um passarolista típico do Reino de Portugal.

Às vésperas de uma invasão francesa pela fronteira leste, Sidónio e os demais passarolistas lusitanos são surpreendidos pelo aparecimento inopinado de um segundo corpo de aeronautas recém-chegado das colônias, cuja existência era mantida em sigilo até então.  Esse corpo de passarolistas coloniais é formado por negros, mulatos e hindus oriundos das possessões portuguesas no Brasil, em África e no subcontinente indiano.  Em atitude surpreendente, os comandantes do Corpo Aéreo resolvem fundir as duas esquadras de passarolas numa só, misturando as tripulações, medida que exacerba as tensões raciais entre passarolistas de diversas origens e etnias.  Numa tentativa de combater os preconceitos, os tripulantes da passarola para a qual Sidónio é destacado decidem batizá-la como Unidade.

Com narrativa enxuta, ambientação bem trabalhada, protagonista antológico e, sobretudo, pelas questões que enfoca, “Unidade em Chamas” é considerada com justiça um tour de force de história alternativa lusófona.  Literatura fantástica de alto nível.

Em “A Extinção das Espécies”, de Carlos Orsi, ao empreender sua viagem de pesquisas a bordo do Beagle na década de 1830, um naturalista — que não é outro se não uma versão alternativa de Charles Darwin — depara-se primeiro com um inventor misterioso, o Fabricante de Autômatos, residente no Rio de Janeiro e, mais tarde, em Bahia Blanca, na Patagônia argentina, com outro naturalista, Luís Adolfo Morel.  O inventor demonstra ao naturalista inglês capacidades insuspeitas de suas criaturas artificiais, associadas ao emprego precoce da energia solar e da nanotecnologia.

O autor não propõe simplesmente um cenário histórico alternativo na noveleta, mas um universo paralelo com leis físicas diferentes do nosso, onde a existência da força vital constitui um fato científico, comprovado na prática pelo efeito Waldman-Ingolstadt[3], que possibilita a captação direta de luz solar e sua conversão em energia cinética, empregada na animação de autômatos, propulsão de navios etc.

Na Patagônia, o protagonista se encontra não apenas com Morel, mas com o engenheiro francês Charcot.  Ambos os estudiosos servem aos planos genocidas do General Juan Manuel de Rosas em seu esforço para exterminar os indígenas com métodos tecnológicos mais eficientes e cruéis que os empregados com o mesmo propósito em nossa linha histórica, tecnologias que não pareceriam fora de lugar em um clássico de George Romero.  Ao presenciar esse morticínio, o naturalista inglês questiona o futuro da humanidade no admirável mundo novo criado pelos engenhos de Morel, Charcot e do Fabricante.

O cenário alternativo da noveleta “O Dia da Besta”, de Eric Novello, é um Império do Brasil da década de 1860, às vésperas da Guerra do Paraguai.  Um país mais industrializado e tecnológico do que seu análogo de nossa linha histórica, com aeronaves e cavalos robóticos.  A Princesa Isabel é uma aviadora adolescente libertina cujos voos orientam os ataques invariavelmente bem-sucedidos de uma quadrilha de piratas.  Contudo, o protagonista dessa trama divertida e movimentada é o Conde de Tunay, um agente imperial que investiga o aparecimento de uma criatura metamorfa perigosa no Rio de Janeiro.

A narrativa da noveleta “O Sol é que Alegra o Dia…”, de João Ventura, emprega uma figura histórica real como protagonista: o padre e inventor português Manuel António Gomes, cognominado “Padre Himalaya” em virtude da estatura elevada.  Em nossa linha histórica, Himalaya inventou o pirelióforo, um coletor de energia solar capaz de fundir aço, engenhoca premiada na Feira Mundial de Saint Louis em 1904.

 

Padre Himalaya e Pirelióforo

Fig. 19 — Padre Himalaya com seu pirelióforo.

 

A divergência proposta pelo autor é que a invenção aclamada houvesse desencadeado uma revolução industrial alimentada por energia solar.  Associado ao motor de Stirling, o pirelióforo torna obsoletas da noite para o dia as máquinas alimentadas pela queima de combustíveis fósseis, possibilitando o surgimento de uma civilização tecnológica sustentável e um meio ambiente livre de poluição.  É possível que essa narrativa utópica e otimista tivesse se encaixado melhor na antologia Solarpunk: Histórias ecológicas e fantásticas em um mundo sustentável.

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As duas narrativas abaixo foram publicadas na antologia Erótica Steampunk (2013).

No conto “A Esquadra Fantasma”, de David M. Gonzalez, em um cenário steampunk típico de Primeira Guerra Alternativa, o Reich Alemão emprega uma Armada de dirigíveis militares indetectáveis para bombardear e destruir Londres.  Paris será o próximo alvo dos aeróstatos mortíferos.  A destruição da Cidade-Luz conduzirá os aliados à capitulação.  No clima de euforia reinante no Reich, quando o Conde Ferdinand von Zeppelin é aclamado como novo herói nacional, uma espiã aliada é enviada para tentar seduzir o inventor e roubar informações técnicas que possibilitem o desenvolvimento de contramedidas para combater o ataque iminente.

O conto “Franksteam & Electrônia”, de Carlos Relva, mostra o conflito entre dois agentes ciborgues num século XVI alternativo onde o progresso tecnológico se deu de forma mais célere, aparentemente devido aos inventos de Leonardo da Vinci.  Franksteam, o ciborgue espanhol, foi sequestrado pelos portugueses para ajudá-los na missão espinhosa de recobrar um artefato misterioso.  Electrônia, a ciborgue portuguesa, nutre atração intensa pelo rival espanhol, nessa espécie de Guerra Fria travada entre Espanha e Portugal.  A trama se divide entre a busca do tal artefato e a paixão recíproca entre os dois ciborgues que defendem interesses opostos.

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Homens e Monstros (2013), de Flávio Medeiros, constitui a um só tempo um fix-up de fina estirpe, com fortes elementos de história alternativa, salpicado de ficção alternativa, e um romance steampunk instigante e original.

Falando assim, até parece uma salada mista.  No entanto, é fácil de explicar e mais fácil ainda de entender.  Afinal, como diria Jack, o Estripador — não por coincidência, um dos personagens do romance em pauta — vamos por partes.

Como já se viu acima, fix-up é uma narrativa longa, algo semelhante ao romance, só que composta por histórias menores, que podem ser lidas de forma independente, como contos ou noveletas, que seriam como azulejos, benfeitos por si sós, capazes de compor um mosaico mais belo e complexo do que qualquer um deles, se tomado individualmente.  O fix-up ou romance-mosaico representa uma tradição venerável, conquanto mais frequente na literatura fantástica do que em outros tipos de literatura de gênero e no pobre e reles mainstream.  Neste sentido, Homens e Monstros é constituído por seis noveletas.  Cada uma das peças desse mosaico faz sentido isoladamente.  Tanto é que as duas últimas já foram publicadas em antologias fantásticas de ficção curta.  Contudo, apesar de fazerem sentido sozinhas, esse é um daqueles casos clássicos em que o todo é maior do que a soma das partes.

Embora o fix-up em questão não constitua história alternativa puro-sangue, ao menos não de um ponto de vista castiço — uma vez que se apropria de personagens ficcionais de outros autores e não apenas de figuras históricas reais, transformando-os em seus próprios personagens literários — ao propor um ponto de divergência calcado na história e não na ficção, e alinhavar seu cenário histórico alternativo a partir dessa divergência, a citar, a sobrevivência do Império Asteca sob suserania britânica, Flávio Medeiros delineia seu texto norteado pela filosofia de trabalho da história alternativa, criando um mundo semelhante ao nosso e, ao mesmo tempo, inteiramente distinto em seus matizes steampunks.  Um mundo onde a tecnologia avançou mais rápido.  Uma linha histórica alternativa na qual os Impérios Britânico e Francês se digladiam numa genuína “guerra fria vitoriana” que, aliás, é o termo usado como subtítulo do romance.

Além de romance steampunk, Homens e Monstros também pode ser lido como ficção alternativa bona fide, escrita na melhor tradição estabelecida por Kim Newman em Anno Dracula e, aqui no Brasil, por Octavio Aragão em A Mão que Cria.  Flávio Medeiros segue os passos desses dois precursores, mas avança mais longe, ao se apropriar de personagens literários dos contos e romances científicos de Edgar Allan Poe, Jules Verne, H.G. Wells, Arthur Conan Doyle, Robert Louis Stevenson e vários outros autores dos clássicos fantásticos da literatura vitoriana, presentes no imaginário popular até hoje.

Quanto às partes referidas pelo Red Jack, o fix-up abre com “O Som e o Aroma da Morte”, onde vemos uma dupla de agentes secretos do Império Francês atuando na Confederação Argentina em busca de uma grande invenção que talvez venha a se tornar a arma definitiva.

A noveleta que empresta seu título ao livro nos brinda com uma nova versão do clássico “O Médico e o Monstro” de Robert Louis Stevenson, com um final enxuto e surpreendente, num texto permeado pelo clima da guerra fria vitoriana.

Em “Máscaras”, um agente britânico é enviado para aferir a lealdade de um dissidente francês que vem empreendendo experiências biológicas revolucionárias numa ilha deserta.  Só que, antes de chegar lá, o agente se envolve numa missão secundária em busca de um operativo prussiano em pleno coração da África Negra, tropeçando uma megalópole siderúrgica, numa trama movimentada e mirabolante, repleta de reviravoltas, na qual absolutamente nada e ninguém é exatamente o que parece.

“O Lamento da Águia” é a única peça deste mosaico que apresenta personagens astecas e nos mostra como a civilização europeia, sobretudo a britânica, influenciou a cultura asteca sem, no entanto, destruí-la.  Em busca do esclarecimento que lhe permitirá ascender na carreira militar, o protagonista Itzcoatl se embrenha no território dos Estados Unidos, aqui um estado-membro do Império Britânico, para desvendar o desaparecimento de seu irmão gêmeo e o mistério acerca de um surto epidêmico mortal.

“Os Primeiros Aztecas na Lua” é ficção alternativa por excelência: uma noveleta que homenageia boa parte dos romances científicos vitorianos, com ênfase especial a Da Terra à Lua, de Jules Verne e A Máquina do Tempo, de H.G. Wells.  É a história de um agente duplo, com seus dramas de consciência e suas lealdades divididas, às vésperas de uma grande conquista científica que parece prestes a romper o equilíbrio de forças da guerra fria franco-britânica.

Última peça deste mosaico candente, “Por um Fio” responde a pergunta que muitos fãs de Jules Verne já se fizeram: o que aconteceria se o submarino Nautilus do misterioso Capitão Nemo combatesse o Albatross, de Robur o Conquistador?  Nesse cenário alternativo, enquanto o Almirante Nemo comanda a esquadra de submersíveis do Império Francês, Robur lidera a frota de dirigíveis militares do Império Britânico.  Autêntico duelo de titãs que, com perdão da expressão surrada, fecha com chave de ouro esse romance inspirador.

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Organizada por Fábio Fernandes e Romeu Martins, a antologia Vaporpunk: Novos Documentos de uma Pitoresca Época Steampunk (2014) retoma a temática da antologia original de 2010 com novas narrativas e novos autores.

A antologia abre com a noveleta do coantologista Fábio Fernandes, “O Alferes de Ferro”, uma bela Inconfidência Mineira Alternativa.  O ponto de divergência é que René Descartes não escreve o mesmo título de nossa linha histórica, mas sim Discurso sobre o Método da Guerra.  Inspirado nas doutrinas marciais de Descartes, Maurício de Nassau cria um corpo de “cartésios” no Recife e, como resultado, os holandeses prevalecem no nordeste colonial brasileiro.  Quando Nassau regressa à Europa em 1648, deixa para trás uma República de Nova Neerlândia consolidada como nação soberana.

Portugal se resigna com a posse do resto do Brasil.  Um século mais tarde, engenheiros do reino constroem o Caminho Novo, uma ferrovia para escoar a produção de ouro da Capitania de Minas Geraes para o Rio de Janeiro.

Contudo, apesar de alguns elementos de progresso, a miséria da população colonial brasileira nessa linha alternativa é tão intensa quanto em nossa linha histórica.  Ao herdar a fazenda e a mina de ferro do engenheiro Antônio Eustáquio, Joaquim da Silva Xavier descobre entre os papéis e documentos do finado, os esboços para a construção de uma armadura metálica.

A conjuração da elite econômica e intelectual de Vila Rica acontece na mesma época que em NLH, só que com o apoio dos cartésios enviados por Nova Neerlândia.  Um mês antes da data da “Derrama” determinada pelo Visconde de Barbacena, Tiradentes recebe dos cartésios a encomenda impraticável para fabricar cinquenta armaduras.  Desesperado, no dia decisivo para a conjuração, ele traja sua própria armadura para enfrentar o seu destino.

A noveleta “Tridente de Cristo”, do coantologista Romeu Martins, é ambientada na mesma linha histórica alternativa de “Cidade Phantastica”.  A ação se passa em 1868, dois anos após o fim da narrativa anterior.  Mais uma vez o protagonista João Fumaça salva o dia, agora durante o casamento do milionário norte-americano J. Neil Gibson com a manauara Maria Pinto, que também já haviam aparecido na trama anterior.  O casamento inaugurará a Catedral de São Patrício, nova sé metropolitana.  A homenagem ao santo se deve em última análise à emigração maciça de irlandeses para o Império do Brasil, para substituir a mão de obra escrava, após a Abolição em 1850.

Na fila de revista aos convidados, à porta da nova catedral, João Fumaça conversa com um capitão dos Dragões do Império e veterano da Guerra de Cuba, que o Império e o Paraguai travam juntos contra a Espanha.  O pretexto para a aventura imperialista é o afundamento do navio brasileiro Marquês de Olinda.[4]  O capitão confidencia a Fumaça que os soldados imperiais e os mercenários norte-americanos que haviam lutado pelos confederados estariam praticando atrocidades contra a população civil de Cuba.  Crimes de guerra que nada ficam a dever àqueles praticados pelo Exército Imperial de NLH durante o último ano da Guerra do Paraguai.

O clímax dessa noveleta recheada de referências históricas e ficcionais se desenrola na sala da caldeira da catedral, onde Fumaça e Gibson enfrentam o vilão Blomsberry, antigo oficial norte-americano e sócio do famoso Clube do Canhão de Baltimore.

A narrativa do conto steampunk “Uma Missão para Miss Boite”, de Nikelen Witter, insinua mais do que mostra.  A protagonista é Ana Joaquina Tolledo Leite, integrante destacada da Irmandade dos Cavaleiros do Sol, sociedade secreta criada no século XVI para garantir a segurança dos vários portais dimensionais que conduzem aos Territórios Invisíveis e impedir o vazamento de tecnologia humana para outros planos de realidade.

Ana Joaquina veio à Corte em companhia do marido Serafim Magno e do filho Luís Serafim, para cumprir uma missão vital para a Irmandade.  Para tanto, ela contrata os serviços da ladra Charlotte Boite, que deverá subtrair uma pedra que atua como chave para uma arma que poderia ser usada contra a humanidade.  Durante o encontro com Miss Boite no Café Paris, na Rua do Ouvidor, essa lhe informa da existência de um traidor no grupo de Ana Joaquina.  Durante uma soirée no Teatro Imperial, ocorre um assalto performático e Miss Boite aproveita para surrupiar a pedra, visto que seu proprietário também se encontrava na plateia.

Apesar da trama instigante, infelizmente, os pontos mais interessantes do universo ficcional de “Uma Missão para Miss Boite” permanecem sem esclarecimento ao fim da narrativa.  Uma pena.

A noveleta “Notícias de Marte”, de Sid Castro, exibe um Império do Brasil Alternativo onde o progresso científico e tecnológico avançou mais rápido, a ponto de os físicos imperiais terem estabelecido buracos de Einstein-Planck (portais dimensionais) em novembro de 1900.[5]  Também se constata a presença de elementos de história natural alternativa, quando somos informados que o planeta Marte dessa LHA é maior e se situa mais perto da órbita terrestre do que o planeta vermelho da nossa linha histórica.

Cientistas imperiais a bordo do navio aeródromo Amazônia abrem um buraco E-P que conduzirá o dirigível Brazil ao planeta Marte Alternativo, então no perigeu (menor distância da Terra).  A bordo do Brazil seguem Alberto Santos Dumont e o astrônomo confederado recém-radicado no Império, Percival Lowell, grande especialista em planetologia marciana.  Faz sentido, uma vez que, pelo que o autor insinua, com seus canais e mares rasos, tal planeta se assemelha ao Marte que o Lowell da nossa linha histórica julgou existir.

O protagonista de “Notícias de Marte” é o Capitão-Tenente Antonio d’Almeida Andradas, Visconde do Cerradinho, piloto de caça da Armada Imperial, membro da força aeronaval do navio aeródromo Amazônia.  Ao escoltar o dirigível em sua travessia até o buraco E-P, o hidroplano de Andradas cruza uma aurora austral, efeito secundário da abertura do portal, indo parar dez anos no futuro, só que em NLH.  Quase sem combustível, acaba capturado pela tripulação do encouraçado Amazônia, da Marinha dos Estados Unidos do Brasil.

Enquanto tenta convencer a oficialidade desse Amazônia alternativo de suas origens, Andradas, um oficial e um cavalheiro cafuzo no Império Alternativo, revolta-se com o tratamento desumano imposto aos marinheiros do encouraçado.  Porque, em sua linha alternativa, a Abolição se deu na década de 1860, um fruto indireto da industrialização precoce.[6]

Enquanto a bordo do NAe Amazônia, o Imperador Dom Pedro II e uma entourage de sábios composta por Landell de Moura, Nikola Tesla, Albert Einstein, Max Planck, dentre outros, aguardam ansiosos a confirmação do êxito da travessia do Brazil, no encouraçado homônimo eclode a Revolta da Chibata, com consequências fatídicas para o piloto aeronaval do Império Alternativo.

O cenário esboçado por Sid Castro é sem dúvida original e instigante.  O autor lança ao ar um punhado de ideias fascinantes, porém, talvez por limitação de tamanho, não as explora a contento.

A narrativa de “Meus Pais, os Pterodáctilos”, de Cirilo S. Lemos, está mais para new weird do que para steampunk, embora a cidade de Vurap realmente exiba a dose certa de chaminés de fábricas e engenhocas retrofuturistas.

O narrador e protagonista é Gvrilo, jovem humano adotado por um casal de pterossauros,[7] que herdou a profissão do pai adotivo como reparador dos inúmeros relógios instalados nos topos das torres e arranha-céus de Vurap.  Enredo inventivo e trama interessante, porém desprovida de elementos de história alternativa.

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Publicada em 2012, a novela “In Falsetto”, de Luís Filipe Silva, para além de uma obra prima da história alternativa lusófona — somente comparável em qualidade e complexidade à magnífica “Unidade em Chamas”, de Jorge Candeias — constitui uma narrativa steampunk inspirada e deliciosa de investigação policial num Portugal Alternativo em que a ciência e a tecnologia avançaram mais céleres do que em nossa linha histórica.

O protagonista da narrativa é o Inspetor-Geral Gervásio Lopes, da Polícia Civil do Reino.  Quando a trama começa, Lopes está em seu escritório, na chefatura, em pleno domingo, quando recebe a visita de um arauto — um pequeno mensageiro alado mecânico, com asas de pano, mecanismos de mola e propulsão a vapor, controlado por corda, que transporta mensagens de voz de um canto a outro de Lisboa.  O pássaro mecânico porta o dístico da Casa Real em seu peito.  Trata-se de uma mensagem do próprio Comandante da Segurança do Rei.  A autoridade determina que Lopes preste assistência a um membro destacado da guarda pessoal do Imperador Fernando da Áustria, às vésperas da visita desse monarca à corte portuguesa por ocasião da comemoração do aniversário do Rei.

Instantes depois do arauto sair voando janela afora, o membro da guarda austríaca chega ao escritório do inspetor-geral.  A verdadeira missão de Günther Abendschmidt é capturar Verloven, um ladrão de casaca e mestre dos disfarces, do tipo Arsène Lupin.

Lopes e Günther visitam o palacete onde se encontra hospedado o milionário paraplégico Gulliver, líder da indústria francesa da automação.  Gulliver se movimenta livremente graças a um maciço exoesqueleto a vapor.  O detetive austríaco informa ao magnata francês que Verloven planeja um atentado para sabotar o novo autômato com que o milionário pretende presentear o monarca português por ocasião de seu aniversário.  O cientista-chefe das empresas de Gulliver, Gorzinsky, desconfia das intenções reais do detetive.

Horas mais tarde, o português e o austríaco são convocados às pressas para o encouraçado sofisticado que Gulliver mantém fundeado na foz do rio Tejo.  Verloven já havia atuado a bordo, assassinando o técnico responsável pela operação de Baltasar, o tal autômato especial, dotado, aparentemente, de autoconsciência.

A caçada a Verloven se desenvolve a bordo da embarcação com diversas reviravoltas, ocupando boa parte da narrativa.  Lá pelas tantas, o ladrão ousado logra sabotar o próprio encouraçado.

Luís Filipe Silva batizou os títulos dos capítulos dessa novela paradigmática da história alternativa lusófona com os nomes de movimentos de composições musicais.

O clímax e a resolução da narrativa são surpreendentes, despertando a ânsia no leitor de retornar ao começo da trama para confirmar que todos os elementos necessários para desvendar os mistérios que cercam a existência de Verloven já estavam de fato ali desde o início.  Enredo de tessitura magistral ou, como se diria àquela época, “de se tirar o chapéu”.

Dieselpunks

Nas narrativas dieselpunk, o vapor do steampunk é substituído pelo petróleo, os motores de combustão interna e a eletricidade.  As oito noveletas abordadas a seguir foram publicadas em Dieselpunk: Arquivos Confidenciais de uma Bela Época (2011), segunda antologia luso-brasileira da trilogia punk da editora Draco.  Até onde se sabe, trata-se da primeira antologia desse sub-subgênero em âmbito mundial.

Minha narrativa de passado alternativo “Pais da Aviação” se desenrola em três épocas ou episódios, ou quatro, se contarmos com o prólogo curto, no qual se explicita a divergência: em 1803, Napoleão Bonaparte convence Robert Fulton a construir uma flotilha de belonaves a vapor para a Armada Francesa.  Dois anos mais tarde (primeiro episódio), os franceses derrotam a Marinha Real Britânica na Batalha de Cape Trafalgar.  Após uma segunda batalha naval com resultado idêntico no Canal da Mancha, a Grã-Bretanha é invadida e ocupada pelos exércitos napoleônicos.  Dá-se início à Hegemonia Europeia sob a égide francesa.  O segundo episodio se passa quase um século mais tarde, quando os Irmãos Wright tentam vender a ideia do avião para o napoleão da Hegemonia.  Contudo, em conluio com o estadista, Alberto Santos Dumont prega uma peça nos inventores estadunidenses.  O terceiro e último episódio se desenrola cerca de trinta anos mais tarde que o anterior e consiste na narrativa entrecortada de uma guerra travada na América do Sul a oeste dos Andes entre as forças expedicionárias da Hegemonia e as repúblicas do Chile e do Peru, que lutam com o apoio dos EUA.

A noveleta “Fúria do Escorpião Azul”, de Carlos Orsi, fala de um Brasil tecnologicamente mais avançado sob a égide comunista.  Só que, como nem tudo são flores nessa pretensa utopia marxista tropical, eis que surge um herói mascarado para reparar as injustiças.  Embora não possua superpoderes, à semelhança de Batman, o Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller, o Escorpião Azul exibe habilidades, equipamento hi-tech e motivações formidáveis que o definem como herói.  Um paladino que passa longe do politicamente correto como, aliás, também não o eram os heróis pulp das décadas de 1930 e 1940.  Em sua identidade secreta, o Escorpião Azul é um idealista que acreditou no sonho de uma utopia socialista, até que se desiludiu com a realidade da ditadura de moldes stalinistas imposta ao país.  A noveleta abre com o herói salvando um bebê prestes a ser sequestrado pelos gângsteres do Partido.  Sim, porque nesse cenário distópico, os comunistas comem criancinhas, por assim dizer.  Para desvendar as motivações reais desses sequestros, o herói invade a Zona de Exclusão, uma base científica fortificada nas cercanias de São Paulo, e descobre que a trama macabra possui uma conexão inusitada com a explosão de Tunguska em 1908.

Em “Grande G”, Tibor Moricz brinda os leitores com uma narrativa alegórica em que a cobiça, o sexo e o poder se misturam numa luta sucessória desenfreada travada por várias gerações da mesma família pelo comando da megacorp que governa a sociedade de Smoke City, a maior cidade do planeta.  A trama se situa em um locus espaçotemporal onde a fumaça e a poluição representam um estilo de vida.  Smoke City extrai sua energia da queima do petróleo.  O líder da cidade, Grande G, recusa-se a fornecer conhecimentos tecnológicos a Steam City, comunidade mais atrasada, que ainda depende da queima de carvão para mover suas máquinas a vapor primitivas.  Os herdeiros de Grande G conspiram para derrubá-lo e implantar uma matriz energética mais limpa.  O autor fornece uma prova contundente de que é possível haver dieselpunk sem elementos de história alternativa.

Em sua noveleta, “O Dia em que Virgulino Cortou o Rabo da Cobra Sem Fim com o Chuço Excomungado”, Octavio Aragão mostra o que aconteceria se os cangaceiros de Lampião e a Coluna Prestes se enfrentassem com armas hipertecnológicas de procedência misteriosa.  Nossa linha histórica é alterada por volta de 1925 quando um carioca que se afirma viajante temporal fornece armas futuristas semelhantes àquelas que despontavam nas primeiras revistas pulp de ficção científica daquela época.  Trama bem ambientada no sertão nordestino com personagens bem caracterizados e verossímeis.

A narrativa de “Impávido Colosso”, de Hugo Vera, tem lugar em 1946 de uma linha histórica alternativa em que o Império do Brasil e seus aliados paraguaios já travaram duas guerras contra a República Argentina e se preparam para uma terceira, em plena inauguração de Brasília.  O Exército Argentino inicia as hostilidades ao invadir o Império com divisões de mecanoides (soldados robóticos) e os brasileiros se defendem com um autômato gigante projetado por Rudolf Diesel e fabricado nas indústrias do Barão de Mauá[8].  Ao contrário dos robôs de guerra inimigos, o Colosso do título precisa ser pilotado por sua tripulação, como um tanque bípede.

“Auto do Extermínio”, de Cirilo Lemos, é o relato pungente das agruras de Jerônimo Trovão, assassino profissional em um Império Alternativo distópico em que o Exército conspira contra o trono de Dom Pedro III, estabelecendo o cenário propício para a intervenção norte-americana no país.

Temperada com doses generosas de new weird, essa trama dieselpunk brinca com a temática da percepção extrassensorial: tanto Jerônimo quanto o filho adolescente Deuteronômio são assombrados por visões mediúnicas que só eles veem.  O pai é orientado por uma santa com os olhos da atriz Nancy Carroll, enquanto o filho, consumidor de revistas pulp, é aconselhado por um super-herói supostamente imaginário.

O Império está em crise, integralistas e comunistas se digladiam nas ruas do Rio de Janeiro e, nos gabinetes, o General Protássio Vargas lidera uma conspiração para derrubar um Dom Pedro III senil, de forma a evitar que o trono seja herdado por um príncipe bebê que muitos duvidam que seja filho do velho monarca.  Quando se imagina que as coisas não possam piorar, os EUA intervêm para apoiar Vargas com aviões e um ciborgue trajado de xerife do Velho Oeste.[9]

“Cobra de Fogo”, de Sid Castro, fala de outro Império do Brasil Alternativo.  Agora em uma linha histórica em que, após a “Guerra que Acabou com Todas as Guerras” (1919-1929), que culminou com a troca de explosões nucleares, a Liga das Nações impôs uma Pax Atomica.  Aqui, embora mais um Dom Pedro III reine no Império, quem realmente governa o Brasil é o primeiro-ministro Getúlio Vargas.  O autor propõe um cenário divertido e original no emprego inteligente de clichês bem conhecidos, em que os conflitos geopolíticos e as diferenças diplomáticas são resolvidos através de corridas mundiais disputadas por locomotivas aerodinâmicas gigantescas que se deslocam não sob os trilhos de uma malha ferroviária, mas flutuando acima do solo graças à ação de rotores.

As grandes potências almejam internacionalizar a Amazônia.  Para dirimir essa disputa, a Liga das Nações propõe a Corrida Mundial Amazônica e diversos países enviam locomotivas para a competição, entre eles, o Reich Alemão do Kaiser Wilhelm IV; a União Soviética de Leon Trotsky; o Império Austríaco de Adolf Hitler; os Estados Confederados da América; a República Britânica; o Reino de França, o Império Nipônico; e, logicamente, o Império do Brasil, que pretende manter o domínio exclusivo da Amazônia.

No início da trama, o protagonista Damocles Dumont, dublê de oficial dos Dragões Imperiais, agente da inteligência brasileira e homem-foguete, aparece voando em sua mochila autopropulsada para embarcar a bordo da M’Boitatá, com a missão de assumir o comando da locomotiva imperial durante a corrida.

Com diversas fases que se desenrolam em países e territórios diferentes, a corrida mundial dá margem à execução de uma série de estratégias e alguns golpes baixos dignos do seriado de desenho animado Corrida Maluca de Hanna & Barbera.  A partida é dada em Casablanca, após uma noite memorável no Rico’s Café Américain Bar, e termina em plena floresta amazônica.  Segundo o crítico Antonio Luiz M.C. da Costa, essa noveleta é a “mais cinematográfica (da antologia Dieselpunk) em todos os sentidos, a mais digna de virar uma superprodução hollywoodiana”.

Jorge Candeias volta a explorar a linha histórica alternativa criada para sua novela “Unidade em Chamas”, publicada no ano anterior em Vaporpunk: Relatos Steampunk publicados sob as Ordens de Suas Majestades e já considerada um clássico da história alternativa lusófona.  A noveleta “Só a Morte te Resgata” constitui uma sequência da novela anterior.  Agora, o grosso da ação se dá fora das vastas fronteiras da Confederação Lusitana, entidade supranacional de caráter multirracial composta pelas nações do antigo Império Português.  A noveleta é protagonizada por Jeferson, um brasileiro racista, filho de um antigo senhor de escravos que, após a Abolição, alinha-se à causa da Aliança das Potências, grupo de nações imperialistas que se opõe aos princípios de igualdade racial lusitanos.  A trama gira em torno dos dilemas pessoais de Jeferson, que acabam fazendo-o regressar ao Brasil e à casa paterna.

Linha Histórica Alternativa Pax Paraguaya

Em meados de 1990, a editora Record anunciou que patrocinaria um concurso literário, o Prêmio Jerônymo Monteiro, através de sua revista Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica, a edição brasileira da Asimov’s Science Fiction.  O concurso provocou uma comoção enorme na comunidade de leitores e escritores do gênero, pois, além dos prêmios em dinheiro, os editores da IAM prometiam publicar os três melhores trabalhos nas páginas da revista, que até então só veiculara autores estrangeiros.  Pelos regulamentos, cada autor poderia submeter um máximo de dois trabalhos e esses deviam se limitar ao tamanho máximo de quarenta laudas, com 32 linhas por lauda.[10]  Para compor a banca julgadora foram convidados os escritores Jorge Luiz Calife e José dos Santos Fernandes; o terceiro membro foi Luiz Marcos da Fonseca, então presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica (CLFC).

O fandom brasileiro de literatura fantástica entrou em polvorosa por conta do Jerônymo Monteiro.  Embora na época não se dispusesse de internet e, muito menos, redes sociais ou Facebook, durante alguns meses não se falou em outra coisa.

Decidido a participar do certame com dois trabalhos, este autor selecionou sua noveleta de ficção científica “Alienígenas Mitológicos” e, como segunda opção, resolveu escrever um novo trabalho, inspirado em um sonho antigo de produzir uma narrativa de história alternativa genuinamente brasileira.

Sempre apreciei as narrativas de história alternativa.  Dois ou três anos antes, havia escrito um ensaio sobre o subgênero que foi publicado no Somnium, fanzine que atuava, já àquela época, como veículo oficial do CLFC.  Ao cogitar produzir um cenário histórico alternativo de minha própria lavra, cabia escolher um tema convincente.  Os norte-americanos exploram à exaustão a temática das Guerras de Secessão Alternativas.  Faz certo sentido.  Afinal, tratou-se do maior conflito militar travado nas Américas.  Uma guerra que, mais do que qualquer outra, definiu o caráter dos EUA como nação.  Diante da questão: qual o maior conflito já travado pelas forças militares brasileiras, o equivalente nacional, por assim dizer, à Guerra de Secessão?  A resposta óbvia é a Guerra do Paraguai.  Pronto.  O tema da minha primeira narrativa de história alternativa havia sido escolhido.[11]

A Guerra do Paraguai foi o maior conflito militar da história brasileira e a maior e mais sangrenta guerra da América do Sul.  Tendo durado desde dezembro de 1864 até março de 1870, a Guerra do Paraguai alterou definitivamente todo o panorama econômico e político do subcontinente.  O Paraguai foi arrasado num processo brutal, considerado hoje por vários historiadores como tendo sido um autêntico genocídio.  A Argentina e o Uruguai tiveram suas próprias nacionalidades forjadas durante e pelo conflito.  Já o Brasil, emergiu do conflito com sua hegemonia no cone sul confirmada de forma inconteste, mas também com suas estruturas sociais e políticas modificadas para sempre, num processo que culminou com a profissionalização das Forças Armadas e com a própria desestabilização e queda do Império.

Somente com o mapa concluído, imbuí-me da coragem necessária para esboçar a linha alternativa batizada Pax Paraguaya.

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Ética da Traição Ilustração IAM

Fig. 20 — Ilustração de “A Ética da Traição”, publicada na Isaac Asimov Magazine de Ficção Científica # 25 (janeiro 1993).

 

Em nossa linha histórica, o Paraguai de Francisco Solano Lopez constituía uma potência emergente na América do Sul do início da segunda metade do século XIX.  Com a morte de seu pai, Carlos Antonio Lopez, em 1862, Solano Lopez assume o posto de presidente vitalício e inicia o aparelhamento do Exército e da Marinha Fluvial da República.[12]

Enquanto isto, noutras plagas da Região do Prata, ao assumir o poder em 1860, o presidente eleito da República Oriental do Uruguai, Bernardo Berro (Partido Blanco), adotara uma postura mais dura em relação à penetração brasileira através da província do Rio Grande do Sul.  As consequências não se fizeram tardar: em 1863, o General Venâncio Flores (Partido Colorado), invadia o Uruguai através da Argentina, com o apoio de Bartolomeu Mitre, presidente daquele país, e dos liberais brasileiros do Rio Grande do Sul.  Em reação, uma missão diplomática uruguaia (blanca) se dirigiu à Assunção em busca de uma aliança com o Paraguai, contra a Argentina e o Brasil.  Lopez hesita em sua resposta por seis meses, porém, ao fim desse prazo emite uma advertência: a independência uruguaia era condição essencial para o equilíbrio de forças no Rio da Prata.  Advertência ignorada, Lopez reage, decretando a mobilização geral no Paraguai no início de 1864.  Um mês mais tarde, Berro renunciava, transferindo o poder executivo para Atanásio Aguirre, presidente do Senado Uruguaio.

Em maio de 1864, a missão diplomática Saraiva chega a Montevidéu (seguido pelo Vice-Almirante Tamandaré e pela Esquadra Imperial.  Para que ninguém duvide que o Brasil daquela época era não só imperial, mas imperialista).  Com o fracasso das negociações, Lopez oferece a mediação paraguaia para a questão de fronteira entre o Império do Brasil e a República Oriental.  O oferecimento é recusado.  No início de agosto, o Império emite um ultimato ao Uruguai: cumprimento das exigências ou retaliação militar.  Em reação, Lopez emite seu próprio ultimato ao Império, advertindo contra a intervenção no Uruguai.  Em outubro, tropas brasileiras invadem o Uruguai, em apoio às forças de Venâncio Flores.  A Marinha Imperial bloqueia o porto de Montevidéu.

Em novembro, o vapor de guerra paraguaio Tacuary apresa o paquete brasileiro Marquês de Olinda, que zarpara de Assunção rumo a Corumbá.  Entre os detidos está o presidente nomeado da província de Mato Grosso.  O apresamento leva ao rompimento das relações diplomáticas entre o Brasil e o Paraguai.  No mês seguinte, a República do Paraguai declara formalmente guerra ao Império do Brasil e dá início à invasão do Mato Grosso.  Após dois dias de luta, a guarnição brasileira do Forte de Coimbra é obrigada a evacuá-lo diante da Esquadra Paraguaia.

Em janeiro de 1865, a Argentina nega o pedido de permissão de Lopez para que as forças paraguaias pudessem cruzar o território disputado da região das Missões, de maneira a atacar o Rio Grande do Sul e dar apoio aos blancos no Uruguai.

Em fevereiro, Montevidéu cai em poder dos colorados.  É celebrada a paz em Villa de Unión.  Com a vitória colorada na guerra civil uruguaia, Venâncio Flores é nomeado presidente provisório do país.

Em março, o Paraguai declara guerra à Argentina e dá início à invasão, pela província de Corrientes.  Após o bombardeio empreendido pela Esquadra Paraguaia ao porto fluvial de Corrientes, tropas do exército de Lopez, comandadas pelo General Robles (18.000 homens) tomam a cidade.  Em maio é firmado o Tratado da Tríplice Aliança (Argentina, Brasil e Uruguai) contra o Paraguai.  Em junho, sob o Comando do coronel Antonio de la Cruz Estigarribia, o exército paraguaio cruza Missões e invade São Borja, no Rio Grande do Sul.

Em 11 de junho de 1865, trava-se a Batalha Naval do Riachuelo.  A vitória imperial possibilitou que os aliados exercessem um bloqueio completo contra a República do Paraguai, impedindo a chegada de todo e qualquer auxílio oriundo do exterior.  A derrota paraguaia em Riachuelo representou o início do fim para os ideais de grandeza de Solano Lopez, um governante que um dia sonhou se tornar o Napoleão das Américas.  No entanto, o Brasil e seus aliados ainda demorariam cinco longos anos para derrotar inteiramente o inimigo.

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Palacio Pedro Ernesto
Palacio Pedro Ernesto

Fig. 21 — Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, Acervo do Museu Histórico Nacional.

 

Jamais houve qualquer dúvida de que a Batalha do Riachuelo devia ser o ponto de divergência da linha histórica alternativa Pax Paraguaya.  Porque, ao menos naquele engajamento, as forças de Lopez dispunham, aparentemente, de todas as vantagens ao seu lado: melhor conhecimento do terreno e das vias fluviais; baterias artilhadas na margem do rio prontas a disparar contra os vasos imperiais; navios repletos de tropas preparadas para abordar e apressar as naus brasileiras.  E, de fato, durante as primeiras horas da batalha, os paraguaios se valeram dessas vantagens e pareciam prestes a vencer a contenda.  Se a história militar ensina alguma coisa, os oficiais navais paraguaios fizeram seu dever de casa direitinho.  Embora a Marinha Paraguaia estivesse em inferioridade numérica, logrou prevalecer no começo da contenda, graças ao emprego de uma tática velha de milênios e algo semelhante à utilizada pelos atenienses para destroçar a esquadra persa na Batalha de Salamina.  Atacando de surpresa, com a corrente a seu favor, as belonaves e as chatas paraguaias, jangadas pequenas e ágeis, armadas com canhões, atraíram as naus brasileiras para as águas rasas, próximas a uma das margens.  Ali encurralados, entre o fogo cerrado das chatas, os bancos de areia e a artilharia guarani oculta num barranco da margem do rio, os navios maiores do Império acabariam encalhando e então se tornariam presas indefesas de uma abordagem cruel, ou simplesmente dos incêndios provocados pela ação dos disparos inimigos em seus cascos de madeira.

Poderia perfeitamente ter sido assim.  Contudo, graças à experiência e ao sangue frio do comandante naval brasileiro, Barroso da Silva, a situação desfavorável se inverteu e a Marinha Imperial logrou sair-se vitoriosa.

Porém, e se uma das primeiras salvas, disparadas no meio daquela manhã de céu claro pelas baterias de canhões e foguetes paraguaios do Coronel Bruguez conseguisse atingir a danificar a roda de boreste da Amazonas, capitânia da Marinha Imperial?

E, se, pior ainda para a desdita da causa brasileira, um daqueles disparos iniciais atingisse em cheio o Chefe-de-Divisão Barroso da Silva, comandante daquela força-tarefa, que então realizava uma última inspeção nos dois sistemas de rodas?

Em última análise, visão microcósmica, a divergência que produz essa linha histórica alternativa se reduz a um disparo certeiro fortuito: Barroso da Silva tomba logo no início da batalha.  Sem sua iniciativa, a Esquadra Imperial é destroçada.

A vitória paraguaia assegura a via de acesso fluvial ao Atlântico, garantindo, a médio prazo, o recebimento de belonaves e material bélico já adquirido no exterior[13] e, a longo prazo, o predomínio paraguaio nas águas do Rio Paraná.

Já em julho, as notícias do malogro da Marinha Imperial em Riachuelo provocam a defecção do General Urquiza, presidente da província de Corrientes, para a causa paraguaia.  Aproximadamente dez mil cavalarianos correntinos são incorporados às forças de Robles.  Em agosto, os federales da província argentina de Entre-Rios e os blancos de Montevidéu abjuram a Tríplice Aliança, convertendo-se à causa de Lopez.  Em consequência, as tropas brasileiras e argentinas são cercadas em Corcórdia.  Poucos dias mais tarde, as tropas paraguaias de Estigarribia tomam Uruguaiana.  No mês seguinte, as forças do General Barrios sitiam e conquistam Corumbá.

Entre outubro e novembro, chegam à região do Prata os encouraçados paraguaios Meduza, Trion, MinervaBelona, Nemezis, e o transporte de tropas Orellana — navios construídos ou adquiridos em estaleiros europeus.

Em meados de novembro, as tropas de Robles desembarcam em Montevidéu, capturando a capital oriental sem resistência dos colorados, que fugiram para o Rio Grande do Sul.  No mês seguinte, chegam ao Paraguai cem mil fuzis de fabricação europeia e cerca de quinhentos canhões de longo alcance e grosso calibre, encomendados por Solano Lopez à Krupp alemã.

Em janeiro de 1866, comandados por Estigarribia, tropas conjuntas paraguaio-orientais avançam Rio Grande do Sul adentro, conquistando vitórias importantes e repelindo as mal arregimentadas forças brasileiras que vieram ao seu encontro.  Em fevereiro, as forças brasileiras e argentinas são desbaratadas em Concórdia.  O General Osório é capturado e o General-Presidente Bartolomeu Mitre tomba em combate.  O novo malogro representa o fim da resistência brasileira aos avanços paraguaios em solo estrangeiro.

Em março se dá a ocupação militar de Porto Alegre.  Soldados negros aprisionados em campo de batalha juram fidelidade à República e a López, passando a integrar o exército paraguaio.

Ao longo de 1866, emissários de López na França e nos EUA conseguem estabelecer acordos comerciais com os governos  de Paris e Washington, liberando aos paraguaios linhas de crédito que lhes permitiriam a aquisição de trinta mil rifles de repetição americanos[14] e a construção às pressas de couraçados de baixo calado (próprios para a guerra fluvial) em estaleiros franceses.

Entre julho e setembro do mesmo ano, tropas paraguaias avançam pelo interior do Rio Grande do Sul.  As forças da guerrilha brasileiras são combatidas com êxito por pelotões de soldados negros e ex-escravos libertos lutando pela causa paraguaia.  Sob o comando de Estigarribia, o Paraguai invade a província de Santa Catarina.

Em agosto, Buenos Aires se rende às forças de Robles.  Com a rendição, dá-se o fim do predomínio da província de Buenos Aires na Confederação Argentina.  Um mês mais tarde, as províncias da Confederação Argentina assinam os termos de armistício com a República do Paraguai.

No fim de 1866, reforçado pela cavalaria de Corrientes, pelas forças voluntárias de Entre-Rios e da República Oriental e, sobretudo, pelos pelotões de negros libertos em território brasileiro, o efetivo do Exército Paraguaio se eleva acima de 200.000 soldados.

A Guerra da Tríplice Aliança prossegue até novembro de 1869, quando, pressionado pelo povo, pelo Senado e por republicanos e abolicionistas, S.M.I. Dom Pedro de Alcântara solicita um armistício a Solano López.  São estabelecidos os termos e condições de ocupação.  Após conferenciarem entre si, os comandantes paraguaios passam por cima da autoridade de López e concordam em nomear brasileiros simpáticos à causa abolicionista e republicana para o governo provisório das províncias ocupadas.

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A noveleta “Crimes Patrióticos” (1998) constitui uma narrativa de passado alternativo.  Escrita sete anos após “A Ética da Traição”, sua ação se passa toda no século XIX, mais especificamente, no dia 9 de janeiro de 1873, ocasião fatídica em que o veterano brasileiro Álvaro Augusto de Carvalho (que realmente existiu em nossa linha histórica) tentará cumprir uma missão patriótica: eliminar o monarca pusilânime que implorou pela paz ao tirano paraguaio.  Carvalho serviu como Primeiro-Tenente na Marinha Imperial e participou da Batalha Naval do Riachuelo.  Através de flashbacks, através dos olhos do veterano brasileiro, o leitor assiste esse malogro que colocou toda a causa aliada a perder.

O outro protagonista dessa narrativa também é um veterano de outra guerra perdida.  General confederado, ele desempenhou um papel decisivo na Batalha de Gettysburg, evento crucial que mudou a maré da Guerra de Secessão em favor dos exércitos da União.  Como diria seu oficial-comandante, General Robert E. Lee, esse veterano “sobreviveu à derrota para lutar uma vez mais em um outro dia”.  Finda a guerra civil, com a Confederação derrotada e os sonhos de erigir uma nação soberana escravista no sul dos EUA desmantelados, o veterano sente que é necessário lutar não apenas novas batalhas, mas uma nova guerra.  Destarte, em 1867, ele desembarca num porto de Buenos Aires sob ocupação paraguaia no comando de cinco mil veteranos confederados, transformados em mercenários sob soldo de Solano Lopez.  Os militares paraguaios o apelidaram “Estaca”.

Através dos olhos de Estaca, o leitor assiste outro malogro militar em flashback, dessa vez o fracasso da brigada de Estaca em tomar uma colina dominada pelas forças da União no terceiro e último dia da Batalha de Gettysburg.

No entanto, esse veterano de duas guerras tornou-se um vitorioso, ídolo e herói em toda a Gran República.  O Alto-Comando Paraguaio confirmou sua patente de general desde a chegada em Buenos Aires e agora, finda a guerra, cumpre concluir uma missão derradeira.  Estaca deve impedir que o patriota brasileiro equivocado elimine o monarca, pois a nova elite militar paraguaia nutre planos diversos.

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A noveleta “A Ética da Traição” (1992) é uma narrativa de presente alternativo.  Foi escrita originalmente em 1990 e sua trama se desenrola em 1993, inteiramente a bordo da barcaza nuclear Espírito Santo, ao longo de uma viagem pelo Paranapanema, nessa linha histórica alternativa, rio fronteiriço que separa o Brasil da Gran República del Paraguay.

Nessa LHA, a Guerra Mundial de 1914 se estendeu até 1927.  Em compensação, não houve uma Segunda Guerra.  Em 1928, dá-se o advento da Confederação Germânica, englobando Alemanha, França, Itália, Suíça, Dinamarca, Holanda, Bélgica e as nações que anteriormente pertenciam ao Império Austro-Húngaro.  Entre 1940 e 1947, é travada a Guerra do Pacífico, entre a Comunidade Britânica e o Império Nipônico.  Neuroquímicos paraguaios desenvolveram tecnologias que permitem a aprendizagem hipnopedagógica no início da década de 1960.  Em 1967, com a inauguração da base lunar germano-paraguaia, inicia-se a colonização do satélite.  Dezesseis anos mais tarde, é estabelecida a primeira base científica permanente em Marte, sob os auspícios da Liga das Nações, com financiamento paraguaio e alemão.

O protagonista da noveleta é o físico brasileiro Júlio César de Albuquerque Vieira, negro e detentor do Prêmio Nobel de Física de 1985 por suas teorias e propostas de aplicações na gravitofísica das dobras espaçotemporais.  Albuquerque fugiu do Brasil após sabotar o projeto de pesquisas secreto que coordenava.  Desenvolvido num laboratório da Universidade de São Paulo, o Projeto Cronos tinha por objetivo inicial a construção de um “holovisor temporal”, dispositivo capaz de possibilitar a visualização de eventos históricos pretéritos.  Contudo, uma vez ativado, o holovisor não visualizou o passado daquela linha alternativa, mas sim o da nossa linha histórica.  Albuquerque conclui que o fenômeno se dá pelo fato de que a ocorrência da NLH ser muito mais provável do que a da LHA.

Quando a cúpula científico-militar do Brasil Alternativo idealiza um plano para transformar o holovisor numa máquina do tempo rudimentar, a fim de enviar informações ao passado de forma a possibilitar que o Brasil vencesse a Guerra do Paraguai, transformando o país na maior potência da América do Sul e a LHA na NLH, que Albuquerque considera “uma Terra de Pesadelo”, repleta de injustiça, miséria, guerras, preconceitos e desigualdades, o cientista se rebela e sabota o projeto, arruinando irremediavelmente a possibilidade física de se transmitir informações ao passado.  Considerado o traidor da pátria mais pusilânime desde Dom Pedro II, ele logra escapar do país antes de cair nas garras dos militares.  Com auxílio do cônsul da República Guarany em São Paulo, o cientista obtém disfarce, identidade falsa e passagem para embarcar na Espírito Santo.

A bordo da barcaza, a começar pelo Professor Albuquerque, ninguém é exatamente o que parece.  Disfarçado como o industrial paulista Antônio de Oliveira, já em sua primeira manhã a bordo, Albuquerque é convidado para almoçar à mesa do comandante, um paraguaio de ascendência alemã, Ruiz Liebe.  As demais companhias do fugitivo durante a refeição são José Hernandez, um major do Despacho General de Información (uma das agências secretas paraguaias), encarregado de protegê-lo; Hans e Inga Hoffmann, um casal alemão supostamente em lua-de-mel; e a dupla Silva e Pereira, dois agentes federais brasileiros.  Mais tarde, o protagonista descobre que o casalzinho alemão servia à agência de espionagem da Confederação Germânica.  Inga, na verdade Heidl, é uma operativa com doutorado em História, intrigadíssima com as fotos de um mapa da América do Sul que retrata as fronteiras geopolíticas presentes em nossa linha histórica e não na dela.  Hans Hoffmann, ou melhor, Marcel Klein, possui doutorado em literatura de ciencia fictícia (ficção científica).  Leciona CF na universidade mundial de Berlim, além de ser um cientista fictício de renome internacional, publicando seus romances sob o pseudônimo de Daniel Alvarez.[15]

 

Pax Paraguaya - Mapa da América do Sul

Fig. 22 — Mapa da América do Sul, LHA Pax Paraguaya.

 

Após o almoço, ao regressar ao seu camarote, Albuquerque é abordado pelos federais brasileiros.  Hernandez tenta socorrê-lo, mas sua intervenção não é bem-sucedida.  Os operativos alemães intervêm, mas a situação foge inteiramente ao controle dos passageiros disfarçados nesse genuíno baile de máscaras, quando a barcaza é abordada por um grupo de destruição do Corpo de Fuzileiros Navais da Marinha do Brasil, trazidos pelo submarino fluvial Tietê.

Divergências Recentes

O ponto de divergência do cenário histórico pincelado em minha noveleta de futuro alternativo “O Preço da Sanidade” (1997) se situa no passado recente.  O que teria acontecido se Luiz Inácio Lula da Silva houvesse derrotado Fernando Collor de Mello no segundo turno das eleições presidenciais de 1989?

Bem, para começo de conversa, não haveria o processo de impeachment dois anos mais tarde.  Porém, e além disso?  Como seria um governo petista hipotético no início da década de 1990?

Àquela época, muitos acreditavam que a vitória do Partido dos Trabalhadores teria dado início a uma utopia tupiniquim.  Tal como pensaram desse mesmo modo em 2003, quando Lula realmente venceu as eleições presidenciais em nossa linha histórica.  Contudo, será que aquela utopia na última década do século XX teria de fato ocorrido?  Cumpre lembrar que o PT daqueles tempos exibia uma postura bem mais autêntica e radical do que o partido que venceu as eleições de 2003 em NLH.  Daí, a questão: haveria reações ao estabelecimento da nova ordem?  Em caso afirmativo, por quanto tempo duraria a utopia?  Afinal de contas, como diz o ditado, “Tudo que é bom, dura pouco.”

O fluxo principal da narrativa se dá em um ponto qualquer da segunda década do século XXI.  Em meio a uma tempestade na localidade fluminense  de Serrinha do Lambari, Geraldo Lopes Ramos desce a estrada de terra em sua camionete rumo à Via Dutra.  No banco de trás do veículo, coberto por uma lona grossa, há um cadáver que, se tudo correr como o protagonista planeja, atestará sua sanidade mental para além de qualquer possibilidade razoável de dúvida.  Geraldo ruma para o bunker da Unicamp, segundo foco de resistência mais importante ao regime autoritário que se instalou no país após o golpe militar de 2001.  Ou o foco mais importante, se desconsiderarmos a República do Piratini, constituída pelos três antigos estados da Região Sul, que decidiram pela secessão após o golpe.

Os elementos de história alternativa da trama são mostrados sob a forma de flashbacks, porém sem a menor preocupação com a ordem cronológica.  Pois, afinal, tratam-se de recordações que fluem pela mente do protagonista à medida que ele medita sobre os motivos que o conduziram à situação crítica em que se encontra no presente da narrativa.

Em 1998, Geraldo tinha 25 anos e estava prestes a defender sua tese de doutorado em xenologia.  O Brasil havia acabado com a inflação, nosso parque industrial crescia quase 10% ao ano e o país elegia um governante comprometido com os anseios da população pela terceira vez consecutiva: uma mulher decidida a prosseguir com a tarefa hercúlea de seus dois antecessores de demolir os privilégios daqueles que, embriagados nas fontes de lucro fácil e do poder irresponsável, impediram durante mais de meio século a ascensão do Brasil ao mundo desenvolvido.

O que poderia dar errado nesse cenário utópico?  A raiz dos males de Geraldo reside na associação política entre os progressos na área da xenologia com o regime petista.

Em 1997, o candidato independente à presidência dos EUA causou furor na Assembleia Geral das Nações Unidas com um discurso bombástico em que admitiu que seu país já possuía há mais de uma década evidências da existência de uma cultura tecnológica alienígena, que estaria empreendo visitas periódicas à Terra.  Na ocasião, com os ufologistas do mundo inteiro fazendo escarcéu sobre o assunto, Geraldo cogitou desistir da defesa de sua tese de doutorado na área de SETI, mas no fim acabou resolvendo prosseguir com a carreira nessa área de estudo.  A decisão pareceu acertada, pois a comunidade científica internacional reagiu à altura e, ao longo da guerra sem tréguas contra os ufólogos em prol da seriedade científica, logrou estabelecer a disciplina da Xenologia.

O florescimento dessa disciplina fez com que os ventos da mudança começassem a soprar sobre os solos férteis da comunidade científica brasileira.  Responsável por uma economia em franca expansão e uma estabilidade política aparentemente sólida, o governo criou o Instituto de Estudos Xenológicos.  Na época, Geraldo concluía seu doutorado em Berkeley e não pensou duas vezes antes de aceitar o convite para trabalhar e lecionar na primeira instituição nacional de pesquisa xenológica.

Ao longo de 1999, Geraldo e seus colegas arregimentam uma equipe de pesquisadores que em pouco tempo se tornou uma das mais respeitadas da disciplina.  Criaram seu próprio periódico acadêmico, o Xenoestudos, cujos artigos gozavam do respaldo da comunidade xenológica internacional, sendo traduzidos e republicados nas melhores publicações norte-americanas e europeias da área.

O Brasil caminhava a passos largos há quase uma década rumo ao tão almejado desenvolvimento e, em termos de pesquisa xenológica, o nível do trabalho no IEX se equiparava ao padrão de qualidade das melhores instituições de pesquisa do hemisfério norte.  Portanto, não foi de se estranhar que, em começo de mandato, o governo Erundina associasse os progressos notáveis da pesquisa xenológica brasileira com o desenvolvimento formidável do país.  Aliás, neste sentido, seu antecessor, José Genoíno, indicara o caminho.  Para os xenologistas, a grande vantagem dessa associação íntima entre ciência e política foi um fluxo de verbas caudaloso e ininterrupto.  Uma das consequências naturais dessa política científica engajada foi a filiação de quase todos os pesquisadores e funcionários do IEX ao Partido dos Trabalhadores.

Então, quase da noite para o dia, as coisas começaram a mudar para pior.

Em 19 de janeiro de 2001 dá-se o golpe militar malfadado, que interrompe a trajetória de progresso e prosperidade social brasileira rumo ao mundo desenvolvido, mergulhando o país em mais um período de caos.  Depois de uma década e meia de democracia plena, a nação reafirma seu pendor para a ditadura.  Pretensamente sobretaxados, os líderes do capital financeiro se associaram aos setores descontentes com as mudanças implementadas pelos governos petistas para promover o golpe.  Uma parcela considerável dos efetivos das Forças Armadas apoiou essas elites descontentes.  Consequência lógica da insatisfação com os cortes sucessivos nos orçamentos de suas pastas.

À primeira vista, a derrubada da presidente e o fechamento do congresso desabaram sobre as cabeças dos cidadãos como se houvessem surgido do nada, autêntico raio em céu aberto.  Contudo, analisando a posteriori, Geraldo conclui que já havia sinais de descontentamento com as mudanças em diversos setores da elite e da classe média alta.  Imerso em meu mundo perfeito de pesquisa científica e felicidade conjugal, ele só percebeu o contexto desfavorável quando já era tarde demais.

É claro que houve reações.  Passado o aturdimento inicial, os focos de resistência no campo e nas cidades do interior assumiram proporções de autênticas guerras civis.  Na Região Sul, a história foi diferente.  Governantes e governados não colocaram o rabo entre as pernas como no resto do Brasil.

Apoiados pelo grosso de suas populações civis e pelos fortes efetivos militares estacionados em seus estados, os governadores do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina resistiram ao golpe.  Diante do impasse, o governo revolucionário optou pelo envio de tropas federais do Rio, de Minas e de São Paulo para o Sul.  Como a medida de intimidação só resultou para acirrar os ânimos, deu-se o confronto do Exército e a FAB com as forças mobilizadas pelos governadores legalistas.  No fim, depois de várias idas e vindas, substanciadas por milhares de baixas de ambos os lados, lá pelos fins de março os sulistas lograram deter o avanço das tropas federais na fronteira sul do Paraná.  Sob os protestos da junta militar recém-empossada em Brasília, o Rio Grande do Sul e Santa Catarina oficializaram suas secessões da União e se fundiram para estabelecer ou melhor, restabelecer, a República Piratini.  Mais tarde, o estado do Paraná se integraria à nova república.

A xenologia nacional pagou caro pelo apoio entusiástico que o antigo governo democrático lhe prestara.  Já nos primeiros dias de seu mandato, a junta militar declarou que o apoio do PT à xenologia em geral e ao IEX em particular constituía uma “simbiose imoral”.  A analogia estabelecida de forma tácita por Genoíno, mais tarde explicitada por Erundina, do avanço brasileiro em xenologia com o progresso social em outras áreas se converteu na ruína dos estudos xenológicos no país  Para os militares tacanhos, a crença na existência de civilizações alienígenas era “coisa de contrarrevolucionário”.

O regime militar prepara um atentado contra Geraldo, mas é a esposa dele e a filhinha que perecem em seu lugar.  O xenólogo logra obter provas da autoria do atentado, mas acaba internado em uma clínica psiquiátrica e permanece sob tratamento durante vários anos, sendo declarado “curado” e, portanto, liberado apenas em 2008.

Uma vez em liberdade, Geraldo passa a residir em Serrinha do Lambari, onde cuida do sítio de seu padrinho, enquanto se esforça para reconfigurar sua vida estilhaçada, unindo os cacos restantes do seu passado no caos distópico do seu presente.

Enfim, cumpre alertar que, para além de história alternativa, “O Preço da Sanidade” constitui, sobretudo, uma narrativa de primeiro contato entre humanos e alienígenas, conquanto essa temática fuja ao escopo do presente trabalho.

[1]  A divergência desse conto talvez resida em atitudes mais inteligentes e pragmáticas da diplomacia imperial, ao acordar tratados de fronteiras e direitos de navegação com Carlos Lopez, presidente vitalício do Paraguai.  Esses acordos impedem que o filho do ditador, Solano Lopez, iniciasse a Guerra do Paraguai.  Talvez, consista na libertação dos escravos, implementada muito mais cedo por Dom Pedro II nessa linha histórica alternativa.

[2].  Gíria proposta pelo autor para os passarolistas, selecionados, como os jóqueis das corridas de cavalos modernas, essencialmente pelo peso reduzido e pela baixa estatura.

[3].  Victor Frankenstein estudou na Universidade de Ingolstadt.  Lá frequentou as aulas de Química do Professor Waldman.  Aliás, em “A Extinção das Espécies” é feita uma breve referência-homenagem à trama do romance de Mary Shelley.

[4].  Em nossa linha histórica, o apresamento de um navio homônimo (levando a bordo o recém-nomeado presidente da Província de Mato Grosso) ordenado por Solano Lopez constituiu um dos estopins da Guerra do Paraguai.  Aliás, por falar em navios, mais tarde, Gibson comenta com Fumaça que um estaleiro imperial estaria concluindo a construção do navio porta-balões Rio de Janeiro, para ser empregado contra a Marinha Espanhola no Mar do Caribe.

[5]  É de se imaginar que Einstein tenha elaborado sua Teoria da Relatividade Restrita e quiçá também a Teoria da Relatividade Geral mais cedo, como pré-requisitos necessários para os avanços teóricos que possibilitaram a abertura de portais dimensionais.  Contudo, se em 1900 Albert Einstein era um jovem de 21 anos, fica a pergunta: com que idade ele teria lucubrado a TRR?

[6].  Não houve Guerra do Paraguai nessa linha histórica alternativa.  Por outro lado, os Estados Confederados da América venceram a Guerra de Secessão e, décadas mais tarde, travaram uma Guerra das Guianas contra o Império.  Pelo visto, Castro propõe um cenário alternativo com múltiplos pontos de divergência: Marte Alternativo; Vitória Confederada; e Império do Brasil Alternativo.  Em 1900, desenrola-se uma Guerra Fria entre o Império e os Estados Confederados, incrementando ainda mais o progresso tecnológico nessa LHA.

[7].  Pterossauros, mas não pterodáctilos, como sugere o título, pois esses últimos constituíam répteis alados com as dimensões de um pombo atual.

[8].  Imagina-se que o protagonista, Felipe Evangelista, seja descendente de Irineu Evangelista de Sousa, o primeiro Barão de Mauá (mais tarde Visconde).  Contudo, ao contrário do que acontecia na maioria das monarquias europeias, no Império do Brasil os títulos nobiliárquicos não eram hereditários.  Assim, o filho de um barão era um plebeu.  Se esse filho plebeu também fosse eventualmente guindado à nobreza por merecimento real ou suposto, provavelmente receberia um título diferente daquele pertencente ao pai.

[9].  O autor dá prosseguimento às aventuras do matador paranormal Jerônimo Trovão e seu filho Deuteronômio, agora homem feito, no romance fix-up E de Extermínio (Draco, 2015).  A noveleta inicial constitui a primeira das quatro partes da narrativa que se desenrola entre 1936 e 1948.  Sob regime republicano, o Brasil alia-se ao Terceiro Reich, provocando uma invasão norte-americana em vários trechos da costa brasileira e o bombardeio maciço do Rio de Janeiro em plena Segunda Guerra Mundial.

[10].  Vivíamos no século XX: não havia limite fixo quanto ao número de palavras.  A inexistência de tal limite gerou algumas situações inusitadas.  O regulamento foi publicado na IAM # 06.

[11].  Seria maravilhoso poder afirmar que o primeiro passo na produção desse universo ficcional foi o esboço de uma linha histórica alternativa.  No entanto, não foi bem assim que as coisas se deram.  Cumpre confessar que o primeiro passo foi desenhar um mapa da América do Sul Alternativa que teria surgido como consequência da vitória paraguaia no conflito que, naquela LHA, era referido como “Guerra da Tríplice Aliança”.

[12].  Fontes contemporâneas estimam o efetivo do Exército Paraguaio no início da Guerra da Tríplice Aliança como algo entre 80.000 e 100.000 soldados.  Cifra impressionante, quando se leva em conta que a população paraguaia girava em torno de 400.000 habitantes.

[13].  Em nossa linha histórica, os navios, canhões e fuzis passaram às mãos brasileiras, quando os emissários imperiais “completaram” o restante dos pagamentos às fábricas de material bélico e estaleiros europeus.

[14].  Carabina militar Spencer, então em uso no Exército dos Estados Unidos da América, modelo 1865, calibre ponto 56-50.  Sistema de municiamento rápido através de cilindro de carregamento com capacidade para sete cartuchos.

[15].  Albuquerque era fã dos romances de ciencia fictícia de Daniel Alvarez.  No entanto, julgava tratar-se de um autor paraguaio.  Alvarez fora agraciado três vezes com o Cortázar, premiação máxima do gênero.  O físico lamenta que o cientista fictício não escrevesse histórias alternativas, mas apenas ciencia fictícia convencional:

“Sempre o imaginara como um sujeito mais velho.  Não esse rapazote metido a agente secreto, que só deve escrever CF nas horas vagas.  Só que não era bem assim.” — Conclui no instante seguinte. — “Pela qualidade e volume da produção literária de Alvarez, eu me arriscaria afirmar que ele brinca de agente germânico nas horas vagas.  Um cientista fictício germânico escrevendo com pseudônimo paraguayo…  Enfim, o mercado editorial de CF tem razões que a própria razão ignora.”

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