Cenários Alternativos Lusófonos I

Já se comentou em capítulo anterior que as narrativas de história alternativa, sobretudo as mais longas, como as novelas e os romances, exercem um grande apelo junto ao público leitor dos países desenvolvidos, visto possuírem o tipo de enredo capaz de agradar tanto aos fãs de ficção científica e fantasia, quanto aos amantes dos romances históricos.

Contudo, dependendo da formação acadêmica do autor, escrever história alternativa de qualidade pode revelar-se tarefa mais árdua do que escrever noutro subgênero qualquer da ficção científica.

Expostas as peculiaridades do subgênero, observa-se que, se nem tudo são flores, tampouco são apenas espinhos.  Autores lusófonos que porventura decidam escrever história alternativa contam com um trunfo poderoso que seus congêneres anglo-saxões já não dispõem há várias décadas.  Apesar de nossa relativa inexperiência no subgênero, gozamos da vantagem imensa de contar com jazidas históricas praticamente inexploradas.  Temos toda a história de Portugal e do Brasil, ainda intatas, à nossa disposição.  Ao todo, quase 1.300 anos de história documentada, isto para não falarmos da pré-história lusitana.[1]

Daí a importância para o êxito do subgênero no idioma português, que os autores lusófonos, quando decidirem singrar os meandros de nossas linhas históricas alternativas, façam-no no comando de suas próprias naus, navios construídos com seus próprios conhecimentos, junto às nossas praias e não às alheias.  Pois não faz muito sentido escrever sobre vitórias confederadas na Guerra de Secessão ou derrotas da Inglaterra para a Armada Espanhola de Filipe II.  Além da competição imensa, o autor lusófono típico não possui conhecimentos históricos tão amplos, quando comparados com o de autores que estudaram esses temas desde a infância e que dispõem de fontes de consulta mais abundantes e acessíveis do que aquelas que nos seria viável ao lusófono mobilizar.

Ao contrário, seria de bom alvitre para o autor lusófono escolher temas que lhe digam respeito e que lhe sejam caros.  Temas que tenham a ver com as histórias do Brasil e de Portugal.  Assuntos que, em tese, ele ou ela deveria ser capaz de abordar melhor do que qualquer autor estrangeiro.

No entanto, antes de avançar na preleção das temáticas lusófonas, convém fazer uma pequena digressão sobre as diferenças quanto ao ensino da história pátria em Portugal e no Brasil.

A maioria dos brasileiros estuda História do Brasil de forma intermitente, ao longo de vários anos letivos, tanto no ensino fundamental quanto no ensino médio.  Contudo, com raras exceções, nossa história não teve seu ensino valorizado.  Há membros da academia que atribuem à ditadura militar-tecnocrática parte da responsabilidade por essa obliteração do nosso passado histórico.  Aquela ditadura possuía realmente um caráter desenvolvimentista, enxergando o Brasil não apenas como o país do futuro, mas também como um país sem passado.

Os brasileiros que cursaram os ensinos fundamental e médio na época da ditadura provavelmente não tiveram a disciplina História do Brasil ministrada todos os anos.  Além disso, do ponto de vista curricular, o programa da disciplina acabava com a Proclamação da República.  Mesmo que o colégio dispusesse de bons professores de história, eles jamais abordaram tópicos que dissessem respeito ao século XX.  Revolta dos Canudos?  Nem pensar!  Tais tópicos nem sequer faziam parte da matéria cobrada nos exames de admissão às universidades.  Havia exceções?  Sim, é claro.  Poucas e louváveis.

É bem possível que a ditadura militar tenha possuído a sua parcela de culpa.  No entanto, a explicação como um todo parece um tanto simplista.  Talvez o ensino da História do Brasil não seja e nunca tenha sido muito valorizado pelo fato de os brasileiros não valorizarem seu próprio passado histórico.  Ao contrário de outros povos, certo ou errado, o brasileiro típico não se orgulha dos feitos heroicos das grandes figuras do passado.  Quem sabe esse brasileiro padronizado não possua certa dose de razão?  Afinal, todas as nossas revoluções libertárias fracassaram; a nossa maior guerra tornou-se o genocídio de um povo, coisa que a muitos envergonha até hoje; e o nosso próprio processo de independência revelou-se em verdade um mecanismo de continuidade, elaborado de modo a permitir a manutenção do status quo da classe dominante.

Por outro lado, será que as grandes batalhas e revoluções vencidas por outros povos que não o nosso foram realmente tão grandiosas assim?  Ou não será tudo uma questão de marketing histórico?  Porque, de acordo com os cânones, “os vencedores escrevem a história.”

Já em Portugal, a ditadura salazarista se distinguiu da brasileira tanto por seu caráter antiprogressista quanto pelo ufanismo histórico exacerbado, o que em termos de ensino da história pátria implicou na valorização do passado de glórias do país, bravamente granjeadas durante a Reconquista Ibérica e, sobretudo, mais tarde, na época das grandes navegações e dos Descobrimentos, nos séculos XV e XVI.

Em resultado não tanto das distinções culturais, mas das diferenças no ensino da história pátria nos dois países, os portugueses de hoje não apenas conhecem a história de Portugal bem melhor do que os brasileiros conhecem a sua, mas, talvez mais importante, possuem maior apreço por seu passado histórico.

Voltando à questão do marketing histórico, convém lembrar que, como luso-brasileiros, possuímos uma história pelo menos tão rica quanto a dos anglo-americanos.  Se eles dispõem da Invasões Vikings e da Conquista Normanda, nós temos a Reconquista Ibérica.  À Guerra de Secessão podemos contrapor a Guerra do Paraguai.  O nosso equivalente à Guerra dos Sete Anos foram os trinta anos de guerra para expulsar os invasores holandeses.  As guerras civis inglesas do século XVII encontram seu contraponto nas guerras civis portuguesas da primeira metade do século XIX, onde se bateram liberais e absolutistas.  A existência dos Estados Confederados da América, país efêmero surgido do seio de uns EUA fraturados pela Guerra de Secessão, traz-nos à memória os ecos da República do Piratini, que sobreviveu durante uma década (1836-1845) no sul do Brasil em plena Era Imperial.  E, dentro deste espírito, assim por diante.

Para os autores lusófonos que pretendem se dedicar aos cenários de história alternativa, as perspectivas hoje não poderiam ser melhores.  Porém, é possível que esta situação favorável não perdure muito tempo.  Pois, diante de tantos filões históricos riquíssimos e, no entanto, inexplorados, é de se imaginar que corramos o risco de nos depararmos, caso não ocupemos logo o território que é nosso por direito, com invasores estrangeiros desembarcando em nossas praias.  Este temor relativo, abordado aqui de forma algo jocosa, tem sua razão de ser.  Porque os autores de literatura fantástica anglo-saxões possuem uma visão bastante pragmática e profissional do mercado literário capaz de absorver os trabalhos de história alternativa.  Têm plena consciência de que seus filões históricos estão prestes a se esgotar.  Existem autores, como Patricia Anthony que já exploram hoje tanto os filões históricos brasileiros[2] quanto os portugueses,[3] se bem que não em termos de história alternativa.  Ainda não.

De qualquer modo, as histórias das duas nações parecem repletas de eventos interessantes que poderiam ser facilmente aproveitados como pontos de divergência, a partir dos quais nossos autores poderiam elaborar suas linhas históricas alternativas luso-brasileiras e daí escrever seus contos e romances históricos alternativos.

E se o Brasil houvesse perdido a Guerra do Paraguai?  A República Guarani vitoriosa transformar-se-ia em potência mundial, ou a megalomania de López cedo ou tarde abortaria os sonhos de grandeza de sua nação?  E o que aconteceria com o Brasil em cada um desses casos?

E se Nassau houvesse regressado ao Brasil e os holandeses derrotassem os luso-brasileiros na Segunda Batalha de Guararapes, teríamos um país de fala batava no nordeste brasileiro?  E se tal acontecesse, seria esse país a maior potência da América do Sul, ou apenas um Suriname nordestino?  E onde se encaixaria a Confederação de Palmares nesse quadro?

E se Dom Sebastião I houvesse deixado herdeiros varões, e Portugal não fosse incorporado à Espanha durante as seis décadas da União Ibérica?  Um Portugal independente decerto manteria sua esquadra, sua construção naval, e não teria suas colônias invadidas pelos holandeses.  Diante disso, lograria manter-se como potência de primeira linha ao longo do século XVII, ou acabaria por ceder terreno às potências emergentes, como a Inglaterra e a própria Holanda?

Por outro lado, como seriam Portugal e o Brasil se a União Ibérica houvesse perdurado mais tempo, ou até sobrevivido até os dias de hoje?

E se Dom João VI houvesse ousado enfrentar os exércitos de Napoleão com o auxílio dos ingleses, ao invés de fugir com a Família Real para o Brasil?  Teríamos um Império do Brasil deste lado do Atlântico?  Ou, como nossos vizinhos hispano-americanos, passaríamos direto de colônia à república?  E, neste caso, teria o Brasil conseguido manter sua integridade territorial, ou se fragmentaria, à semelhança do que ocorreu nas antigas colônias espanholas?

E se, por outro lado, depois de a corte portuguesa ter fugido para o Brasil, Napoleão houvesse afinal decidido não invadir Portugal, haveria uma espécie de Reino Unido de Portugal e Brasil ao longo do século XIX?  Ou os dois países acabariam se separando de qualquer modo, com o Brasil tornando-se um império e Portugal uma república?

Romas Alternativas?  E se Viriato, líder das tribos lusitanas e primeiro grande herói da história portuguesa, houvesse conseguido resistir às legiões da República de Roma em 145 aec?  Ficaria o oeste da Península Ibérica desta linha histórica hipotética tão livre da influência romana quanto os bárbaros da Germânia da nossa linha histórica após a vitória de Armínio sobre as três legiões de Varus?  Neste caso, que tipo de cultura surgiria dali?

E, por falar em Brasil Fragmentado, o que teria acontecido se a República de Piratini houvesse resultado?  Serviria a independência gaúcha de exemplo a outras províncias revoltosas?  E esses diferentes Brasis, como seriam?

E quanto à Revolução de 1964?  Se ela não houvesse ocorrido, teríamos um Brasil significativamente diferente do existente em nossa linha histórica?  Essas diferenças dar-se-iam para melhor ou pior?

E se a Globo houvesse evoluído não para uma rede de televisão mas sim para uma indústria cinematográfica?  Teríamos uma espécie de Hollywood tropical no Brasil?

E se a emenda das Diretas Já fosse aprovada pelo Congresso em 1984?  A linha dura do Exército realmente tentaria um golpe de Estado, obrigando Ulysses Guimarães e Tancredo Neves a um governo no exílio?  Nesse caso, como se posicionariam a Marinha e a Aeronáutica?

E se Lula houvesse vencido as eleições presidenciais de 1989?  Um governo federal petista àquela época conseguiria colocar o Brasil na trilha da prosperidade?  Como as elites econômicas e os militares reagiriam?

E se o impeachment de Collor houvesse fracassado?  Teríamos uma guerra civil?  Ou quem sabe, apenas um atentado presidencial?

Por tudo o que se discutiu acima, observa-se que em termos de cenários alternativos lusófonos, autores e leitores são como os primeiros descobridores, “singrando por mares nunca dantes navegados”.  Vagamos por territórios virgens, uma autêntica Terra Incognita.  As possibilidades são infinitas.  Cabe aos autores lusófonos explorá-las.

Precursor de Fina Estirpe

José J. Veiga é considerado por muitos como o maior fantasista brasileiro da atualidade.  Desde o final da década de 1950 seus trabalhos vêm sendo publicados sob a forma de romances e coletâneas de contos.  Seus textos abordam por vezes temáticas próximas às tipicamente encontradas em narrativas convencionais de ficção científica e fantasia.  A narrativa de Veiga, contudo, é sempre conduzida num tom propositada e decididamente interiorano, muitas vezes com uma mensagem edificante e uma crítica social implícita no contexto.

Em 1989, Veiga lançou o romance A Casca da Serpente pela Bertrand Brasil.  Não é um trabalho de ficção científica ou fantasia.  Pelo menos, não se encaixa dentro da concepção ortodoxa que a maioria dos críticos e leitores mantém em relação a esses gêneros literários.  Curiosamente, trata-se de um texto com fortes elementos de história alternativa.

O ponto de divergência é a hipótese da sobrevivência de Antônio Conselheiro, líder do levante de Canudos, nos primeiros anos da República, ainda no século XIX.  Em nossa linha histórica, Conselheiro tombou na Quarta Batalha de Canudos, quando as tropas federais conseguiram finalmente invadir o povoado, massacrar os revoltosos e demolir o vilarejo fortificado de Canudos.

Na alternativa proposta por José J. Veiga, o velho líder teria logrado escapar com uns poucos seguidores fiéis.  Depois de algum tempo, eles conseguem erigir uma nova comunidade numa serra íngreme dos sertões do norte da Bahia.

O caminho escolhido por Veiga é aquele que, de acordo com o jargão do subgênero, costuma ser designado como “história do herói alternativo”.  Uma subvertente pouco explorada dos enredos históricos alternativos que se caracteriza por dois aspectos principais:

  1. A maior parte da ação transcorre na vizinhança espaçotemporal do ponto de divergência. Uma narrativa de evento alternativo, portanto, e não um suposto presente ou passado alternativo; e
  2. esse ponto de divergência se encontra quase sempre associado à sobrevivência de um personagem histórico, ou a alguma decisão crucial que esse personagem teria tomado.

Na literatura de ficção científica existem alguns bons exemplos de histórias de heróis alternativos.  No conto Departures (1989), de Harry Turtledove, Maomé se converte à fé cristã e o islamismo jamais é fundado.  Já em Roncesvalles (1989) de Judith Tarr, o Islã leva a melhor, quando Carlos Magno volta-se para o credo muçulmano, ao descobrir que a retaguarda de seus exércitos fora atacada nos Pirineus não pelos mouros como supôs inicialmente, mas sim por mercenários a soldo de Bizâncio.

Pelo estilo de Veiga, é de se supor que, à época da escrita do romance, ele não estivesse consciente da existência de uma tradição literária de história alternativa.  Porém, conhecedor ou não dessas tradições, o importante é que o autor não se encontra inserido nelas (pior para as histórias alternativas brasileiras, é lógico).

O fato é que o autor inicia sua narrativa com a fuga de Antônio Conselheiro nos últimos dias de Canudos.  Boa parte do romance se dedica aos acontecimentos que teriam se dado nos primeiros dias após essa fuga.

Ao longo de uns poucos meses, Conselheiro consegue erigir uma nova comunidade, segundo ele, um Canudos passado a limpo.  Em paralelo à luta dos sertanejos para construir a nova utopia, o autor vai gradativamente descaracterizando o velho líder religioso.  É fato concreto que as experiências pelas quais uma pessoa passa no limiar da morte parecem ter às vezes o condão de mudar a maneira de ser dessa pessoa.  Contudo, a mudança que Veiga propõe de Antônio Conselheiro para “Tio Antônio” é radical demais para ser aceita como verossímil.  De líder carismático e autoritário, inspirado por uma religiosidade beirando o fanatismo e incapaz de discutir suas decisões com os subordinados, o velho Antônio torna-se da noite para o dia um democrata convicto, imbuído de fortes tendências anárquicas.  Abandona o hábito religioso em favor das vestimentas civis.  Raspa a longa barba e tosa a vasta cabeleira.  Torna-se mais aberto, às opiniões alheias.  Um homem inteiramente novo: pragmático e bem pouco preocupado com rezas e questiúnculas religiosas.  O próprio título do romance é a maior prova de que o autor estava consciente da mudança abrupta implementada à personalidade de Antônio Conselheiro.  Antes de “Canudos passado a limpo”, o que se tem em A Casca da Serpente é “Antônio Conselheiro passado a limpo”.  Veiga reescreve uma das figuras históricas mais intrigantes do início da Velha República.

A nova comunidade cresce, à medida que recebe a adesão de sertanejos e retirantes, atraídos como moscas pela fama do ex-beato.  Mas a fama da nova comunidade perdida nos confins do sertão acaba se sobrepondo à antiga notoriedade do povoado de Canudos, formação social decapitada em seu apogeu.  A nova comunidade é um vilarejo sem líderes autoritários, onde o mais humilde dos trabalhadores pode expressar suas ideias e preocupações verbalmente durante as reuniões comunais, sem medo de sofrer represálias.  Ouvir o povo?  Um contraste gritante com a prática das elites políticas brasileiras, tanto na época da Velha República, quanto nestes tempos de Novíssima República Imperial que ora (sobre)vivemos.

Humanistas e homens de ciência se sentem naturalmente atraídos para aquela comunidade sui generis e acabam travando contato com o novo Antônio Conselheiro, um líder laico, pragmático e democrata.

A narrativa só se aproxima do presente alternativo nas últimas duas páginas, nos quatro últimos parágrafos.  O leitor é então informado de forma telegráfica que a “Concorrência de Itatimundé”, vilarejo fundado pelos sobreviventes dos Canudos, teria perdurado por cerca de setenta anos, servindo como modelo para muitas outras comunidades semelhantes, criadas em vários países, nas mesmas bases de cooperação e igualdade.

Finalmente, o autor acrescenta que essa comunidade original teria sido varrida do mapa em 1965 (Pelos militares vitoriosos no golpe do ano anterior?  Veiga deixa a questão em aberto).  Os solos onde a Concorrência teria existido por quase três quartos de século foram transformados num depósito de lixo atômico, administrado por uma indústria química multinacional.

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Embora não constitua um precursor da história alternativa lusófona, como José J. Veiga, o sambista, compositor, escritor e especialista em culturas africanas em geral e bantas em particular, Nei Lopes escreveu seu romance de história alternativa, Oiobomé: a Epopeia de uma Nação (2010).

O ponto de divergência proposto por esse autor polivalente se situa no fim do século XVIII ou no início do XIX, quando, sob a liderança de Francisco Domingo Vieira dos Santos, ex-escravos negros e tribos ameríndias estabelecem um Estado independente na Ilha de Marajó no fim do período colonial.

A narrativa tênue acompanha as diversas fases históricas da nação de Oiobomé até a década de 1950.  O autor propõe várias implausibilidades históricas e inconsistências geográficas.  Os personagens são bidimensionais.  Contudo, o mais irritante desse cenário de história alternativa é o excesso de didatismo e explicações enfadonhas que abundam ao longo do romance, a ponto de prejudicar a leitura em certos trechos.

No que se pese a relevância de Nei Lopes para a cultura brasileira, Oiobomé não se sustenta, quer como romance, quer como narrativa de história alternativa.

Fantasias Alternativas Lusófonas

Embora as narrativas alternativas brasileiras superem em muito as portuguesas em número, a equação se inverte no que tange as fantasias alternativas e tudo por causa de um único autor, Daniel Tércio, que escreveu nada menos do que dois romances de fantasia histórica alternativa: A Vocação do Círculo (1984) e A Pedra de Lúcifer (1998).

Em A Vocação do Círculo, um cidadão lisboeta da nossa linha histórica vai parar numa Lisboa Alternativa onde a magia funciona e a Europa parece estacionada na Idade Média.  Lá ele se apaixona por uma jovem bruxa e a ajuda a encontrar o avô, um grande feiticeiro, e a combater uma confraria de magia negra numa segunda linha histórica alternativa, onde a história estacionou na época romana e Lisboa é chamada de Olisipo, que é como os romanos da nossa linha histórica se referiam à cidade.

Publicado catorze anos mais tarde, A Pedra de Lúcifer é uma história alternativa com fortes elementos de fantasia científica.  Num passado remoto, uma superentidade alienígena envia esporos microscópicos à Terra para estimular a inteligência das criaturas terrígenas.  No entanto, algo funciona mal.  Os esporos do conhecimento se revelam incompatíveis e letais às formas locais e acabam propiciando o surgimento de uma grande religião, numa Europa onde o cristianismo e, aparentemente, a civilização romana, jamais existiram.

As pessoas infectadas propositalmente com o “cristal do conhecimento” têm a chance de se tornar mártires da Grande Religião.  No entanto, a força do Cristal parece estar perdendo intensidade e com isto a Igreja do Cristal e a própria civilização ocidental (que se encontra, grosso modo, no equivalente à nossa Idade Média) correm perigo.

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Embora este autor de literatura fantástica não se considere exatamente um cultor da fantasia, mas antes da ficção científica em geral e da história alternativa em particular, de fato escrevi dois contos de fantasia alternativa ambientados em um mesmo universo ficcional.  A premissa inicial é mais típica da fantasia alternativa do que da história alternativa propriamente dita: metamorfos (lobisomens e que tais) existem.  Metamorfos apoiaram o advento do Estado Soberano da Guanabara (grosso modo equivalente ao Município do Rio de Janeiro da nossa linha histórica ou, mais prosaicamente, ao Estado da Guanabara antes da fusão imposta pela ditadura militar com o antigo Estado do Rio de Janeiro).  Como toda fantasia alternativa que se preza, a simples premissa da existência de metamorfos exclui a necessidade de um ponto de divergência explícito.  “Para Agradar Amanda” (2012) é uma ficção fantástica erótica em que uma lobisomem fêmea tenta realizar sua grande fantasia sexual com o parceiro humano e o casal vai parar numa sessão com uma terapeuta sexual assanhada.  Já “A Moça da Mão Perfeita”, conto até agora inédito, escrito para um projeto de contos inspirados no folclore brasileiro, enfoca o confronto sensual entre um playboy do Império do Brasil e a atendente de um barzinho da moda requintado, só que nenhum dos dois é exatamente o que aparenta.

Impérios do Brasil Alternativos

Quando se falou em preferências nacionais nos capítulos 8 e 9, comentou-se rapidamente que a temática favorita dos autores de cenários históricos brasileiros são os Impérios do Brasil Alternativos.  Do outro lado do Atlântico, os autores portugueses favorecem os Reinos de Portugal Alternativos.  Mudar a forma de governo, da monarquia para a república não constitui uma transição insignificante, muito ao contrário.  Daí a pertinência de empregar a ficção para tentar imaginar como seria o Brasil ou Portugal hoje em dia se o país ainda estivesse sob regime monárquico.

Como seria o Brasil de hoje caso a República não houvesse sido proclamada em 1889 e o país permanecesse até hoje como o único império das Américas?  A noção de que o Império pudesse sobreviver mais do que uns poucos anos além da data de sua queda em nossa linha histórica é quase indefensável.  Como se ensina nas aulas de história, a abolição dos escravos fez com que a monarquia perdesse a apoio dos grandes senhores de terra, último sustentáculo do Império.  É claro que se o autor situar seu ponto de divergência bem antes de 1889, digamos na década de 1860 ou 1870, e se a trama for bem urdida, pode ser que, em termos de plausibilidade, a coisa mude de figura.

Contudo, não constitui exatamente um crime gravíssimo deixarmos tais argumentos puristas de lado em prol de uma ou duas narrativas convincentes e divertidas.  Cumpre apelar para o pacto da suspensão da incredulidade.  A proposta neste caso é que aceitemos o equivalente, em termos de história alternativa, ao hiperespaço ou às viagens retrotemporais da ficção científica convencional.

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O primeiro espécime de Império Alternativo a eclodir no âmbito da literatura fantástica brasileira foi o conto “Folha Imperial” (1996), de Ataíde Tartari, uma fusão harmoniosa rara de história alternativa e conto humorístico digna das melhores tentativas de AH-Lite de Harry Turtledove ou da ficção curta satírica de James Morrow.

O ponto de divergência é o malogro do golpe republicano de 1889 liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca.  Segundo o autor, em consequência desse fiasco, o Império do Brasil perduraria até os dias atuais.  Deodoro é considerado o “traidor dos traidores” (SIC).  Foi condenado à morte pela tentativa de golpe contra Dom Pedro II, embora tenha sido posteriormente anistiado pelo próprio monarca.  No presente alternativo, “deodoro” tornou-se alcunha pejorativa que denota os simpatizantes da causa republicana.

Folha Imperial é o nome do jornal onde trabalha o protagonista, Ronaldo Cetro, um repórter interessado em cobrir as vidas dos membros do jet-set do Império em geral e a do príncipe-herdeiro em particular.

Como seu antepassado, Dom Pedro I, o príncipe Dom Joãozinho é um bon-vivant e um tremendo mulherengo.  Já teria mantido um caso até com a Lady Di e agora, em plena década de 1990, parece disposto a noivar com uma das mulatas do Sargentelli.

“Folha Imperial” exibe nas entrelinhas uma série de insights políticos e sociais, bem como paralelismos entre personalidades contemporâneas presentes tanto na nossa linha histórica quanto nessa linha alternativa.  O paralelismo é um pecadilho relativamente comum para a maioria dos autores de história alternativa.  Apesar de condenado pelos puristas, trata-se de um vício por vezes irresistível.  Assim, várias personalidades históricas do Brasil real têm suas contrapartes ficcionais, reflexos quase perfeitos nesse império tupiniquim alternativo, sendo citados en passant por seus títulos de nobreza.  Deste modo, Ayrton Senna é o Conde de Interlagos; Pelé é o Marquês de Santos e Fernando Henrique Cardoso é o Visconde de Higienópolis.

Essa narrativa repleta de bom humor mostra um dia de trabalho estafante do repórter Ronaldo Cetro.  Primeiro ele é perseguido pelo Barão do Dona Marta, um favelado que acabara de receber um título de nobreza.  Mais tarde, ele e um fotógrafo cumprem vigília próximo ao Palácio Imperial na esperança de flagrar o príncipe saindo para mais uma de suas incursões amorosas noturnas.  Acabam obtendo um furo jornalístico ao surpreender Dom Joãozinho com a mulata Rosinete.

No dia seguinte, na redação da Folha, o editor-chefe quase tem um ataque apoplético.  Monarquista conservador, o velho treme nas bases ao imaginar o bruto escândalo se o Príncipe do Grão-Pará, herdeiro da coroa imperial, desposar uma plebeia.  No meio dessa crise política iminente, a redação é visitada por uma senadora do PTR, Partido dos Trabalhadores Republicanos, agremiação política que congrega os deodoros mais radicais.

“Folha Imperial” é uma história alternativa leve, divertida e eficaz.  O autor foi extremamente feliz na tentativa de fundir história, fantasia e humor.  Aliás, em certos aspectos o conto de Tartari pode ser comparado a algumas histórias alternativas de James Morrow.  De qualquer forma, sem a menor sombra de dúvida, o autor foi mais bem-sucedido nessa harmonização do que Barry Malzberg ou George Zebrowski, dois queridinhos da crítica de ficção científica norte-americana, que há anos vêm se debatendo furiosamente na tentativa infrutífera de escrever histórias alternativas humorísticas.  Ou talvez, quem sabe, os contos de Malzberg e Zebrowski só agradem ao senso de humor do público e da crítica norte-americanos.

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Embora parta do mesmo pressuposto básico de que a monarquia sobreviveu até hoje, ao contrário do que ocorre no conto de Tartari, na noveleta “Não Mais” (1998), de Carlos Orsi Martinho, o ponto de divergência não reside no fracasso do golpe da Proclamação da República em 1889, mas no envolvimento escuso de José Bonifácio de Andrada e Silva, o Patriarca da Independência, com Athanasius Kircher, alquimista europeu misterioso que detém o segredo da imortalidade.

Athanasius assume a tutela do futuro imperador Pedro II e instala em pleno Jardim Botânico Imperial do Rio de Janeiro uma usina para produzir o fluido verde cujos banhos periódicos tornam as pessoas imortais.  O alquimista torna imortal não apenas o monarca, a família real e os principais nobres do Império, mas todos aqueles, grandes ou pequenos, brasileiros ou estrangeiros, que sejam de algum modo úteis ao cumprimento de seus desígnios.  Pois nessa linha histórica alternativa o Império do Brasil é a maior potência da Terra e Athanasius governa o Império ao controlar o fornecimento do fluido da imortalidade, tendo nas mãos o destino tanto de governantes quanto de governados.

Também as lideranças estrangeiras foram cooptadas à causa da hegemonia brasileira, graças à concessão criteriosa da imortalidade entre suas fileiras.  A Guerra do Paraguai foi vencida em apenas dois anos.  As monarquias foram restauradas em quase todos os países da Europa.  Enquanto isto, na América, o Império do Brasil estendeu-se do México à Patagônia.  Os Estados Unidos perderam duas guerras contra o Império.  E, na única superpotência do mundo atual, o imperador imortal Dom Pedro II ainda reina e a vontade de Athanasius governa os destinos da humanidade.

Mas nem tudo são flores nesse Superimpério do Brasil.  A escravidão prevalece até hoje de uma forma ainda mais cruel do que a outrora existente no Brasil da nossa linha histórica.  Essa sociedade governada por uma casta de imortais não parece muito disposta a incentivar o progresso tecnológico e os avanços sociais.  Além disso, existem sempre umas poucas vozes discordantes que recusam a se deixar calar pela sedução da vida eterna.  No passado, foram homens da estatura de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Santos Dumont, H.G. Wells e Albert Einstein que, não obstante a tentação suprema, negaram-se peremptoriamente a vender suas almas.  No alvorecer do novo milênio é o movimento brasileiro “Não Mais” que empreende uma luta desesperada para obliterar o segredo do fluido verde e destruir a elite de imortais, para salvar o país e o mundo de uma distopia imobilista, desumanizadora e cruel.

Quem já leu Anno Dracula (1992) não deixará de notar certo paralelismo temático entre a noveleta de Martinho e o romance de ficção alternativa do britânico Kim Newman.  Anno Dracula mostra o que teria acontecido se Drácula houvesse vencido o confronto contra o grupo liderado por Van Helsing e Jonathan Harker.  O Império Britânico é dominado por uma estirpe de imortais, no caso a nobreza inglesa vampirizada por um Drácula que desposou a Rainha Vitória e tornou-se Lorde Protetor do Império.  Mais ou menos a mesma coisa ocorre em “Não Mais”, embora os imortais de Martinho não sejam vampiros.  Em ambos os trabalhos há uma revolta de homens e mulheres notáveis que se recusam a compactuar com a nova ordem, mesmo ao preço de abrir mão da imortalidade.  Tanto num quanto noutro há uma espécie de sociedade secreta composta por mortais patriotas e abnegados — a “Não Mais” da noveleta e o Diogenes Club do romance — lutando desesperadamente para reverter a situação ao status vigente antes do advento da imortalidade.  Esse paralelismo é um tour de force adicional da noveleta que constitui um trabalhos mais interessantes e elaborados já escritos por aquele que é considerado o autor de horror mais criativo do mundo lusófono.

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Nunca cogitara escrever uma narrativa de Império Alternativo, até receber o convite para participar da antologia A República Nunca Existiu! (2008).  Desafio aceito, cumpria arbitrar um ponto de divergência capaz de estabelecer um cenário histórico minimamente plausível.  Daí, a divergência do conto “Primos de Além-Mar” é a sobrevivência de Pedro Afonso, filho de Dom Pedro II e Dona Teresa Cristina, que pereceu em 1850 aos dezoito meses de idade em nossa linha histórica.  Mal saído da adolescência, esse príncipe imperial se torna o grande herói da última fase da Guerra do Paraguai, ao capturar Solano Lopez e trazê-lo vivo para cumprir pena no Rio de Janeiro.  Em 1908, a presença de Dom Pedro Henrique, filho de Dom Pedro III do Brasil em Lisboa frustra o atentado regicida contra a vida de Dom Carlos, garantindo assim a permanência da Casa Bragança em tronos nas duas margens do Atlântico.  A ação desse conto se desenrola na década de 1930, época em que o rei de Portugal fugiu para o exílio no Império do Brasil, quando seu país foi invadido pelas forças de Franco, apoiadas pela Alemanha Nazista.  A maior parte da narrativa se dá ao longo de uma caçada de onça na região serrana nas cercanias da cidade de Petrópolis.

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Um análogo português dos cenários de Impérios do Brasil Alternativos é a sobrevivência da monarquia em Portugal até os dias de hoje.  Organizada por Octávio dos Santos, a recém-citada antologia temática A República Nunca Existiu! (2008) reuniu algumas narrativas interessantes de Reinos de Portugal Alternativos.

O ponto de divergência é praticamente o mesmo nos nove trabalhos considerados como Reinos de Portugal Alternativos: o regicídio de 1908 malogra e a monarquia sobrevive no país.

No conto de evento alternativo “Seis Momentos em Tempo Real”, de João Aguiar, o atentado regicida não resulta num fracasso total, pois o rei Dom Carlos e o príncipe-herdeiro Dom Luís Filipe são gravemente feridos pelos disparos dos criminosos e se encontram internados no hospital sob severo risco de vida.  Ante tais circunstâncias, cabe ao príncipe Dom Manuel, filho caçula do rei, na posição de regente, arregimentar forças para lutar contra a ditadura que se instalara no país logo após o atentado.  Já “A Encenação”, de José Manuel Lopes, parte da premissa diametralmente oposta à do conto anterior: o príncipe caçula não se porta de forma tão digna.  Embora seu pai e irmão sobrevivam incólumes ao atentado de 1908, Dom Manuel contrai uma grave doença mental após o ataque malogrado.

Apesar de também constituir um Reino de Portugal Alternativo, o conto “Missão 1211908”, de Luísa Marques da Silva, será analisado na seção Patrulhas Temporais Alternativas, a seguir.

Dois contos da antologia tratam de atentados contra outros reis de Portugal que reinaram depois de Dom Carlos.  No conto de passado alternativo “Rei Sem Coroa”, de Sérgio Sousa-Rodrigues, um jovem português planeja assassinar o rei Dom Manuel III em 1954.  Já Bruno Martins Soares postula em seu conto de presente alternativo “O Nome do Rei”, o regicídio do bem-amado rei Dom Afonso IX de Portugal, um século após o fracasso do atentado contra a vida de Dom Carlos.

No passado alternativo “A Marcha Sobre Lisboa”, de Octávio dos Santos, após sobreviver ao atentado de 1908 junto com o pai, o Príncipe Luís Filipe, agora Dom Luís II de Portugal, lidera uma contramarcha em reação a uma organização de revolucionários fascistas de inspiração hitlerista que planeja tomar o poder e implantar uma ditadura no país.

No divertido e bem escrito “O Patriota Improvável”, de Maria de Menezes, durante um referendo para consultar a população portuguesa se ela desejava manter o regime monárquico, um paparazzo considera que os súditos nutririam mais amor à família real se a rainha e as princesas se portassem e se vestissem com mais elegância.

No conto “Ao Serviço de Sua Majestade”, de Luís Richheimer de Sequeira, Dona Maria III de Portugal estabelece a Subdivisão de Crimes Extraordinários, um departamento especial da Polícia Judiciária, para investigar casos bizarros, do tipo Arquivo X, com direito, inclusive, a conspirações alienígenas.

No conto de passado alternativo, “A Noite das Marionetas”, de João Seixas, em 1916, o primeiro-ministro português trama contra o Reich Alemão, o Reino Unido, a Espanha e a Maçonaria.  Como resultado, o Reino de Portugal acaba ingressando na Primeira Guerra Mundial ao lado dos Aliados, à semelhança do que se deu em nossa linha histórica.

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Monarquista convicto, Octávio dos Santos, antologista de A República Nunca Existiu!, aprovou vários trabalhos de história alternativa baseados na mesma divergência do malogro do atentado regicida de 1908, para publicação na antologia Mensageiros das Estrelas, que coorganizou em 2012.  Dentre os sete contos coligidos na seção da antologia, designada como “A República Nunca Existiu 2”, dois se destacam: “O Preço de uma Coroa” e “A Realidade, Não Fora a Loucura”.

No conto “O Preço de uma Coroa”, de Sacha Andrade Ramos, o jovem príncipe Dom Dinis cogita se deve ou não assumir a coroa portuguesa em 2010, após o reinado extremamente bem-sucedido de sete décadas de seu tio-avô, Dom Pedro VI, monarca que logrou converter o Império Colonial Português na Comunidade Lusa.  Depois de sofrer um atentado na Praia do Guincho, ao interrogar a jovem ativista que quase lhe tirara a vida, Dinis toma enfim a decisão crucial quanto ao seu futuro e ao do Reino de Portugal.

Em “A Realidade, Não Fora a Louca”, de João Afonso Machado, Dom Carlos sobrevive ao atentado de 1908, mas o Príncipe Dom Luís Filipe é mortalmente abatido.  Em consequência, o Partido Republicano é execrado e alijado do cenário político português.  Abalado e sem condições de governar, Dom Carlos nomeia seu caçula, Dom Manuel, como regente.  Em 1915, o velho rei perece e o filho sobrevivente assume a coroa sob o título de Dom Manuel II.  A partir desse ponto, o autor propõe uma utopia geopolítica panegírica que culmina no estabelecimento de uma Comunidade de Nações de Língua Portuguesa, na qual os países-membros reconhecem a autoridade do monarca de Portugal.

Futebol Alternativo

Em matéria publicada no caderno de esportes da edição de 9 de novembro de 1997 do jornal Folha de São Paulo, “As Copas que Não Aconteceram”, os jornalistas Rodrigo Bertolotto, Rodrigo Bueno e Sérgio Teixeira Jr. discorrem no tom documental mais sério imaginável sobre os resultados das Copas do Mundo de 1942 na Argentina e de 1946 em Portugal.

Qualquer futebolista de meia-tigela está farto de saber que não houve Copa alguma em 1942 ou 1946.  Fato: em nossa linha histórica, por causa da Segunda Guerra Mundial, tais competições não se deram.  Já na linha histórica alternativa criada pelos articulistas da Folha, apesar do conflito mundial, as duas Copas de fato ocorreram.  Ao que se saiba, trata-se do primeiro exemplo de pseudofactual lusófono abordando o futebol.

Segundo a “reportagem”, a Argentina foi bicampeã em 1942 e 1946.

Como premissa principal, os autores alegam que nossos grandes rivais portenhos possuíam o melhor selecionado do mundo àquela época.  Além disso, a Itália e a Alemanha, as maiores potências futebolísticas europeias, não puderam enviar suas equipes para a Copa de 1942 na Argentina (por causa da própria Guerra) e não tiveram condições de reunir seleções bem preparadas para a Copa de Portugal, que ocorreu apenas um ano após o término do conflito mundial.

Em nossa linha histórica, a Copa de 1942 teria sido provavelmente na Argentina se não houvesse a Guerra, pois a nação vizinha já se havia candidatado para sediar a competição, já possuía grandes estádios e um futebol profissional de altíssima qualidade.  Na linha histórica alternativa proposta pelos articulistas, por causa do conflito, apenas onze seleções compareceram: seis sul-americanas e cinco europeias — essas últimas de países não participantes do conflito.  Um problema grave de plausibilidade nessa especulação é se supor que a Suíça (completamente isolada em 1942), a Espanha (recém-saída de uma guerra civil dolorosa) ou a Dinamarca (ocupada pelas forças do Terceiro Reich) teriam sido capazes de reunir equipes nacionais e enviá-las até a América do Sul.  Contudo, um problema muito mais sério é se julgar que haveria clima para uma Copa do Mundo em meio ao maior conflito militar jamais travado pela humanidade.  É preciso ser muito apaixonado por futebol para imaginar algo do gênero.  Porém, argumentam os autores, admitindo-se tal premissa como válida, a Argentina teria se sagrado campeã e o Brasil vice.

Quatro anos mais tarde, em Portugal, a história não teria sido muito diferente.  Porque em Portugal?  Porque era um dos poucos países europeus inteiros em 1946.  Foram dezesseis as seleções competidoras.  A Argentina tornou-se bicampeã, tendo a Itália como vice, a Suécia em terceiro lugar e o Brasil em quarto.

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Até 1998, não havia registro de cenários de futebol alternativo na literatura fantástica brasileira.  Naquele ano, a editora Ano-Luz publicou a antologia Outras Copas, Outros Mundos com duas narrativas de história alternativa stricto sensu e uma terceira sobre viagens retrotemporais futebolísticas no melhor estilo das histórias de patrulha temporal de Poul Anderson, além de fortes elementos de história alternativa.

O conto “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, escrito por meu pseudônimo feminino, Carla Cristina Pereira, é um pseudofactual apresentado sob a forma de matéria jornalística.  Não exatamente o artigo normal de um diário, mas antes, uma matéria de fundo, daquelas que costumamos encontrar nos cadernos dominicais dos jornais de grande circulação.  A jornalista Cari Cuandu Pires especula sobre as mudanças históricas que adviriam caso Cortez e seus homens houvessem vencido uma partida de tlachtli, um jogo de bola disputado com uma pelota de borracha dura (ou, mais raramente, com a cabeça dos jogadores do time derrotado na partida anterior), onde os contendores só podem tocar na bola com os ombros e os quadris.  Escrita às vésperas da final da Copa do Mundo de Balípodo Moderno por Cari Cuandu, uma enviada especial do Diário de Pindorama[4] para cobrir a copa em Tenochtitlán, a matéria jornalística rememora os eventos históricos que teriam provocado o fracasso da terceira expedição castelhana ao México, especulando sobre o que teria acontecido se Cortez houvesse logrado êxito.

É sabido que em nossa linha histórica, os navios dessa terceira expedição fizeram realmente uma parada breve em Cozumel, tendo sido bem recebidos pelos maias, que à época mantinham um pequeno entreposto comercial por lá.

Na linha alternativa proposta, os maias convidam os castelhanos a disputar uma partida de tlachtli, jogo de bola praticado por diversas culturas pré-colombianas.  Os arqueólogos encontraram quadras dessa modalidade desportiva nas ruínas de várias cidades maias e astecas.  Algumas dessas quadras foram construídas antes de 1.000 aec, o que faz do tlachtli não apenas o primeiro antepassado registrado do futebol, mas também o esporte oficial com bola mais antigo de que se tem notícias.

Tlachtli

Fig. 13 — Tlachtli, representação no Museo Nacional de Antropologia, Cidade do México (Foto do Autor).

 

É de todo provável que em nossa linha histórica a peleja do título jamais se tenha dado.  Contudo, na linha alternativa do conto, é justo a partir do resultado dessa peleja inocente de Cozumel que toda a história mundial se altera em 1520.  Como capitão da equipe derrotada, Cortez é sacrificado.  Na batalha que se segue ao sacrifício, não obstantes as baixas tremendas sofridas pelos maias, os demais conquistadores espanhóis são massacrados no próprio estádio.

Deste ponto de divergência esportivo, a história começa a mudar numa progressão de círculos concêntricos cada vez maiores.  De imediato: sem Cortez, o Império Asteca não é conquistado.  Contudo, as notícias da peleja chegam aos ouvidos dos astecas, e estes tomam conhecimento da existência dos conquistadores castelhanos, compreendendo de imediato que os invasores não são deuses e que podem ser mortos.  Quando novas levas de invasores ibéricos aparecem na fronteira do império, os exércitos astecas estão preparados para enfrentá-los e conseguem rechaçar o inimigo.  Sem o exemplo da conquista do Império Asteca, o Império Inca também é deixado mais ou menos em paz, pois ao fim do século XX ainda existe na América do Sul um Estado moderno poderoso chamado Império K’eshua com sede em Cuzco.

Em lugar do Brasil, há uma Confederação Pindorama, onde os elementos culturais ameríndios e europeus ter-se-iam fundido de modo mais harmonioso e equilibrado do que ocorreu em nosso país.

A questão crucial do efeito das moléstias infecciosas de origem europeia sobre as populações nativas é lembrada en passant pela autora da matéria jornalística.  Presentes nesse pseudofactual estão ainda umas poucas pinceladas sobre um tema que, à falta de nomenclatura melhor, poderíamos designar “pré-história do futebol”.  Doses homeopáticas dos primórdios do futebol na Europa da Antiguidade Clássica e da Idade Medieval.

A estrutura do pseudofactual começa com a rememoração da partida entre maias e castelhanos, que inclui uma explicação breve do tlachtli, passando em seguida às consequências imediatas da derrota esportiva (e militar) dos europeus, vistas pelos olhos de um sobrevivente.  A repórter conclui a matéria jornalística com uma especulação de como seria o mundo atual se Cortez houvesse vencido a partida e a Espanha houvesse conquistado os Impérios Asteca e Inca.  Nessa especulação, Cari aproveita sua estada em Tenochtitlán para consultar um historiador mexica da Universidade local.  Partindo da máxima discutível que afirma que “implausível é toda história que não aconteceu”, a repórter ecoa a descrença da academia à tese heterodoxa propugnada pelo professor mexica de que os castelhanos poderiam ter realmente conquistado o Império Asteca (“Mas, como seria possível, se os invasores eram tão poucos, contra os exércitos e a população de todo um império?”) e com isto alterado toda a história mundial.

Ao fim do pseudofactual, a especulação histórica cede espaço a uma outra, desportiva: como seria o balípodo moderno caso não houvesse sofrido as influências do tlachtli?  Através da opinião abalizada de uma historiadora esportiva de Pindorama, Cari insinua que, sem essas influências pré-colombianas, o balípodo seria muito mais parecido com o bom e velho futebol da nossa linha histórica, aquele mesmo esporte que os brasileiros do século passado sabiam jogar tão bem.

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Valendo-se do jargão futebolístico, podemos afirmar que Octavio Aragão fez sua estreia literária profissional com categoria na noveleta “Eu Matei Paolo Rossi”.  Trata-se aqui de uma homenagem explícita às narrativas de patrulha temporal escritas por Poul Anderson.  Uma homenagem elaborada, aliás, com doses generosas de verve e bom-humor.  A estrutura das tramas desse tipo é bem conhecida pelo leitor médio de ficção científica: cronoterroristas ou meros turistas temporais viajam ao passado e alteram os resultados de eventos históricos cruciais, gerando assim linhas históricas alternativas a partir de pontos de divergência proposital ou inadvertidamente introduzidos.  Ao regressar ao presente, os viajantes se deparam com culturas inteiramente diferentes daquelas que deixaram na jornada de ida.  Por via de regra, agentes de um ou outro tipo de polícia temporal são obrigados a intervir para colocar a história novamente em seus eixos etéreos, quer do nosso ponto de vista, quer da perspectiva de uma linha alternativa qualquer.

Na noveleta “Eu Matei Paolo Rossi” há todos esses elementos e muito mais.  Em cinco de julho de 1982, um torcedor desarvorado regressa ao lar após a derrota por 3×2 para a Itália na Copa da Espanha.  Descobre que um vizinho italiano empreendeu uma viagem temporal de alguns dias ao passado para dopar o atacante Paolo Rossi, de modo que este jogasse o partidaço que de fato jogou em nossa linha histórica, possibilitando assim a vitória da Squadra Azzura sobre a Seleção Canarinho, então franca favorita ao título mundial.  Diante da incredulidade do protagonista, o viajante lança diante de seus olhos o clássico jornal com o clichê da manchete que jamais aconteceu: “Brasil Tetracampeão Mundial!!!”

Desse ponto em diante, estimulado pelo vizinho italiano, o protagonista se envolve nos mais diversos e emaranhados imbróglios espaçotemporais, alterando cada vez mais a história em geral e os resultados das Copas do Mundo em particular.  Já aprendemos que, nesse tipo de enredo, quanto mais bagunça tocamos nos diferentes continua e linhas históricas, maior será a probabilidade de uma intervenção da temida polícia temporal ou, no caso, da Intempol.  É isto que acontece, só que, refletindo as práticas policiais brasileiras, os agentes da organização famigerada estão longe de ser aqueles funcionários assépticos, bonzinhos e politicamente corretos, típicos da ficção científica anglo-saxã.  Ao contrário, os patrulheiros da Intempol são uns meganhas truculentos, mas tremendamente eficientes, que, no bom e velho estilo dos tempos da ditadura, partem logo para a violência, apagando simplesmente o protagonista do nosso continuum espaçotemporal e o deportando para a “prisão dos homens que nunca existiram”.  E isto é só o começo da história.  Ao longo dos anos seguintes, a Intempol constituiria o universo ficcional compartilhado mais bem-sucedido da ficção científica lusófona.[5]

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O título de minha noveleta “Pátrias de Chuteiras” veio de uma citação do teatrólogo Nélson Rodrigues.  A narrativa aborda exatamente esse patriotismo exacerbado aberrante que no Brasil só aparece às vésperas das Copas do Mundo.  Uma espécie de patriotismo facilmente manipulável por políticos inescrupulosos — reparem, não há aqui a mínima intenção de se empregar um pleonasmo vicioso.  Tampouco a pretensão de exercitar a ironia ou o sarcasmo — daqui e do estrangeiro, e de todas as épocas, com interesses para lá de escusos.

“Pátrias de Chuteiras” é uma narrativa ambientada na linha alternativa batizada Três Brasis, criada para a novela “O Vampiro de Nova Holanda”.[6]  Um cenário histórico em que a República de Palmares existe até os dias de hoje.  A ação se passa em 1986, na final da 15ª Copa do Mundo, nos Estados Unidos.  Na ausência de conflitos mundiais,[7] a história do futebol avançou duas Copas do Mundo em relação à nossa linha histórica: a Copa de 1942 foi disputada em Palmares e a de 1946 na Alemanha.  Embora existam cinco seleções bicampeãs, nenhum país conseguiu ainda se sagrar tricampeão e, portanto, conquistar em definitivo a Taça Jules Rimet.  A final da Copa dos Estados Unidos determinará a posse do troféu para sempre, pois é justamente entre as seleções bicampeãs do Brasil e de Palmares.

Só que, mais do um simples jogo, a final é uma autêntica guerra entre as duas nações rivais — jamais a expressão “batalha campal” se aplicou tão bem a uma partida de futebol.  Isto não significa que haja excesso de jogadas violentas em campo.  Significa, isto sim, a consciência cristalina por parte dos atletas e comissões técnicas das duas seleções, de que há demasiado em jogo, em termos de prestígio nacional, além do mero resultado de uma partida de futebol.

 

Bandeira do Brasil (UF Três Brasis)

Fig. 14 — Bandeira do Brasil (U.F. Três Brasis), por António Martins-Tuválkin.

 

O técnico da seleção palmarina é o brasileiro Nascimento dos Santos, o maior goleador da história do esporte e, segundo muitos cronistas esportivos, o futebolista mais completo de todos os tempos.  Nascimento é um sujeito cujos sentimentos de lealdade se encontram divididos entre sua raça e a pátria em que nasceu, isto num mundo onde Palmares é a campeã da luta contra o escravismo e o colonialismo, a grande defensora da causa da igualdade da raça negra, além de uma superpotência que já derrotou o Brasil em várias guerras, desde os tempos do Império, isto para não falar nas inúmeras escaramuças fronteiriças.

Patrulhas Temporais Alternativas

Até a publicação da noveleta “Eu Matei Paolo Rossi” de Octavio Aragão na antologia temática de futebol Outras Copas, Outros Mundos (Ano-Luz, 1998), organizada por Marcello Simão Branco, a questão das patrulhas temporais praticamente inexistia na literatura fantástica lusófona.  Como descrito acima, o trabalho original de Aragão abriu as portas ao universo ficcional Intempol, narrativas de uma patrulha temporal à brasileira, dotada de métodos truculentos e jogo de cintura impensáveis nos departamentos de polícia temporal assépticos lucubrados por autores de países desenvolvidos.  Essa trama de viagens no tempo completamente inverossímil, mas nem por isso menos divertida, fez escola.  Seu criador patenteou a marca Intempol, escreveu uma espécie de “bíblia do universo ficcional” e abriu o conceito à exploração dos demais autores interessados,[8] transformando-o no primeiro universo compartilhado da ficção científica brasileira.  Vários autores, com destaque para Fábio Fernandes e Osmarco Valladão, ambientaram suas próprias histórias na Intempol, expandindo consideravelmente o conceito original.

A questão pertinente que se coloca em termos da presente análise é se existe ou não conteúdo de historia alternativa no universo ficcional Intempol.  Da leitura das narrativas ambientadas nesse UF, conclui-se que tal conteúdo existe desde “Eu Matei Paolo Rossi”, quando o autor nos brinda com o vislumbre de uma linha histórica alternativa em que o Brasil ter-se-ia sagrado tetracampeão mundial de futebol em 1982.

A quantidade e o conteúdo de história alternativa variam bastante, dependendo da trama intempoliana analisada.  A novela “A Vingança da Ampulheta” de Fábio Fernandes é a narrativa mais longa e ambiciosa da fase inicial do UF Intempol.  Além disso, é a de conteúdo de história alternativa mais explícito, introduzindo, inclusive, o conceito de guerra entre várias linhas temporais,[9] onde pelo menos um dos contendores é membro de uma cultura que, embora inteiramente humana, não é constituída por “gente como a gente”.  Mais detalhes sobre essa narrativa em particular na seção Neandertal Alternativo.

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No conto de viagem no tempo “Missão 1211908”, de Luísa Marques da Silva, publicada na antologia A República Nunca Existiu!, patrulheiros temporais de uma linha histórica alternativa na qual a monarquia portuguesa persiste pelo menos até o século XXIII regressam ao passado para impedir que cronoterroristas assassinem o rei português Dom Carlos em 1908.  Se fracassarem, sua linha alternativa se transformará na nossa linha histórica.  Uma narrativa instigante, bem escrita e razoavelmente original.

Roma Alternativa

Meu romance Estranhos no Paraíso (2015) começa como uma narrativa de ficção científica hard convencional.  Do meio da trama em diante, transforma-se em história alternativa, mas, daí para o clímax e a conclusão retoma a aparência de FC.

O romance é narrado na primeira pessoa por Sylvia Chang, comandante da Pioneira, nave de pesquisas que conduz seis pessoas brilhantes, escolhidas a dedo entre os maiores expoentes intelectuais e científicos da humanidade do século XXIV, para a primeira missão tripulada a outro sistema estelar.  A missão primária da Pioneira é efetuar o primeiro contato com os pavonianos, inteligências que habitam um dos dois mundos bióticos orbitantes ao redor de Delta Pavonis, uma anã amarela situada a vinte anos-luz do Sol.  A humanidade já havia estabelecido contato radiofônico com essa civilização alienígena algumas décadas antes da partida.  Além do primeiro contato em si, Sylvia e seus companheiros devem permanecer em Delta Pavonis por cerca de uma década para estudar as duas biosferas planetárias do sistema.  Só que, não obstante os anos de treinamento sob os ambientes simulados variados e os protocolos rigorosos da missão, os eventos descambam por rumos inesperados, pois os anfitriões pavonianos tramaram uma surpresa tremenda para os visitantes humanos.

Já em sua viagem de regresso ao Sistema Solar, a missão secundária da Pioneira consiste em estudar a Descontinuidade Molton, singularidade gravitacional nua distante três anos-luz do Sol que exibe um comportamento sui generis: com a massa de um asteroide, possui a assinatura paragravitacional análoga a de um buraco negro com várias massas solares.  Durante a estada em Molton, um pulso anômalo emitido pela singularidade atinge a Pioneira.  Horas mais tarde, os tripulantes da Pioneira descobrem destroços de outra nave estelar.  Fragmentos de DNA extraídos dos destroços confirmam que a nave sinistrada proveio da Terra, embora seus tripulantes não fossem humanos.

Finda a missão em Molton, os tripulantes retornam aos seus hibernáculos para o Sono de regresso ao Sol.  No entanto, ao despertarem no Sistema Solar, deparam-se com uma civilização humana radicalmente distinta daquela que deixaram para trás quase um século antes.  É claro que os pioneiros já esperavam certa dose de mudanças sociais e avanços tecnológicos e culturais, em virtude do período de ausência prolongada, mas nada os preparara para o cenário hipertecnológico praticamente alienígena que se exibe diante dos seus olhos.  Essa humanidade anômala chama a Terra de “Elysium” e se referem à singularidade permeável Molton como o “Olho de Shiva”.

 

Capa Estranhos no Paraíso

Fig. 15 — Capa de Estranhos no Paraíso.

 

Estranhos no Paraíso é o único romance deste autor que não se desenrola num universo ficcional mais extenso, cuja elaboração constitui uma das minhas marcas registradas.  Trata-se de uma narrativa-solo cujo enredo de história alternativa é construído a partir de um ponto de divergência inusitado.  Para explicar tal divergência, faço minhas as palavras de alguém bem mais qualificado do que eu: Olympia Magnus, diplomata e historiadora da Pioneira:

“A origem do ponto de desnível topológico que tornou este plano de realidade que hoje habitamos diferente do nosso, aquilo que os estudiosos de história contrafactual denominam divergência, foi um evento que se iniciou na península indiana por volta de 518 a.u.c. (circa 235 aec).

“Como em nosso mundo, ali reinou naquela época um governante denominado Asoka.  Em 492 a.u.c. (261 aec), o jovem soberano se surpreendeu traumatizado com uma das conquistas mais sangrentas de seus exércitos, realizada no reino vizinho de Kalinga, país submetido somente às custas de requintes de crueldade e dezenas de milhares de mortes.  Asoka meditou sobre a inutilidade da guerra e decidiu modificar sua maneira de ser e sua filosofia de vida.  Converteu-se ao budismo e fez dessa crença a doutrina oficial do Estado, passando a se empenhar pessoalmente na disseminação dos ensinamentos do Príncipe Siddhartha Gautama através de seu reino.  Como seu reinado durou meio século, deveras longo para os padrões da época, apesar do desagrado das castas dominantes, Asoka conseguiu completar sua obra de transformar inteiramente a face de seu império.  Criou uma nação pacífica, porém poderosa e bem organizada, política, econômica e administrativamente, fato até então inédito na história humana.  Ademais, deu prosseguimento aos trabalhos de irrigação iniciados por seus antepassados, fundou hospitais para seres humanos e animais, tomou providências para controlar as finanças e empreendeu uma pujante expansão econômica.

“Concluído aquilo que considerou como marco inicial de seu governo, Asoka decidiu difundir a doutrina filosófica budista para além das fronteiras de seu império.  Enviou emissários ao oriente, para a China, então dividida em pequenos Estados feudais; ao sul, para a ilha do Ceilão, onde logrou a conversão do próprio rei Tissafernes; e ao ocidente, rumo ao subimpério macedônio na Ásia Menor, que Seleuco e seus descendentes herdaram com a morte de Alexandre Magno.  Enviou emissários mesmo às longínquas cidades-Estado helênicas e à ainda mais distante república romana.

“O desnível topológico, o ponto de divergência por assim dizer, residiu precisamente no êxito de um destes emissários.  Em nosso mundo, as crônicas históricas romanas nem sequer mencionavam a visita do embaixador do soberano máuria.  Tito Lívio, historiador romano do fim da República[10], por exemplo, não menciona a visita do emissário de Asoka.  Contudo, cumpre mencionar que em nosso continuum vários livros da obra monumental e detalhista de Lívio, Ab Urbe Condita Libri, perderam-se irremediavelmente.  Os livros referentes à Primeira Guerra Púnica se perderam, ao passo que os relativos à Segunda Guerra Púnica foram conservados.  Como o emissário chegou supostamente à Roma justo no intervalo entre essas duas guerras, talvez o grande cronista romano tenha relatado o fato num dos livros perdidos.  Como não houve um cronista histórico Tito Lívio neste continuum, não podemos consultar aqui os livros dados como perdidos em nosso continuum para esclarecer a questão.[11]

“Contudo, neste continuum, tal emissário não apenas logrou chegar incólume à Cidade das Sete Colinas, como conseguiu expor os ensinamentos budistas em plena tribuna do senado romano, diante de uma audiência interessada, composta pela elite cultural patrícia.

“Semente fecunda lançada às margens do Tibre, numa época em que os ideais mais sinceros da República Romana ainda não haviam sido conspurcados, talvez pelo fato de ainda estarem associados à moral rígida e severa de uma cultura essencialmente camponesa.

“O emissário de Asoka permaneceu vários anos hospedado na vila de um dos senadores mais influentes da República, tratado com honrarias devidas a um chefe-de-Estado.  Quando finalmente retornou à terra natal, se fez acompanhar por um séquito suntuoso de dezenas de patrícios, dentre eles um senador e três tribunos.

“Este evento aparentemente pouco importante constituiu a divergência da qual se irradiaram todas as alterações futuras.  Ao contrário do que se poderia esperar a princípio, não ocorreram modificações imediatas de grande vulto.

“Os romanos haviam recebido a visita do embaixador máuria justamente no curto intervalo de 23 anos entre a Primeira e a Segunda Guerras Púnicas, levadas a efeito contra os cartagineses.

“Segundo Tito Lívio, aquele foi um período de relativa paz e tranquilidade para a República.  Roma aproveitou uma revolta dos exércitos mercenários a soldo de Cartago para subtrair a Sardenha e a Córsega à metrópole africana.  Os romanos encetaram ainda campanhas vitoriosas contra várias tribos bárbaras, dentre as quais, hordas numerosas de gauleses transalpinos, que por mais de uma vez no passado ameaçavam cruzar o Rio Pó, trazendo pânico e destruição aos lares dos colonos romanos e latinos do norte da Itália.

“Naquela mesma época, os sufetas cartagineses enviavam exércitos à Espanha para colonizar novos territórios e erigir um império na Europa meridional que rivalizasse em poder com a República Romana.  Ao longo de uma geração, o expansionismo púnico no sudoeste europeu preocupou o Senado Romano.  À medida que o jovem Aníbal Barca[12] crescia, para se tornar o melhor estrategista da Antiguidade e a maior ameaça ao futuro da República, o clima de tensão entre as duas potências mediterrâneas se elevava ano a ano.

“Destarte, não surpreende que o estabelecimento de relações cordiais, conquanto esporádicas, dos romanos com a Índia dos Máurias não tenha conseguido desempenhar papel preponderante no grande conflito que se seguiu.

“A Segunda Guerra Púnica se deu aqui, em todos os seus acontecimentos principais, de maneira idêntica à constante nos registros históricos que trouxemos conosco a bordo da Pioneira.

“O jovem e brilhante general Aníbal Barca atacou a República pelas costas, atravessando os Alpes com os seus exércitos aparelhados com elefantes de combate.  Quase logrou êxito em seu intento de submeter seus inimigos orgulhosos.  Por cerca de duas décadas os cartagineses assolaram a península, tendo sido poucas vezes batidos pelas legiões romanas em batalhas convencionais.  Somente foram derrotados definitivamente por Cipião o Africano em Zama, próximo à própria Cartago em 552 a.u.c. (201 aec por nossa cronologia).

“Na Índia dessa mesma época, Asoka havia morrido há mais de duas décadas.  Seu império outrora poderoso fora dividido entre seus descendentes, estando já em franca dissolução.

“Contudo, ao fim da Segunda Guerra, a semente que o emissário do imperador máuria plantara no solo romano enfim germinou forte e saudável na maneira branda e humana pela qual os vencedores trataram os derrotados.

“O Senado Romano lembrou-se da história do arrependimento pungente do imperador Asoka em Kalinga e de suas consequências.  Decidiram privar os cartagineses de seus exércitos e Armada.  Atitude lógica, afinal, em mãos púnicas tais recursos constituiriam ameaça perene à sobrevivência de Roma.  Porém, de maneira diversa ao que ocorrera em nosso continuum, os romanos não apenas mantiveram intactos os direitos e os bens da população civil cartaginesa, como ainda ajudaram a reequilibrar as finanças da grande metrópole africana e a auxiliaram na reconstrução de sua esquadra mercante, contribuindo assim, para reerguer a própria dignidade do adversário derrotado.

“Houve um tratado estabelecendo uma paz honrosa, sempre respeitado por ambas as partes.  A atitude firme mas piedosa dos patrícios romanos surpreendeu em muito os sufetas púnicos, fazendo com que passassem a encarar seus antigos adversários com sentimento inédito de admiração e respeito.

“Então, os próprios cartagineses começaram a se interessar por aquela doutrina exótica e poderosa que, no curso de uma única geração, modificara radicalmente a maneira de pensar e agir de seus antigos adversários.

“Jamais ocorreu uma Terceira Guerra Púnica neste continuum.

“Em verdade, uma vez convertidos ao credo budista, os cartagineses transformaram-se num dos aliados mais confiáveis de Roma.  Com o tempo lhes foi delegada a responsabilidade pela maior parte do comércio e transporte marítimo mediterrâneo.  Nos séculos seguintes, os cartagineses passaram a ser referenciados com frequência nas crônicas da época como a “Marinha de Roma”.  Na expansão que se seguiria, trirremes comandadas e tripuladas por cartagineses conduziram milhões de legionários romanos para impor a Pax et Doctrina da República às províncias recém-conquistadas.”

Idades Médias Alternativas

Carlos Orsi[13] brinda o leitor com a prevalência salutar de culturas não europeias entre as sociedades mais progressistas no cenário da noveleta de futuro alternativo, cuja divergência se situa na Idade Média, “De Praeputio Domini” (201?), estabelecendo um diálogo sutil com o romance The Years of Rice and Salt de Kim Stanley Robinson.

A ação que se desenrola numa Londres futura e alternativa consiste, em sua essência, uma trama de intriga política e diplomática com laivos de thriller de investigação policial e de espionagem em cenário histórico alternativo em torno de uma investigação científica para descobrir qual das duas relíquias do prepúcio de Jesus Cristo seria genuína: o prepúcio guardado em Roma, ou o mantido em Constantinopla.  Sim, porque nessa linha histórica alternativa o Império Bizantino sobrevive incólume terceiro milênio adentro.  O ponto de divergência ocorre em 1237 ec, quando o imperador Balduíno II se apodera da relíquia do prepúcio do Menino Jesus e logra vencer uma batalha crucial, estancando a invasão búlgara e, mais tarde, reconquistando Alexandria e Jerusalém.

Os protagonistas são os cientistas incumbidos da análise das relíquias, selecionados, por questão de isenção, entre as comunidades científicas das culturas não-europeias.  A trama se inicia na Abadia de Westminster, onde os sábios estão hospedados, quando um dos membros da equipe é encontrado morto, vítima de homicídio.

Descobrimentos Alternativos

Publicado sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, o conto “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” constitui uma narrativa de Descobrimentos Alternativos.  Assim como também o é o pseudofactual “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, analisado acima, na seção Futebol Alternativo.

O ponto de divergência se situa em 1488 em um ponto crucial da história luso-brasileira.  Os dois navios de Bartolomeu Dias naufragam ao tentar dobrar o Cabo das Tormentas e Portugal não descobre o Caminho Marítimo para as Índias através da circunavegação da África.  Por essa mesma época, Colombo está em Lisboa, sendo cozinhado em banho-maria pelo rei Dom João II.  Sem notícias de Dias há muitos meses e à falta de melhor opção, mesmo contrariando seu conselho de Estado, o monarca português acaba decidindo aceitar a proposta ingênua do navegador genovês.  Daí, Colombo descobre a América sob bandeira portuguesa, ainda no reinado de Dom João II.  Década e meia mais tarde, Affonso de Albuquerque avassala (mas não destrói) o riquíssimo Império Asteca, tornando os náuatles prepostos e representantes da Coroa Portuguesa no México.  O próprio imperador Montezuma II se converte ao cristianismo, ainda que essa conversão seja apenas pro forma.

Enquanto Portugal enriquece com o ouro asteca, sem a válvula de escape da descoberta da América, a Espanha acaba fragmentada numa guerra civil sangrenta entre as nobrezas de origem castelhana e aragonesa, conflito que eclode com a morte da rainha Isabel de Castela em 1505.  O ouro impulsiona os portugueses à exploração do Novo Mundo, já batizado de Cabrália.  Feitorias e vilas são fundadas tanto na Cabrália do Norte quanto na do Sul, onde se explora o valioso pau-brasil.  Descobrir e avassalar o Império Inca é então apenas uma questão de tempo.  E com a vassalagem de Huyana Capac a Dom Manuel, o Senhor dos Sete Mares, vem a conquista do Mundo Oceano (Pacífico) e o resgate de um velho sonho, agora sim, com três décadas de atraso em relação à nossa linha histórica, o Caminho Marítimo para as Índias.

Sob o comando de Fernão de Magalhães, os portugueses chegam afinal a Calicute em 1520.  Quando o samorim manda torturar e matar esse grande navegador português, Dom Manuel explode em fúria e convoca seu comandante mais duro e capaz para empreender a vingança do Império Português, Dom Vasco da Gama.

Esse Vasco da Gama alternativo não é o comandante que, na plenitude de seus 38 anos, comandou as primeiras naus europeias a alcançar a Índia em 1498 da nossa linha histórica.  É, sim, um ancião de barbas brancas, mas ainda bem disposto, a se confiar na opinião de sua jovem esposa, a princesa asteca Xochiquetzal.  Nessa linha alternativa, a Esquadra da Vingança chega a Calicute em 1523, mais ou menos na mesma época em que o Vasco da Gama da NLH lá chegava para assumir o cargo de Vice-Rei.

Contudo, esses fatos constituem mero background.  A história em si é contada do ponto de vista da tal princesa asteca de nome difícil.  É através de seus olhos de nobre mexica educada em Lisboa, de sua percepção delicada de mulher e criatura híbrida de duas culturas muito diferentes, que o leitor vê a aliança do povo dela com os portugueses; a política do Império Luso,[14] os primeiros efeitos dos Descobrimentos no Novo e no Velho Mundo, as ações do samorim, a iminência do confronto entre portugueses e indianos e, finalmente, a batalha naval apavorante que explode em plena baía de Calicute.

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A ideia de escrever o conto “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”, primeira parte da narrativa que viria a se tornar o romance curto Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas, surgiu de um debate no Point of Divergence[15] em meados de 1998 sobre como seriam as Américas se o continente houvesse sido descoberto e colonizado apenas pelos portugueses, sem a participação dos espanhóis.

Na edição seguinte do apazine, propus uma linha histórica alternativa para justificar a descoberta da América sob bandeira lusitana.  O ponto de divergência teria sido o naufrágio da flotilha comandada por Bartolomeu Dias no Cabo das Tormentas em 1488.  Esta divergência gerou duas consequências imediatas.  Em primeiro lugar, El-Rei de Portugal, Dom João II, aceita a proposta do navegador genovês Cristóvão Colombo para chegar às Índias navegando para o poente.  Em segundo lugar, como consequência desta decisão tecnicamente equivocada, os portugueses não descobrem o caminho marítimo para as Índias e põem de lado por três décadas a ambição de controlar o monopólio do comércio das especiarias.

Em compensação, Colombo descobre a América em 1490.  Em sua segunda viagem, no ano seguinte, descobre Cuba e Lusitânia (Hispaniola, em nossa linha histórica), dando início à colonização e à exploração econômica das Antilhas, pois, os portugueses já estavam bem acostumados a lidar com arquipélagos de ilhas atlânticas.  Gaspar Corte-Real explora o litoral do Novo Douro (Nova Inglaterra) na Cabrália do Norte em 1498 e Pedro Álvares Cabral descobre a Terra do Cruzeiro do Sul, posteriormente batizada em sua homenagem.

O primeiro contato entre navegadores portugueses e pochtecatl (comerciantes) mexicas se dá na Península do Iucatão em 1504, despertando a cobiça dos lusos para as riquezas de Anáhuac.  De fato, entre 1508 e 1510, Affonso de Albuquerque (cognominado “Affonso o Grande” tanto em nossa linha histórica quanto nessa linha alternativa) avassala o Reino Mexica para Portugal, tornando-se o primeiro Vice-Rei do México.  Em presença de Albuquerque, o Tlatoani Motecuhzoma II jura vassalagem a Dom Manuel o Venturoso.  Esse monarca luso tornar-se-ia posteriormente conhecido pelo epíteto de “Senhor dos Sete Mares”.  Entre os mexicas, Dom Manuel é cognominado de “Rei dos Reis”.

Oito anos mais tarde, Fernão de Magalhães estabelece o primeiro contato direto dos portugueses com o Tahuantinsuyu (Império Inca).  Os emissários do Inca Huayna Capac (1450-1525) trocam presentes com os portugueses.  No comando de uma pequena comitiva, Magalhães é recebido na corte do Sapa Inca em Cusco nas Alturas.

A ideia básica inerente à elaboração dessa linha alternativa é que os lusos tratariam os grandes impérios pré-cabralinos com política diversa da praticada pelos conquistadores castelhanos da nossa linha histórica.  Em vez de destruir tais impérios, os lusitanos os avassalariam, à semelhança do que realmente fizeram com os reinos da Península Indiana.  De certo modo, a conquista dos grandes reinos das Cabrálias teria sido mais fácil e amena para os portugueses do que a conquista da Índia.

Para manter os vínculos de lealdade com seus novos vassalos, já em 1511, cerca de quinhentos teuclahtoh (nobres hereditários) e teteuctin (lordes) mexicas e acolhuas, filhos da mais elevada nobreza da Tríplice Aliança de Anáhuac, são levados para Portugal a fim de receber educação cristã.  Então com sete anos, Xochiquetzal desembarca em Lisboa a Branca.  Em verdade, não obstante o fato de receberem educação esmerada e tratamento condizente às suas posições de filhos-d’algo, os teteuctin são de fato reféns de luxo.  Sua estada na Europa garante que os tlatoque mexicas e aliados nem sequer cogitem se revoltar contra El-Rei.

Quando regressam a Anáhuac alguns anos mais tarde, os jovens mexicas e acolhuas já se encontram lusitanizados o bastante para servir em postos de comando intermediário nos exércitos de El-Rei.  Já as filhas-d’algo mexicas se tornam aptas a desposar comandantes lusitanos, como acontece, aliás, com a jovem Princesa Xochiquetzal, esposa de Dom Vasco da Gama, um dos principais comandantes lusitanos das Três Cabrálias.

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Em março de 1999, este autor detinha em mãos uma linha histórica efetiva de Descobrimentos Alternativos e morria de vontade de usá-la.  O problema é que àquela época já estava escrevendo “Capitão Diabo das Geraes” — noveleta de história alternativa ambientada no universo ficcional dos Três Brasis — para publicar na antologia Phantastica Brasiliana.

A solução foi escrever e publicar “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, estabelecido anos antes e que, inclusive, já havia realizado sua própria estreia literária no ano anterior com o conto pseudofactual “Se Cortez Houvesse Vencido a Peleja de Cozumel”, publicado na antologia Outras Copas, Outros Mundos (1998).

A gana para colocar esse conto de descobrimentos portugueses alternativos no papel foi tão grande que a gênese de “Capitão Diabo das Geraes” foi interrompida para escrevê-lo.  O conto publicado sob pseudônimo foi concluído em abril de 1999 e a noveleta ambientada no Três Brasis no mês seguinte.

Ademais — oficialmente à revelia deste que ora lhes confessa — “Carla” submeteu seu conto à antologia bilíngue portuguesa Pecar a Sete / Sinning in Sevens (Simetria, 1999).  Com uma versão para o inglês à disposição, traduzida por David Alan Prescott, “Carla” submeteu seu conto à revista de ficção científica australiana, Altair.  Graças à publicação de “Xochiquetzal” na Altair, ela foi indicada para o Sidewise Awards 2000 na categoria ficção curta e acabou como finalista, atrás apenas da belíssima noveleta “Seventy-Two Letters”, do genial Ted Chiang.

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Animado pelo sucesso de “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança”, decidi escrever uma continuação.  Daí, em janeiro de 2003, após ler uma boa quantidade de livros sobre as culturas asteca e inca, concluí a noveleta “Xochiquetzal em Cuzco”, que se inicia exatamente onde o conto anterior terminava.

A inspiração imediata para escrever essa noveleta foi responder a especulação histórica de um contato hipotético entre as civilizações inca e asteca.  Mesmo que, até onde se sabe, tal contato não tenha ocorrido em nossa linha histórica, é interessante especular sobre suas consequências prováveis.  Astecas e incas ter-se-iam unindo numa frente comum contra o invasor europeu?  Ou se portariam mais ou menos como os ameríndios da etnia tupi do Brasil colonial, em que algumas tribos se aliaram aos portugueses, enquanto outras os combatiam?  De qualquer forma, na linha histórica alternativa Xochiquetzal, o primeiro contato entre astecas e incas se dá sob a égide lusitana.

“Xochiquetzal em Cuzco” foi publicada na antologia Por Universos Nunca Dantes Navegados (Tecnofantasia, 2007), organizada pelos autores portugueses Luís Filipe Silva e Jorge Candeias.  Mais uma vez sob o pseudônimo Carla Cristina Pereira.

No primeiro semestre de 2006, Fábio M. Barreto estabeleceu seu selo de literatura fantástica, Unicórnio Azul, na editora Mercuryo.  Após publicar a novela de ficção alternativa A Mão que Cria, de Octavio Aragão, e minha coletânea de história alternativa Outros Brasis, Barreto se interessou por outros trabalhos.  Dentre várias propostas e submissões, surgiu a ideia de fundir os dois trabalhos do universo ficcional Xochiquetzal e reescrever a novela resultante, ampliando-a para que atingisse as dimensões de um romance curto.[16]

Infelizmente, o selo Unicórnio Azul foi descontinuado após a publicação dos dois títulos acima referidos.  De qualquer modo, prontifiquei o romance curto e, quando a editora Draco iniciou suas atividades no segundo semestre de 2009, eu tinha os originais desse romance curto de história alternativa para submeter à apreciação do publisher Erick Cardoso.

Dito e feito.  Lançado em dezembro de 2009, Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas foi o primeiro romance publicado pela nova editora.

 

Xochiquetzal [Capa]

Fig. 16 — Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (Draco, 2009).

 

Há ocasiões em que o escritor tem que encurtar um texto, podando-o aqui e ali, reduzindo-o de noveleta para conto, a fim de ajustá-lo às necessidades do editor ou antologista.  No caso de narrativas muito extensas, uma solução de fortuna é pinçar alguns capítulos do romance ou novela e reescrever esses capítulos de forma que façam sentido sozinhos em seu novo formato.  Por vezes essa solução funciona a contento, mas nem sempre.  Não raro, o leitor experiente percebe que o trabalho que tem diante de si constitui o fragmento de um todo maior e que, efetivamente, falta algo à narrativa para torná-la completa.

Noutras ocasiões, cumpre encorpar o texto, transformando-o de conto em noveleta ou de novela em romance.  Neste caso, em geral não basta apenas recontar exatamente a mesma história com mais palavras, pois existe o risco real de o texto parecer encheção de linguiça.  Uma solução é repassar a narrativa com calma a fim de descobrir que trechos estão implorando por novas cenas e personagens.  Outra técnica, de execução mais complexa num único volume, é fazer com que as aventuras daquele grupo de personagens prossiga para além do ponto em que o autor inicialmente convencionou como o fim da narrativa.

 

Mapa Xochiquetzal

Fig. 17 — Mapa da LHA Xochiquetzal, por Antonio Luiz M.C. Costa.

 

Na elaboração de Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas, criei alguns personagens novos, em geral convocando ao palco alguns que só haviam sido citados, mas não chegaram a aparecer em “Xochiquetzal em Cuzco”.  Além disso, escrevi novas cenas, anteriormente apenas insinuadas na noveleta citada.  Também adicionei uma biografia ficcional de Dona Xochiquetzal da Gama, que funciona à guisa de prólogo da narrativa.  Ao fim do processo, obtive o romance curto que pretendia escrever.  A contagem de palavras foi, grosso modo, o dobro da soma do número de palavras do conto com o da noveleta.  Se o resultado da experiência foi satisfatório, cumpre ao leitor julgar.

*     *     *

Um cenário de história alternativa anômalo é o proposto por Rodrigo Schwarz em A Ilha dos Cães (2005).  Embora o enredo dessa novela não constitua Descobrimento Alternativo, o protagonista da trama escreve um romance de história alternativa ao qual é concedido mais espaço narrativo do que o da própria trama principal.  Esse romance dentro da novela, sim, é Descobrimento Alternativo.

O ponto de divergência da novela situa-se em 1868.  Ao regressar à Inglaterra após uma temporada no Brasil, de 1865 a 1868, o explorador, diplomata e escritor inglês Richard Francis Burton (1821-1890) naufraga em uma pequena ilha do Atlântico, tendo por único companheiro um pescador brasileiro, Nikolai, que é acometido pela cegueira, devido às sequelas do próprio naufrágio.  Numa cabana abandonada da ilhota, Burton encontra papel e tinta. Começa a escrever um romance de história alternativa também chamado A Ilha dos Cães, cujo ponto de divergência é o fracasso da viagem de Colombo e o consequente não descobrimento da América.  O romance de Burton trata de um escriba do Império Asteca do século XIX, Hokan, obrigado a acompanhar Acat, esposa predileta do Huey-Tatloani, a uma outra Ilha dos Cães, na costa do Pacífico, onde a cihuapilli havia sido desterrada pelo monarca.

A novela de Schwarz concede mais espaço ao romance alternativo de Burton do que a si própria.

O autor comete alguns erros grosseiros quanto à biografia de Burton.  Referindo-se a si próprio na primeira pessoa em 1868, o explorador inglês afirma-se tradutor do Kama Sutra e das Mil e Uma Noites, obras que ele só iria verter para o inglês na década de 1880.  Já os erros historiográficos sobre culturas pré-colombianas só não se constituem mais graves do que os praticados na biografia de Burton pelo fato de poderem ser atribuídos à relativa ignorância do autor britânico sobre o assunto. Destarte, os maias são referidos como possuidores de um império em pleno século XVI e seguintes; os incas praticam sacrifícios humanos; e por aí vai.

Curiosamente, embora a ilhota fornecesse pesca abundante aos náufragos, em momento algum é informado de onde o brasileiro cego e o explorador inglês extraem água para aplacar a sede.

Uma novela escrita aparentemente às pressas, sem maiores cuidados estilísticos ou de pesquisa.  Leitura dispensável.

*     *     *

Mais criativo e original do que a novela de Schwarz, a noveleta “Xibalba Sonha com o Oeste” (2012), estreia profissional de André Soares Silva, brinda o leitor com um cenário histórico alternativo rico e instigante, ambientado em Guanabara e Arariboia, duas cidades litorâneas de uma Sul-Tenoque (América do Sul) sem vestígios da influência cultural europeia.  Aliás, para todo e qualquer efeito prático, é como se as culturas europeias jamais houvessem existido ou houvessem sido obliteradas por uma hecatombe natural desencadeada vários séculos atrás.

Tenoque foi descoberta por navegadores de Zonguá, superpotência asiática erigida a partir da supremacia da China Imperial sob os demais Estados asiáticos.  Após cruzar as águas geladas do Estreito de Dong-Dang (Bering), os zonguaneses libertaram os povos de etnia nahuá e tupi, dentre outros, do jugo cruel do Império Maia, que se estendia pela maior parte do continente.  Além de demolir a hegemonia maia, os zonguaneses trouxeram consigo a tecnologia de coletar a energia dos relâmpagos através de torres de captação, dentre as quais se destaca a Torre da Guanabara, instalada na entrada da baía que banha a cidade-Estado homônima.

A ação da noveleta se desenrola às vésperas do dia da Transição, conclusão de mais um baktun,[17] ocasião em os calendários tenoquês e zonguanês se fundirão num só ou, segundo os ameríndios alternativos, os corações do Dragão (Zonguá) e da Serpente (Tenoque) pulsarão em uníssono.

A protagonista é a professora Maiara de Akangatu, filha do ex-climatologista Ubirajara, condenado pelo homicídio do colega Yunru Zope e expurgado para Xibalba, a terra dos mortos, situada no Leste Proibido, para além do Oceano Nascente.  Numa bela tarde, ao regressar do colégio onde leciona para crianças, Maiara é surpreendida pela aparição do criminoso Anhangá em sua residência.  Acusado da eliminação de autoridades zonguanesas e aliado provável do grupo radical maia Filhos de Palenque, o subversivo traz revelações importantes sobre o destino do pai de Maiara.  Contudo, a intervenção abrupta da força de ocelotes (policiais) comandada pelo Lobo-Guará (Oficial de Armas) Hwang Wei provoca a fuga do invasor.

Em busca de respostas, a protagonista empreende uma incursão arriscada à Cidade Baixa, região degradada de Arariboia, onde é acossada pelos Filhos de Palenque, mas acaba salva por um personagem misterioso que lhe revela que a solução para o enigma do que de fato ocorre aos ameríndios expurgados para Xibalba se encontra nos escritos científicos de Ubirajara, armazenados na biblioteca da Torre da Guanabara.  O clímax da noveleta se dá no confronto final entre o comando de Hwang e o Anhangá, após o qual Maiara enfim compreende parte da verdade que o Trono da Serpente e o próprio Trono do Dragão logram manter oculta das populações da Tenoque.

O autor escreveu outra noveleta, “O Fantasma Zonguanês” (2015), ambientada na linha histórica alternativa criada em “Xibalba Sonha com o Oeste”.  Insatisfeitas com os êxitos espetaculares do subversivo tupi Anhangá, as autoridades de Beijing enviam um operativo de elite, o Fantasma, para combatê-lo.  Ao longo dessa segunda narrativa, o leitor descobre um pouco mais sobre a natureza do cataclismo cósmico que se abateu sobre Xibalba.

[1].  Os autores brasileiros não devem sentir maiores escrúpulos em se assenhorear da História de Portugal, sobretudo no que diz respeito ao período anterior a 1500 ec, do que os demonstrados pelos autores norte-americanos de fantasia histórica e história alternativa ao escrever, por exemplo, sobre a Inglaterra romano-bretã do tempo dos cavaleiros da Távola Redonda ou dos reis saxões.  Afinal de contas, uma vasta maioria de portugueses e brasileiros atuais possuem ancestrais comuns nos habitantes de Portugal de quinhentos anos atrás.

[2]Cradle of Splendor (Ace Books, 1996) — a trama se passa no Brasil de um futuro próximo: cientistas brasileiros perdem o controle de um foguete após o lançamento, mas o veículo continua em seu curso, embora não possua meios de propulsão conhecidos.  O romance aborda também figuras do nosso folclore.

[3]God’s Fires (Ace Books, 1997) — a ação se desenrola em Portugal, durante o período da Inquisição: espaçonave alienígena faz aterragem forçada próximo a uma vilazinha portuguesa e seus tripulantes são capturados por padres jesuítas.  A população local e a própria Igreja se questionam quanto à verdadeira origem dos alienígenas: seriam anjos ou demônios?

[4].  Jornal de uma confederação homônima que constitui o análogo do Brasil nessa linha histórica alternativa.  Embora “Pindorama” seja um termo de origem tupi (significando aproximadamente “região ou país das palmeiras”), cumpre lembrar que esta também era a designação que as gentes ando-peruanas davam ao Brasil Pré-Cabralino.

[5].  Mais detalhes abaixo, na seção Patrulhas Temporais Alternativas.

[6].  “O Vampiro de Nova Holanda” e outras narrativas ambientadas na linha alternativa Três Brasis serão abordadas em seção posterior deste capítulo.

[7].  Nessa linha histórica alternativa, a Grande Guerra Mundial — vitória dos Aliados Ocidentais (Palmares, EUA, Brasil, Províncias Unidas e Império Britânico) sobre os Eurocêntricos Neonapoleônicos (França, Império Alemão, Turquia Otomana, Império Russo e Império Nipônico) — desenrolou-se entre 1907 e 1923, não impossibilitando, portanto, as disputas das Copas do Mundo que, tal como em nossa linha histórica, começaram em 1930.

[8].  Até este autor arriscou duas incursões no universo intempoliano.  Escrita sob meu próprio nome, a noveleta “São os Deuses Crononautas?” possui elementos de história alternativa.  Já a novela “Clandestina Candente de Cosa”, escrita sob meu pseudônimo Carla Cristina Pereira, contrapõe duas patrulhas temporais distintas na Roma Antiga, quando a Intempol se defronta com um patrulheiro do universo ficcional de Poul Anderson.

[9].  Um livro de RPG rico em ideias, onde os conflitos e as intrigas intertemporais também são enfocados de maneira interessante é GURPS Time Travel, de Steve Jackson e John M. Ford, onde agentes temporais de nossa linha histórica se defrontam com outros de uma linha alternativa autoritária, o Centrum, em luta pelo controle da exploração e do comércio das diversas linhas históricas alternativas.

[10].  Isto é, Tito Lívio (694 – 770 a.u.c.) viveu nas últimas décadas da República e nas primeiras décadas do Império Romano, em nossa linha histórica.

[11].  Uma hipótese mais simples e, portanto, beneficiada pelo princípio da Navalha de Occam, é que o emissário de Asoka jamais tenha chegado à Roma.

[12].  Filho do grande general cartaginês Amílcar Barca, comandante das forças de seu país na Primeira Guerra Púnica.

[13].  Trata-se do mesmo autor que no início da carreira publicava sob seu nome completo, Carlos Orsi Martinho.

[14].  O leitor descobre várias coisas através das memórias da princesa, como, por exemplo, que aquela cena de vingança e da obliteração iminente da bela Calicute representava a repetição em grande escala de outra atrocidade, ocorrida anos antes na península de Iucatã, quando o mesmo Vasco da Gama bombardeara e destruíra o vilarejo maia de Cozumel.

[15] Point of Divergence é um “apazine” de história alternativa do qual participei desde seu lançamento em 1997 até 2004.  Apazine ou APA (Amateur Press Association) fanzine é um periódico amador em que cada membro se obriga a enviar certo número de laudas a cada edição, com resenhas, ensaios, artigos e peças de ficção dentro do assunto que seus membros se propõem explorar.

[16].  “Xochiquetzal e a Esquadra da Vingança” (5.500 palavras); “Xochiquetzal em Cuzco” (15.600 palavras).  Xochiquetzal: uma Princesa Asteca entre os Incas (42.100 palavras).

[17]Baktun: intervalo de tempo correspondente a 20 ciclos katun do antigo calendário maia de contagem longa.  Contém 144.000 dias, equivalendo a 394,26 anos trópicos.

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