Cenários Alternativos Lusófonos II

Guerras Inexistentes e Conflitos Alternativos

Embora o conto “O Colosso de Bering” (2006), de Carlos Orsi Martinho, comece no futuro, onde os planetas do Sistema Solar já foram colonizados,[1] boa parte da ação se desenrola no ano 1908 de uma linha alternativa que divergiu da nossa linha histórica em 1884, quando, durante a Conferência do Meridiano Internacional em Washington, a França logra impedir a escolha de Greenwich como meridiano de origem.  Em prol da neutralidade, define-se Bering como o meridiano de longitude zero.  De algum modo, essa iniciativa alterou outros parâmetros do sistema internacional de medidas, a ponto de a hora agora possuir cem minutos e cada minuto cem segundos (hora cosmopolita), o ano contém nove meses de quarenta dias, com cinco dias adicionais de feriados (seis nos anos bissextos), e assim por diante.

A narrativa inicia com o narrador reencontrando o amigo Tomio Arakaki, um físico brasileiro de ascendência nipônica que havia morrido dez anos atrás em um acidente.  Tomio revela que após o acidente, despertara à noite mergulhado no mar gélido.  Pouco mais tarde é resgatado por um navio que conduz refugiados russos rumo ao Estreito de Bering, onde se situa o tal colosso do título, uma estátua descomunal erigida num território neutro administrado pelo Bureau da Longitude de Paris-Rio de Janeiro.  O físico descobre que o Império Russo está em guerra contra o Império Nipônico, porque os japoneses ainda insistem em manter o meridiano de Quioto como origem das longitudes.

Tomado por espião japonês, o físico é interrogado e torturado por agentes do Bureau.  Enfim, o prisioneiro começa a desconfiar que o Bureau é um organismo internacional bem mais poderoso do que parece.  Quando o Japão capitula, desistindo do meridiano de Quioto em favor de Bering, Tomio começa a ser mais bem tratado.  No entanto, é atraído para uma armadilha preparada por um terrorista infiltrado no Colosso.  Ao perecer na explosão, desperta em Buenos Aires da nossa linha histórica meros dez anos depois da época de sua primeira morte.

Narrativa original, enxuta e bem escrita.  No entanto, os eventos se dão de forma algo gratuita.  Parece falar certa coerência ou sentido.  AH-Lite?  Pode ser.  De qualquer modo, tremendo samba do relógio doido.

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Em sua noveleta “Uma Sombra do Passado” (201?), Daniel I. Dutra mostra o que acontece quando a mente de Adolf Hitler é transferida para o cérebro de um emigrante alemão no Rio Grande do Sul.  Nessa trama instigante e original, o autor advoga ainda o restabelecimento da República Piratini no sul do Brasil.  Aliás, a ação se passa num Rio Grande do Sul independente.  O ponto de divergência se dá em 1919, quando Adolf Hitler emigra para o sul do Brasil.  Algures na década de 1930, Luís Carlos Prestes logra implantar o regime comunista no país.  Em reação, em 1935, Getúlio Vargas proclama a independência do Rio Grande do Sul e desencadeia a Segunda Guerra dos Farrapos, com o apoio da França e da Grã-Bretanha, interessadas em conter a expansão do comunismo na América Latina.  Durante a guerra, o Brasil conta com o apoio da União Soviética e da República Socialista da Alemanha.  Após cinco anos de conflito, a independência gaúcha é finalmente assegurada em 1940.  Enquanto isto, Luís Carlos Prestes consolida o comunismo no resto do Brasil.

A narrativa é apresentada por Marcos Dorneles Vieira, psiquiatra responsável por estudar o caso sui generis do emigrante Adolf Hiedler, que se afirma governante de um Terceiro Reich Alemão que nem sequer existe naquela linha histórica alternativa.  Hiedler e a esposa Stefanie haviam emigrado para o Brasil em 1919.  Residente em Porto Alegre, Hiedler obteve trabalho como ilustrador do jornal de língua germânica, o Vaterland.  Hiedler incorpora a personalidade do Adolf Hitler da nossa linha histórica em julho de 1942.

À medida que o tratamento de Hiedler prossegue, o psiquiatra se convence cada vez mais de que existe um fundo de verdade nas histórias estapafúrdias que o emigrante lhe descreve.  No clímax da noveleta, o autor exibe uma explicação plausível e imaginativa para a estranha síndrome do ilustrador.

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“O Espírito, a Água e o Sangue” (201?), de Flávio Medeiros, é uma noveleta bem escrita, de porte avantajado, quase uma novela.  Em termos de taxonomia do subgênero, constitui uma narrativa de evento alternativo.  Além disso, constitui um cenário de Canudos Alternativo bem mais consistente e verossímil do que o descrito no romance A Casca da Serpente (1989), de José J. Veiga.  Ao transformar a figura histórica de Antonio Conselheiro em personagem literário, Medeiros respeita a integridade da personalidade desse líder carismático do início da República.

Até a metade dessa narrativa na terceira pessoa, cujo foco narrativo se situa na figura de Euclides da Cunha, os elementos de história alternativa em geral e de steampunk em particular se mantêm atenuados, praticamente ocultos à percepção do leitor.

O Tenente Tasso Fragoso é o emissário do Governo, responsável pela negociação com os revoltosos de Canudos.  Em troca da integridade física do Marechal Carlos Machado de Bittencourt, mantido como refém no povoado rebelado, Fragoso concorda em fornecer alguns gêneros de primeira necessidade aos rebeldes.  Mais tarde, propõe facilitar a execução de um projeto de irrigação em Canudos, em troca da libertação do marechal.  O projeto é chefiado pelo engenheiro inglês John Withmore.  Contudo, o anglo-saxão nutre seus próprios planos para auxiliar os rebeldes e esses consistem em construir tanques de guerra in situ para combater as forças do Exército que cercam a comunidade.  Só que Tasso Fragoso também possui suas próprias cartas na manga.  A solução do conflito é algo deus ex machina, porém, em seu todo, essa quase novela exibe uma narrativa enxuta, satisfatória e divertida.

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“Ad Finem Fidelis” (201?), de Lídia Zuin, é uma noveleta com elementos marcadamente dieselpunks cuja ação se desenrola em um cenário alternativo nazista delineado com pinceladas algo surreais.  A trama se passa numa Alemanha Nazista Alternativa, embora o ponto de divergência não apareça explicitado, como é praxe em diversas narrativas do sub-subgênero steampunk e seus congêneres.

A autora estabelece um clima de mistério, numa trama seca e econômica, em que poucas explicações são fornecidas.  A protagonista é a noviça órfã Katya Liebrein, retirada do convento onde vivia, com a conivência das freiras, por um homem misterioso, que se apresenta como Joseph, sob a alegação de que sua mãe havia morrido e ela precisava cuidar da herança.  A bordo de um automóvel negro, Joseph e Katya são conduzidos até uma estação ferroviária e dali embarcam no trem que os levará até a cidade de Tiliae, onde se instalam numa hospedaria próxima à estação.

Joseph envolve Katya em seus planos para eliminar oficiais do alto escalão do Partido Nazista, empregando a beleza e a juventude da moça como chamariz para atrair suas vítimas para armadilhas fatais, em uma trama que avança num crescendo até o clímax do duelo contra um general ciborgue.

Linha Histórica Alternativa dos Três Brasis

As análises das narrativas dessa linha histórica alternativa criada por este autor serão apresentadas pela ordem cronológica interna, isto é, não pela ordem em que as narrativas foram escritas e publicadas, mas sim pela época em que a ação de passa, caminhando, naturalmente, do passado em direção ao presente.

Embora as narrativas ambientadas nessa linha alternativa constituam obviamente trabalhos de ficção, as nações citadas ao longo do dos contos, noveletas e novelas realmente existiram na época do Brasil-Colônia.  Tanto a República de Palmares quanto Nova Holanda persistiram durante várias décadas no nordeste brasileiro do século XVII, se bem que não exatamente nos moldes esboçados pelo autor.

A República — na verdade uma confederação de quilombos e mocambos — teve seus alicerces lançados nos primeiros anos daquele século.  Os relatos de uma expedição comandada por Bartolomeu Bezerra por volta de 1605 já nos falam da existência de um mocambo de negros rebelados no alto da Serra da Barriga, no atual Estado de Alagoas, àquela época parte da Capitania de Pernambuco.

No início das Invasões Holandesas, aproveitando os conflitos e escaramuças entre as forças regulares holandesas e a guerrilha luso-brasileira, bem como a interrupção das atividades produtivas coloniais, consequência natural de um conflito dessa intensidade e duração, grande parte do contingente de escravos dos engenhos de açúcar da Capitania de Pernambuco fugiu das senzalas para engrossar a população de Palmares.  Essa confederação de quilombos coligados persistiria como nação independente por todo o século XVII — um autêntico Estado dentro do Estado; um outro Brasil, negro e livre, existente no interior do Brasil Colonial Luso habitado por brancos de ascendência europeia, ameríndios de diversas etnias e escravos de origem africana.

Já Nova Holanda existiu por menos tempo.  Embora tenha deixado marcas indeléveis na memória do Brasil Colonial, a permanência dos holandeses no país limitou-se a um período de pouco mais de trinta anos, desde a conquista efêmera de Salvador em 1624, passando pela ocupação da região do Recife e de boa parte do litoral nordestino, até a capitulação definitiva das forças holandesas em 1654.

A fase mais brilhante da existência de Nova Holanda se deu sob o governo do Stadhouder Johann Moritz, conde de Nassau-Siegen, que ficou conhecido no Brasil como Conde Maurício de Nassau.  Estadista perspicaz, Nassau conseguiu em certa medida conciliar os interesses de comerciantes e militares holandeses protestantes com os dos senhores de engenho luso-brasileiros e do clero católico.  Homem de visão e empreendedor, Nassau aterrou uma área pantanosa próxima ao Recife para construir um novo bairro, a cidade Maurícia, onde instalou as sedes da administração de Nova Holanda e dos escritórios da Companhia das Índias Ocidentais.  Em poucos anos, boa parte da classe abastada da capital da colônia se mudaria para lá.  Também data da época de Nassau, a construção no Recife do primeiro observatório astronômico do hemisfério sul.

O regresso de Nassau à Europa marca o início da decadência de Nova Holanda.  Apesar disso, levou ainda cerca de uma década para que os luso-brasileiros lograssem expulsar definitivamente o invasor.

Com o declínio econômico de Nova Holanda, o governo das Sete Províncias Unidas e a direção da Companhia das Índias Ocidentais propuseram a Nassau que regressasse ao Brasil no comando de navios e exércitos, para restabelecer a ordem e recuperar a produção açucareira, enfraquecida no período imediatamente posterior à partida do stadhouder.

A princípio, Nassau teria concordado com a ideia do regresso ao Recife, mas impôs como exigência que lhe concedessem poderes absolutos para governar a colônia, além do comando de um contingente militar superior em homens e navios àquele que a Companhia parecia disposta a financiar.

Diante do impasse, Nassau teria recusado a proposta de regressar ao governo de Nova Holanda.  O resultado dessa recusa faz parte de nossos livros de história.

O ponto de divergência dessa linha alternativa é exatamente o resultado diverso para tal impasse.  E se Nassau ou a Companhia se houvessem mostrado menos intransigentes e acabassem chegando a um acordo?  Nassau teria regressado ao Brasil para retomar a obra deixada pela metade.

Em nossa linha histórica, após a partida de Nassau, os holandeses empreenderam duas investidas militares contra a Confederação de Palmares.  Dois malogros completos.

Após seu regresso na linha alternativa, quem sabe Nassau não teria adotado uma atitude mais sábia e pragmática que a de seus antecessores, dando ouvidos à velha máxima da estratégia militar que afirma que “os inimigos dos meus inimigos são meus amigos”.

Quando se propôs a escrever narrativas de história alternativa sobre uma Confederação de Palmares que houvesse vingado, a ponto de persistir até hoje, não apenas como nação independente, mas como potência mundial, este autor esbarrou na questão da plausibilidade histórica: como justificar que os palmarinos pudessem competir com os luso-brasileiros de igual para igual, acabando por sobrepujá-los em seu próprio jogo?  Pareceu claro desde o início que os quilombolas só teriam chance de sucesso a longo prazo nesse jogo de equilíbrio político delicado, caso dispusessem de uma estratégia eficaz para absorver algumas das melhores “virtudes” das culturas europeias.

Com este objetivo em mente, escolhi meu ponto de divergência, o evento crucial a partir do qual essa linha histórica fictícia se desviaria da história real que aprendemos na escola.  Esta divergência é justamente a hipótese do regresso de Nassau ao Brasil em 1647 no comando de um grande exército e uma Armada poderosa.  Reassumindo o governo de Nova Holanda, Nassau perceberia a conveniência de tentar uma aliança com a República de Palmares contra o inimigo comum luso-brasileiro.

Não se pretende discutir no âmbito desse cenário de história alternativa se a referida aliança funcionaria ou não a longo prazo.  O essencial é que, uma vez assumida a premissa, o argumento da sobrevivência de Palmares como nação independente se torna bem mais verossímil.

E quanto aos filhos-da-noite?  Afinal, segundo as más-línguas, há vampiro nesta história.  Onde o Povo Verdadeiro em geral e Dentes Compridos em particular se encaixariam neste cenário histórico alternativo?

Bem, a história do Povo Verdadeiro, desde sua gênese mítica até as guerras secretas contra o Império Inca, assim como a história do filho-da-noite Dentes Compridos — desde sua fuga das grutas ancestrais até a caçada noturna na Londres vitoriana e, mais tarde, seu confronto com um superoperativo brasileiro fora da Terra — não constituem tópicos de história alternativa per si.

Dentro do campo de ação deste universo ficcional, as aventuras de Dentes Compridos devem ser encaradas antes como fragmentos de história oculta, isto é, conjuntos de eventos que, embora ausentes de nossos livros de história, poderiam ter ocorrido essencialmente da maneira como foram descritos, sem a necessidade de uma divergência e, portanto, de uma história alternativa.  Embora a história não aconteça exatamente como aprendemos na escola, ninguém a não ser o leitor saberia disso.

Ainda assim, este autor crê que as narrativas ambientadas nessa linha histórica alternativa que exibem as aventuras do filho-da-noite Dentes Compridos devam ser lidas, sobretudo, como peças de história oculta que têm no vampirismo científico[2] sua temática principal.  Contudo, é inegável que também se trata de uma história oculta inserida num panorama mais amplo de história alternativa.

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A novela “Crepúsculo Matutino” (2014) não constitui história alternativa per si.  É, antes, uma narrativa de ficção científica e também uma história oculta que possui no vampirismo científico sua temática principal.  Contudo, é ambientada no cenário de história alternativa Três Brasis e fala da gênese factual e dos Mitos de Criação do Povo Verdadeiro, também conhecidos como filhos-da-noite, humanoides hematófagos que evoluíram como nossos predadores.  Mostra o apogeu e a queda dessa cultura não humana na América do Sul pré-colombiana, a guerra secreta que travaram contra o Império Inca e a fuga em marcha lenta do jovem filho-da-noite Dentes Compridos Brasil Colonial adentro, até trombar, dois séculos mais tarde, com os bantos da Confederação de Palmares, então já sob forte influência cultural de Nova Holanda.

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A novela “O Vampiro de Nova Holanda” (1998) foi o primeiro trabalho escrito nesse cenário histórico alternativo, aquele para o qual o universo ficcional foi estabelecido.  É a narrativa dos primeiros anos de Dentes Compridos como agente secreto da Confederação de Palmares.  A ação se desenrola por volta de 1675, época em que ele atua no Recife — cidade que, nessa linha histórica alternativa, permaneceu sob o domínio holandês e se tornou não só uma grande metrópole, mas também o maior porto açucareiro do mundo.  Zumbi e Andalaquituche, os dois sobrinhos primogênitos do rei Ganga-Zumba, disputam sobre como dispor dos talentos invulgares do filho-da-noite.  O segundo leva a melhor, mas a crise eclode quando uma sucessão de crimes hediondos com cadáveres exangues se desenrola nas cercanias do porto do Recife.  Os palmarinos não se perturbam com a chacina, até que o maníaco escolhe uma noiva de Palmares por vítima.  Naturalmente, Dentes Compridos é cogitado como principal suspeito e, em seu encalço, além do serviço secreto da Confederação, partem um espadachim gascão que se afirma filho de Cyrano de Bergerac; uma princesa banta recém-chegada de África; e o comissário de política Van Helsing, responsável pelas investigações criminais na Cidade Maurícia.

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A novela A Traição de Palmares (1999) descreve as aventuras de um fidalgo lusitano enviado aos Brasis para propor que a Confederação abjurasse sua aliança de quase quatro décadas com Nova Holanda em favor do reconhecimento formal de sua independência por parte da Coroa de Portugal.  Por conta desse acordo, Palmares alia-se aos luso-brasileiros e declara guerra aos holandeses.  Uma narrativa de história alternativa sem a presença do último dos filhos-da-noite.  Embora a ação da novela se dê em fins do século XVII, seu epílogo se passa em 1986, quando o ministro das ciências da Primeira República profere um discurso crucial na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas, na mesma época em que Brasil e Palmares disputam a posse definitiva da Taça Jules Rimet, conforme descrito quando da análise da noveleta “Pátrias de Chuteiras” (1998), na seção Futebol Alternativo.

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“Capitão Diabo das Geraes” (2000) é a quinta narrativa escrita na linha alternativa Três Brasis,[3] embora se insira cronologicamente cerca de sete décadas após o clímax de “A Traição de Palmares” (que ocorre com o reconhecimento da independência de Palmares) e quase um século e meio antes do confronto entre um vampiro e um lobisomem bastante heterodoxos na Londres vitoriana de “Assessor Para Assuntos Fúnebres”.  A ação agora se passa na província das Minas Geraes lá pelos idos de 1750.  Mais especificamente, no Distrito Defeso do Tijuco, onde a vontade do contratador dos diamantes João Fernandes de Oliveira é a lei em nome de El-Rei e onde a mulata Chica da Silva reina inconteste no coração do contratador.

João Fernandes está às voltas com o descaminho e o roubo dos diamantes das lavras do Tijuco.  Ele suspeita que os crimes sejam perpetrados por salteadores a mando de Palmares ou de Nova Holanda, respectivamente a única nação independente do continente americano e a mais rica das oito Províncias Unidas — duas forças aliadas em sua inimizade comum à Coroa Portuguesa; dois Estados firmemente estabelecidos no nordeste brasileiro, algumas poucas centenas de léguas a norte das Minas Geraes.

O Capitão Diabo do título é o líder do bando de salteadores que atemoriza o Tijuco.  Torna-se claro desde o início que se trata de uma nova identidade do mesmo personagem que protagonizou duas outras noveletas da série.

A Coroa Portuguesa ordena ao contratador que financie a guerrilha dos colonos iorubas que se haviam fixado na província palmarina da Bahia do Norte duas gerações atrás.  Os guerrilheiros possuem motivação religiosa, pois, ao contrário dos bantos palmarinos, quase todos convertidos ao cristianismo, os iorubas insistem em se manter fiéis aos cultos de seus ancestrais africanos.  Como são os diamantes do Tijuco que financiam o esforço de guerra dos rebeldes, em represália ao apoio do contratador aos iorubas, Palmares envia salteadores para prejudicar ou interromper o fluxo de diamantes para a metrópole.  “Capitão Diabo das Geraes” é a narrativa do duelo de astúcias entre um filho-da-noite solitário imbuído da tarefa árdua de comandar um grupo de operativos militares travestidos de salteadores e um vida-curta dos mais sagazes, mas sempre disposto a dar ouvidos aos conselhos de sua Chica.

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A novela “Morcego do Mar” (2014) constitui a narrativa mais longa escrita nesse universo ficcional.  A ação se passa em 1775, época em que a Primeira República presta apoio aos rebeldes das Treze Colônias Inglesas em sua luta pela independência.  A história reúne outra vez os personagens João Fernandes e Anduro, criados em “Capitão Diabo das Geraes”.  Agora a serviço da Primeira República, Fernandes, vira-casaca e ganga branco de Palmares, é enviado junto com o velho amigo para as Treze Colônias em plena insurgência que culminaria na Guerra de Independência.  Uma vez lá, Fernandes e Anduro firmam tratados para apoiar a causa dos rebeldes norte-americanos.  O ganga branco se desespera ao descobrir que parte desse apoio, para além do fornecimento de armas, consiste em embarcar na Morcego do Mar, fragata da Marinha Palmarina sob o comando de José Meia-Noite, que não é outro se não seu velho desafeto, o Capitão Diabo.  Sob essa nova identidade, Dentes Compridos fará seu vaso engajar contra a frota da Marinha Real Britânica que conduz os reforços necessários para debelar a rebelião.

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A ação na noveleta “Consciência de Ébano” (2010) se desenrola na primeira metade do século XIX.  Palmares dispõe de uma malha ferroviária extensa, seus cientistas aceitaram há décadas a Evolução pela Seleção Natural como fato concreto e seus engenheiros começam a cogitar aplicações práticas para a eletricidade.  Nesse clima de avanços científicos e tecnológicos, Dentes Compridos, ora na pele do engenheiro José Trevoso, propõe a construção da primeira represa hidroelétrica da história em pleno rio São Francisco.

No entanto, nem tudo são flores nos rincões da Primeira República.  Pois essa também é a história de João Anduro, neto de João Fernandes e membro do Círculo de Ébano, organização secreta criada pouco antes de Palmares se tornar uma república para proteger o segredo da existência de Dentes Compridos.  Anduro é um mbundo de lealdades divididas.  Por um lado, prestou juramento para defender o filho-da-noite com sua própria vida.  Por outro, julga a proteção que a pátria faculta ao monstro imortal uma abominação e considera a dependência que a República desenvolveu em relação à eficiência mortífera do protegido um sacrilégio.  Esse dilema ético atroz é a mola que propulsiona a narrativa da noveleta.

 

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Fig. 18 — Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).

 

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A trama da noveleta “Assessor para Assuntos Fúnebres” (1997) transcorre durante um período de férias de Dentes Compridos na Londres vitoriana na penúltima década do século XIX, época em que o último filho-da-noite se envolve com as atividades literárias de Bram Stoker, autor de Drácula, e com a série de crimes hediondos perpetrada por Jack o Estripador.

Ambientada nessa época e local, num cenário alternativo em que a ciência e a tecnologia avançaram mais rápido do que na nossa linha histórica (apenas para situar: a embaixada palmarina em Londres é alimentada por um reator de fissão nuclear instalado em seu subsolo), a noveleta exibe ares ligeiramente steampunks, embora escrita mais de uma década antes do movimento ganhar corpo no panorama literário e cultural lusófono em geral e brasileiro em particular.

Essa narrativa também pode ser lida como mais uma abordagem da temática algo surrada vampiro-enfrenta-lobisomem, embora, no caso presente, nem o “vampiro” e nem o “lobisomem” se encaixem confortavelmente nas expectativas do melhores clichês do horror literário e, muito menos, cinematográfico.

Ao fim da noveleta, preocupado com a possibilidade de que a natureza do filho-da-noite se torne pública, o embaixador palmarino convence Dentes Compridos a pôr o horror de Bram Stoker de lado em prol da ficção curta escritas pelo proponente de um novo gênero literário, Mr. Herbert Wells.

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A novela “Azul Cobalto e o Enigma” (2012) foi de longe a peça mais difícil de escrever desse universo ficcional e por um motivo muito simples: pelo fato de se passar na época atual de outra linha histórica, em que a ciência e a tecnologia se desenvolveram mais rápido do que na nossa, a narrativa praticamente abandona as sendas da história alternativa propriamente dita para ingressar na seara da ficção científica hard.  É, portanto, a primeira narrativa no universo ficcional dos Três Brasis com mais cara de FC do que de história alternativa.  Este autor nutria dúvidas sérias se uma narrativa desse gênero funcionaria na prática.  Talvez essa incerteza ajude a explicar a hesitação em concretizar o sonho de mandar Dentes Compridos para uma aventura final no espaço interplanetário.  A oportunidade ideal surgiu com o projeto da antologia Solarpunk.

No posto de antagonista, o herói Jonas Aranha foi criado para assumir o papel de rival brasileiro à altura de Dentes Compridos e cumprir a nobre missão de encontrar e aniquilar o último representante do Povo Verdadeiro (ou quase).  Pois, em pleno século XXI, o filho-da-noite ainda constitui fonte de preocupações para a comunidade da inteligência militar brasileira.  Aranha é o Azul Cobalto do título: um oficial tetraplégico tornado em super-herói graças à sua armadura invencível, uma espécie de Homem-de-Ferro brasileiro alternativo.  Lógico que “Enigma” é como o Serviço de Inteligência Brasileiro designa seu pior inimigo.

Embora parte da narrativa de “Azul Cobalto e o Enigma” se passe na Terra, as cenas de ação mais intensas são ambientadas num satélite de Júpiter, num veleiro espacial e na estação orbital São Paulo.  O próprio o confronto crucial entre os dois “heróis” não ocorre em nosso planeta.

Além do herói brasileiro, “Azul Cobalto e o Enigma” marca o retorno de uma dupla de amigos escritores, Gilson Pellegrino e Carlos Fernandes, que já havia aparecido num conto desta linha histórica, “Gigante dos Pés de Barro”.[4]  Pellê e Fernandes agora se arvoram em investigadores, correlacionando dados para tentar provar a existência de um assassino serial indestrutível que vem atuando contra o Brasil há séculos.

“Azul Cobalto e o Enigma” foi publicada na Solarpunk, terceiro e último volume do projeto de triantologia punk sui generis que organizei para a Editora Draco.[5]

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O romance fix-up Aventuras do Vampiro de Palmares (2014) foi montado pela reunião das narrativas “Crepúsculo Matutino”; “O Vampiro de Nova Holanda”; “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; e “Assessor Para Assuntos Fúnebres”.  A título de prólogo, inseriu-se o conto “A Noiva e o Vampiro”, que mostra a cena em que Dentes Compridos bebe a noiva de Palmares Tumarea, melhor amiga da princesa-sem-medo Amalamale, homicídio que desencadeia a trama da novela “O Vampiro de Nova Holanda”.

Ficções Alternativas

Publicado em outubro de 1995 na revista Dragão Brasil nº 11, o conto “Para Nunca Mais Ter Medo” de Fábio Fernandes talvez constitua a primeira ficção alternativa a empregar um Frankenstein Alternativo como tema.  O que se sabe ao certo é que foi a primeira frankensteiniana alternativa da literatura fantástica lusófona.  Porém, mais do que mera frankensteiniana brasílica, “Para Nunca Mais Ter Medo” constitui-se numa inusitada frankensteiniana carioca, pois o conto curto é todo ambientado na cidade do Rio de Janeiro.  Mesmo sem recorrer a cenas de ação, através de um corte do cotidiano, onde um homem considera o que teria acontecido se sua namorada não pudesse ser ressuscitada, o autor consegue transmitir o quão profundas foram as mudanças psicológicas e sociais numa civilização onde todos têm acesso às técnicas de ressurreição desenvolvidas por Victor Frankenstein.  Pronto.  Estava inaugurada a ficção alternativa brasileira.[6]

Muito mais complexa e animada do que “Para Nunca Mais Ter Medo” é a noveleta “Back in the U.S.S.R.” escrita por Fábio Fernandes na mesma linha ficcional alternativa criada para seu conto seminal e que foi publicada no fanzine Megalon 46 (Outubro 1997)[7].  Nesse mundo onde os mortos não costumam permanecer nesse estado muito tempo, John Lennon é ressuscitado após seu assassínio.  Para sua desdita, o novo Lennon logo percebe que se tornou um joguete nas mãos de seus benfeitores russos.  A nova vida não traz a paz e a tranquilidade almejadas pelo ex-Beatle.  Ele se envolve numa trama política perigosa, arriscando-se a morrer de novo, dessa vez para sempre.

O terceiro conto de Fábio nessa mesma linha alternativa, “O Nascimento do Livre Arbítrio”, publicado na revista Quark 11 (Abril 2000), trata do discurso proferido por Michael Foucault sobre as implicações políticas, históricas e sociais do Método Frankenstein.

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Em 1998, o carioca Octavio Aragão iniciou a Intempol, primeiro projeto multimídia e primeiro universo ficcional compartilhado da literatura fantástica brasileira.  Oito anos mais tarde, com o lançamento de A Mão que Cria, o autor assumiria novamente o papel de desbravador de novos caminhos do literatura fantástica lusófona ao publicar a primeira novela brasileira de ficção alternativa.

Embora a publicação de A Mão que Cria já lhe garanta o status de versão brasileira de Kim Newman, Aragão exibe a ousadia típica de Farmer, ao adotar como personagens principais não apenas o próprio Jules Verne, como ainda vários heróis, criaturas e super-heróis bem conhecidos da literatura e das histórias em quadrinhos.

No começo, o leitor é levado a crer que a divergência consiste tão somente numa revolução científica e tecnológica desencadeada em França na segunda metade do século XIX, quando o escritor Jules Verne assume suas ambições políticas, primeiro como prefeito de Paris e, mais tarde, na presidência da república francesa.  Se fosse só isto, a narrativa se limitaria a mais um cenário histórico alternativo steampunk.  Contudo, depois de certo tempo, ao longo da trama, o leitor mais perceptivo começará a intuir que a proposta do autor não é tão simples quanto pareceu no início.

As experiências assustadoras descritas em A Ilha do Doutor Moreau de H.G. Wells já não soam tão implausíveis assim.  A Marinha Francesa se equipa com submarinos modernos, cuja tecnologia “Nautilus Rapinantes” se inspira no famoso Nautilus, submersível proposto pelo Jules Verne da nossa linha histórica no romance Vinte Mil Léguas Submarinas.

Outra inspiração verniana é o sobrinho-neto do emérito Professor Otto Lidenbrock, líder da expedição descrita no romance Viagem ao Centro da Terra.  Axel Lidenbrock II desaparece na Sibéria ao investigar o enigma por trás da queda de um objeto incandescente misterioso em Tunguska, 1908.

Enquanto isto, o autor passa de Verne a Wells quando aborda a fusão das artes de “modelagem da carne” propostas por Moreau com as técnicas modernas de manipulação genética e também com a nanotecnologia.  Nasce assim uma espécie de criaturas híbridas, amálgama das características humanas com as dos golfinhos — uma estirpe cujo líder apresenta semelhanças instigantes com diversos humanoides anfíbios da ficção popular.

O grande antagonista é ninguém menos do que o famoso Ariano.  Só que, como o leitor já pode muito bem supor a esta altura, as coisas não são bem o que parecem.

A tecnologia nessa linha ficcional alternativa avançou mais rápido do que em nosso mundo, em grande parte graças à política científica visionária de Jules Verne, que abriu as portas e, sobretudo, os cofres, de França a cientistas, engenheiros e inventores, tanto nativos quanto estrangeiros.

Em A Mão que Cria, Octavio Aragão estabelece muito mais do que um mero universo ficcional alternativo.  No fundo, o que o autor propõe é uma nova tradição literária para o fantástico brasileiro.  Seguindo os passos de Farmer e Newman, bem como os do precursor lusófono Fábio Fernandes, ele se lança como principal paladino de um novo gênero literário no Brasil.  Um gênero fecundo, que já proporcionou colheitas magníficas noutras plagas.

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Em 2004, o decano da literatura fantástica portuguesa, João Barreiros, publicou o romance curto de ficção alternativa A Verdadeira Invasão dos Marcianos, constituído pela fusão da novela homônima, publicada originalmente em 1992 com a novela “Não Estamos Divertidos”.

O autor consegue amarrar com perfeição a trama de “Não Estamos Divertidos”, narrativa do jovem expedicionário H.G. Wells em Marte — acompanhado por Jules Verne, Edgar Rice Burroughs, John Carter e pelo Doutor Moreau — da expedição punitiva enviada pela humanidade ao planeta vermelho, após a invasão malograda à Terra (narrada em A Guerra dos Mundos, do próprio Wells) com a trama-explicação da invasão forjada, narrativa da novela homônima ao romance, elaborada por um cientista louco com o propósito de unificar a humanidade, tornando-a capaz de resistir ao assédio dos Galácticos, amálgama de civilizações alienígenas quase onipresente ao longo da obra de Barreiros.

Neandertal Alternativo

Considerado por muitos leitores como a melhor narrativa do universo compartilhado Intempol, a ponto de conquistar num ano disputadíssimo o segundo lugar na categoria Ficção do Prêmio Argos 2001, a novela “A Vingança da Ampulheta” de Fábio Fernandes não é uma história alternativa propriamente dita, mas antes, um trabalho de ficção científica com fortes elementos de história alternativa; como costumam ser, aliás, vários dos trabalhos que descrevem os esforços e as peripécias de agentes das patrulhas temporais para preservar a integridade de nossa linha histórica.

É justo nessa missão de manter nossa linha histórica nos trilhos corretos, banindo todas as linhas alternativas e pontos de divergência indesejáveis, que os agentes da Intempol “colidem” com Dualai, um cronoterrorista de origem misteriosa, que surge sempre nos locais mais inesperados; sobretudo, naqueles vulneráveis a divergências significativas, capazes de obliterar a história e a própria realidade “como nós as conhecemos”.

Só que Dualai não é um mero cronoterrorista, o tipo motivado por ideais políticos equivocados, por loucura ou simples idiotia.  É um crononauta neandertal, o último dessa estirpe, que logrou sobreviver ao genocídio perpetrado pelos humanos anatomicamente modernos, pelo simples fato de ter estado em trânsito temporal quando o holocausto se abateu sobre seu povo.

Ao tentar reverter a situação, restaurando sua própria linha histórica, apagada pela ação da Intempol, ou, quando não o consegue e decide se vingar dos exterminadores de sua gente, Dualai se transforma não em cronoterrorista, mas num guerrilheiro temporal, que luta de forma insana e desesperada pela sobrevivência de sua cultura.

“A Vingança da Ampulheta” é uma novela instigante, de enredo complexo e movimentado.  Sua trama repleta de reviravoltas admite a hipótese de se assumir a presença de Dualai como um elemento menor, uma pitada de tempero adicional num prato em si já delicioso.  Talvez seja assim.  Porém, é possível que Dualai seja mais do que isto.

Em primeiro lugar, Dualai é de longe o personagem neandertal mais interessante e mais bem construído da ficção científica lusófona.  Uma figura vívida e estimulante, ainda mais quando se leva em conta o quão tímida e imatura costuma ser a abordagem do alienígena, do robô ou, em termos genéricos, do outro, na literatura fantástica brasileira, sobretudo quando comparada com o que se faz lá fora.

Em segundo lugar, a ideia excitante e original do conflito entre duas linhas históricas antagônicas — uma neandertal e a outra habitada por humanos anatomicamente modernos — tem um potencial tremendo, do qual poderá germinar não um simples romance, mas todo um universo ficcional repleto de multilogias, haja vista o exemplo da trilogia do autor canadense Robert J. Sawyer, The Neanderthal Parallax, já abordada neste livro.

A proposta de Fábio Fernandes, no entanto, é ainda mais ambiciosa que a de Sawyer: “A Vingança da Ampulheta” não nos fala apenas do contato de duas linhas históricas, habitadas por espécies humanas distintas.  Pelo que se depreende da leitura da novela, havia originalmente duas culturas tecnológicas, a nossa e a neandertal.  Ambas capazes de viajar no tempo.  Num belo dia, uma delas — a nossa, representada no enredo do autor pelos agentes da Intempol — regressa dezenas de milênios ao passado e elimina a civilização rival no nascedouro.

O conceito subjacente à concepção de Dualai é formidável.  Merecedor de nota máxima nos quesitos originalidade e conteúdo.

Guerras Alternativas na Amazônia

Roberval Barcellos estreou profissionalmente com a publicação da noveleta “Primeiro de Abril” na Phantastica Brasiliana (2000).  Dos cinco cenários de história alternativa incluídos nessa antologia, a noveleta de Barcellos foi a única que propôs uma divergência recente: uma intervenção militar norte-americana no Golpe Militar de 1964 transforma o Brasil quase da noite para o dia num gigantesco Vietnã de 8,5 milhões de quilômetros quadrados; uma nação dividida em dois Estados rivais e castigada por uma guerra longa e sangrenta.  “Primeiro de Abril” é uma narrativa forte e convincente, bem embasada em fatos históricos de nosso passado recente e que esboça um quadro de plausibilidade terrível: o naufrágio da nação brasileira num maremoto político-militar; um país fragmentado por uma guerra civil de proporções continentais.

Boa parte da ação se passa na selva amazônica e o clímax transcorre na cidade do Rio de Janeiro.  A história do conflito é narrada por um veterano a um grupo de jovens brasilienses que preparam um trabalho de pesquisa escolar sobre os trinta anos do Contragolpe de 1964.  O trabalho de grupo faz com que o narrador, um veterano tanto da Guerra Civil Brasileira quanto da Segunda Guerra Mundial, rememore suas experiências como oficial subalterno servindo num comando de combate na selva sob as ordens de um certo Capitão Carlos Lamarca.

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Publicada em 2010, a novela de história alternativa Selva Brasil, de Roberto de Sousa Causo constitui um bom contraponto a noveleta de Roberval Barcellos.  A trama da novela é mais bem trabalhada do ponto de vista formal, com costuras e arremates da trama mais bem feitos.  A narrativa é na primeira pessoa e o narrador não é outro senão o próprio Roberto Causo.  Não o escritor e estudioso de ficção científica, mas um Terceiro-Sargento do Exército Brasileiro, um símile do autor na linha histórica alternativa postulada para a novela.

Tanto a estratégia narrativa de Causo quanto a de Barcellos possuem seus méritos e limitações.  O palco de “Primeiro de Abril” é mais amplo no tempo e no espaço: a ação se estende não apenas através dos anos, como se alterna entre a Amazônia e o Rio de Janeiro.  Já em Selva Brasil a ação se encontra circunscrita a um espaçotempo restrito.  Associada à narrativa na primeira pessoa, esta contenção torna mais suave o mergulho do leitor dentro da trama, facilitando o estabelecimento do propalado pacto da suspensão da incredulidade — acordo tácito que será estabelecido entre autor e leitor, desde que esse último consiga se identificar minimamente com o protagonista, fenômeno que de fato ocorreu com este leitor em relação à novela em pauta.

Enquanto a noveleta de Barcellos é uma história alternativa (claramente caracterizada como tal desde a abertura) com elementos de ação militar e suspense dramático, a novela de Causo é essencialmente uma história militar que também é marginalmente alternativa.  Marginalmente, no sentido de que boa parte da história (mas não a sua conclusão) poderia ser contada essencialmente da mesma forma sem o emprego de uma linha histórica alternativa.  A marginalidade em relação à história alternativa não constitui demérito ou tampouco inovação, sendo uma técnica experimentada vez por outra tanto por autores estrangeiros quanto brasileiros, este estudioso inclusive, como no caso de sua noveleta “O Preço da Sanidade”.[8]

No caso de Selva Brasil, ao longo da maior parte da narrativa, as nuances alternativas que realmente caracterizam a novela como tal ante o leitor comum — que supostamente não sabe que em nossa linha histórica Roberto Causo não é sargento do EB[9] — são sutis e dependem essencialmente do maior ou menor conhecimento que esse leitor possua dos modelos de armas e marcas de munições adotados pelas Forças Armadas brasileiras nas últimas duas ou três décadas.  No fim da novela, o autor explicita a narrativa como alternativa através do encontro entre dois amigos oriundos de linhas históricas diferentes, que a princípio nem sequer se reconhecem como tais.

O atestado definitivo de história alternativa, contudo, é emitido apenas sob a forma de um posfácio, onde o Causo-Autor emerge do texto para explicar as diferenças entre a nossa linha história e a linha alternativa, e para justificar a plausibilidade histórica de seu ponto de divergência — Se essa “emersão” produz uma fissura no PSI, não chega a causar sua ruptura total.  Embora posfácios e adendos desse tipo constituam lugar-comum na ficção científica, há estudiosos e autores de história alternativa que consideram tais artifícios verdadeiros atentados contra o subgênero.  Purismos e pruridos à parte, o que se deve questionar é se o posfácio se encaixou organicamente na história propriamente dita, ou se não passa de mera excrescência.  Este é o tipo de discussão em que cada leitor terá a sua opinião.  Na opinião deste leitor, o posfácio do autor de ficção científica da nossa linha histórica casou bem com a narrativa do Terceiro-Sargento Causo do EB alternativo.  Se o matrimônio não chega a ser perfeito, é ao menos harmonioso, bem mais do que se pode afirmar a respeito de vários romances de história alternativa escritos por autores estrangeiros laureados.

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Na noveleta de Barcellos o ponto de divergência situa-se justo em 1º de abril de 1964, quando os EUA intervêm no desenrolar do Golpe Militar, torpedeando várias belonaves da Marinha do Brasil.  A premissa inicial do argumento soa plausível, pois hoje sabemos que os norte-americanos de fato chegaram a arquitetar planos secretos de intervenção no Brasil daquela época.

Nessa linha histórica alternativa, a reação militar e popular à intervenção estrangeira é tão grande que o golpe fracassa e os rebeldes fogem para a Amazônia.  Lá, com apoio norte-americano, eles estabelecem um governo paralelo, fragmentando o Brasil em dois Estados antagônicos.

A questão discutível aqui é se os norte-americanos iriam tão longe em sua intervenção a ponto de provocar a secessão num país com as dimensões territoriais e a população do Brasil.  A questão crucial aqui é se eles estariam de fato dispostos a sustentar tamanho esforço de guerra durante tanto tempo e, sobretudo, se lograriam manter suas Forças Armadas engajadas simultaneamente na Guerra Civil Brasileira e no conflito do Sudeste Asiático.  Reparem, isto não equivale a afirmar que os EUA não teriam capacidade de orquestrar ofensivas simultâneas nesses dois teatros de operações tão distintos e até eventualmente conquistar a vitória em ambas as frentes.  O que se questiona é se os norte-americanos teriam vontade política de engajar nesses dois conflitos ao mesmo tempo.  Na Segunda Guerra Mundial, os EUA fizeram isto, em condições muito piores, em uma escala muito maior, e foram bem-sucedidos.  Contudo, naquela ocasião, eles não tiveram escolha.  Este não é o caso no cenário histórico alternativo de “Primeiro de Abril”, onde, ante as proporções do conflito brasileiro, os norte-americanos muito provavelmente não participariam da Guerra do Vietnã.  Ou, ao menos, não com a intensidade que o fizeram na nossa linha histórica.

Apesar empregar figuras históricas do Brasil recente como personagens,[10] “Primeiro de Abril” tem como protagonista Rubião, vulgo “Pracinha”, um veterano da Força Expedicionária Brasileira que, embora não seja exatamente um garoto, alista-se como voluntário no esforço patriótico para restaurar a integridade territorial brasileira.

“Primeiro de Abril” abre em 1994, nas comemorações do trigésimo aniversário do Contragolpe de 64.  Por solicitação de um sobrinho-neto que precisa fazer um trabalho em grupo, Pracinha — agora velho militar reformado — rememora seu envolvimento na guerra de guerrilha que os brasileiros “de verdade” travaram com os secessionistas norte-brasileiros pesadamente armados e treinados pelos EUA.  Seu comandante de pelotão é o Capitão Carlos Lamarca, que nessa linha alternativa acabará se revelando um herói nacional do porte de Antônio Vieira; Tiradentes ou Francisco Manuel Barroso.  Heroico ou não, Lamarca é visto apenas através da narrativa de Pracinha aos garotos.

No início da trama, o comando de Lamarca está em plena floresta amazônica (mas precisamente, no sul da Amazônia), engajado em uma série de ações de guerrilha contra um inimigo mais bem armado e organizado.  O General Guevara surge no meio da selva como conselheiro militar e, ante a sucessão de vitórias dos patriotas brasileiros, anuncia que chegou a hora de passar da guerrilha para a guerra convencional.  Lamarca é contra por suspeitar da ação de um traidor nos altos escalões do governo.  A nova estratégia é posta em prática assim mesmo, resultando em grave malogro militar.

Enquanto isto, devido a um envolvimento político espúrio em seu passado, Pracinha é removido à revelia da frente de combate.  Tempos mais tarde, já de volta ao Rio de Janeiro, ele é procurado por Lamarca, que lhe pede auxílio para capturar o tal traidor acima de qualquer suspeita, numa operação que nos conduz ao clímax da noveleta.

A narrativa é entremeada por comentários e perguntas dos alunos, um recurso válido para intercalar ação e explicação, além de uma solução aceitável para evitar a temível síndrome de “As you know, Bob…”, na qual um personagem explica a outro algo que esse outro já sabe, ou deveria saber.

No fim de “Primeiro de Abril”, apesar dos milhões de mortos na guerra fratricida, o Brasil está novamente unido numa só nação e emerge para o último quartel do século XX como um país mais forte e mais justo, um país do qual cidadãos de todas as idades sentem mais orgulho do que nós sentimos do nosso Brasil e, com justo motivo, visto que ao contrário de nossos pais e irmãos, os deles não compactuaram com a ditadura dos poderosos e tampouco se deixaram iludir ou intimidar pela máquina de propaganda dessa ditadura.

É possível se extrair outra mensagem do fim da noveleta: muitas vezes é mais fácil lutar contra o inimigo externo e o traidor declarado do que contra os populistas, e os falsos democratas existentes em nossa linha histórica.

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Selva Brasil se insere dentro dos thrillers militares amazônicos que se tornaram uma constante na obra de Roberto de Sousa Causo nas últimas décadas.[11]  O autor apresenta uma vez mais sua preocupação  ecológica com o desmatamento e a exaustão ambiental da Amazônia, bem como a questão dos índios brasileiros, abordada aqui mais ligeiramente do que nos outros dois trabalhos citados na nota de rodapé abaixo.  A crítica mais pertinente de Selva Brasil é a feita contra os maus militares que, embora tenham sido treinados para defender a pátria com o sacrifício da própria vida numa guerra de atrito que já dura mais de uma geração, acabam espoliando as riquezas naturais dessa mesma pátria por um monte de dólares.  Não é difícil traçar um paralelo entre esses maus militares alternativos e os servidores públicos da nossa linha histórica que tantas e tantas vezes colocaram e colocam seus interesses pessoais escusos acima dos interesses dos ideais que juraram defender.

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Em resumo, Selva Brasil e “Primeiro de Abril” são dois cenários de Amazônia Alternativa de fina estirpe, instigantes e merecedores de um lugar de destaque na jovem história do subgênero no Brasil.

Linha Histórica Alternativa Outros Quinhentos

O primeiro esboço dessa linha alternativa foi estabelecido pelo autor e crítico Antonio Luiz M.C. Costa por ocasião da publicação da edição especial da revista CartaCapital no aniversário dos quinhentos anos do Descobrimento do Brasil em abril de 2000.

O ponto de divergência proposto é que Dom Afonso V, décimo-segundo Rei de Portugal, apaixonasse-se por uma fidalga lusitana, Dona Ana, circa 1473, desistindo de seu plano de desposar sua sobrinha (Joana de Trastâmara, herdeira do Reino de Castela) na esperança de incorporar a coroa castelhana, subordinando-a à de Portugal.  Sob influência de Dona Ana, o rei estabeleceu uma política de tolerância religiosa, abrandando o tratamento dado às minorias judaica e moura residentes no Reino.

Em 1482, Cristóvão Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa.  No ano seguinte, em sua segunda viagem, Colombo estabelece contato com representantes do Império Asteca, então governado pelo Huey-Tatloani Ahuízotl.  Na terceira viagem, em 1487, explora as costas atlânticas do continente, navegando até a Patagônia.  Após o mapeamento, o Novo Mundo passa a ser conhecido sob o nome de “Colômbia”.

Décadas mais tarde, já no século XVI, os indígenas brasileiros desfrutam de uma relação mais harmoniosa com os colonos portugueses.  Uma característica dessa linha alternativa é que a revolução industrial eclode bem antes do que na nossa linha histórica.  Outro traço marcante desse cenário é o emprego extensivo de figuras históricas reais (e também personagens literários), exibindo-os em existências alternativas.

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“Outros Quinhentos” apresenta uma visão panorâmica dessa linha histórica alternativa.  Trata-se de um pseudofactual disfarçado de jornal infantil supostamente bilíngue, redigido em português e tupi, escrito para crianças de um Brasil Alternativo por Potyra Tapirapé Porandutepé.

Como se trata de um texto dirigido ao público infantil, a narrativa se dá em uma linguagem simples e acessível,[12] percorrendo toda a linha alternativa, desde o ponto de divergência já mencionado, até o fim do século XX, passando pela emigração da corte portuguesa para o Brasil em 1590; o estabelecimento de uma aliança tríplice entre o Reino de Portugal transplantado na América do Sul, o Império Inca e o Império Asteca; o advento da máquina a vapor em Sabará, em 1649; a reconquista de Portugal em 1670; a abolição da escravidão em 1695; a revolução científica e industrial precoce a partir da segunda metade do século XVII; os avanços da medicina moderna a partir da primeira metade do século XVIII; a proclamação da república em 1796; a Guerra Mundial (1865-1870); e a conquista espacial no início do século XX.[13]

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A trama da noveleta “O Padre, o Doutor e os Diabos que os Carregaram” (2013) começa em 1592, meros dois anos depois do transplante da corte portuguesa de Dom Sebastião I para o Brasil, após a invasão do reino pelas hostes da Santa Aliança organizada pelo Papa contra Portugal.

Além de assinar tratados de aliança com o Sapa Inca Túpac Amaru e o Huey-Tatloani Cuautémoc, aconselhado por seu chanceler Fernão Moro, com o propósito de garantir a integridade territorial brasileira contra invasores e piratas, Dom Sebastião I estabeleceu a estratégia de incorporar as nações tupis e guaranis à causa portuguesa.  Na prática, essa estratégia foi implementada com o auxílio de sertanistas e ex-jesuítas.

Uma dessas entradas civilizatórias é a comandada por Gabriel Soares de Sousa, Barão do Paraguaçu, que segue o curso do Rio das Contas até atingir a Chapada Diamantina.  De passagem pela taba de Jaçapucaia, os expedicionários ouvem relatos dos indígenas sobre a existência de uma estirpe de demônios que os nativos denominam “caaporas”.  Os indígenas de fala tupi praticariam escambos e conjunções carnais com os tais demônios.

Antes de seguir viagem rio acima, Soares de Sousa destaca o Doutor Sanches, médico e naturalista da entrada, e o Padre Cardim, narrador da trama, para estabelecer contato com os caaporas.  Os dois portugueses penetram na mata, com os tupinambás como guias.  O primeiro contato se dá de forma amistosa e a troca de presentes entre tupis e caaporas é celebrada com uma orgia da qual os portugueses não se furtam em participar.  Ao fim da bacanal, eclode uma luta entre indígenas e caaporas.  Esses últimos batem em retirada, sequestrando os portugueses em sua fuga.

Na aldeia dos caaporas, Cardim e Sanches são usados como escravos sexuais das fêmeas caaporas.  Os portugueses entabulam uma discussão de caráter teológico sobre a natureza dos caaporas.  Cardim afirma que são íncubos e súcubos dispostos submeter os humanos às tentações da carne.  Sanches julga que aqueles pigmeus esguios, de púbis hirsutos, orelhas compridas e pontiagudas, e olhos oblíquos grandes e negros, com íris ocupando toda a órbita ocular, constituem tão somente uma variedade distinta da espécie humana.  De concreto, concordam que os caaporas se deslocam tão à vontade como bípedes ou como quadrúpedes e que exibem um comportamento sexual extremamente libertino (um naturalista do século XXI talvez dissesse que a conduta sexual dos caaporas se assemelha a dos bonobos).

Enfim, os machos caaporas auxiliam os dois portugueses a regressar à taba de Jaçapucaia.  Algum tempo depois, eles relatam a descoberta da nova variedade de gente ao Barão do Paraguaçu.

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O conto “A Flor do Estrume” (2009) se passa um século e meio após a ação da narrativa anterior.  Balam Chan Chel, bióloga brasileira de origem maia, estudando as práticas da medicina tradicional de seu povo, desenvolve a penicilina, a pílula anticoncepcional e os preservativos no Instituto Butantã, na cidade de Piratininga.

A equipe coordenada pela Dra. Chel convida o empresário do ramo farmacêutico Brás Cubas a participar do projeto, emprestando sua reputação ao empreendimento de produzir antibióticos e contraceptivos em escala industrial.  Ante a possibilidade de se tornar muito mais rico do que já é, Cubas aceita o convite, mas um traidor rouba o frasco contendo amostras de penicilina do cofre dos laboratórios do instituto e o empresário se vê forçado a bancar o herói para evitar o pior.  Brás Cubas aparece sempre acompanhado do indefectível Quincas Borba, outro personagem machadiano que, nessa linha alternativa, é o principal defensor da doutrina filosófica do Humanitismo.

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Na noveleta “Ainda Além da Taprobana” (201?), o leitor acompanha um trecho da viagem de circunavegação terrestre do bergantim hidrográfico da Marinha Imperial Podengo, que conduz o casal de naturalistas brasileiros Carlos Roberto Zambi de Deus[14] e Eugênia Domingues, em companhia da artista ilustradora nipônica Yamazaki Ryujo.

O narrador é o aventureiro Alão Quartelmar[15], que serve de guia aos pesquisadores numa expedição ao interior da Ilha de Taprobana, detentora de um ecossistema único que inclui em sua fauna pterossauros, mamíferos ovíparos e dinossauros (referidos como “dragões” no enredo), inclusive, saurópodes gigantes e um carnívoro tiranossaurídeo, o gorgossauro.  A flora também é típica do Período Mesozoico.  Mesmo antes da expedição começar, Quartelmar e Ryujo se tornam amantes.

Já no segundo dia de expedição, o grupo se defronta com um casal de deinonicos emplumados.  Quartelmar abate o macho a tiro e Ryujo decepa a cabeça da fêmea com sua katana.  Logo em seguida, o quarteto é atacado por dois gorgossauros.  O aventureiro abate o menor deles, mas o outro dispara no encalço dos expedicionários.  Quartelmar e Eugênia rolam por uma ribanceira para escapar ao predador.  O grupo retoma viagem, porém, horas mais tarde, é capturado por um comando militar holandês da Companhia das Índias Orientais.

Os mercenários conduzem os expedicionários ao forte que mantêm no interior de Taprobana.  Quando a situação parece crítica, as coisas pioram ainda mais com a aparição inesperada de um monstro sauriano, tipo Godzilla.

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“Palestra de Lançamento” (2012) é uma narrativa no limite entre conto e noveleta.  Como o próprio título indica, trata-se da palestra ministrada pela escritora anglo-brasileira Emily Brontë na noite de lançamento de seu novo romance.[16]

Ao longo da palestra, a autora pouco fala da gênese do romance em si.  Prefere focar nos primeiros anos de vida no Brasil após a emigração da Inglaterra e sua adaptação aos modos e costumes mais liberais dessa sociedade brasileira alternativa.  Fala também de sua paixão adolescente pela amiga Bárbara e de seu trabalho de pesquisa biográfica sobre a juventude e as primeiras experiências sexuais e amorosas de Guataçara, avó de sua melhor amiga, Camapuã.  A anciã fora icamiaba (membro da tribo de índias guerreiras que não aceitavam a presença masculina em seu meio) quando jovem e prestou serviço militar no Império.  Mais tarde, lutou na revolução para derrubar o Imperador Dom João VI e proclamar a república.  Já adulta, Emily Brontë se torna a biógrafa oficial de Guataçara.

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A noveleta “Ao Perdedor, as Baratas” (2011) se passa coisa de sete décadas após “A Flor do Estrume”.  O protagonista da narrativa é Robbert, operativo infiltrado da Colômbia do Norte[17], enviado ao Brasil com a missão de interferir na eleição presidencial, de forma a evitar a vitória de um candidato socialista.  Como já se tornou praxe nesse universo ficcional, o autor veste figuras da nossa linha histórica — tais como Cosme Bento, Francisco Lima e Silva, Karl Marx e Richard Wagner — em roupagens um pouco (mas não demasiado) alternativas e os força a contracenar com personagens literários, no caso, de autoria de Oswald de Andrade, Ariano Suassuna e Franz Kafka.  Aliás, o autor brinda os leitores com uma explicação científica plausível para a metamorfose sofrida por Gregor Samsa.  Outro ponto alto é o teor de superciência da arma secreta que Robbert emprega no atentado que empreende, digno das revistas pulp da década de 1930, NLH.  O grosso da narrativa se desenrola na cidade de São Paulo, num clima, segundo o próprio autor, de Pauliceia Desvairada.

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A ação da noveleta “Era uma Vez um Mundo” (2012) se desenrola em 1929, época em que a primeira missão internacional tripulada chega a Marte, comandada por Luís Carlos Prestes e patrocinada pela agência espacial da União das Nações.  A trama não tem nada a ver com a conquista do espaço.  Ao contrário, trata do sequestro de Rosa Luxemburg, Primeira-Comissária da União das Nações, perpetrado por um grupo terrorista no dia da inauguração da primeira usina de fusão nuclear.

A narrativa abre com um holonoticiário ancorado por Patrícia Galvão, Pagu, polêmica e famosa tanto em nossa linha histórica quanto na linha alternativa de Outros Quinhentos.  A matéria principal do programa é a missão internacional a Marte.  No dia seguinte, após uma noitada com os dois outros componentes do seu ménage à trois, Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral, Pagu segue para Palmares em companhia do colega Guira.  Durante a coletiva de imprensa, os dois travam contato com o jornalista anarquista inglês George Orwell, pintado como um sujeito em guerra particular contra o sistema métrico decimal, e também com Monteiro Lobato, deputado brasileiro no Conselho da União.

Em meio a uma apresentação científica dos princípios do novo reator para a imprensa, radicais do Partido Futurista atacam, capturando vários VIPs como reféns, dentre os quais a Primeira-Comissária Luxemburg; o presidente brasileiro João Cândido e, naturalmente, Pagu e Orwell.  Os terroristas são comandados por Filippo Marinetti.  Entre seus integrantes constam Hitler, Franco, Mussolini, Salazar e Plínio Salgado.  Os radicais se insurgem contra o governo mundial, num mundo sem fome, guerra ou miséria, onde a queima de combustíveis fósseis é coisa do passado e a vigilância promovida através de câmeras automáticas concede segurança universal.

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A noveleta “Jaya e o Enigma de Pala” (2013) não constitui história alternativa, mas ficção científica convencional.  No entanto, a trama exibe a incursão de uma cidadã da linha histórica alternativa de Outros Quinhentos à Terra da nossa linha histórica.  Uma curiosidade semelhante em enfoque ao romance Drakon, onde uma viajante retrotemporal oriunda da linha alternativa da Dominação Draka empreende uma visita involuntária à Terra do fim do século XX de NLH.  A noveleta brinda o leitor com uma narrativa instigante e prazerosa que não será analisada aqui por fugir ao escopo deste estudo.

[1].  O narrador ganha a vida escrevendo thrillers de ação (e não de ficção científica) ambientados em Vênus e Mercúrio.

[2].  O termo “vampirismo científico” é empregado aqui para definir o tipo de ficção científica que advoga a existência de vampiros naturais, entidades não-humanas cuja existência e natureza podem ser explicadas através do emprego das leis científicas, prescindindo, portanto, da proposição de elementos sobrenaturais.

[3].  O Brasil se encontra dividido desde o século XVII entre portugueses, bantos de Palmares e a próspera província de Nova Holanda.  As histórias anteriores, pela ordem cronológica desta linha alternativa são:

  • “O Vampiro de Nova Holanda”, in O Vampiro de Nova Holanda (Caminho, 1998); Outros Brasis (Mercuryo, 2006); e Aventuras do Vampiro de Palmares (Draco, 2014).
  • “A Traição de Palmares” (Writers, 1999).
  • “Assessor Para Assuntos Fúnebres”, in Outras Histórias… (Caminho, 1997); Outros Brasis; e Aventuras do Vampiro de Palmares.
  • “Pátrias de Chuteiras”, in Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998).

[4].  Publicado no fanzine Megalon nº 59, em dezembro de 2000.

[5].  As narrativas de história alternativa do quarteto composto por “Capitão Diabo das Geraes”; “Morcego do Mar”; “Consciência de Ébano”; e “Azul Cobalto e o Enigma” inspiraram-se, por assim dizer, nas quatro estrofes da canção “Highwayman”, composta por Jimmy Webb.  Aos curiosos sobre tal fonte de inspiração e sobre a gênese dessas quatro narrativas, mais detalhes em meu depoimento no blog da Editora Draco: http://blog.editoradraco.com/2014/04/a-saga-do-salteador/.

[6].  Pouco tempo mais tarde, Roberto de Sousa Causo escreveria a ficção alternativa “A Vitória dos Minúsculos” (Nossas Edições 4), decerto inspirada nos contos da antologia War of the Worlds: Global Dispatches (Bantam-Spectra, 1996), organizada por Kevin J. Anderson.  Esse conto mostra a invasão dos marcianos de H.G. Wells à cidade do Rio de Janeiro, uma experiência marcante narrada por ninguém menos do que Machado de Assis.

[7].  Vale informar que essa noveleta foi selecionada pelo Clube de Leitores de Ficção Científica para publicação na revista Sci-Fi News Contos 3 que, infelizmente, jamais chegou às bancas, privando o grande público leitor de uma ficção alternativa interessante e original.  Felizmente, a editora Draco corrigiu esse lapso, publicando a noveleta sob a forma de e-book em 2013.

[8].  A versão reduzida de “O Preço da Sanidade”, publicada no fanzine Somnium 60, consistia num conto de cerca de 7.000 palavras destituído de quaisquer elementos de história alternativa.  Uma versão posterior, publicada na coletânea Outras Histórias…, é uma noveleta de ficção científica com elementos de história alternativa.  A versão publicada na antologia A História é Outra constitui história alternativa genuína.

[9].  Aliás, talvez justamente aqui resida a maior dificuldade desta análise da novela.  Como se trata de uma história personalíssima, é discutível até que ponto a apreciação crítica deste estudioso se encontra comprometida pelo conhecimento que possui sobre a personalidade do autor, seus valores e aspirações.  É difícil mensurar o quão efetiva a novela seria para um leitor que desconheça inteiramente a história pessoal do autor.

[10].  Leonel Brizola; Carlos Lamarca e até mesmo Che Guevara são apenas algumas das figuras históricas transformadas em personagens literários nessa noveleta.

[11].  Além dessa novela, há pelo menos uma outra, Terra Verde, publicada sob a forma de livro em 2000 pela editora Cone Sul, e o conto “Salvador da Pátria”, publicado na antologia Phantastica Brasiliana.

[12].  Desde que a criança seja bilíngue nos dois idiomas mencionados, pois há uma série de termos em tupi.  Para os leitores da nossa linha histórica, na versão atual dessa narrativa, há um punhado de notas de rodapé esclarecedoras.

[13].  Há uma série de alusões e coincidências propositais entre as datas de ocorrência dos eventos históricos na linha alternativa Outros Quinhentos e dos ocorridos em nossa própria linha histórica.  Assim, Portugal é invadido em 1590 LHA, meros dez anos após o estabelecimento da União Ibérica em NLH.  A Abolição se dá em 1695 LHA, ano da destruição do Quilombo de Palmares em NLH.  A república é proclamada na LHA apenas quatro anos após a Inconfidência Mineira de NLH (pelo Marechal Joaquim José da Silva Xavier).  A Guerra Mundial da LHA ocorre durante o mesmo período de cinco anos que a Guerra do Paraguai se desenrolou em NLH.

[14].  Zambi de Deus é o Charles Darwin Alternativo dessa linha histórica.  Em sua obra A Ascendência das Espécies e da Humanidade, ele propõe a teoria da descendência com modificações cerca de um século antes de Darwin em NLH.

[15].  Alusão clara a Allan Quatermain, protagonista do romance As Minas do Rei Salomão (1885), do autor britânico H. Rider Haggard.

[16].  A existência de uma escritora inglesa Emily Brontë bastante semelhante a que viveu em nossa própria linha histórica — quatro séculos após a divergência em uma linha histórica alternativa na qual a Inglaterra perdeu as colônias norte-americanas para os holandeses após a derrota da Santa Aliança na Guerra de Reconquista de Portugal em 1670, transformando-a num país agropastoril, na qual a revolução industrial jamais se deu — é, no mínimo, problemática.  Contudo, uma vez aceito esse esgarçamento do pacto da suspensão da incredulidade, “Palestra de Lançamento” constitui uma narrativa divertida e interessante.

[17].  A Colômbia do Norte é o equivalente dos Estados Unidos da América nessa linha histórica alternativa, conquanto constitua em sua essência uma nação soberana descendente de colônias holandesas e não inglesas.

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