Histórias Alternativas em Outras Mídias

Em sua obra essencial, Trillion Year Spree (1986), o autor e estudioso de ficção científica Brian Aldiss afirma que a FC se tornou um gênero literário muito mais popular após a estreia do blockbuster cinematográfico de George Lucas, Guerra nas Estrelas (1977), filme que, segundo ele, mudou inteiramente a ordem de grandeza das vendas de livros de ficção científica mundo afora.

Ao contrário da ficção científica, gênero-mãe que lhe deu origem, a história alternativa encontra-se até os dias de hoje, praticamente restrita à expressão literária.  Quando comparado com o cenário reinante na ficção científica, são relativamente poucos os filmes, as séries, os jogos e os quadrinhos de história alternativa.  Este capítulo tratará de uns poucos exemplos de narrativas do subgênero presentes nas mídias extraliterárias.

Filmes

Não existem muitos filmes com cenários de história alternativa.  Há, no entanto, aqueles que, conquanto não constituam espécimes legítimos da expressão cinematográfica do subgênero, exibem certos elementos de história alternativa.

Uma película que se enquadra na definição de ficção científica com elementos de história alternativa é o curta-metragem “Barbosa” (1988), baseado em um conto de Paulo Perdigão, com roteiro de Giba Assis Brasil, Ana Luíza Azevedo e Jorge Furtado.  Com apenas treze minutos de duração, o curta é o drama de um torcedor, interpretado por Antônio Fagundes, que empreende uma viagem retrotemporal, aterrissando no Maracanã em plena final da Copa de 1950.  Ele pretende alertar Barbosa, o goleiro brasileiro, dos detalhes exatos do chute do atacante uruguaio que marcaria o gol da vitória da Celeste Olímpica.  Contudo, justo quando o viajante temporal chama Barbosa, o arqueiro se distrai e deixa de prestar atenção ao ataque adversário e… a seleção uruguaia marca o segundo gol!  Um belo exemplo de paradoxo temporal positivo: a intervenção no passado se faz necessária para criar o próprio passado e o presente conhecidos pelo protagonista.  Não chega a constituir história alternativa na acepção lata do termo, pois não há ponto de divergência a partir do qual a história se desvia do curso conhecido.  Mas que sabe a história alternativa, ah, isto sabe.

Outro exemplo dos tempos de antanho é o telefilme documentário inglês If Britain Had Fallen, apresentado pela BBC-TV em 1972.  O ponto de divergência se dá em 1940, em plena Segunda Guerra Mundial, quando a Alemanha obtém êxito na tentativa de desembarque nas Ilhas Britânicas, um plano ousado que o Alto-Comando Nazista de nossa linha temporal também acalentava na época, tendo batizado-o de “Operação Leão-Marinho”.  Após a descrição do cenário dessa operação de desembarque hipotética, o filme apresenta algumas especulações sobre os rumos que a ocupação militar nazista teria tomado, discutindo se os ingleses teriam ou não conseguido repelir os invasores.

Um exemplo mais acessível do que esse documentário inglês obscuro realizado há mais de quatro décadas é o filme A Última Tentação de Cristo (1988), dirigido por Martin Scorsese e protagonizado Willem Dafoe.  De fato, a história da vida e da obra de Jesus Cristo não é alternativa per si.  Ocorre, no entanto, que lá para o fim do filme, quando Jesus já está pregado na cruz, ele sofre justamente a última tentação do título, sob a forma de uma visão onde lhe é mostrado como será/teria sido sua vida, se ele renegar/tivesse renegado sua missão na Terra em troca da sobrevivência e de uma velhice tranquila.  Esses breves minutos de filme mostram o que teria acontecido com Jesus, seus descendentes diretos, amigos, seguidores e com o próprio cristianismo, caso ele tivesse decidido abandonar sua fé.  Admitindo-se a realidade histórica de Jesus (assunto que não se pretende abordar no espaço exíguo deste capítulo), é possível considerar A Última Tentação de Cristo senão um filme de história alternativa, pelo menos um com elementos do subgênero.

A comédia Rei Por Acaso (1991), sobre um plebeu norte-americano que se torna rei da Grã-Bretanha, não tem absolutamente nada a ver com história alternativa.  Exceto, é claro, o fato de ter se baseado no romance Headlong: a Novel (1980) de Emlym Williams, esse sim, uma história alternativa.  No livro, a família real britânica morre em um acidente de dirigível em 1935.  Um ator de teatro de 25 anos torna-se o rei da Inglaterra, descobrindo aos poucos os limites do poder real na monarquia britânica do período imediatamente anterior à Segunda Guerra Mundial.  O filme é dirigido por David S. Wart e protagonizado pelo hilário John Goodman, à época um dos atores coadjuvantes mais bem pagos de Hollywood.

A Era da Traição (1993), dirigido por Kevin Connor, é outro filme que não tem nada a ver com história alternativa, exceto por exibir as aventuras e desventuras de Marcus Didius Falco, um típico detetive particular nos primeiros anos do Império Romano.  O filme se inspira no protagonista de uma série de romances de detetive ambientados em Roma Antiga, todos escritos pela autora norte-americana Lindsey Davis.  É isto mesmo: Falco é um detetive particular nos moldes modernos imerso nos tempos e roupagem da Roma Imperial.  Não é história alternativa, é lógico.  Mas tem todo um clima de H.A. além de ser diversão garantida.  A temática deu origem a um subgênero (ou, talvez fosse mais apropriado falar de um sub-subgênero): os Detetives de Toga.

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Até agora se falou apenas em filmes que possuem apenas nuances ou elementos de história alternativa e não num filme cujo enredo fosse realmente calcado no subgênero.

Dirigido por Christopher Menaul e protagonizado por Rutger Hauer, A Nação do Medo (1994) é neste sentido “the real stuff”, a película de história alternativa por excelência.  O filme é uma produção especial da HBO inspirada no romance Pátria Amada (Fatherland, 1990) de Robert Harris.

O enredo do filme segue o romance com fidelidade razoável, mas não absoluta.  Trata-se de mais uma história de Segunda Guerra Mundial Alternativa.  O ponto de divergência é o êxito do ataque-relâmpago alemão à URSS.  A rápida conquista da Ucrânia e da porção europeia da Rússia faz com que esse Reich Alternativo passe a se estender desde o Atlântico até os Urais.  Muito mais fortes do que em nossa linha histórica, os nazistas conseguem repelir os aliados no desembarque maciço do Dia “D”.  Enquanto a Alemanha vence a Guerra da Europa, os EUA derrotam o Império Japonês na Guerra do Pacífico.

A ação do filme se passa em 1964, quando um coronel do departamento criminal da S.S. investiga uma série de assassinatos de figurões da cúpula do Partido Nazista na semana da comemoração do 75º aniversário de Adolf Hitler e às vésperas da visita do presidente americano Joseph Kennedy à Alemanha, para tentar estabelecer tratados que pusessem fim ao clima de Guerra Fria existente entre as duas superpotências.

 

Fatherland (1994)

Fig. 19.1 — Pôster de lançamento de Fatherland (A Nação do Medo).

 

O investigador criminal da S.S. é o típico protagonista alemão dos enredos de Segunda Guerra Mundial escritos por autores norte-americanos: um antigo herói de guerra, contrário aos princípios nazistas e incomodado por sua consciência.  No clímax de A Nação do Medo esse protagonista é forçado a denunciar a farsa que se estabelecera sobre o desaparecimento de milhões de judeus, ciganos e outros “indesejáveis” à glória do Reich.  O destino final do protagonista desse filme é idêntico ao do romance homônimo (no original).  Contudo, ao contrário do clima sombrio do fim do romance, ao término do filme há uma mensagem de esperança cujo ponto principal é a atitude do filho do investigador, então completamente infectado pela doutrina da Juventude Hitlerista.

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Os elementos de história alternativa do filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios (2009), são apenas circunstanciais, ao menos até o clímax da narrativa.  Porque a existência de um comando de elite constituído por guerrilheiros judeus atuando em plena Europa dominada pelo Terceiro Reich durante a Segunda Guerra Mundial pode ser tranquilamente assumido como história oculta e não alternativa.  Contudo, o final dramático no teatro constitui de fato um ponto de divergência de primeira grandeza, alterando a história, gerando uma linha alternativa e, portanto, transmutando o enredo numa narrativa de evento alternativo, uma vez que não é facultado aos espectadores vislumbrar as consequências, sem dúvida memoráveis, da divergência exibida no clímax desse filme interessante.

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O filme Space Station 76 (2014), lançado na TV a cabo brasileira sob o título Sem Gravidade… Sem Cérebro, é uma narrativa singular que mistura ficção científica com comédia de humor negro.  A trama é ambientada num cenário histórico alternativo no qual a conquista espacial se desenrolou mais cedo ou então foi mais bem-sucedida, de maneira que existe uma comunidade espacial florescente vivendo na órbita terrestre na década de 1970 e também em outros sítios do Sistema Solar.

A narrativa começa com a chegada de Jessica à Estação Espacial 76 para assumir a função de imediata do Comandante Glenn, em substituição ao oficial anterior, Daniel, antigo amante de Glenn.

 

Space Station 76

Fig. 19.2 — Pôster de lançamento de Space Station 76.

 

O clima sociocultural a bordo dessa estação de reabastecimento, situada aparentemente no cinturão de asteroides, é bem típico da década de 1970, desde as roupas, cortes de cabelo e hábitos tabagistas, até o tratamento de questões como homossexualidade reprimida, uso de drogas recreativas, técnicas de terapia psiquiátrica etc. — tudo com a ingenuidade e o sabor dos anos setenta do século passado.

Sentindo-se solitária, Jessica se aproxima de Ted, mecânico-chefe da estação, que porta uma mão mecânica fabricada com tecnologia da época; e da filha dele, Sunshine.  Misty, a esposa fútil de Ted, trabalha como nutricionista da estação.  Misty hostiliza Jessica por se sentir ameaçada pela independência da recém-chegada.  A nutricionista mantém um relacionamento extraconjugal com o marido de outra tripulante.  Misty é dependente de tranquilizantes receitados de forma pródiga e inconsequente pelo Doutor Bot, um autômato-psiquiatra dotado de uns parcos rudimentos de inteligência artificial.  Jessica descobre uma análise de risco elaborada por Daniel sobre colisões de fragmentos de asteroides com a estação e a leva ao conhecimento de Glenn.  Contudo, saudoso do ex-amante e lutando para reprimir a própria sexualidade, o comandante invariavelmente bêbado não lhe dá ouvidos.

Embora não constitua uma obra-prima, Space Station 76 é instigante, sobretudo por levar o telespectador a se questionar sobre como teria sido uma colonização espacial implementada com pessoas comuns da década de 1970.

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Em malabarismo intrigante de subgêneros, o filme A Grande Guerra Marciana (2013, The Great Martian War 1913-1917) consegue ser várias coisas ao mesmo tempo, embora não constitua uma narrativa de história alternativa bona fide.

Em primeiro lugar, trata-se de um pseudofactual, isto é, ficção disfarçada de documentário.  De fato, embora veiculado em versão dublada pelo Syfy, o filme exibe aquele jeitão de programa do History Channel, com relatos de antigos veteranos do conflito e de testemunhas da invasão marciana.  Aliás, o filme se apresenta como um documentário comemorativo do centenário da invasão.

Em segundo lugar, a questão da classificação em termos de subgênero da narrativa fantástica.  A Grande Guerra Marciana constitui ficção alternativa.  Pois, conforme vimos no capítulo 18, Ficção Alternativa, a narrativa se insere nesse subgênero sempre que a divergência se situa na ficção e não na história.  No caso desse filme, a divergência é que a invasão marciana proposta por H.G. Wells no romance A Guerra dos Mundos (1898) só ocorre quinze anos mais tarde, em 1913, ano em que as potências europeias da nossa linha histórica estavam armadas até os dentes, engajadas na corrida armamentista feroz que culminaria na Primeira Guerra Mundial.  Cumpre observar que essa ideia de uma invasão alienígena caindo de paraquedas em meio a um conflito armado de âmbito mundial não é inteiramente nova: Harry Turtledove já a explorou amiúde em seu universo ficcional WorldWar,[1] com invasores alienígenas reptiliformes chegando à Terra durante a Segunda Guerra Mundial.

A narrativa desse pseudofactual fascinante se divide treze segmentos, cujos títulos meio toscos da dublagem são os seguintes: “Invasão”; “Aliança”; “Vamos à Guerra”; “Maravilhas de Inverno”; “Entre as Linhas”; “O Avanço”; “Nascimento dos Novos”; “Revelação”; “Virando a Mesa”; “Acordando o Gigante”; “Operação Cavalo de Troia”; “Espólios de Guerra”; e “O Legado Perdido”.

Um aspecto interessante dessa narrativa é o paralelismo estabelecido pelos roteiristas Steve Maher e Stephen Sarossy entre os fatos históricos reais da Primeira Guerra Mundial e os eventos que se desenrolam nessa linha ficcional alternativa.

Em “Invasão”, afirma-se que a força expedicionária marciana leva dois dias para percorrer a distância de Marte à Terra.  Admitindo-se que os dois planetas estivessem em conjunção (distância mínima), conclui-se que a nave de desembarque de tropas marciana viajou a uma velocidade média de cerca de 430 km/s ou, se preferirmos, 1,4 milésimo da velocidade da luz.  Ao atingir a Terra, produz uma cratera de vários quilômetros de diâmetro na Europa.

O desembarque se dá nas florestas da Boêmia e o ataque à humanidade começa no coração do Império Germânico.  Tomadas de surpresa, as grandes cidades da Alemanha são arrasadas em coisa de quatro dias.

 

The Great Martian War

Fig. 19.3 — Pôster de lançamento de A Grande Guerra Marciana.

 

Em “Aliança”, com o Império Germânico praticamente riscado do mapa, a coordenação do esforço de guerra da aliança estabelecida para defender a humanidade da invasão alienígena recai sobre os ombros franceses e britânicos.  Aqui, a narrativa assume um tom de franca apologia à liderança britânica.  Não se fala absolutamente nada sobre o Império Russo.

No segmento “Vamos à Guerra”, os soldados humanos engajam pela primeira vez contra as máquinas de guerra marcianas.  Os trípodes de H.G. Wells são rebatizados aqui como “garças” e aparecem reconfigurados.  Agora dispõem de uma blindagem energética erigida com partículas de energia escura(!); um canhão energético de potência elevada e baixa cadência de tiro em vez dos famosos raios da morte; e empreendem seus ataques envoltas por nuvens tóxicas aos combatentes humanos.  Nos campos de batalha, as garças engajam secundadas por máquinas menores, as “aranhas”.

Quando a situação militar dos Aliados parece desesperadora, os remanescentes do antigo exército do Segundo Reich Alemão reaparecem e se lançam no confronto, ajudando a humanidade a estancar a ofensiva marciana em fins de 1913.  Os Aliados constatam o aparecimento de um terceiro tipo de máquina marciana, os “piolhos”, que executam incursões noturnas aos campos de batalha, coletando cadáveres e materiais bélicos humanos e marcianos.

Em “Maravilhas de Inverno”, os marcianos levam a guerra para os mares e oceanos, encetando uma retaliação naval que ameaça o esforço de guerra aliado.  Máquinas submarinas gigantescas atacam os comboios de suprimentos que os EUA enviavam para a Europa.

No segmento “Entre as Linhas”, as batalhas navais se intensificam em 1914.  O ex-presidente norte-americano Ted Roosevelt cria um corpo de voluntários para lutar na Europa.

Em “O Avanço”, vindos não se sabe de onde, reforços marcianos marcham em direção à França em meados de 1915.  Essa ofensiva leva o Alto-Comando Aliado a antecipar em cerca de um mês o ataque crucial que andava planejando.  A contraofensiva humana é um malogro completo: três milhões de soldados aliados desaparecem da frente de batalha sem deixar pistas.

Em “Nascimento dos Novos”, por volta de 1916, os estrategistas humanos enfim concluem que precisarão adotar técnicas de combate heterodoxas para combater os invasores alienígenas.  Neste sentido, planejam e executam a captura de duas garças.  Quando as garças são derrubadas, as aranhas que as acompanham se rendem às forças humanas e até ajudam os soldados a transportar as cabines das garças para trás de suas linhas.

No segmento “Revelação”, a humanidade começa a adquirir inteligência sobre a natureza dos invasores.  Extraem os pilotos das garças, analisando a morfologia e o metabolismo dos inimigos.  Descobrem que as aranhas não são tripuladas.  Contudo, o mais importante é a revelação de que os marcianos vêm construindo suas máquinas de guerra com o material apreendido nos campos de batalha pelos piolhos.  Essa estratégia explica a postura comumente passiva dos marcianos: os invasores incentivam a humanidade a encetar ataques a fim de obterem matérias-primas para a fabricação de novas máquinas de guerra.

Em “Virando a Mesa”, os Aliados descobrem que as aranhas são comandadas pelo “viticita”, uma espécie de metal orgânico dotado de vida própria e capaz de se autorreproduzir.  As fábricas aliadas começam a produzir tanques de guerra armados com blindagens e canhões elaborados a partir da tecnologia viticita.  As novas armas se revelam efetivas contra as máquinas de guerra marcianas.  Pressionados pelos exércitos aliados, agora armados com engenhos bélicos de viticita, os alienígenas reassumem a ofensiva.

Uma garça solitária avança pelo leito do rio Tâmisa e empreende um ataque ao centro de Londres.  Após destruir o Big Bem, acaba derrubada por aviões de combate aliados.  O piloto marciano é capturado, mas chega agonizante à área de confinamento.  A partir da autópsia do alienígena, os cientistas descobrem que ele morrera de uma infecção virótica contraída dos cavalos que arrastaram a cabine de sua garça pelas ruas de Londres.  Esse conhecimento crucial representará a gênese de uma superarma biológica revolucionária que conduzirá a humanidade à vitória.

O ingresso dos EUA na Grande Guerra Marciana é narrado no segmento “Acordando o Gigante”.  Em janeiro de 1917, os marcianos afundam três contratorpedeiros da Marinha norte-americana.  Em 17 de fevereiro, os EUA declaram guerra aos alienígenas, passando a enviar doze mil combatentes por dia para a Europa.  No documentário, os historiadores discutem se as belonaves norte-americanas teriam sido afundadas por máquinas de guerra marcianas ou por submarinos aliados.

Em “Operação Cavalo de Troia”, a humanidade lança mão de sua última cartada.  No verão de 1917, os aliados encetam um ataque diversionista gigantesco para atrair todos os exércitos marcianos.  Quando o plano logra êxito, não obstante o número de baixas elevadíssimo, os soldados liberam diversas manadas de cavalos infectados entre as máquinas de guerra das forças invasoras.  O resultado é devastador e imediato.  Os pilotos das garças são infectados e morrem aos milhares.  Dois milhões de soldados humanos são mortos nessa batalha que culmina na derrota final dos marcianos.

“Espólios de Guerra” narra as consequências de curto prazo da vitória contra os invasores alienígenas.  O vírus desenvolvido para exterminar os marcianos sofre mutações e começa a infectar seres humanos.  A epidemia se alastra por todo o planeta, sendo batizada de “Gripe Marciana”.  O saldo final da pandemia é de cem milhões de mortos nos cinco anos seguintes.

Nos primeiros anos da lenta reconstrução europeia, à medida que os bunkers e fortalezas dos marcianos vão sendo explorados, a humanidade toma posse de quantidades quase ilimitadas de viticita e, aos poucos, absorve a matriz tecnológica dos marcianos.  As nações humanas se engajam numa corrida do ouro tecnológica.

No segmento final, “O Legado Perdido”, os textos escritos pelos invasores marcianos são finalmente decodificados.  O canadense nativo Gus Lafonde, antigo cabo do Exército do Canadá e veterano da Grande Guerra, desempenha um papel fundamental na decifração do Código Marciano.  Os linguistas descobrem que a maioria dos textos encontrados consiste em relatos pessoais dos guerreiros marcianos.

Enfim, estudiosos do século XXI concluem que Marte teria sofrido sua própria invasão alienígena num passado mais ou menos remoto.  Ao longo dessa invasão, os marcianos foram infectados por um parasita: o metal orgânico que se alimenta da vida.  O viticita teria levado os marcianos a invadir a Terra para disseminar a infecção entre os humanos.

Série: Sliders

Há vinte anos estreava a série televisiva Sliders, a primeira tentativa a sério de se fazer um seriado de ficção científica com temática de história alternativa.  É a história de um inventor pós-adolescente que bem poderia concorrer ao prêmio de Jovem Cientista Louco 1995.  Assim como que meio de orelhada, o garoto constrói uma máquina capaz de abrir portais entre as várias linhas históricas alternativas.  A série durou cinco temporadas nos EUA, sendo exibida de 1995 a 2000.

No piloto da série, o jovem, sua quase namorada, seu professor de física favorito e um cantor de soul music para lá de gaiato naufragam numa linha histórica alternativa quando o dispositivo de navegação dimensional deles se avaria na primeira expedição do grupo.  O quarteto vai parar numa América do Norte afligida por uma Era Glacial.  Em viagem solo anterior, o jovem cientista louco havia visitado uma América onde Elvis Presley estava vivo até o fim do século passado.

No segundo episódio, os quatro náufragos vão parar em uma América transformada em ditadura comunista, emprestando seu apoio ao movimento de resistência ao regime, liderado pela análoga da quase namorada do jovem cientista naquela linha histórica alternativa.  Do outro lado do front ideológico, o análogo do professor de física é um general comunista que comanda o presídio político da Costa Oeste.

Por estranha coincidência, um análogo também assume papel importante no terceiro episódio, numa linha alternativa onde os EUA estão sofrendo os efeitos de uma epidemia de gripe cujo grau de letalidade é muito superior ao do vírus Ebola.  Os EUA se transformam numa ditadura governada por uma elite médica numa tentativa extrema de controlar a disseminação da epidemia.  O líder da resistência é justamente o análogo do protagonista, dessa vez um jovem cientista louco da biologia e não da física.

Um análogo coadjuvante que aparece na maioria dos episódios é um motorista de táxi que o quarteto de protagonistas já aprendeu a empregar como termômetro para avaliar o quão diferente ou esquisita é a nova linha alternativa em que acabaram de desembarcar.  Essa figura hilária é responsável por alguns dos momentos cômicos presentes em quase todos os episódios.

Com enredos demasiado centrados na realidade norte-americana da Costa Oeste (todas as histórias se passam na área da Baía de San Francisco), a crítica principal à série Sliders, desde o fim do primeiro ano de sua exibição nos EUA, é que com o tempo os episódios se tornaram repetitivos e pouco imaginativos.  Uma pena.  Por um lado, Sliders é mais uma ideia excelente desperdiçada.  Por outro lado, para os apreciadores do subgênero, a série foi por algum tempo a única oportunidade de assistir com regularidade um programa cuja temática se assemelha um pouco aos enredos de vários romances e contos do história alternativa.[2]

RPG: GURPS Alternate Earths

Os jogos em geral e os role-playing games (RPG) em particular representam um ambiente fértil para o desenvolvimento de cenários históricos alternativos.

Interpretar o papel de um personagem histórico em um cenário alternativo é a experiência mais próxima que o jogador de RPG pode atingir de vivenciar um mergulho numa realidade virtual psicointerativa emulando uma viagem retrotemporal, ou transladação para uma linha histórica alternativa.  No entanto, ao contrário das RV psicointerativas, os RPG já haviam se tornado possíveis através da tecnologia da segunda metade do século XX.  Os jogadores só precisavam se reunir com os amigos em torno do manual do jogo e escolher um deles para “mestrar” as aventuras do grupo.  Os jogadores encarnavam personagens e colaboravam entre si para criar narrativas ficcionais.  O jogo se desenrolava de acordo com um sistema de regras predeterminado, dentro das quais os jogadores improvisavam ao seu próprio arbítrio.  As decisões dos jogadores determinavam o curso que o jogo iria assumir.

Dentre os RPG, em meados da década de 1980, Steve Jackson estabeleceu o sistema GURPS (Generic and Universal Role-Playing System).  A empresa Steve Jackson Games se associou a vários especialistas em cenários de história alternativa para criar um punhado de manuais de RPG inspirados em alguns temas clássicos do subgênero.

O primeiro deles foi GURPS Time Travel (1991), escrito por Steve Jackson e John M. Ford, um manual de RPG sobre viagens temporais.  O livro traz sugestões interessantes de cenários para narrativas de literatura fantástica com abordagem de ficção científica (viagens temporais propriamente ditas) e história alternativa (linhas históricas alternativas).

Em 1996, Kenneth Hite, Craig Neumeier & Michael S. Schiffer publicaram GURPS Alternate Earths pela Steve Jackson Games.  Tratava-se um manual GURPS que postulava seis linhas históricas alternativas bastante detalhadas para as aventuras de RPG.  Cenários instrutivos e estimulantes até para o aficionado por histórias alternativas que não aprecia jogar RPG:

“Dixie” trata de uma vitória Confederada e do advento dos Estados Confederados da América.  A divergência situa-se em 1856.  O postulado é o aventureiro norte-americano William Walker lograr manter o controle da Nicarágua até a eclosão da Guerra de Secessão e conseguir romper o bloqueio naval da União.  O Sul derrota o norte na Guerra de Secessão.  Em 1980, os EUA, ECA e o Império Alemão constituem potências antagônicas.  Em quase metade dos estados da Confederação, a escravidão ainda é legal, embora não constitua prática comum.

“Reich 5” trata da vitória nazista na Segunda Guerra Mundial.  A divergência se situa no assassínio de Franklin Delano Roosevelt em 1933 (ponto de divergência idêntico ao eleito por Philip K. Dick em seu romance clássico, O Homem do Castelo Alto).  Com o apoio de forças nazistas, os negros norte-americanos são deportados para a África e a presidência dos EUA se torna um cargo vitalício.

Em “Roma Aeterna”, o Império Romano de âmbito quase mundial persiste até os dias de hoje.  O ponto de divergência é o êxito de Drusus em pacificar a Germânia em 9 aec (divergência bastante semelhante à proposta por Frederik Pohl em “Esperando os Olimpianos”).  A trama em si presume que os imperadores romanos tenham logrado estabelecer um ciclo dinástico semelhante ao da China, com tecnologia da Revolução Industrial e controle da maior parte do planeta em fins do século XIX.

No cenário alternativo “Shikaku-Mon”, o Japão e a Suécia dominam o mundo atual.  A divergência se dá em 1497, quando Dom João, filho dos Reis Católicos Fernando & Isabela sobrevive ao acidente em que faleceu em nossa linha histórica.  Portugal não cai sob o domínio espanhol e os missionários católicos portugueses logram espalhar o cristianismo pelo Japão.  Por volta do ano 2000, as maiores potências terrestres seriam a França, o Brasil, um Império Nipônico cristão e um Império Sueco totalitário.

Em “Ezcalli”, os astecas se desenvolvem como um Estado moderno.  A divergência é a descoberta da América pelos cartagineses em 508 aec, três séculos antes do proposto por George Zebrowski no conto “Let Time Shape”.  Embora os romanos ainda vençam as Guerras Púnicas, o comércio cartaginês com as Américas arruína a economia do Império Romano e, quase dois milênios mais tarde, os astecas se tornam a maior potência mundial da Era Industrial em meados do século XIX.

Finalmente, em “Gernsback”, as invenções e sociedades descritas nas primeiras revistas de ficção científica, as “pulp magazines”, tornam-se realidade.  O ponto de divergência é o casamento de Nikola Tesla com Anne Morgan, filha do magnata J.P. Morgan, em 1893.  Com o apoio financeiro do sogro, Tesla lança um punhado de inventos revolucionários no mercado, conduzindo essa linha histórica alternativa a um futuro do tipo dieselpunk, sob a égide da Liga das Nações e de um Conselho Científico Mundial, com sede em Brooklyn, Nova York.  As duas guerras mundiais não eclodem nessa LHA.

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Três anos mais tarde, o mesmo trio de autores — Hite, Neumeier & Schiffer — lançava GURPS Alternate Earths 2, propondo seis novos cenários históricos alternativos:

Em “Cornwallis”, a Revolução Americana fracassa e as Treze Colônias permanecem no Império Britânico até hoje.  O ponto de divergência ocorre na França em 1776, sendo idêntico ao proposto por André Maurois em seu pseudofactual clássico, “If Louis XVI Had Had an Atom of Firmness”: o ministro das finanças francês se mantém no cargo e veta a ideia de prestar apoio militar aos rebeldes norte-americanos.  A revolução fracassa e as monarquias europeias reinam soberanas nessa linha histórica alternativa até o fim do século XX, época em que o radicalismo político da Dominação Russa ameaça desestabilizar o “centralismo monárquico” dos Cinco Tronos da Europa.

Já no cenário “Ming 3”, o ponto de divergência se situa em 1426: após a morte da imperatriz (em nossa linha histórica ela sobreviveu à praga que grassou no Império Celestial), o imperador fica arrasado e decide transferir a capital de volta para Nanquim.  Como resultado indireto do retorno da corte imperial à velha capital, o almirante eunuco Cheng Ho prossegue com suas viagens marítimas.  A China descobre a Europa e se torna um império mundial.  A ação se passa em um Império Chinês Mundial, grosso modo, quatro séculos e meio após a descoberta da Europa.

“Midgard” propõe uma cultura viking mais vigorosa, que logra saquear Constantinopla em 860 (divergência), ocasião em que capturam o segredo do fogo grego.  Assim armados, os vikings colonizam a América do Norte, a Rússia e vários sítios da Europa.  A ação se desenrola em 1412, época em que os reinos nórdicos da América do Norte, da Rússia e da Europa Setentrional iniciam uma nova era de expansão marítima e comercial.

“Caliph” convida o leitor a mergulhar em um cenário islâmico hightech bastante original, em que os árabes estabelecem uma civilização cósmica, com viagens a velocidades superiores à da luz empreendidas através de portais estelares.  O primeiro contato com uma civilização alienígena se dá em 1654.  A divergência é a decisão de Haroun al-Rashid de patrocinar a imprensa de tipos móveis na Bagdá de 796.  Oito séculos após a revolução científica do século IX, o Califado enfrenta uma guerra civil de proporções interestelares.

Em “Aeolus”, a Revolução Gloriosa malogra na Inglaterra em 1688, James II se mantém no trono britânico e as monarquias europeias dominam até meados do século XX, quando surge a primeira república democrática para desafiar o poder absoluto da Casa dos Habsburgos e o antigo regime.

Por último, em “Centrum”, uma cultura transtemporal avançada e meritocrática é implantada a partir de um império anglo-francês alternativo.  A divergência se dá em 1120, quando o White Ship não naufraga, como ocorreu em nossa linha histórica, e o príncipe anglo-francês William the Aetheling sobrevive para se tornar o rei da Inglaterra e de França.  No presente, uma cultura transtemporal pragmática e algo paranoide (provavelmente distópica do ponto de vista da nossa linha histórica) se estabelece após a implosão de um Império Anglo-Francês mundial.

Quadrinhos

O panorama das histórias em quadrinhos e dos romances gráficos é pontilhado de narrativas de ficção alternativa, em geral, versões alternativas dos super-heróis da Marvel e da D.C.  No entanto, as histórias alternativas genuínas são bem mais raras nessa mídia.

Tongue e Lash (2000) é um romance gráfico de história alternativa escrito por Randy L’Officier & Jean-Marc L’Officier, e ilustrado por Dave Taylor.  A edição brasileira inclui as duas narrativas, publicadas originalmente pela editora norte-americana Dark Horse: “O Dente da Serpente” e “O Lugar Oculto”.  As duas tramas se passam em uma América Alternativa jamais descoberta pelos europeus (aparentemente, o ponto de divergência é a extinção dos indo-europeus milênios atrás), onde os maias governam a América do Norte e o Império Inca (referido como “Quadrângulo”), a América do Sul.  A tecnologia é mais avançada do que a da nossa linha histórica.  No entanto, zooantropomorfos produzidos por engenharia genética e viagens transdimensionais convivem com leituras da sorte e sessões de comunicação com os mortos.  Em termos de HQ, as narrativas exibem voltagens eróticas elevadas.  Infelizmente, a edição brasileira é em preto e branco e não colorida, como a original.

Em “O Dente da Serpente”, a dupla de detetives Tongue e Lash é contratada para investigar a amante de um lorde influente.  Quando ela é assassinada, a dupla começa a procurar seu assassino e descobre uma conspiração mortal.

Já em “O Lugar Oculto”, a dupla de investigadores é contratada por uma família maia poderosa.  Antes que consigam descobrir o alvo da investigação, seu cliente e a esposa são trucidados.  Em sua busca por respostas, Tongue e Lash desvendam um esquema do Quadrângulo para subtrair tecnologia maia e tropeçam em um culto antigo e sinistro que se oculta no coração do Império.

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O romance gráfico britânico Ministério do Espaço (2009) constitui uma narrativa alternativa clássica de fina estirpe, escrita por Warren Ellis, belamente ilustrado por Chris Weston e colorizado por Laura Martin.

O ponto de divergência dessa linha histórica alternativa ocorre no fim da Segunda Guerra Mundial, quando os britânicos logram capturar a equipe de cientistas chefiada por Wernher von Braun na base alemã de pesquisas de foguetes de Peenemünde no verão de 1945, antes que as forças norte-americanas ou soviéticas conseguissem pôr as mãos nela.  Em seguida, a Força Aérea Real arrasa a base com um bombardeio aéreo, para não deixar vestígios.

Em nossa linha histórica, a equipe de von Braun foi responsável pelo desenvolvimento das bombas voadoras V-2 que foram lançadas durante a guerra do norte da Alemanha, atingindo alvos no sul da Inglaterra e causando danos significativos em Londres e outros sítios.  Nos estertores da guerra, von Braun se rendeu às forças norte-americanas.  Posteriormente, já nos EUA, como projetista de foguetes, ele desempenhou papéis vitais, primeiro na Guerra Fria, no projeto de mísseis balísticos intercontinentais e, mais tarde, na corrida espacial.

Se von Braun e a equipe de Peenemünde houvessem caído em mãos britânicas, segundo Ellis, por volta do ano 2000, o Reino Unido dominaria o Sistema Solar.  Contudo, de onde um Império Britânico empobrecido do pós-guerra tiraria recursos para financiar essa corrida espacial unilateral?  O autor fornece uma resposta bastante plausível, conquanto revoltante.

A narrativa se desenrola em dois fluxos distintos: o semipresente alternativo de 2001, onde o Império Britânico detém o monopólio da exploração e da colonização do Sistema Solar; e o fluxo narrativo que acompanha o desenrolar dos eventos históricos que conduziram ao presente, cujas cenas são mostradas em flashback pelo protagonista, o primeiro diretor da agência espacial britânica que, em 1945, convenceu o primeiro-ministro Winston Churchill a desencadear a corrida espacial.

Ellis e Weston fornecem um belo exemplo de história alternativa no âmbito dos quadrinhos.

[1].  Mais detalhes no tópico “Segunda Guerra Mundial com Invasão Alienígena”, no capítulo 7, Predileções Universais II: Segundas Guerras Mundiais Alternativas.

[2].  No episódio “Cidade à Beira da Eternidade” da série clássica Jornada nas Estrelas (roteiro de Harlan Ellison), nossa linha histórica quase se transforma numa linha alternativa quando a líder pacifista Edith Keller logra retardar o ingresso dos EUA na Segunda Guerra Mundial, dando tempo à Alemanha Nazista de concluir seus experimentos com água pesada e iniciar um projeto de construção de bombas atômicas.  Com armas nucleares e foguetes V-2 para transportá-las, a Alemanha conquista o mundo.  Tudo isto porque o Dr. McCoy havia salvado a vida de Edith.  Felizmente, Kirk & Cia. contribuem inadvertidamente para que a moça morra atropelada, preservando “a história tal como a conhecemos”.

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